31 de outubro de 2015

Quarenta e dois

Apesar de ter dito a Sabine que podia convidar Muñoz para festa, ela é inteligente o suficiente para reconhecer um convite pouco entusiasmado quando o escuta. Assim para nossa sorte, eles fizeram outros planos.
Preparei a casa com todas as coisas italianas: pratos de espaguete, pizza, canelones, globos vermelhos, brancos e verdes e uma abundância de quadros, réplicas manifestadas de Primavera e O nascimento de Vênus de Botticelli, Vênus do Urbino do Titian, Doni Tondo do Michelangelo, assim como uma estátua tamanho real de David, fora junto à piscina.
Todo o tempo recordando como Riley e eu decorávamos a casa para a fatídica festa do Halloween, a noite em que beijei Damen, a noite que conheci Ava e Drina, a noite que mudou tudo.
Faço uma pausa para olhar tudo e assimilá-lo antes de me dirigir à poltrona e assumir a posição da flor do lótus. Fecho meus olhos e me concentro em elevar minhas vibrações como Jude me ensinou. Preciso tanto de Riley que me entreguei a meu próprio círculo de sessão espírita, decidida a praticar um pouco cada dia até que ela apareça.
Aquieto minha mente de todo o bate-papo habitual e do ruído, mantendo-me aberta, alerta a tudo o que me rodeia. Espero algum tipo de mudança, um frio inexplicável, um sussurro um som, algum tipo de sinal que prove que ela está perto, porém obtenho só uma multidão de fantasmas mandões que não são nada como a minha audaciosa irmã de onze anos a qual procuro.
E estou a ponto de desistir quando uma forma trêmula começa a brilhar diante de mim. Inclino-me para a frente, tratando de ver melhor, quando duas vozes altas dizem:
― O que está fazendo?
No segundo que os vejo fico em pé num salto, sabendo que ele as trouxe, esperando que eu ainda possa pegá-lo antes que ele saia. Meu vôo parou quando Romy coloca sua mão sobre meu braço, sacudindo sua cabeça enquanto diz:
— Tomamos o ônibus e caminhamos o resto do caminho. — Ela lamenta. — Damen não está aqui.
Olho para elas, sem fôlego, desamparada, lutando para me acalmar quando digo:
― Oh. Então, o que aconteceu? — Me perguntando se elas estão aqui pela festa, se Haven de alguma maneira as convidou.
― Precisamos falar contigo. — Romy e Rayne se olham uma à outra antes de focarem-se em mim. ― Há algo que precisa saber.
Engulo a seco, ansiosa para que elas me digam, que me digam o quão infeliz e miserável se tornou Damen, arrependendo-se de sua decisão de se separar, me querendo de volta desesperadamente.
― É a respeito de Roman. — Diz Rayne, com os olhos fixos em mim, lendo minha expressão, se não meus pensamentos.
― Achamos que está fazendo outros, outros imortais como você.
― Exceto que não realmente como você. — Adiciona Romy. ― Já que você é agradável e não malvada como ele.
Rayne encolhe os ombros e olha ao redor, não muito disposta a me incluir nisso.
― Damen sabe? — Olho para elas, esperando encher o quarto com seu nome, gritá-lo uma e outra vez.
― Sabe, mas não fará nada. — Ela suspira. ― Diz que eles têm todo o direito de estar aqui enquanto não representem uma ameaça.
― E são? — Meus olhos se move entre elas. ― Representam uma ameaça?
Olharam-se a uma à outra, comunicando-se em sua própria linguagem silenciosa antes de voltarem-se para mim.
― Não estamos certas. Rayne está começando a ter alguns de seus pressentimentos de novo, e às vezes parece que minhas visões podem estar retornando. Mas é bastante lento. Então queremos te perguntar se poderíamos talvez dar uma olhada no livro. Você sabe, o Livro das Sombras, que você guarda na loja. Pensamos que poderia ajudar.
Eu olho para elas, com os olhos entreabertos, me perguntando se elas realmente estão preocupadas com os subordinados de Roman ou só tentando me colocar contra Damen para obterem o que querem. E, entretanto, não há dúvida de se estão certas. Da última contagem, havia três novos imortais na cidade, todos ligados a Roman.
Todos possivelmente tramando nada bom. Embora também seja certo que não haviam feito nada para provar isso até agora. Mas ainda assim, não querendo que elas pensem que sou totalmente fácil digo:
― E Damen está de acordo com isto?
Nós três nos olhávamos umas às outras, as três sabemos que ele não estava.
Elas se olharam em silenciosa comunhão antes de voltar para mim. Rayne toma a iniciativa quando diz:
― Escuta, necessitamos de ajuda. O caminho de Damen é muito lento, e a este ritmo, teremos trinta anos antes que nossos poderes voltem, e eu não tenho certeza de quem quer menos nós ou você? — Ela me lança um olhar e encolho os ombros, não fazendo nem um movimento para refutá-lo já que ambas sabemos que é certo. ― Necessitamos de algo que funcione, que dê resultados rápidos, e não temos a quem pedir ajuda mais que a você e ao livro.
Eu olho entre elas, logo olho meu relógio, me perguntando se posso chegar à loja, lhes conseguir o livro, e retornar a tempo para a festa. Considerando o tão rápido me movo, e que a festa está ainda a horas de distância, está claro que posso.
― Corra, caminhe, faça o que for necessário. — Rayne assente, sabendo que está quase feito.
― Esperaremos por você aqui.
Eu vou para a garagem, em princípio pensando que uma corrida seria agradável, já que nada mais me faz sentir forte e invencível e não tão inadequada contra os problemas que enfrento. Mas uma vez que ainda está a luz do dia, em lugar disso uso o carro. Chego à loja para encontrar Jude fechando-a cedo, com a chave na porta enquanto diz:
― Você não deveria estar dando uma festa? — Entrecerra os olhos, com o olhar me percorrendo, dando-se conta de minha camiseta, shorts e sandálias.
― Eu me esqueci de algo. — Eu aceno. ― Só me tomará um segundo, assim, pode ir. Não se preocupe que eu fecharei a porta.
Ele inclina a cabeça, consciente de que algo está acontecendo, mas ainda assim abrindo a porta e me fazendo gestos para que entre. Ele me segue, olhando da porta enquanto abro a gaveta e levanto o fundo falso. E quando estou a ponto de pegar o livro ele diz:
― Você não vai acreditar em quem veio hoje aqui. — O olho brevemente. Abro minha bolsa, empurrando o livro quando adiciona: ― Ava.
Congelo-me, meus olhos procurando os seus.
― Não me diga.
Assente.
Engulo seco, meu o estômago como uma bola de Ping-Pong, ricocheteando furiosamente enquanto encontro novamente minha voz.
― O que ela queria?
― Seu trabalho, eu acho. — Encolhe os ombros. ― Ela esteve trabalhando por sua conta, mas agora quer algo mais estável. Pareceu bastante surpresa quando lhe contei que havia te contratado em seu lugar.
― Você disse a ela? Sobre mim?
Ele se desloca desconfortavelmente, de um pé para o outro, olhando para mim quando diz:
― Bom, calculei que já que vocês eram amigas e tudo...
― E o que ela fez? Quando lhe contou? O que ela disse exatamente? — Meu coração bate em horas extras, meus olhos não deixam nem uma vez os seus.
― Nada, na realidade. Apesar de ter parecido muito surpresa.
― Surpresa de que eu estivesse aqui ou surpresa de que me tenha contratado? Qual a surpreendeu mais?
Ele só fica me olhando, dificilmente a resposta que necessito.
― Ela mencionou algo a respeito de Damen, ou de mim ou de Roman, ou disse algo mais? Algo absolutamente? Tem que me dizer tudo, com detalhes.
Ele volta para o corredor, com as mãos levantadas em sinal de rendição.
― Confia em mim, isso foi tudo. Depois disso, não há mais nada que dizer. Agora, vamos sair. Não quer chegar tarde a sua própria festa, não é?

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Boa leitura! E SEM SPOILER!