30 de outubro de 2015

Quarenta e oito

A próxima coisa que sei é que estou sentada na minha cama, boca aberta num grito silencioso que nunca teve a oportunidade de ser ouvido. Depois de ter perdido minha família pela segunda vez em um ano, deixando-me só com o eco das palavras de Riley:
Você tem que encontrar Damen – antes que seja tarde demais!
Salto da minha cama e corro para o meu gabinete, indo diretamente para o frigobar e descobrindo que o elixir e o antídoto se foram. Sem saber o que isso significa, eu sou a única que voltou no tempo enquanto que todos os demais permaneceram o mesmo, ou se estou justo onde deixei, com Damen em perigo e eu fugindo.
Eu desço as escadas correndo, movendo-me tão rápido que eles têm um aspecto borrado debaixo dos meus pés, sem ter nenhuma ideia de que dia é hoje, ou mesmo que horas são, mas sabendo que tenho que chegar até Ava antes que seja tarde demais.
Mas justo quando eu aterrisso, Sabine chama.
— Ever? É você?
Eu me congelo, olhando como ela contorna o balcão, vestindo um avental manchado com um prato cheio de brownies na mão.
— Ah, bom. — Ela sorri. — Só tentei a receita de sua mãe – você sabe o que ela sempre utilizava para assar? Eu quero que você prove um e me diga o que acha.
Eu congelo, incapaz de fazer qualquer coisa, mesmo piscar. Forçando a uma paciência que realmente não tenho quando digo:
— Estou certa que estão bons. Escuta, Sabine eu...
Mas ela não me deixa terminar. Ela só coloca a cabeça para um lado e diz:
— Bem, pelo menos não vai provar um?
E sei que isso não se trata só de me ver comer, é também sobre o querer aprovação – minha aprovação. Ela está se perguntando se realmente está apta para cuidar de mim, perguntando-se se ela de algum modo é responsável pelos meus problemas de comportamento. Pensando que se ela só tivesse tratado melhor, nada disso teria acontecido. Quero dizer, minha tia brilhante, bem sucedida, de alto rendimento, que nunca perdeu um caso no tribunal quer minha aprovação.
— Só um — Ela insiste. — Não é como se eu estivesse tentando envenená-la! — E quando seus olhos encontram os meus, não posso deixar de notar sua escolha de palavras aparentemente aleatória, me perguntando se é algum timo de mensagem, empurrando-me a pressioná-la, mas sabendo que tenho que sair disso primeiro. — Sei que provavelmente não estão bons quanto os da sua mãe, porque os dela eram indiscutivelmente melhor, mas é a sua receita e por alguma razão acordei esta manhã com esse impulso irresistível de fazê-los. E então pensei...
Sabendo que ela é capaz de entrar em cheio na parte do argumento em busca de me convencer, eu alcanço a pilha de brownies. Olhando para o quadrado menor, pensando em comer e correr. Mas quando vejo a evidente letra E talhada bem no centro – eu sei.
É meu sinal.
Aquele que eu estava esperando todo esse tempo.
Justo quando eu tinha perdido as esperanças, Riley conectou. Marcando o menor brownie do prato da mesma forma que ela costumava fazer.
E quando olho para o maior e vejo um R talhado nele, definitivamente sei que é dela. A mensagem secreta, o sinal que ela me prometeu, logo antes de me deixar pra sempre.
Mas ainda assim, por não querendo ser uma louca delirantemente que encontra significados secretos em um prato de assados, olho Sabine e digo:
— Você fez? — aponto para meu brownie, aquele com minha inicial talhada no meio. — Você colocou isso?
Ela pisca, primeiro para mim, e depois para o brownie, em seguida balança a cabeça e diz:
— Olha, Ever, se não quiser prová-lo, então certamente não tem que fazer. Eu só pensei...
Mas antes que ela pudesse terminar, eu já tinha tirado um do prato e colocado na boca, fechando os olhos enquanto saboreio sua textura, imediatamente imersa na sensação de lar. Esse lugar maravilhoso que tive a sorte de rever, não importa por quanto tempo, finalmente percebendo que isso não é designado para um só lugar, é em qualquer lugar que você faça.
Sabine me olha. Seu rosto ansioso, esperando minha aprovação.
— Eu tentei uma vez antes, mas por alguma razão não saíram tão bem como o da sua mãe. — Ela dá de ombros, me olha com timidez, esperando com impaciência meu veredicto. — Ela costumava brincar dizendo que ela usava um ingrediente secreto, mas agora me pergunto se isso pode ter sido verdade.
Engulo seco, limpando as migalhas de meus lábios, e sorriu quando digo.
— Existe um ingrediente secreto. — Ao ver cair sua expressão, perguntando-se se isso significava que eles não estavam bons. — O ingrediente secreto é o amor — lhe digo. — E você deve ter utilizado uma grande porção, porque estes estão incríveis.
— Sério? — seus olhos se iluminam.
— Sério. — Eu abraço ela, mas só por um momento antes de me afastar. — Hoje é sexta-feira, certo?
Ela me olha, suas sobrancelhas unidas.
— Sim, é sexta. Por quê? Está tudo bem?
Mas eu simplesmente confirmo e saio pela porta, sabendo que o tempo que tenho é ainda menor do que eu pensava.

3 comentários:

  1. Peraí... Era tudo um sonho?!

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  2. Fez a burrice, agora corre contra o tempo pra concertar!!

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