14 de outubro de 2015

Prólogo

A PORTA DA FRENTE COMEÇA A TREMER. SEMPRE FEZ ISSO TODA VEZ QUE O PORTÃO de metal é fechado com força, acontece desde que eles mudaram para o apartamento em Harlem três anos atrás.
Entre a entrada principal e os finos papéis de parede, eles sempre estão cientes das idas e vindas de todos que moram no prédio. Colocam a televisão no mudo para ouvir melhor, uma garota de quinze anos de idade e um velho homem de cinquenta e sete, filha e padrasto que raramente olham um para o outro, mas que colocaram as diferenças de lado para assistir à invasão alienígena. O homem passou quase toda a tarde murmurando orações em espanhol, enquanto a garota assistiu à cobertura das notícias em um silêncio receoso. Tudo parece como um filme para ela, parece tão irreal que o medo ainda não despertara nela. A garota se pergunta se o bonito homem loiro que tentou lutar contra os monstros está morto. O homem se pergunta se a mãe da garota, uma garçonete de um pequeno restaurante no centro, sobreviveu ao ataque inicial.
O homem coloca a TV no mudo para que possam ouvir melhor o que acontece do lado de fora. Um de seus vizinhos sobe correndo as escadas, gritando durante todo o percurso.
— Eles estão no quarteirão! Estão no quarteirão!
O homem range os dentes em descrença.
— O garoto está perdendo. Aquelas bestas pálidas não vão se incomodar com Harlem. Estamos seguros aqui — ele assegura à garota.
Ele aumenta o volume. A garota não tem muita certeza sobre o que ele disse. Ela vai até a porta e espia o lado de fora. O corredor está escuro e vazio. Assim como no quarteirão atrás do dela, onde a repórter parece literalmente um farrapo. Ela está suja e com manchas no rosto, sujeira por todo o seu cabelo loiro. Há sangue seco em sua boca em vez de batom. A própria repórter mal parece entender tudo.
— Reiterando, o bombeamento inicial parece ter sido afunilado... — a repórter diz tremendo. O homem escutando com atenção. — Os... os... os mogadorianos tomaram as ruas em massa e parecem estar, ah, fazendo prisioneiros, embora termos visto algumas ações mais violentas à... à... menor provocação...
A repórter soluça. Atrás dela, há centenas de alienígenas pálidos com uniformes pretos marchando pelas ruas. Alguns deles vêm em direção à câmera, olhando fixamente para a lente com seus olhos negros.
— Jesus Cristo — diz o homem.
— Novamente, reiterando, estamos sendo, ah, estamos sendo permitidos a continuar a transmissão. Eles... eles... os invasores, eles parecem nos querer aqui...
Lá embaixo, o portão chacoalha novamente. Há um guincho de metal rasgando e um estrondo alto.
Alguém não tinha a chave.
Alguém precisou derrubar o portão completamente.
— São eles! — a garota exclama.
— Fique calada! — responde o homem. Ele abaixa o volume da TV mais uma vez. — Quero dizer, fique em silêncio. Droga.
Eles ouvem passos pesados subindo as escadas. A garota se afasta da porta quando ouve a porta de alguém sendo derrubada. Os vizinhos dos andares debaixo começam a gritar.
— Se esconda — o homem diz à garota. — Vá logo.
O homem segura com firmeza um taco de baseball que retirou do armário quando a primeira nave alienígena apareceu no céu. Ele se aproxima da porta oscilante, posicionando-se em um dos lados dela, encostado na parede. Eles podem ouvir barulhos vindos do corredor. Com um estalo alto, ouvem a porta de seu vizinho ser arrancada das dobradiças, palavras duras em um inglês arrastado sendo gritadas, e finalmente, um som parecido com um relâmpago comprimido atingindo o chão.
Eles viram as armas dos alienígenas na televisão, viram abismados os raios azuis de energia crepitante que atiravam.
Os passos diminuem, e então param em frente à porta que ainda oscila. Os olhos do homem estão arregalados, suas mãos segurando firmemente o taco de baseball. Ele percebe que a garota ainda não se moveu. Ela está congelada.
— Ande, idiota! — ele diz. — Vá agora!
Ele gesticula para a janela da sala de estar. A janela está aberta, a escada de incêndio esperando do lado de fora.
A garota odeia quando o homem a chama de idiota. Mesmo assim, pela primeira vez que se lembra, ela faz o que seu padrasto manda. Ela sobe na janela e a pula como fez diversas outras vezes nesse mesmo apartamento. A garota sabe que não deveria ir sozinha. Seu padrasto deveria fugir também. Ela dá a volta na escada de incêndio para chamá-lo, e então de repente está olhando para dentro do apartamento quando a porta da frente é arrancada.
Os alienígenas são bem mais feios pessoalmente que na televisão.
Sua presença congela a garota onde está. Ela olha fixamente para a pele pálida do primeiro que passa pela porta, depois para seus olhos negros que não piscam, sem contar as tatuagens bizarras.
Há quatro deles no total, todos armados. É o primeiro que vê a garota na escada de incêndio. Ele para no vão da porta, sua arma esquisita apontada para ela.
— Renda-se ou morra — o alienígena diz.
Um segundo depois, o padrasto da garota acerta o alienígena no rosto com seu taco. Foi um golpe forte – o homem ganhava a vida como mecânico, seus antebraços musculosos com a força ganhada com as doze horas de trabalho diárias. O taco empurrou o rosto do alienígena para dentro, e a criatura imediatamente se transformou em cinzas.
Antes que o padrasto da garota pudesse erguer o taco mais uma vez, um alien atira em seu peito. O homem é jogado para trás no fundo do apartamento, sua camisa pegando fogo. Ele cai sobre a mesa de centro e rola, acabando de cara com a janela, onde trava seu olhar com a garota.
— Corra! — o padrasto dela de alguma forma encontra forças para gritar. — Corra, droga!
A garota começa a descer a escada de incêndio. Quando chega ao final, escuta tiros vindos do seu apartamento. Ela tenta não pensar sobre o significado daquilo. Uma das criaturas coloca sua cara pálida na janela e mira sua arma na direção da garota. Ela se solta da escada, caindo no beco que se encontrava abaixo bem na hora em que o ar ao seu redor crepita. Os pelos de seus braços se arrepiam e a garota conclui que há eletricidade passando pelo metal da escada de incêndio. Mas ela não se machucou. O alienígena errou.
A garota pula alguns sacos de lixo e corre para a boca do beco, espiando pela beirada para observar a rua na qual cresceu. Há um hidrante jorrando água, o que a lembra das festas de verão do quarteirão. Ela vê um caminhão do correio caído, a parte traseira cheia de fumaça, como se fosse explodir a qualquer instante.
Mais abaixo, estacionada no meio da rua, a garota vê a pequena nave dos alienígenas, uma das muitas que ela e seu padrasto viram sair da nave maior que ainda flutua sobre a ilha de Manhattan. Eles passam esse vídeo várias vezes nas notícias, assim como o vídeo do garoto loiro.
John Smith. Esse é seu nome. Assim foi como a narradora do vídeo o chamou.
Onde ele está agora?, a garota se pergunta. Provavelmente não salvando as pessoas no Harlem, disso ela tem certeza.
A garota sabe que ela tem que se salvar sozinha.
Ela está prestes a começar a correr quando avista outro grupo de alienígenas saindo de um prédio do outro lado da rua. Eles têm uma dúzia de humanos com eles, alguns rostos familiares da vizinhança, duas crianças que ela reconhece. Eles forçam as pessoas a se ajoelhar na rua e apontam as armas para elas. Um grande monstro alienígena anda ao lado da linha formada pelas pessoas, clicando um pequeno objeto em sua mão, como um guarda do lado de fora de uma casa noturna.
A garota não tem certeza se quer ver o que acontece depois. Ela ouve metal guinchando atrás dela. Então, se vira e vê um dos alienígenas que estava em seu apartamento descendo pela escada de incêndio.
Ela corre. A garota é rápida e conhece essas ruas. O metrô fica a apenas alguns quarteirões de distância. Uma vez, em um desafio, a garota desceu na plataforma e se aventurou pelos tuneis. Os ratos e a escuridão não a assustam nem um pouco em comparação a esses alienígenas. É para lá que ela vai. Ela pode se esconder lá, até mesmo seguir para o centro, para tentar encontrar sua mãe. A garota não sabe como vai contar para sua mãe sobre seu padrasto. Ela mesma ainda não acredita. Continua a esperar que tudo não passe de um sonho.
A garota corre pelas ruas quando três alienígenas surgem em seu caminho. Seu instinto a faz tentar voltar, mas seu tornozelo torce e ela perde o equilíbrio. Ela cai, batendo com força na calçada. Um dos alienígenas solta um grunhido baixo – e a garota percebe que ele está rindo dela.
— Renda-se ou morra — ele diz, e a garota sabe que isso não é uma escolha.
Os alienígenas já têm suas armas erguidas e apontadas, os dedos quase apertando os gatilhos. Renda-se e morra. Eles vão matá-la de qualquer jeito, não importando o que ela faça. A garota tem certeza disso.
Ela levanta as mãos para se defender. É um reflexo. Ela sabe que não vai ajudar em nada contra as armas.
Mas ajuda.
As armas dos alienígenas voam para cima, fugindo das mãos deles. Elas voam vinte metros de distância para trás deles.
Eles olham para a garota, paralisados e incertos. Ela também não entende o que acabou de acontecer.
Mas ela consegue sentir alguma coisa diferente dentro dela. Algo novo. É como se ela pudesse controlar qualquer objeto no quarteirão. Tudo o que ela precisa fazer é puxar e empurrar. A garota não tem certeza de como ela sabe disso. Parece natural.
Um dos alienígenas carrega outra arma e a garota move sua mão da direita para a esquerda. Ele voa pela rua e cai sobre o para-brisa de um carro estacionado. Os outros dois trocam olhares e começam a se afastar.
— Quem está rindo agora? — a garota pergunta, levantando-se.
— Garde — um deles responde num sussurro.
A garota não sabe o que isso significa. O jeito como ele falou parece ser um xingamento. Isso faz a garota sorrir. Ela gosta de ver que essas coisas que estão pela sua vizinhança estão com medo dela agora.
Ela pode lutar contra eles.
Ela vai matá-los.
A garota levanta as mãos para o alto e o resultado é um dos alienígenas sendo erguido do chão. A garota abaixa suas mãos com a mesma rapidez que as levantou, jogando o alienígena em cima do seu companheiro. Ela repete isso até ambos se tornarem cinzas.
Quando isso acontece, a garota olha para suas mãos. Ela não sabe de onde esse poder veio. Não sabe o que significa. Mas ela vai usá-lo.

41 comentários:

  1. FIRST!!! OMG! Já começou assim!? Imagina o final! \^^/

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  2. eita caraba imagina que zona

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  3. uau nossa uau estou tão feliz que nossa!!!!!
    só tenho uma cosa a dizer obrigada Karinaaaaa

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  4. Nossa tava esperando ansiosa pra vc postar o livro
    Obrigada Karina bjs

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  5. Uhuuu, vdd, obrigada Karina!!!

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  6. Meus deus to aqui gritando que felicidade !!!!!!!
    Quem me dera ser ela e ter telecinesia..

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  7. Ai mds ahhhhhh :D quebra eles.... :D
    obrigada Karina

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  8. Obrigada Marina estava ansiosa por este livro.
    Você é nota 1000

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  9. Muito bom Karina!!! Estou quase morrendo d tanta alegria e ansiedade!!

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  10. Humanos com legados... Que uó :/

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  11. MATA TUDO! MATA TUUUUTO!
    receba isso mog bobão

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  12. Eu estava ansiosa por esse livro muito obrigada karina!
    Dulce

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    1. Valeu demais Karina!

      Amo seu blog!

      Você torna possível a leitura de livros que não teria condições de comprar!

      Ótimo trabalho!

      Bjs!

      Marina

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  13. esse negocio de humano com poder vai dar merda, se o povo do planeta bonzinho tava traindo eles imagina os humano

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    1. kkkkk pior que pensei a mesma coisa...

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    2. tomara que os legados sejam distribuidos somente para quem os merecer, seria legal o adam receber mais uns legados

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    3. Eu acho que só vai receber quem realmente merecer mesmo.

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  14. Morri de felicidade e to comentando do além rss

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  15. OOOOOOOMGGGGGGGGGGGG ... ESSE TEMPO TODO DE ESPERA VALEU A PENA!!!!!
    ESSE LIVRO MAL COMEÇOU E JÁ TA LACRANDOO *0*

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  16. Angie Higurashi (Ex-Angélica Higurashi)18 de outubro de 2015 23:54

    Karinaaa ♥♡♥♡♥Te amo mulher!!!!! 'Cê merece o Tocantins inteiro ♥♡♥♡♥♡ Ameeei o Início *-* mais uma vez, OBRIGADA Kah!

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  17. Acho que o jogo virou. A Terra é dez vezes maior que Lórien. E a população deve ser umas quinze vezes maior, no mínimo, o que significa que, facilmente, haverão mais Gardes humanos do que jamais houve Gardes lorienos. A Garde de Lórien estava desacostumada a lutar, um povo pacífico. NÓS estamos acostumados a lutar por aquilo que queremos, a nunca nos sentirmos completamente seguros. Em resumo, os mogadorianos deram uma mordida maior do que a boca.

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    1. A Terra pode ser maior e a população também, mas o povo daqui não é puro e mesmo estando acostumados a lutar não serão muitos que merecem se tornar Gardes.

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    2. NÓS SOMOS #HUMANOS¨# E NÃO DESISTIMOS NUNCA............. KKKKKKKKKKKKKK

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  18. Eita. Ta explicado o porquê do Sam fazer aquilo no final do último livro. Terrestres com legado? Esse livro já começou lacrando.

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  19. Mds...posso surtar agora gnt *-* aiin Karina obrigadaaa por postaaar

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  20. BICHA A SENHORA É DESTRUIDORA 😲😲

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  21. Mas pelo visto não são todos que estão desenvolvendo poderes, acho que serem apenas aqueles que de alguma forma são " de nos índole" tipo " bom coração"... Mega feliz, obrigada por postar o livro??

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  22. Repararam que os legados só começaram a aparecer depois que a Marina jogou as arcas no poço, estou achando que muitas das coisas da arca foram postas lá como partes de Lorien, como se ao nas arcar tivessem oque faltava para reviver Lorien na terra!!! Estou amando..

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  23. Agora não precisa chamar os pessoal dos outros livros os humanos vão da conta do recado

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  24. Tudo isso graças à Marina e Seis com certeza ♡♥

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  25. tenho a sensasao de q esse livro sera um dos melhos q eu ja li

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  26. Pfvr... alguem sabe um site onde posso baixar esse livro. ñ tenho net em casa aí ñ tem como eu ler

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  27. Agora é pra LACRAR o KOOL dos Mogs! Morram, Mogs, morram!
    Long Live To The Gardes!

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  28. OKAY!!! Retiro o que disse. Estou amando ver outras pessoas, que MERECEM, desenvolverem legados.

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  29. Antes de continuar a leitura acho melhor ir ler Os Arquivos Perdidos.
    PS: Isso se a curiosidade não falar mais alto kkkkk

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