18 de outubro de 2015

Quarenta e quatro - Júnior ganha um saco de lágrimas

SAM ESCOLHEU ESSE momento para aparecer.
Ela abriu caminho entre a multidão, o lenço cobrindo o rosto. O casaco estava sujo de cinzas, como se ela tivesse dormido numa chaminé.
Tive vontade de reclamar por ter sumido por tanto tempo, mas minha raiva evaporou quando vi que ela estava com um olho roxo e o lábio inchado.
— O que aconteceu? Você está bem?
— Uma briguinha boba — disse ela. — Não se preocupe. Vamos aguardar o julgamento.
Os espectadores se reuniram ao redor das duas mesas nas laterais, onde os trabalhos de Júnior e de Blitzen estavam sendo exibidos. Blitzen estava com as mãos unidas atrás das costas, parecendo confiante apesar do suspensório arrebentado, da camisa manchada de graxa e do chapéu encharcado de suor.
O rosto de Júnior estava uma imundície sangrenta. Ele mal conseguia se sustentar com o andador. O brilho alucinado nos olhos dele lhe dava um ar de assassino em série exausto depois de um dia intenso de trabalho.
Nabbi e os outros juízes circulavam pelas mesas, inspecionando os itens elaborados e fazendo anotações em suas pranchetas.
Finalmente, Nabbi se virou para a plateia, arqueou as sobrancelhas peludas e tentou dar um sorriso.
— Muito bem, então! Obrigado a todos por virem a essa competição, patrocinada pela Taverna do Nabbi, famosa entre as tavernas, construída por Nabbi e local de venda da Cerva do Nabbi, o único hidromel de que você vai precisar na vida. Agora, nossos competidores vão nos contar sobre seus primeiros itens. Blitzen, filho de Freya!
Blitzen apontou para sua escultura de metal.
— É um pato.
Nabbi piscou.
— E... o que ele faz?
— Quando aperto suas costas... — Blitzen fez isso. O pato ficou três vezes maior, como um baiacu assustado. — Ele aumenta.
O segundo juiz coçou a barba.
— Só isso?
— Bem, é — disse Blitz. — Chamo de Expande-Pato. É perfeito se você precisa de um pato pequeno de metal. Ou de um pato grande de metal.
O terceiro juiz se virou para os colegas.
— Enfeite de jardim, talvez? Assunto de conversa? Isca?
Nabbi tossiu.
— Sim, obrigado, Blitzen. E agora você, Eitri Júnior, filho de Edna. Qual é sua primeira criação?
Júnior limpou o sangue dos olhos e ergueu o cilindro de ferro achatado, com várias molas e fivelas penduradas.
— Isto é um míssil perseguidor de trolls autoguiado! Se não estivesse danificado, poderia destruir qualquer troll a uma distância de oitocentos metros. E é reutilizável!
A multidão murmurou, admirada.
— Hã, mas funciona? — perguntou o segundo juiz.
— Não! Estragou na última martelada. Mas, se funcionasse...
— Mas não funciona — observou o terceiro juiz. — Então no momento o que ele é?
— É um cilindro de metal inútil! — vociferou Júnior. — E não é culpa minha!
Os juízes confabularam e fizeram anotações.
— Portanto, na primeira rodada — resumiu Nabbi — temos um pato expansível contra um cilindro de metal inútil. Nossos competidores estão praticamente empatados. Blitzen, qual é seu segundo item?
Blitzen ergueu com orgulho o enfeite de pescoço de cota de malha.
— Uma gravata à prova de balas!
Os juízes baixaram as pranchetas em sincronia perfeita.
— O quê? — perguntou Nabbi.
— Ah, vamos lá! — Blitzen se virou para a plateia. — Quantos de vocês já passaram pelo constrangimento de ter que usar um colete à prova de balas mas não tinham nenhuma gravata à prova de balas que combinasse?
No fundo da multidão, um anão levantou a mão.
— Exatamente! — afirmou Blitzen. — Além de estar na moda, ela também impede a passagem de qualquer coisa até o calibre .30-06. E também pode ser usada como cravat.
Os juízes franziram a testa e fizeram anotações, mas algumas pessoas na plateia pareceram impressionadas. Examinaram as próprias camisas, talvez percebendo o quanto se sentiam malvestidas sem uma gravata de cota de malha.
— Júnior — disse Nabbi — qual é sua segunda confecção?
— O Cálice do Infinito! — Júnior indicou um pedaço deformado de ferro. — Aguenta uma quantidade ilimitada de qualquer líquido, é perfeito para longas viagens por desertos.
— Hã... — Nabbi apontou com a caneta. — Parece meio esmagado.
— Foi a porcaria da mosca de novo! — protestou ele. — Me mordeu bem na testa! Não é minha culpa se um inseto transformou minha invenção brilhante em um monte de lixo.
— Monte de lixo — repetiu Nabbi, escrevendo na prancheta. — E Blitzen, seu item final?
Blitzen ergueu um pedaço cintilante de tecido de metal trançado.
— Um colete de cota de malha! Para ser usado com um terno de três peças de cota de malha. Ou, se você quiser se vestir de forma mais casual, pode usar com calça jeans e uma camisa bonita.
E um escudo, sugeriu Hearthstone.
— Sim, e um escudo — confirmou Blitzen.
O terceiro juiz se inclinou para a frente e apertou os olhos.
— Imagino que ofereça o mínimo de proteção. Se você fosse esfaqueado nas costas em uma boate, por exemplo.
O segundo juiz anotou alguma coisa.
— Tem alguma habilidade mágica?
— Ah, não — disse Blitz. — Mas é dupla face: prateado por fora e dourado por dentro. Dependendo do tipo de joia que estiver usando ou da cor da armadura...
— Entendi. — Nabbi anotou alguma coisa na prancheta e se virou para Júnior. — E seu item final, senhor?
Os punhos de Júnior tremeram de raiva.
— Isso é injusto! Eu nunca perdi uma competição. Todos vocês conhecem minhas habilidades. Esse intrometido, esse exibido do Blitzen conseguiu de alguma forma estragar meu...
— Eitri Júnior, filho de Edna — interrompeu Nabbi — qual é seu terceiro item?
Ele indicou a forja com impaciência.
— Meu terceiro item está lá dentro! Não importa o que era, porque agora é uma gosma fervente!
Os juízes se aproximaram e conferiram. A multidão ficou agitada.
Nabbi olhou para a plateia.
— Julgar está sendo difícil. Pesamos os méritos da gosma fervente, do monte de lixo e do cilindro de metal inútil de Júnior contra o colete de cota de malha, a gravata à prova de bala e o Expande-Pato. Foi difícil. No entanto, julgamos que o vencedor desta batalha é Blitzen, filho de Freya!
Os espectadores aplaudiram. Alguns arfaram, incrédulos. Uma anã de roupa de enfermeira, possivelmente Bambi, famosa entre as enfermeiras anãs, desmaiou.
Hearthstone deu pulinhos, e com isso as pontas do cachecol ondularam. Procurei Sam, mas ela estava na beirada da multidão.
Júnior olhou com raiva para os punhos, como se tentando decidir se devia bater em si mesmo.
— Tudo bem — resmungou ele. — Cortem minha cabeça! Não quero viver em um mundo em que Blitzen vence concursos de confecção.
— Júnior, não quero matar você — disse Blitzen.
Apesar da vitória, ele não estava orgulhoso nem se gabava. Tinha um aspecto cansado, talvez até triste.
Júnior piscou.
— Você... não quer?
— Não. Só me dê os brincos e a corda, como prometeu. Ah, e uma admissão pública de que meu pai estava certo o tempo todo sobre Gleipnir. Você devia ter trocado a corda séculos atrás.
— Nunca! — gritou Júnior. — Você está colocando em dúvida a reputação do meu pai! Não posso...
— Tudo bem, vou buscar meu machado — disse Blitzen em tom resignado. — Infelizmente, a lâmina está meio cega...
Júnior engoliu em seco. E olhou com desejo para a gravata à prova de balas.
— Muito bem. Talvez... talvez Bilì tivesse razão. A corda precisa ser trocada.
— E você errou ao manchar a reputação dele.
Os músculos faciais do velho anão entraram em convulsão, mas ele conseguiu dizer as palavras:
— E eu estava... errado. É.
Blitzen olhou para a escuridão e sussurrou alguma coisa. Eu não era bom em leitura labial, mas tinha quase certeza de que ele tinha dito: Eu te amo, pai. Adeus.
Voltou a se concentrar em Júnior.
— Agora, quanto ao que você me prometeu...
Júnior estalou os dedos. Um dos guarda-costas se aproximou, a cabeça recém-enfaixada por causa do encontro com um martelo ocorrido havia pouco tempo. Ele entregou uma caixinha de veludo para Blitzen.
— Brincos para sua mãe — disse Júnior.
Blitzen abriu a caixa. Dentro havia dois gatinhos feitos de filigrana de ouro, como Brisingamen. Enquanto eu olhava, os gatos se espreguiçaram, piscaram os olhos de esmeralda e balançaram os rabos de diamante.
Blitz fechou a caixa.
— Adequados. E a corda?
O guarda-costas jogou para ele uma bola de linha de pipa.
— Você está de brincadeira — falei. — Isso vai prender Fenrir?
Júnior olhou para mim de cara feia.
— Menino, sua ignorância é de tirar o fôlego. Gleipnir era tão fina e leve quanto esta, mas os ingredientes paradoxais lhe davam uma incrível força. Esta corda é igual, porém melhor!
— Ingredientes paradoxais?
Blitz segurou a ponta da corda e assobiou de tanta admiração.
— Ele quer dizer coisas que supostamente não existem. Ingredientes paradoxais são difíceis de usar para confecção, são perigosos. Gleipnir continha o passo de um gato, o cuspe de um pássaro, o bafo de um peixe e a barba de uma mulher.
— Não sei se esse último é tão paradoxal assim — observei. — A Alice Maluca de Chinatown tem uma barba bem grande.
Júnior bufou.
— A questão é que essa corda é ainda melhor! Eu a chamo de Andskoti, o Adversário. É trançada com os paradoxos mais poderosos dos nove mundos: wi-fi sem lag, sinceridade de político, uma impressora que realmente imprime, comida frita saudável e uma aula de gramática interessante!
— Está certo — admiti. — Essas coisas não existem.
Blitz colocou a corda na mochila. Pegou a bolsa de lágrimas e a entregou para o velho anão.
— Obrigado, Júnior. Considero nossa barganha completa, mas quero perguntar mais uma coisa. Onde fica a ilha do Lobo?
Júnior pegou seu pagamento.
— Se pudesse contar, Blitzen, eu contaria. Ficaria feliz de ver Fenrir fazer picadinho de você, como fez com seu pai. Mas eu não sei!
— Mas...
— Sim, eu disse que verificava a corda de tempos em tempos. Era mentira! A verdade é que poucos deuses e anões sabem onde a ilha do Lobo aparece. A maioria jurou segredo. Não sei como seu pai encontrou o lugar, mas, se você quiser fazer o mesmo, a melhor pessoa a quem perguntar é Thor. Ele sabe onde fica a ilha e tem boca grande.
— Thor — falei. — Onde encontramos Thor?
— Não faço ideia — admitiu Júnior.
Hearthstone sinalizou: Sam talvez saiba. Ela sabe muita coisa sobre os deuses.
— É — eu me virei. — Sam, venha aqui! Por que está se escondendo?
A multidão se abriu ao redor da ex-valquíria.
Assim que Júnior bateu os olhos nela, deu um gritinho estrangulado.
— Você! Foi você?
Sam tentou cobrir o lábio machucado.
— Me desculpe. Nós nos conhecemos?
— Ah, não banque a inocente comigo. — Júnior se deslocou com o andador, e o couro cabeludo vermelho deixou o cabelo grisalho cor-de-rosa. — Já vi metamorfose antes. Esse lenço é da mesma cor das asas da mosca. E o olho roxo foi de quando bati em você! Você está mancomunada com Blitzen! Amigos, colegas, anões honestos, matem esses trapaceiros!
Senti orgulho por nós quatro reagirmos como uma equipe. Em um movimento sincronizado, como uma máquina de combate bem lubrificada, demos meia-volta e saímos correndo.

31 comentários:

  1. Uma filha de Loki perto de Thor, vai dar merda

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    1. concordo vai dar merda

      ~coruja

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    2. Daria mera por parte da Sam,pois Thor sempre gostou do Loki, nas Loki não, mas como a Sam precisa de informação e ela é leal aos deuses...

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  2. De uma coisa podemos ter certeza, os anões não visotar o Brasil procurando inggredientes paradoxais, afinal wifi sem lag e sinceridade de politico são paradoxos ao extremo aqui.

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    1. Né aqi no Brasil cordas paradoxais com esses ingredientes são extremamente impossíveis de ser feita

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  3. eu quero uma corda dessa, não pera eu quero os itens paradoxais dela

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  4. O Brasil deveria exportar ingredientes paradoxais, temos em abundancia. Crise econômica resolvida!

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  5. Barba de mulher minha visinha tem tbm hahaha...

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  6. Barba de mulher minha vizinha tem tbm hahaha...

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  7. Júnior bufou.
    — A questão é que essa corda é ainda melhor! Eu a chamo de Andskoti, o Adversário. É trançada com os paradoxos mais poderosos dos nove mundos: wi-fi sem lag, sinceridade de político, uma impressora que realmente imprime, comida frita saudável e uma aula de gramática interessante!
    HUAHUAHUAHUAHUA KKKKKKKKKK cara, acho que o Brasil é o maior exportador de Ingredientes Paradoxais do mundo kkkkkkkk

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  8. "melhor pessoa a quem perguntar é Thor. Ele sabe onde fica a ilha e tem boca grande."
    He he he.

    Quase morri de rir quando li "sinceridade de político". kkkkkkkkk

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  9. Júnior bufou.
    — A questão é que essa corda é ainda melhor! Eu a chamo de Andskoti, o Adversário. É trançada com os paradoxos mais poderosos dos nove mundos: wi-fi sem lag, sinceridade de político, uma impressora que realmente imprime, comida frita saudável e uma aula de gramática interessante!

    Kkkkkkkkkkkkkkk morri
    Aula de gramática interessante, se alguém achar me mostra

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    1. né, até aula de matemática interessante eu já tive, mas de gramática... nunca

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  10. É trançada com os paradoxos mais poderosos dos nove mundos: wi-fi sem lag, sinceridade de político, uma impressora que realmente imprime, comida frita saudável e uma aula de gramática interessante!

    É verdade iminente é tão hilária. Nunca vi tanto paradoxo junto,exceto numa aula de gramática e não...ela não era interessante

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    1. quem manda a vida ser uma comedia

      ~coruja

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  11. O_o wifi sem lag?aula de gramática interesante?alguém me belisca pf!!!!

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  12. wi-fi sem lag, sinceridade de político, uma impressora que realmente imprime, comida frita saudável e uma aula de gramática interessante!
    — Está certo — admiti. — Essas coisas não existem.Kakakakakakakkaaak

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  13. — A questão é que essa corda é ainda melhor! Eu a chamo de Andskoti, o Adversário. É trançada com os paradoxos mais poderosos dos nove mundos: wi-fi sem lag, sinceridade de político, uma impressora que realmente imprime, comida frita saudável e uma aula de gramática interessante!
    kkkkkkkkkkkkkkkkk quase tive um ataque de riso lendo isso

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  14. filha de Loki + Thor =merda

    wi-fi sem lag, sinceridade de político, uma impressora que realmente imprime, comida frita saudável e uma aula de gramática interessante
    isso não existem não mesmo

    ~coruja

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  15. A felicidade do Heart quando o Blitz ganha,meus deuses porque tão fofo!

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    1. NÃOOOOO DROGA, você me fez shippar esse casal, agora eu vou escrever textos gigantes no face em defesa desse casal, vou passar todas as noites imaginando uma história pros dois e quando ela estiver pronta eu vou criar uma fanfic e postar em uma conta fake do spirit. Maldição ¬_¬

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    2. mas tb, quem manda ter um elfo tão fofo com um cachecol tão fofo? e o shipp fica muito fofo tb :3

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  16. — A questão é que essa corda é ainda melhor! Eu a chamo de Andskoti, o Adversário. É trançada com os paradoxos mais poderosos dos nove mundos: wi-fi sem lag, sinceridade de político, uma impressora que realmente imprime, comida frita saudável e uma aula de gramática interessante!

    Kkkkkk os melhores ingredientes paradoxais do mundo!!!! Aliás, dos NOVE mundos!!!!!! Kkkkkk

    E Sam.... adoro vc. Mintira, nem gosto. Mas gostei da história da mosca.

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  17. os paradoxos mais poderosos dos nove mundos: wi-fi sem lag, sinceridade de político, uma impressora que realmente imprime, comida frita saudável e uma aula de gramática interessante!

    — Está certo — admiti. — Essas coisas não existem.

    VOTAÇÂO:
    Quais desses paradoxos é mais " inexistente"?

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    1. Eu voto em wifi sem lag e em sinceridade de politíco!
      kkkkkkkkkk

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  18. ah... Eu teceria uma corda com amor verdadeiro. E queria ver quem poderia quebra-la!

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    1. vdd mas não pode ter um pingo de falcidade!

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  19. Pera lá tio Rick! Uma anã enfermeira?
    Mas não existem anãs!
    O que é isso? Uma civilização avançada? Svartalfhein não têm precosceitos?

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  20. — A questão é que essa corda é ainda melhor! Eu a chamo de Andskoti, o Adversário. É trançada com os paradoxos mais poderosos dos nove mundos: wi-fi sem lag, sinceridade de político, uma impressora que realmente imprime, comida frita saudável e uma aula de gramática interessante!— Está certo — admiti. — Essas coisas não existem.


    Vdd kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk

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