30 de outubro de 2015

Quarenta e dois

Jamais imaginei que estaria agradecida pelo meu surto de crescimento súbito e recém-fortalecimento dos meus músculos, mas é por causa do meu novo tamanho e força (sem mencionar a fraqueza de Damen) que eu praticamente o carrego todo o caminho desde o carro até a porta da frente de Ava em apenas uns poucos passos. Enquanto golpeio a porta de Ava, sustento seu corpo e estou totalmente preparada para arrombar a porta se for necessário, mas fico aliviada quando ela responde e nos convida a entrar.
Dirijo-me ao corredor com Damen ao meu lado, paro na frente da porta azul-escuro e olho boquiaberta para Ava quando ela hesita em abri-la.
— Se sua sala é tão sagrada e pura como você pensa que é, então não acha que isso ajudará Damen? Não acha que ele precisa de toda a energia positiva que puder conseguir? — Eu digo, sabendo que ela tem conflitos em deixar entrar a energia “contaminada” de um homem doente e moribundo, no qual é tão ridículo que nem sequer sei por onde começar.
Ela me olha, mantendo meu olhar por mais tempo do que minha já escassa paciência preferiria e quando finalmente se dá por vencida, eu me apresso para entrar, deixando-a para trás, acomodando Damen no sofá do canto e o cubro com uma manta de lã que estava próxima.
— O suco está na minha mala, junto com o antídoto — eu digo a Ava, enquanto entrego as chaves. — O suco não estará bom nos outros dois dias, mas ele ficará melhor a noite, quando a lua cheia aparecer e o antídoto ficar pronto. Então você pode dar o suco mais tarde, para ajudar a recuperar sua força. Embora ele provavelmente não vá precisar porque de todo o jeito tudo voltará. Mas, mesmo assim... Só acaso... — Eu confirmo com a cabeça, desejando poder sentir-me a metade segura do que aparento.
— Tem certeza de que vai funcionar? — Ela pergunta enquanto observa como eu tiro da minha bolsa minha última garrafa do elixir.
— Tem que funcionar. — Eu olho para Damen, tão pálido, tão fraco, tão... velho. Mas ainda assim, ele continua sendo Damen. Ainda segue presente os traços de sua incrível beleza, apenas levemente marcada pela aceleração dos anos, resultando em seu cabelo prateado, a pele quase translúcida, o leque de rugas ao redor dos olhos. — É nossa única esperança. — Acrescento, afastando-a com um aceno enquanto me ajoelho, a porta se fechando atrás de mim, enquanto suavemente afasto o cabelo de seu rosto e com delicadeza o obrigo a beber.
A princípio ele luta contra isso, movendo sua cabeça de um lado para o outro e mantendo a boca firmemente fechada, mas quando fica claro que eu não vou me dar por vencida, ele cede, permitindo que o líquido flua por sua garganta, enquanto sua pele recobra a cor e o calor. E quando ele termina a garrafa, me olha com tanto amor e reverência, que eu me encho de emoção só de saber que ele voltou.
— Senti sua falta — murmuro, assentindo, piscando e engolindo com dificuldade. Meu coração está explodindo de desejo quanto pressiono meus lábios contra sua bochecha. Todas as emoções que me esforcei tanto para guardar durante todo esse tempo, agora se apressam para sair, enquanto eu o beijo uma e outra vez. — Você vai ficar bem — digo a ele. — Você vai estar de volta ao seu velho eu muito em breve.
E minha súbita explosão de felicidade murcha como um balão quando seu olhar se torna sombrio e varre meu rosto.
— Você me deixou — ele sussurra.
Eu digo que não com a cabeça, querendo que ele saiba que não é verdade. Eu nunca o deixei. Ele me deixou. Mas não era culpa dele e o perdoo. Perdoo por tudo que tenha dito ou feito, ainda mais quando já é muito tarde, ainda mais quando já não importa mais.
Mas ao invés disso digo:
— Não. Eu não deixei. Você ficou doente. Muito doente. Mas tudo já terminou e logo você estará melhor. Só tem que me prometer que beberá o antídoto quando...
Quando Ava te der.
Essas são as palavras que não posso suportar em dizer. Não as direi. Não quero que ele saiba que este é nosso último momento juntos. Nosso último adeus.
— Tudo o que precisa saber é que você vai ficar bem. Mas tem que ter cuidado com Roman. Ele não é seu amigo. Ele é mal. Está tentando te matar. Então você tem que recuperar a força para poder vencê-lo.
Eu pressiono meus lábios contra sua testa e sua bochecha, incapaz de parar até que cubro todo seu rosto com meus beijos e saboreando minhas próprias lágrimas salgadas na curva de seus lábios, enquanto aspiro seu fôlego, tentando gravar seu cheiro, seu sabor, a sensação de sua pele. Quero levar sua memória aonde quer que eu vá.
Mas mesmo depois de dizer que o amo, depois de me deitar a seu lado, acomodá-lo em meus braços e pressionar seu corpo contra o meu. Mesmo depois de ficar assim durante várias horas, encostada a seu lado enquanto ele dorme. Mesmo quando fecho meus olhos e me concentro em mesclar minha energia com a dele, tentando curá-lo com meu amor, minha essência, meu ser; tentar deixar gravada nele uma pequena parte de mim. Mesmo depois de tudo isso, no momento de ir, ele diz mais uma vez. Uma acusação de seu estado de sono, destinada apenas para mim.
— Você me deixou.
E não é até que eu diga meu último adeus e fecho a porta atrás de mim, que compreendo que ele não se refere ao passado.
Ele está profetizando o nosso futuro.

6 comentários:

  1. Eduarda Schreave Singer25 de março de 2016 11:25

    sua idiota ever volta A-G-O-R-A

    ResponderExcluir
  2. Malvada! Por que você tá fazendo isso??!!

    ResponderExcluir
  3. caraca ..... voce me deixou :( que triste

    ResponderExcluir
  4. Naoooooooo chorando muito agora voltaaaaaaaaaaaaa o gato ta sentado nesse momento te querendo...

    ResponderExcluir

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Os comentários estão demorando alguns dias para serem aprovados... a situação será normalizada assim que possível. Boa leitura!