18 de outubro de 2015

Quarenta e oito - Hearthstone desmaia ainda mais do que Jason Grace (embora eu não faça ideia de quem seja esse cara)

JÖTUNHEIM ERA BEM parecido com Vermont, só que com menos placas oferecendo produtos à base de xarope de bordo. Havia neve nas montanhas de rocha escura. Camadas da altura da cintura de um homem cobriam os vales. Pinheiros brilhavam com pingentes de gelo.
Jacques, a espada, pairava na frente do grupo, nos guiando pelo rio que ziguezagueava pelos cânions cobertos de neve. Subimos trilhas ao lado de cachoeiras quase congeladas, e senti o suor na minha pele congelar na mesma hora.
Em outras palavras, foi divertido pra caramba.
Sam e eu ficamos perto de Hearthstone. Torci para que minha aura residual de brilho de Frey fizesse bem a ele, mas o elfo ainda parecia muito fraco. O melhor que podíamos fazer era impedi-lo que escorregasse do bode.
— Aguente aí — falei.
Ele sinalizou alguma coisa, talvez desculpe, mas o gesto foi tão fraco que não tive certeza.
— Descanse — acrescentei.
Ele grunhiu de frustração. Tateou pela bolsa de runas, tirou uma e colocou-a nas mãos. Apontou para a pedra e depois para si mesmo, como se dissesse: Esta sou eu.
Eu não conhecia a runa.


Sam franziu a testa quando viu.
— Essa é perthro.
— O que quer dizer? — perguntei.
Ela olhou com cautela para Hearth.
— Está tentando explicar o que aconteceu com você? Quer mesmo que Magnus saiba?
Hearthstone respirou fundo, como se estivesse se preparando para sair correndo. Disse: Magnus... sentiu... dor.
Fechei os dedos ao redor da pedra.
— Senti... Quando curei você, havia alguma coisa sombria...
Hearth apontou para a pedra. E olhou para Sam.
— Você quer que eu conte? — perguntou ela. — Tem certeza?
Ele assentiu, apoiou a cabeça nas costas do bode e fechou os olhos.
Andamos uns vinte metros até Sam começar a falar.
— Quando Hearth e eu estávamos em Álfaheim, ele me contou parte da história. Não sei de todos os detalhes, mas... os pais dele... — Ela teve dificuldade de encontrar as palavras.
Otis, o bode, baliu.
— Continue. Adoro histórias deprimentes.
— Fique quieto — ordenou Sam.
— Vou só ficar quieto, então — concordou o bode.
Observei o rosto de Hearthstone. Ele parecia tão tranquilo dormindo.
— Blitzen me contou um pouquinho — falei. — Os pais de Hearth nunca o aceitaram porque ele era surdo.
— Foi pior do que isso — explicou Sam. — Eles não eram... boas pessoas.
Um pouco do tom ácido de Loki surgiu na voz dela, como se ela estivesse imaginando os pais de Hearth no alvo de dardos de visgo.
— Hearth tinha um irmão, Andiron, que morreu muito jovem. Não foi culpa de Hearthstone, mas os pais descontaram a amargura nele. Sempre diziam que o irmão errado havia morrido. Para eles, Hearth era uma decepção, um elfo deficiente, uma punição dos deuses. Ele não conseguia fazer nada certo.
Apertei a runa.
— Ele ainda carrega toda essa dor no peito. Deuses...
Sam colocou a mão no tornozelo de Hearth.
— Ele não conseguiu me contar os detalhes da infância, mas eu... Eu tive a sensação de que foi pior do que você pode imaginar.
Olhei para a runa.
— Não é surpresa ele viver sonhando em fazer magia. Mas esse símbolo...?
— Perthro simboliza um cálice vazio caído de lado — explicou Sam. — Pode ser uma bebida derramada, ou um cálice esperando para ser enchido, ou um copo para jogar os dados, como o destino.
— Não entendi.
Sam tirou pelos de bode da barra da calça de Hearthstone.
— Acho... acho que perthro é a runa com a qual Hearthstone se identifica. Quando ele foi até Mímir e bebeu do poço, teve que fazer uma escolha entre dois futuros. Se tomasse o primeiro caminho, Mímir daria a fala e a audição para ele, que então voltaria diretamente para Álfaheim para viver uma vida normal, mas teria que abrir mão do sonho de praticar magia. Se escolhesse o segundo caminho...
— Ele aprenderia magia — sugeri — mas ficaria como é, surdo e mudo, odiado pelos próprios pais. Que tipo de escolha impossível é essa? Eu devia ter pisado na cara de Mímir quando tive oportunidade.
Sam balançou a cabeça.
— Mímir só apresentou as opções. A magia e a vida normal são mutuamente excludentes. Só pessoas que vivenciaram uma dor muito grande têm a capacidade de aprender magia. Elas têm que ser como cálices vazios. Até Odin... ele abriu mão de um dos olhos para beber do poço de Mímir, mas esse foi só o começo. Para aprender as runas, Odin se enforcou. Ficou pendurado em um galho da Árvore do Mundo por nove dias.
Meu estômago se contraiu procurando alguma coisa para vomitar.
— Isso... não é certo.
— Mas foi necessário — disse Sam. — Odin também perfurou o corpo com a própria lança e ficou sentindo dor, sem comida e sem água, até as runas se revelarem. A dor o deixou vazio... um receptáculo para magia.
Olhei para Hearthstone. Não sabia se devia abraçá-lo ou acordá-lo e dar uma bronca. Como alguém podia escolher por livre e espontânea vontade ficar sentindo tanta dor? Que tipo de magia valeria isso?
— Eu fiz magia — falei. — Curei, andei em meio às chamas, arranquei armas das mãos das pessoas. Mas nunca sofri como Hearth.
Samirah repuxou os lábios.
— É diferente, Magnus. Você nasceu com sua magia, foi uma herança do seu pai. Não pode escolher suas capacidades e nem mudá-las. Álfar seidr é inato. Também é magia menor se comparada ao que as runas são capazes de fazer.
— Menor?
Eu não queria discutir sobre que magia era mais impressionante, mas a maioria das coisas que vi Hearthstone fazer era bem... sutil.
— Expliquei para você em Valhala — continuou Sam — que as runas são a linguagem secreta do universo. Ao aprendê-las, você pode recodificar a realidade. Os únicos limites para sua magia são sua força e sua imaginação.
— Então por que mais gente não aprende sobre as runas?
— É o que estou dizendo. Requer um sacrifício inacreditável. A maioria das pessoas morreria antes de chegar onde Hearthstone chegou.
Prendi o cachecol de Hearth ao redor do pescoço dele. Agora eu entendia por que ele estava disposto a arriscar fazer magia de runas. Para um cara com o passado perturbado como o dele, recodificar a realidade deve ter parecido bem legal. Também pensei na mensagem que ele sussurrou na minha mente. Ele havia me chamado de irmão. Depois de tudo que Hearthstone passou com a morte do irmão... isso não devia ter sido fácil.
— Então Hearth se transformou em um cálice vazio — falei. — Como perthro.
— Para tentar se encher com o poder da magia — concordou Sam. — Eu não sei todos os significados de perthro, Magnus. Mas sei uma coisa: Hearthstone a usou quando estávamos caindo do penhasco no rio.
Tentei me lembrar, mas fiquei sobrecarregado de exaustão assim que peguei a espada.
— O que a runa fez?
— Nos trouxe aqui — explicou Sam. — E deixou Hearthstone assim. — Ela indicou o corpo que roncava. — Não posso ter certeza, mas acho que perthro é... como os mortais chamam? Uma tentativa arriscada. Ele jogou a runa como se jogaria um dado, entregando nosso destino para os deuses.
A palma da minha mão estava machucada de tanto apertar a pedra. Eu ainda não sabia por que Hearthstone me deu aquilo, mas senti um instinto forte me dizendo que deveria guardar para ele, mesmo temporariamente. Ninguém deveria carregar esse tipo de destino sozinho. Coloquei a runa no bolso.
Andamos pela natureza em silêncio por um tempo. Em determinado momento, Jacques nos levou pelo rio sobre um tronco de árvore caído. Não consegui deixar de olhar para os dois lados em busca de esquilos gigantes antes de atravessar.
Em alguns lugares, a neve era tão profunda que tínhamos que pular de pedra em pedra enquanto o bode Otis especulava sobre qual de nós escorregaria, cairia e morreria primeiro.
— Eu queria que você calasse a boca — murmurei. — Também queria ter sapatos para neve.
— Você precisaria de Uller para isso — disse o bode.
— De quem?
— Do deus dos sapatos de neve — contou Otis. — Ele os inventou. Além da arquearia e... Não sei, outras coisas.
Eu nunca tinha ouvido falar de um deus dos sapatos de neve. Mas teria pagado uma grana preta se o deus dos veículos de neve aparecesse rugindo no bosque naquela hora para nos dar uma carona.
Seguimos em frente.
Vimos uma casa de pedra no cume de uma colina. A luz cinzenta e as montanhas pregavam peças na minha percepção. Eu não sabia se a casa era pequena e estava perto ou se era enorme e estava longe. Lembrei do que meus amigos me contaram sobre os gigantes, que eles viviam e respiravam ilusões.
— Está vendo aquela casa? — perguntou Jacques. — Não vamos lá.
Não discuti.
Avaliar a passagem de tempo era difícil, mas, no fim da tarde, o rio virou uma corrente intensa. Havia penhascos na margem oposta. Ao longe, em meio às árvores, ouvi o rugido de uma cachoeira.
— Ah, é verdade — disse Otis. — Lembrei agora.
— Lembrou o quê? — perguntei.
— Por que fui embora. Eu tinha que procurar ajuda para o meu dono.
Sam limpou um pouco da neve no ombro.
— Por que Thor precisaria de ajuda?
— As corredeiras — explicou Otis. — Acho que é melhor irmos logo. Eu tinha que ser rápido, mas fiquei vendo vocês por quase um dia inteiro.
Levei um susto.
— Espere... ficamos inconscientes por um dia inteiro?
— Pelo menos — acrescentou Otis.
— Ele está certo — disse Jacques. — De acordo com minhas contas, hoje é domingo, dia dezenove. Eu avisei, quando você me segurasse... bem, lutamos com os anões na sexta. Vocês dormiram o sábado inteiro.
Sam fez uma careta.
— Perdemos um tempo precioso. A ilha do Lobo vai aparecer em três dias, e nem sabemos onde Blitzen está.
— Deve ser culpa minha — disse Otis. — Eu devia ter salvado vocês antes, mas fazer respiração boca a boca em um humano... Tive que reunir coragem. Meu terapeuta me passou exercícios de respiração...
— Pessoal — interrompeu Jacques, a espada — estamos perto agora. De verdade desta vez.
Ele saiu flutuando pela floresta.
Seguimos a espada flutuante até as árvores se abrirem. Na nossa frente havia uma praia com pedras pretas irregulares e pedaços de gelo. Na margem oposta erguiam-se penhascos quase da altura do céu. O rio tinha virado uma corredeira de classe cinco, uma zona de combate com espuma branca e rochas meio submersas. Correnteza acima, o rio ficava comprimido entre duas colunas de pedra do tamanho de arranha-céus, mas eu não sabia se eram construções do homem ou naturais. O topo sumia entre as nuvens. Pela fissura entre elas, o rio explodia em uma camada vertical, menos como uma cachoeira e mais como uma barragem partida no meio.
De repente, Jötunheim não parecia mais Vermont. Parecia mais os Himalaias, um lugar que não foi feito para os mortais.
Era difícil me concentrar em qualquer coisa exceto as corredeiras violentas, mas acabei reparando em um pequeno camping na praia: uma barraca, uma fogueira e um segundo bode com pelo escuro andando pela beirada da água com nervosismo. Quando o bode nos viu, se aproximou galopando.
Otis se virou para nós e gritou por cima do barulho do rio:
— Este é Marvin! É meu irmão! O nome dele de verdade é Tanngrísnir, o Rosnador, mas...
— Otis! — gritou Marvin. — Por onde você andou?
— Esqueci o que fui fazer — respondeu Otis.
Marvin baliu de exasperação. Os lábios estavam curvados em uma expressão permanente de desprezo, que, sei lá, talvez tenha sido o que lhe deu o nome de Rosnador.
— Foi essa a ajuda que você encontrou? — Marvin fixou os olhos amarelos em mim. — Dois humanos magrelos e um elfo morto?
— Ele não está morto! — gritei. — Onde está Thor?
— No rio! — Marvin apontou com os chifres. — O deus do trovão está quase se afogando, e, se não arrumarem um jeito de ajudá-lo, vou matar vocês. Aliás, é um prazer conhecê-los.

43 comentários:

  1. Hearthstone desmaia ainda mais do que Jason Grace (embora eu não faça ideia de quem seja esse cara)

    kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk

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    1. Também nao faço a minima idéia de quem seja esse tal janson... kkkkkkk nem conheço uma espada que vira caneta!

      Ezequiel

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    2. isso é das series:
      percy jackson e os olimpianos
      &
      os herois do olimpo
      #recomendo

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    3. ele tava sendo sarcástico,meu querido Maconha Cocaina

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    4. mas é como dizem né, com grandes poderes vem a grande necessidade de tirar uma soneca

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    5. Frase dita pelo nosso filósafo Percy Jackson

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    6. Palavras dita pelo nosso querido filósofo Peter Jonson (entendedores entenderão)

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  2. Tem que ser profissional pra desmaiar mais que o Jason. Kkkkkkkkkkkkkkkkkkkk. Rindo loucamente até 2075.

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    1. vou te acompanhar
      kkkkkkkkkkkk

      ~coruja

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  3. Então a dor alimenta a magia hein...só eu imaginei o Nico soltando runas por aí?

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  4. Adoooorei o nome desse capítulo!! Jason Grace!!!
    Rindo litros aki!!

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  5. Gente só eu que percebi a referência de guia dos mochileiros das galáxias? Tipo Marvin... Um cara deprimido...

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  6. Hearthstone desmaia ainda mais do que Jason Grace (embora eu não faça ideia de quem seja esse cara)
    kkkkkkk

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  7. Concordo! O Nico ia arrasar com essas runas. Imagina um rei dos fantasmas mago? Kkkkkkkkk a primeira coisa q ia fazer era uma porçao do amor pro Percy ou seria pro Solace?

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    1. não sei não si bem que #solangelo

      ~coruja

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  8. "Hearthstone desmaia ainda mais do que Jason Grace"
    Isso é uma piada de mal gosto pro filho de Júpiter

    Que Zeus jogue um raio em cima de todo mundo que achou graça nisso!

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    1. entao pode mandar ele jogar em mim!
      kkkkkk coitado da jason kkkkkkk

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  9. Quando li o título desse capítulo eu ri pra caramba. Kkkkkkkk
    Mas, achei que alguém ia mencionar que o Heart desmaiava mais que o Jason...

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    1. Vai ver o Magnus só criou o título para esse capítulo depois de dar uma passadinha do Acampamento Meio-sangue. Sei lá, quando a Annie disse que conhecia um local seguro... acho que o Magnus iria querer conhecê-lo depois deles trocarem experiências de vida enquanto comem falaféis azuis.

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  10. Comentando apenas após a leitura do titulo. Provavelmente vou rir por mais meia hora. Kkkkkkk

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  11. Seis fica se achando porque acha easter egg não isplicito achei o maior do livro : conexão diretaQuarenta e oito - Hearthstone desmaia ainda mais do que Jason Grace (embora eu não faça ideia de quem seja esse cara)

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  12. serio morrendo de TRISTEZA com a historia do passado do Hearth
    e eu li esse capitulo ouvindo "Pulsos" da Pitty :'(

    ~coruja

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    1. Essa musica é foda e realmente coitado do Hearth a culpa não é dele ser surdo poxa nem de o irmão ter morrido

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  13. Quando eu li Jason Grace no titul meu coração pulou de alegria

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    1. Quase morri com esse titulo kkkkkkkkkkk Tio Rick zueira never ends

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  14. Achei mesmo que Percy e companhia iam aparecer nesse capítulo :(

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  15. O deus do trovão está quase se afogando, e, se não arrumarem um jeito de ajudá-lo, vou matar vocês. Aliás, é um prazer conhecê-los.

    Já gostei desse bode! E se Thor está se afogando, acho que gosto mais dele agora Kkkkk

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  16. JÖTUNHEIM ERA BEM parecido com Vermont, só que... CARAMBA EU LI VOLDEMORT! !!!

    eu amei esse irmão do Otis: vou matar vcs, prazer em conhecer.


    a dor alimenta a magia... É como uma faca de dois gumes. Pra fazer magia vc tem q conhecer a dor, tem q senti-la... mas ela serve pra lembrar q vc sempre vai ter essa dor, a magia n deixa a dor ir embora, ela se alimenta da dor e alimenta-a ao mesmo tempo... um mago nunca seria feliz se n mudar esse padrão, esse... paradoxo.

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    1. Agora que vc comentou... também li Voldemort em vez de Vermont kkkkkkk
      E lembrei de Feita de Fumaça e Osso com o seu comentário, dor e magia...

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  17. Mogami Kyoko-chan28 de maio de 2016 01:19

    Hearthstone desmaia ainda mais do que Jason Grace (embora eu não faça ideia de quem seja esse cara)

    Indiscutível o quanto esse título é RISANTE
    Jason ❤

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  18. Esse titulo kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk rindo ate o ragnarök

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  19. Saudades do Jason!

    ass: Cíntia

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  20. São tantas referências que já nem dá mais para chamar assim.
    ~Filha de Hermes

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