18 de outubro de 2015

Quarenta e dois - Temos uma festinha de pré-decapitação com rolinhos primavera

DORMIR NO APARTAMENTO de Blitzen foi o ponto alto da nossa viagem. Não que isso significasse muita coisa.
Blitz alugava o terceiro andar de uma casa em frente ao Svartalfar Mart (é, isso existe). Considerando o fato de que seria decapitado no dia seguinte, ele foi um bom anfitrião. Pediu desculpas por não ter feito uma arrumaçãozinha antes (embora o local me parecesse impecável), esquentou rolinhos primavera no micro-ondas e comprou um litro de refrigerante e um pacote de seis unidades de Hidromel Espumante Fjalar, com garrafas feitas à mão; cada vidro de uma cor diferente. Tinha pouca mobília, mas a decoração era estilosa: um sofá em forma de L e duas poltronas futuristas. Deviam ter nomes e serem famosos no mundo da mobília de sala de estar, mas Blitzen não os apresentou. Na mesa de centro havia uma pilha organizada de revistas de moda de anões e de design de interiores.
Enquanto Sam e Hearth tentavam consolar Blitz, eu caminhei pela sala. Senti raiva e culpa por ter colocado Blitz em uma situação tão delicada. Ele já tinha arriscado muita coisa por mim. Passou dois anos nas ruas me vigiando quando poderia estar aqui, relaxando, comendo rolinhos primavera e bebendo hidromel espumante. Tentou me proteger atacando o lorde dos gigantes do fogo com uma placa. Agora, ia perder a cabeça em uma disputa de confecção com um idoso do mal.
Além do mais... a filosofia do ofício dos anões me perturbou. Em Midgard, a maioria das coisas era descartável e substituível. Eu vivi desse lixo pelos últimos dois anos, catando o que as pessoas jogavam fora, encontrando coisas que pudesse usar ou vender, ou que ao menos servissem para fazer uma fogueira.
Então me perguntei como seria morar em Nídavellir, onde cada objeto era fabricado para ser uma obra de arte para a vida toda, até um copo ou uma cadeira. Talvez fosse irritante ter que recitar cada detalhe dos sapatos antes de calçá-los de manhã, mas pelo menos saberíamos que eram sapatos incríveis.
Pensei na Espada do Verão. Freya me mandou fazer amizade com ela. Deu a entender que a arma tinha pensamentos e sentimentos.
Todo item feito à mão tem alma, dissera Blitz.
Talvez eu não tivesse me apresentado direito. Talvez devesse tratar a espada como uma companheira...
— Blitz, você deve ter uma especialidade — disse Samirah. — O que estudou na escola de comércio?
— Moda — Blitzen fungou. — Criei meu próprio curso de graduação. Mas moda não é um ofício reconhecido. Eles esperam que eu modele lingotes derretidos ou conserte máquinas! Não sou bom nisso!
É, sim, sinalizou Hearth.
— Não sob pressão — disse Blitz.
— Não entendo — falei. — Por que quem perde tem que morrer? Como escolhem o vencedor?
Blitzen olhou para a capa da Anão Quinzenal: Novos visuais para a primavera! 100 usos para couro de warg!
— Cada participante confecciona três itens. Pode ser qualquer coisa. No fim do dia, o júri pontua cada item de acordo com utilidade, beleza, qualidade, essas coisas. Eles podem pontuar como bem entenderem. O participante com o maior número de pontos gerais vence; o outro, morre.
— Você não deve ter participado de muitas competições — observei — se o perdedor é sempre decapitado.
— Essa é a aposta tradicional — explicou Blitz. — A maioria das pessoas não insiste mais nela. Júnior é antiquado. E, além disso, me odeia.
— Tem a ver com Fenrir e seu pai?
Hearth balançou a cabeça tentando fazer com que eu parasse de falar, mas Blitzen bateu no joelho dele.
— Tudo bem, amigão. Eles merecem saber.
Blitz se recostou no sofá. Pareceu subitamente mais calmo em relação à morte iminente, o que achei perturbador. Eu queria que ele estivesse socando as paredes.
— Sabe quando eu falei que os objetos dos anões duram para a vida toda? Bem... para um anão, a vida pode ter centenas de anos.
Observei a barba de Blitz e me perguntei se ele pintava os fios brancos.
— Quantos anos você tem?
— Vinte — respondeu ele. — Mas Júnior... está chegando a quinhentos. O pai dele, Eitri, foi um dos artesãos mais famosos da história dos anões. Viveu mais de mil anos, construiu alguns dos objetos mais importantes dos deuses.
Samirah mordeu um rolinho primavera.
— Até eu já ouvi falar dele. Está nas histórias antigas. Fez o martelo de Thor.
Blitz assentiu.
— E a corda Gleipnir... pode-se dizer que foi seu trabalho mais importante, ainda mais do que o martelo de Thor. A corda impede que Fenrir se solte e dê início ao Juízo Final.
— Estou acompanhando até aqui — falei.
— A questão é que a corda foi feita às pressas. Os deuses estavam clamando por ajuda. Já tinham tentado prender Fenrir com duas correntes enormes. Eles sabiam que a janela de oportunidade estava se fechando. O Lobo estava ficando mais forte e mais selvagem a cada dia. Em pouco tempo, ficaria incontrolável. Assim, Eitri... bem, ele fez o que pôde. Obviamente, a corda aguentou esse tempo todo. Mas mil anos é muita coisa, mesmo para uma corda anã, principalmente quando o lobo mais forte do universo está lutando contra ela dia e noite. Meu pai, Bilì, era um grande fazedor de cordas. Passou anos tentando convencer Júnior de que Gleipnir precisava ser substituída. Júnior não lhe dava ouvidos. Disse que ia à ilha do Lobo de tempos em tempos para inspecionar a corda e jurou que Gleipnir estava ótima. Ele achava que meu pai só estava insultando a reputação da família dele. Finalmente, meu pai...
A voz de Blitz falhou.
Hearthstone gesticulou: Não precisa contar.
— Estou bem — Blitzen limpou a garganta. — Júnior usou toda a influência dele para virar as pessoas contra meu pai. Nossa família perdeu negócios. Ninguém queria comprar as confecções de Bilì. Finalmente, papai foi até a ilha de Lyngvi. Queria ver a corda, provar que precisava ser trocada. E nunca voltou. Alguns meses depois, uma patrulha anã encontrou...
Ele olhou para baixo e balançou a cabeça.
Hearthstone sinalizou: Roupas. Rasgadas. Caídas na beira da água.
Ou Samirah estava começando a aprender linguagem de sinais ou captou a ideia geral. Tapou a boca com a mão.
— Blitz, sinto muito.
— Bem... — Ele deu de ombros com apatia. — Agora vocês sabem. Júnior ainda guarda ressentimento. A morte do meu pai não bastou. Ele quer me envergonhar e me matar.
Coloquei minha bebida na mesa de centro.
— Blitz, acho que falo por todos nós quando digo que Júnior pode enfiar o andador dele...
— Magnus... — Sam chamou minha atenção.
— O quê? Aquele anão velho precisa ser decapitado do pior jeito. O que podemos fazer para ajudar Blitz a vencer a competição?
— Eu agradeço, garoto — Blitz ficou de pé. — Mas não há o que fazer. Eu... Se você me der licença...
Ele cambaleou até o quarto e fechou a porta.
Samirah repuxou os lábios. Ela ainda estava com um galho da Yggdrasill enfiado no bolso do casaco.
— Tem alguma chance de Júnior não ser tão bom? Ele está muito velho agora, não está?
Hearthstone desenrolou o cachecol e o jogou no sofá. Ele parecia não se sentir bem na escuridão de Nídavellir. As veias verdes no pescoço estavam mais saltadas do que o habitual. O cabelo flutuava com estática, como vinhas procurando o sol.
Júnior é muito bom. Ele gesticulou como se rasgasse ao meio uma folha de papel e jogasse os pedaços fora: Não tem jeito.
Senti vontade de jogar garrafas de Hidromel Espumante Fjalar pela janela.
— Mas Blitz sabe fazer coisas, não sabe? Ou você só estava sendo encorajador?
Hearth se levantou. Andou até um aparador encostado na mesa da sala de jantar. Eu não tinha prestado muita atenção à mesa, mas Hearth apertou alguma coisa na superfície, talvez um interruptor escondido, e o tampo se abriu como uma concha. A parte de baixo era um painel de luz grande, que acendeu, brilhando em dourado, caloroso.
— Uma câmara de bronzeamento artificial. — Assim que falei aquilo, a verdade surgiu. — Quando você veio para Nídavellir pela primeira vez, Blitzen salvou sua vida. Foi assim. Ele deu um jeito de fornecer luz do sol a você.
Hearth assentiu. Na primeira vez que usei runas para fazer magia. Errei. Caí em Nídavellir. Quase morri. Blitzen... sabe fazer coisas. É gentil e inteligente. Mas não funciona bem sob pressão. Uma competição... não.
Sam abraçou os joelhos.
— E o que vamos fazer? Você tem alguma magia que possa ajudar?
Hearth hesitou. Um pouco. Vou usar antes da competição. Não vai ajudar.
Traduzi para Sam e perguntei:
— O que eu posso fazer?
Protegê-lo, sinalizou Hearth. Júnior vai tentar s-a-b-o-t-a-r.
— Sabotar? — Franzi a testa. — Isso não é roubar?
— Já ouvi falar sobre isso — disse Sam. — Em competições anãs, você pode atrapalhar seu competidor desde que não seja pego. A interferência tem que parecer acidente, ou pelo menos algo que os juízes não possam rastrear até você. Mas parece que Júnior não precisa trapacear para vencer.
Ele vai trapacear. Hearth fez um sinal de gancho prendendo em uma fivela. Por maldade.
— Tudo bem — falei. — Vou manter Blitz em segurança.
Ainda não vai ser o bastante. Hearth deu uma espiada em Sam. O único jeito de vencer é atrapalhando Júnior.
Quando traduzi para Sam o que ele disse por meio de sinais, ela ficou tão cinza quanto um anão na luz do sol.
— Não — Ela balançou o dedo para Hearth. — Não, de jeito nenhum. Eu falei.
Blitz vai morrer, sinalizou Hearth. Você já fez isso antes.
— Do que ele está falando? — perguntei. — O que você já fez antes?
Ela se levantou. A tensão na sala chegou de repente em alerta vermelho.
— Hearthstone, você disse que não comentaria nada sobre isso. Você prometeu. — Ela se virou para mim, com a expressão se fechando a qualquer outra pergunta. — Com licença. Preciso de ar.
E saiu do apartamento.
Fiquei olhando para Hearthstone.
— O que foi isso?
Ele abaixou os ombros. O rosto estava vazio, sem esperança. Ele sinalizou: Um erro. Em seguida, entrou na câmara de bronzeamento e se virou para a luz, o corpo criando uma sombra em forma de lobo no chão.

13 comentários:

  1. deve ter a ver com ela ser filha de Loki, ele tbm é deus da trapaça ou algo assim, né?

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    1. É mesmo. Queria que ela fosse igual ao pai e pudesse se transformar em qualquer animal!

      Ezequiel

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  2. Uma filha de Loki que não quer trapacear.

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    1. Mas ela é a favor de Odin e não gosta do jeito do pai . VC lembra da menção de Harald q ela não precisava ser valquíria pra voar e tem algo a ver com Loki mas mesmo gostando de voar ela não usa.

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    2. Eu sei, tô meio decepcionada com isso. A vida seria tão mais divertida se a Sam aceitasse esse lado dela!

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  3. " Em seguida, entrou na câmara de bronzeamento e se virou para a luz, o corpo criando uma sombra em forma de lobo no chão."
    Ele deve ser um filho de Fenrir disfarçado!!!
    Cuidado Magnus!!

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    1. Ou o Magnus deve estar ficando paranóico...

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    2. Eh ele pode ser filho de fenrir, mesmo parecendo pouco provável. Mas se for com certeza é do bem, tipo pode ser do mal mas vai pro bem.

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  4. Só eu q nao gosto dessa sam?!. Affs! O Magnus conta tudo o q rola com ele pra todos e ela nao conta nada. Vive de segredinhos. Ainda vai puxar o tapede dele. Isso sim!

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  5. Sam e seus segredos eu tenho certeza que tem algo a ver com Loki
    porque o Magnus tem essa mania com lobos?

    ~coruja

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    1. hãããã... talvez porque lobos mataram a mãe dele? ou talvez pq lobos vivem o perseguindo e querendo matá-lo tb? talvez até pq se esse Fenrir se soltar o fim do mundo vai começar? ou talvez seria melhor perguntar pq os lobos tem mania de um filho de Frey q agr tem uma espada q pode muito bem cortar as cordas q o prendem para q assim ele comece o ragnarok

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  6. Estou shippando o Hearth e o Blitz <3

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