31 de outubro de 2015

Quarenta e nove

Damen se inclina para mim, seu olhar como uma mão em meu braço, cálido, acolhedor, me atraindo.
― Ever, por favor, olhe para mim — diz ele.
Mas só continuo olhando o oceano, a água tão negra que nem sequer posso vê-la.
O oceano negro, a lua escura, e uma amiga que se dirigia a Shadowland, graças a mim.
Saio de seu automóvel e me dirijo à beirada, olhando o íngreme precipício na escuridão. Atraída pela força de sua energia enquanto ele vem por trás de mim, com sua mão em meu ombro, aninhando-me em seu peito enquanto diz:
— Vamos sair daqui, você verá.
Viro-me, precisando vê-lo, me perguntando como pode dizer tal coisa.
― Como? — Começo, com a voz tão frágil como se pertencesse a outra pessoa. ― Como faremos isso? Vai lhe fazer um amuleto e insistir que o use todos os dias?
Ele sacode sua cabeça, seus olhos cravados nos meus enquanto diz:
― Como posso convencer Haven que o use quando nem sequer posso te convencer de que use o teu? — Seus dedos se encaminham a meu pescoço, meu peito, riscando o espaço onde os cristais deveriam estar. ― O que aconteceu?
Viro-me, incapaz, inclusive, de olhá-lo e o que é pior lhe explicar como agi. Tão confinada, tão iludida com meu feitiço que acabei por deixá-lo de lado...
― Que supõe que deveria lhe dizer? — Sussurro. ― Como poderia lhe explicar o que tenho feito? Como diria a alguém que lhe desse a vida eterna, que se por acaso morrerem, então sua alma se perderá?
Os lábios do Damen se aproximam, esquentando minha orelha quando diz:
— Encontraremos uma maneira – encontraremos.
Sacudo minha cabeça e me afasto, olhando a escuridão e evitando seu olhar.
― Como pode dizer isso? Como pode?
Ele chega a meu lado. Sua simples presença esquentando minha pele enquanto diz:
― Como posso o quê?
Engulo com dificuldade, incapaz de dizê-lo, pôr em palavras tudo o que tenho feito, me permitindo estar em seus braços, apertada contra seu peito, desejando poder me arrastar dentro dele, me enroscar ao lado de seu coração e ficar ali para sempre – o refúgio mais seguro que poderia conhecer.
― Como pode perdoar uma garota que ama tanto sua amiga que não pode deixá-la ir?
Envolve meu cabelo atrás de minha orelha e levanta meu queixo, me fazendo olhá-lo. ― Como posso perdoar uma garota que sacrificou a única coisa que quis todo este tempo, todos estes anos? Perdendo a imediata esperança de poder estar junto comigo para que sua amiga pudesse viver? Como posso perdoá-la, é isso que me pergunta?
Damen me olha, seus olhos procurando os meus.
― É fácil. Não fiz uma escolha semelhante quando pela primeira vez te fiz beber o elixir? E, entretanto, o que fez foi muito maior, motivado somente por amor, enquanto que minhas próprias ações não foram tão puras. Estava muito mais interessado em aliviar meu sofrimento. — Sacode sua cabeça. ― Convencendo-me que o fiz por você, quando na verdade eu era um egoísta e avarento, sempre interfirindo, nunca te permitindo escolher por você mesma. Te trouxe por mim – é claro para mim agora.
Engulo com dificuldade, desejando poder lhe acreditar – que minha decisão foi nobre. Mas isto é diferente. O que fiz foi totalmente diferente. Sabia sobre Shadowland, ele não. Olho-o enquanto digo.
― E isso estará bem até que ela meta-se em problemas de novo, logo a morte de sua alma estará sobre mim.
Ele olha além de mim, para um oceano invisível que envia um choque contínuo de ondas à beirada. Ambos sabendo que não há mais o que dizer. Não há palavras que possam remediar isto.
― Nada aconteceu. — Faço uma pausa, me sentindo estúpida por dizê-lo, à luz dos acontecimentos, mas querendo que ele saiba logo. ― Não foi o que pensa. Sobre eu e Jude, aquele dia na praia. — Sacudo minha cabeça. ― Não foi o que pareceu. — Sua mandíbula se aperta, seu abraço afrouxa, mas o trago de volta para mim, havendo muito mais que dizer. ― Acredito que ele é um imortal. Um patife, como Roman.
Damen me olha. Seus olhos entrecerrados quando acrescento:
― Vi sua tatuagem, à direita na parte baixa de suas costas.
Então compreendo como aquilo soou, que eu estava realmente em uma posição para ter um bom olhar da parte baixa de suas costas nuas. Adiciono:
― Estava com seu traje de banho e estávamos na piscina. — Sacudo minha cabeça, isto não está ajudando. ― Foi tudo pela festa de despedida de Miles. E quando Ava ligou, ele virou-se para alcançar o telefone e a vi. A serpente mordendo sua própria cauda. O Ouroboros. Como a que tinha Drina, como a que Roman leva em seu pescoço. A mesma.
― É justamente como o de Roman?
Entrecerro os olhos, insegura do que ele quer dizer.
― Foi rápido? Moveu-se? Desapareceu fora de vista?
Engulo com dificuldade, e sacudo minha cabeça, me perguntando que poderia fazer a diferença.
Quero dizer, segura de que somente a vi por uns poucos segundos, não mais que uma olhada, mas mesmo assim – ele sussurra e se afasta, sentando-se no capô de seu automóvel quando diz:
― Ever, o Ouroboros em si não é mau. Não muito longe. Roman e sua tribo distorceram o significado. É na realidade um símbolo da alquimia antiga, que significa a criação da destruição, a vida eterna – esse tipo de coisas. Muita gente acredita nisso. É só uma prova de que Jude tem apreço pela arte corporal. A arte corporal, e você.
Aproximo-me dele, querendo que saiba que eu não correspondo a Jude. Como poderia com Damen no quadro?
Entendendo que ele ouviu meus pensamentos, agarra-me tão perto e pressiona seus lábios em minha orelha.
― Tem certeza disso? Não é o automóvel chamativo ou os truques de magia que eu faço?
Sacudo minha cabeça e me aproximo mais, consciente do véu que se abate entre nós, emocionada de que nossa telepatia funcione de novo. Temendo que a tivesse quebrado de algum modo quando estávamos com Haven e Roman. É óbvio que funciona de novo, pensa ele. O medo nos faz sentir sozinhos, desconectados. Enquanto o amor, o amor faz exatamente o contrário, nos une.
― Sempre foi você — digo, precisando dizer as palavras em voz alta para que ambos possamos ouvir. ― Somente você. Ninguém mais além de você. — Olho em seus olhos, esperando que a incerteza termine, que possamos renunciar a nossos problemas de três-meses.
Ele embala meu rosto em suas mãos e pressiona seus lábios contra os meus. Sua presença amorosa e cálida é a única resposta que necessito. A única resposta que quero.
Sabendo que há muito mais que discutir – Roman, Haven, as Gêmeas, Jude, o Livro, a volta de Ava – mas sabendo que tudo isso pode esperar. Agora só quero desfrutar de estar com ele.
Deslizo meus braços ao redor de seu pescoço enquanto ele me atira para seu colo, os dois contemplando algo escuro, tão vasto, tão infinito, tão eterno, e embora ambos saibamos que está aí – mas mesmo assim não podemos vê-lo.

4 comentários:

  1. Partiu para o próximo livro!
    Ass: Bina.

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  2. Tô com tanta raiva da Ever. Sério, mds. Li esse livro a pulso, só pra saber como ia dar, mas já sentindo que seria merda. Tô em dúvida se continuou ou não com essa série, ainda faltam três livros, e se eles forem como esse... Morrendo de vontade de pular logo pro último.

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    Respostas
    1. Concordo com vc Ana. Para mim, Terra de Sombras não chega nem aos pés dos anteriores.

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