10 de outubro de 2015

Prólogo - Zoey

— Uau, Z., este é um público incrível. Há mais humanos aqui do que pulgas em um cachorro velho! — Stevie Rae encobriu seus olhos com a mão enquanto olhava ao redor do campus recém-iluminado.
Dallas era um idiota total, mas todos nós admitimos que as luzes cintilantes que ele havia enrolado em volta dos troncos e galhos dos velhos carvalhos davam ao campus um brilho mágico, de conto de fadas.
— Essa é uma das suas analogias de caipira mais ridículas que eu já ouvi — Aphrodite disse. — Apesar de ser bem precisa. Principalmente porque há um monte de políticos aqui. Bando de parasitas.
— Tente ser gentil — eu falei. — Ou pelo menos tente ficar quieta.
— Isso quer dizer que o seu pai, o prefeito, está aqui? — os olhos já arregalados de Stevie Rae ficaram ainda maiores.
— Suponho que sim. Agora há pouco vi de relance a Cruella de Vil, também conhecida como Aquela Que Me Pariu — Aphodite fez uma pausa e levantou as sobrancelhas. — A gente deveria ficar de olho nos gatinhos do Gatos de Rua. Eu vi alguns brancos e pretos com o pelo bem macio.
Stevie Rae ofegou.
— Aiminhadeusa, a sua mãe não faria um casaco com pelo de gatinhos, faria?
— Ela faria isso antes de você terminar de dizer “o cara está bebendo e dirigindo de novo” — Aphrodite disse, imitando o sotaque sulista e anasalado de Stevie Rae.
— Stevie Rae... ela está brincando. Fale a verdade — dei uma cotovelada em Aphrodite.
— Tudo bem. Ela não tira a pele de gatinhos. Nem de cachorrinhos. Só de filhotes de foca e democratas.
Stevie Rae franziu as sobrancelhas.
— Viu só, está tudo bem. Além disso, Damien está na barraca dos Gatos de Rua, e você sabe que ele nunca deixaria ninguém arrancar um bigode de gatinho, ainda mais o pelo todo — eu tranquilizei a minha melhor amiga, recusando-me a deixar que Aphrodite estragasse o nosso bom humor. — Na verdade, está tudo mais do que bem. Dê uma olhada no que nós conseguimos produzir em pouco mais de uma semana — suspirei de alívio com o sucesso do nosso evento e deixei o meu olhar vagar pelos jardins lotados da escola.
Stevie Rae, Shaylin, Shaunee, Aphrodite e eu estávamos atendendo na barraca de comida (enquanto a mãe de Stevie Rae e várias amigas dela da Associação de Pais e Mestres andavam pela multidão com amostras dos cookies de chocolate que a gente estava vendendo, tipo, aos milhões). Da nossa posição perto da estátua de Nyx, nós tínhamos uma ótima vista do campus todo. Eu podia ver um longa fila na barraca de lavanda de Vovó. Isso me fez sorrir. Não muito longe de Vovó, Thanatos havia montado uma área de inscrições para empregos, e havia um monte de humanos preenchendo formulários lá.
No meio dos jardins, havia duas enormes tendas brancas e prateadas decoradas com mais luzes cintilantes de Dallas. Em uma das tendas, Stark, Darius e os guerreiros Filhos de Erebus estavam fazendo demonstração de armamentos. Observei Stark mostrando para um jovem garoto como segurar um arco. O olhar de Stark encontrou o meu. Nós demos um sorriso rápido e íntimo um para o outro, antes de ele voltar a ajudar o garoto.
Quem estava faltando na tenda dos guerreiros eram Kalona e Aurox. Por razões óbvias, Thanatos decidira que a comunidade de Tulsa não estava preparada para ser apresentada a nenhum deles.
Eu concordava com ela.
Eu não estava preparada para...
Dei uma sacudida em mim mesma mentalmente. Não, eu não ia pensar na questão Aurox/Heath agora.
Em vez disso, voltei minha atenção para a outra grande tenda. Lenobia estava lá, mantendo o olhar atendo nas pessoas que se aglomeravam feito abelhas zunindo em volta de Mujaji e da grande égua Percherão, Bonnie. Travis estava com ela. Travis sempre estava com ela, o que fazia bem ao meu coração. Era incrível ver Lenobia apaixonada. A Mestra dos Cavalos era como um farol luminoso e radiante de alegria e, com todas as Trevas que eu tinha visto ultimamente, isso era chuva no meu deserto.
— Ah, que merda, onde eu coloquei o meu vinho? Alguém viu o meu copo do Queenie’s? Como a caipira me lembrou, os meus pais estão por aqui e eu preciso me fortalecer para a hora em que eles me encontrarem — Aphrodite estava resmungando e remexendo entre as caixas de cookies, procurando o grande copo de plástico roxo em que ela estava bebendo.
— Tinha vinho naquele copo de viagem do Queenie’s? — Stevie Rae balançou a cabeça para Aphrodite.
— E você estava bebendo vinho por um canudo? — Shaunee começou a balançar a cabeça junto com Stevie Rae. — Não é nojento?
— Tempos desesperados pedem medidas desesperadas — Aphrodite respondeu com ironia. — Há freiras demais espreitando por aí para beber abertamente sem ter que ouvir um sermão entediante.
Aphrodite deu uma olhada para a nossa direita, onde os Gatos de Rua haviam disposto uma série de gaiolas em formato de caixas de brinquedos para vender. Os Gatos de Rua tinha a sua própria versão em miniatura das tendas brancas e prateadas, e eu vi Damen sentado lá dentro, todo atarefado cuidando do caixa. Exceto por ele, tudo o que se movia na área dos felinos eram os hábitos das freiras Beneditinas que haviam tomado conta dos Gatos de Rua.
Uma das freiras olhou na minha direção e eu acenei e abri o sorriso para a Abadessa. A irmã Mary Angela acenou de volta, antes de retornar à conversa que ela estava tendo com uma família, que estava obviamente apaixonada por um gato brando fofo que parecia uma bola de algodão gigante.
— Aphrodite, as freiras são legais — eu a lembrei.
— E elas parecem estar ocupadas demais para prestar atenção em você — Stevie Rae disse.
— Imagine só... só pode ser por que você não seja o centro das atenções de todo mundo! — Shaylin zombou, fingindo surpresa.

Stevie Rae disfarçou a sua risada com uma tosse. Antes que Aphrodite dissesse qualquer coisa detestável, Vovó veio mancando até nós. Exceto por estar pálida e mancando, Vovó parecia saudável e feliz. Fazia apenas pouco mais de uma semana desde que Neferet a sequestrara e tentara matá-la, mas ela havia se recuperado incrivelmente rápido. Thanatos tinha dito que isso era porque ela estava em uma boa forma incomum para a sua idade.
Eu sabia que isso era por causa de algo mais, algo que nós duas compartilhávamos: uma ligação especial com uma Deusa que acreditava em dar livre-arbítrio aos seus filhos, além de dotá-los com habilidades especiais. Vovó era amada pela Grande Mãe e extraía sua força diretamente da nossa terra mágica de Oklahoma.
U-we-tsi-a-ge-ya, acho que eu preciso de ajuda na barraca de lavanda. Eu nem acredito como nós estamos lotados — Vovó mal tinha acabado de falar quando uma freira chegou apressada.
— Zoey, a irmã Mary Angela precisa de sua ajuda para preencher os formulários de adoção.
— Eu posso ajudá-la, Vovó Redbird — Shaylin se ofereceu. — Eu adoro o cheiro da lavanda.
— Ah, meu bem, isso é muito gentil da sua parte. Primeiro, vá até o meu carro e abra o porta-malas. Lá tem outra caixa de sabonetes e sachês de lavanda. Parece que vou vender tudo — Vovó disse alegremente.
— Certo — Shaylin pegou as chaves que Vovó jogou para ela e andou apressada na direção da saída principal do jardim da escola, que dava no estacionamento e na alameda que se conectava à Utiva Street.
— E eu vou chamar a minha mãe. Ela me pediu para avisar se a gente ficasse muito atarefada aqui. Ela e as mães da Associação de Pais e Mestres vão chegar aqui em um minuto — Stevie Rae disse.
— Vovó, você se importa se eu for dar uma mão para os Gatos de Rua? Estou louca para ver a nova ninhada de gatinhos.
— Vá em frente, u-we-tsi-a-ge-ya. Acho que a irmã Mary Angela sentindo falta de sua companhia.
— Obrigada, Vovó — sorri para ela e me virei para Stevie Rae. — Ok, se o grupo da sua mãe já vem, então eu vou ajudar as freiras.
— Sim, sem problemas — Stevie Rae respondeu, protegendo os olhos enquanto observava a multidão. — Eu já vi a minha mãe, ela está com a Sra. Rowland e a Sra. Wilson.
— Não se preocupe. A gente dá conta disso — Shaunee disse.
— Ok — eu sorri para as duas. — Volto assim que puder — saí da barraca de cookies e reparei que Aphrodite, segurando seu grande copo roxo do Queenie’s, estava logo atrás de mim. — Pensei que você não queria um sermão das freiras.
— Melhor um sermão das freiras que um sermão das mães da Associação de Pais e Mestres — ela estremeceu. — Além disso, eu gosto mais de gatos do que de gente.
Encolhi os ombros.
— Ok, que seja.
Nós estávamos no meio do caminho para a tenda dos Gatos de Rua quando Aphrodite diminuiu o passo.
— Sério, é imbecil. Patético — ela estava resmungando enquanto bebia pelo canudinho de seu copo, franzindo a testa e olhando com raiva. Segui seu olhar e também franzi a testa.
— Sim, não importa quantas vezes eu os veja juntos, não consigo entender — falei. Aphrodite e eu tínhamos parado para ver a ex-gêmea de Shaunee, Erin, atirando-se em cima de Dallas. — Eu realmente achei que ela fosse melhor do que isso.
— Aparentemente não — Aphrodite respondeu.
— Eca — eu disse, desviando o olhar da sua demonstração pública de beijo de língua.
— Vou te contar, não há bebida suficiente em Tulsa que me faça sentir bem assistindo ao amasso dos dois — ela fez um barulho de vômito, depois bufou e deu risada. — Olhe a freira, logo em frente.
De fato, havia uma freira que eu reconheci como irmã Emily (uma das freiras mais bravas) indo em direção ao casal, que estava ocupado demais com as suas línguas para reparar nela.
— Ela parece série — eu disse.
— Sabe, uma freira pode ser exatamente o oposto de um afrodisíaco. Isso vai ser divertido. Vamos assistir — Aphrodite comentou.
— Zoey! Aqui!
Desviei os olhos da catástrofe que estava prestes a acontecer e vi a irmã Mary Angela acenando para me chamar.
— Vamos — enganchei o braço no de Aphrodite e comecei a puxá-la para a tenda dos Gatos de Rua. — Como você não foi boazinha, não pode assistir.
Antes que Aphrodite conseguisse argumentar, nós estávamos na barraca dos Gatos de Rua, na frente da sorridente irmã Mary Angela.
— Ah, que bom, Zoey e Aphrodite. Eu preciso de vocês duas — a freira fez um gesto gracioso para a jovem família que estava ao lado da gaiola de gatinhos. — Esta é a família Cronley. Eles resolveram adotar dois gatinhos malhados. É tão bom que os dois encontraram o seu lar juntos... eles são muito próximos, mais do que gatos da mesma ninhada normalmente são.
— Que ótimo — eu disse. — Vou começar a preencher a papelada.
— Eu te ajudo. Dois gatos, duas papeladas — Aphrodite se ofereceu.
— Nós já viemos com os dados do nosso veterinário — a mãe falou. — Eu já sabia que nós iríamos adotar o nosso gatinho hoje.
— A gente só não esperava que fosse encontrar dois — o seu marido acrescentou. Ele apertou os ombros de sua mulher e sorriu para ela com carinho.
— Bem, nós também não esperávamos as gêmeas — a mulher respondeu, olhando para as duas garotas que ainda estavam vendo a gaiola dos filhotes e rindo para os malhados fofinhos que iriam fazer parte de sua família.
— Essa surpresa foi ótima, por isso acho que também tudo será perfeito com os dois gatinhos — o pai afirmou.
Essa família fez o meu coração se sentir bem, assim como eu me sentia quando via Lenobia e Travis juntos.
Eu tinha começado a andar na direção da mesa portátil com Aphrodite quando uma das garotinhas perguntou:
— Ei, mamãe, o que são essas coisas pretas?
Algo na voz da criança me fez parar, mudar de direção e voltar para a gaiola dos gatinhos.
Quando cheguei lá, na mesma hora soube o porquê. Dentro da gaiola, os dois gatinhos malhados estavam chiando e se debatendo com várias aranhas grandes e negras.
— Ui, que nojo! — a mãe exclamou. — parece que a sua escola tem um problema com aranhas.
— Eu conheço um bom dedetizador, se você precisarem de uma indicação — o pai sugeriu.
— Nós vamos precisar de um dedetizador muito mais do que bom — Aphrodite sussurrou enquanto nós olhávamos para a gaiola de gatinhos.
— Ahn, bem, normalmente não temos problemas com insetos aqui — eu balbuciei, enquanto um arrepio de aversão subia pela minha espinha.
— Eca, papai! Tem mais um monte de aranhas.
A garotinha loira estava apontando para a parte de trás da gaiola. Ela estava tão completamente coberta de aranhas que parecia estar viva com o movimento incessante delas.
— Oh, meu Deus! — a irmã Mary Angela parecia pálida enquanto olhava as aranhas que pareciam se multiplicar. — Essas coisas não estavam aqui há alguns instantes.
— Irmã, por que a senhora não leva esta bela família para dentro da tenda e começa a preencher a papelada? — eu sugeri rapidamente, encontrando com calma o olhar astuto da freira. — E mande Damien aqui para fora. Ele pode me ajudar a cuidar desse pequeno problema com aranhas.
— Sim, sim, é claro — a freira não hesitou.
— Chame Shaunee, Shaylin e Stevie Rae — falei baixo para Aphrodite.
— Você vai traçar um círculo na frente de todos esses humanos? — Aphrodite sussurrou para mim.
— Você prefere que ela faça isso ou que Neferet comece a destruir todos esses humanos? — de repente Stark estava ali, ao meu lado. Eu podia sentir sua força e preocupação. — É Neferet, não é?
— São aranhas. Muitas aranhas — eu apontei para as gaiolas.
— para mim, parece Neferet — Damien disse em voz baixa, juntando-se a nós.
— Vou chamar o resto do círculo — Aphrodite largou seu copo e saiu correndo para a barraca de comida.
— Qual é o plano? — Stark perguntou, sem tirar os olhos do ninho de aranhas que não parava de crescer.
— Nós vamos proteger o que é nosso — eu afirmei.
Então peguei meu celular no bolso e digitei o nome Thanatos. Ela atendeu no primeiro toque.
— Algo mudou aqui. Eu sinto a aproximação da morte — a Alta Sacerdotisa não levantou a voz, mas eu pude sentir a tensão que ressoava através dela.
— Aranhas estão se materializando na barraca dos Gatos de Rua. Muitas aranhas. Eu chamei o meu círculo.
— Neferet — ela disse aquele nome solenemente, confirmando a minha reação instintiva. — Invoque a proteção dos elementos. Seja o que for que a Tsi Sgili esteja materializando, nós sabemos que não é natural. Então use a natureza para expeli-la.
— Vou fazer isso — afirmei.
— Eu vou começar a rifa... para chamar a atenção dos humanos para a tenda dos guerreiros. Eles estarão mais seguros lá. Zoey, seja o mais discreta possível. Se hoje acabar em pânico e caos, isso só servirá aos propósitos de Neferet.
— Entendi — desliguei.
— Nós vamos fazer o círculo? — Damien perguntou.
— Sim. Nós vamos usar nossos elementos para nos livrar desse problema dos insetos.
Eu não hesitei nem esperei pelo resto do meu círculo. Enquanto Stark observava de modo protetor, peguei a mão de Damien. Eu e ele nos viramos para as gaiolas dos gatos.
— Ar, por favor, venha para mim — Damien disse.
Senti a resposta do elemento dele instantaneamente.
— Mantenha o foco — eu disse a ele.
Ele assentiu.
— Ar, sopre essas Trevas para longe.
O vento, que estava levantando os cabelos de Damien quase provocativamente, foi impelido feito um tufão, girando em volta do ninho de aranhas e fazendo com que elas se contorcessem nervosamente.
— Senhoras e senhores, novatos e vampiros, aqui é Thanatos, a Alta Sacerdotisa da House of Night de Tulsa e sua anfitriã nesta noite. Peço que todos, por favor, venham até o centro do campus, na tenda branca e prateada dos guerreiros. A nossa rifa vai começar e vocês precisam estar presentes para serem premiados.
A voz de Thanatos através do alto-falante soou tão normal, tão diretora de escola, que fez aquele ninho fervilhante de aranhas parecer ainda mais uma aberração.
— Ah, não, vocês não precisam se preocupar com os detalhes — a irmã Mary Angela estava guiando o jovem casal e suas gêmeas para fora da barraca. — Os meus assistentes vão deixar os gatinhos para serem apanhados depois da rifa.
— Por que aqueles garotos estão dando as mãos daquele jeito? — eu ouvi uma das garotinhas perguntar.
— Ah, tenho certeza de que eles estão apenas rezando — a irmã Mary Angela respondeu suavemente. Então ela se virou por cima do ombro para a meia dúzia de freiras que estavam cuidando da barraca, e disse: — Irmãs, cuidem para que os jovens tenham a privacidade que eles precisam para as suas orações.
— É claro, irmã — uma delas murmurou.
Sem questionamento nem hesitação, elas se espalharam, criando um semicírculo em volta das gaiolas dos gatos, efetivamente formando uma cortina de freiras entre possíveis curiosos e nós.
Então Shaunee e Stevie Rae chegaram correndo com Aphrodite, irrompendo através da barreira de freiras e arregalando os olhos ao verem a massa de insetos inquietos.
— Ah, que merda! — Shaunee exclamou.
Aiminhadeusa! — Stevie Rae colocou a mão sobre a boca, enojada.
— Sério, Neferet me dá vontade de vomitar — Aphrodite fez uma careta para as aranhas.
— Nós precisamos chamar todos os elementos aqui e fazer com que eles chutem essas aranhas para fora do campus — eu falei. — Mas a gente não pode fazer uma cena.
— Sim, porque Neferet quereria estragar tudo causando uma cena assustadora e apavorando os humanos — Shaunee disse. — Não esquenta, Z. Vou manter isso em fogo baixo — ela caminhou até Damien, que estendeu a mão para ela. Shaunee segurou a mão dele e, encarando aquele monte de perninhas pretas e corpos pulsantes, chamou: — Fogo, venha para mim — o ar em volta de nós esquentou. A bela garota negra sorriu e continuou: — Esquente essas aranhas, mas não as frite.
O fogo fez exatamente o que ela pediu. Não houve fumaça, nem chamas, nem fogos de artifício, mas o ar ao nosso redor ficou realmente quente e aquele monte de aranhas se contraiu em óbvio desconforto.
Eu olhei em volta, só então notando que Shaylin não tinha se juntado a nós.
— Onde está a água? Nós precisamos de Shaylin para o círculo.
— Ela não voltou do estacionamento — Stevie Rae respondeu. — Eu liguei para o celular dela, mas não atende.
— Provavelmente não ouviu tocar — Damien disse. — Tem muita coisa rolando por aí.
— Ok, sem problemas. Eu fico no lugar da água — Aphrodite se ofereceu. — Não vai ser tão forte, mas pelo menos vai ser um círculo completo.
Aphrodite começou a se mover para pegar a mão de Shaunee quando Erin atravessou a barreira de freiras.
— Eu sabia que um círculo estava sendo traçado! Eu senti — Erin falou e então sorriu na direção de Aphrodite. — Você vai invocar a água? Ha! Você é realmente uma substituta patética para mim, a legítima!
— Você realmente é uma coisa legítima, com certeza — Aphrodite respondeu. — Mas não é o que você está pensando.
— Eu disse para você não se misturar com essas vadias — Dallas falou e olhou com desprezo para uma freira que tentou mantê-lo para fora da barreira.
— Eu sei o que você disse, querido — Erin flertou sorrindo para ele. — Mas você sabe que eu tenho que fazer o que eu preciso fazer. E eu não fico bem com o fato de a água ficar de fora do círculo.
Dallas deu de ombros.
— Que seja, para mim, parece uma perda de tempo. Além do mais, por que diabos os idiotas dos seus ex-amigos estão fazendo um círculo durante o evento? — Ele franziu o seu olhar maldoso e atento, como se só naquele momento percebesse o que a barreira de freiras significava. — Ei, o que está rolando aqui?
— Nós não temos tempo para isso — respondi rapidamente. — Stark, livre-se do Dallas e cuide para que ele fique de boca fechada até o evento acabar.
— Com prazer! — sorrindo, Stark pegou Dallas pela parte de trás da camisa e o arrastou para longe de nós e do centro do campus.
Dallas foi se debatendo e praguejando, mas ele era um pouco mais que um mosquito irritante perto da força de Stark. Eu me virei para Erin.
— Não importa o que tenha acontecido, você é a água e o seu elemento é bem-vindo em nosso círculo, mas nós não precisamos de nenhuma energia negativa aqui. Isso é muito importante — fiz um movimento de cabeça indicando as aranhas para ela.
O olhar de Erin seguiu o meu e ela ofegou.
— Que diabos é isso?
Abri minha boca para me esquivar da pergunta dela, mas o meu instinto me deteve. Encontrei os olhos azuis de Erin.
— Acho que é o que sobrou de Neferet. Sei que é uma coisa do mal e que não pertence à nossa escola. Você vai nos ajudar a expulsar isso daqui?
— Aranhas são nojentas — ela começou, mas sua voz falhou quando ela olhou para Shaunee. Ela empinou o queixo e limpou a garganta. — Coisas nojentas têm que ir embora — decidida, ela andou até Shaunee e fez uma pausa. — Esta escola também é minha.
Eu achei que a voz de Erin soou meio rouca. Tive esperanças de que isso significasse que as emoções dela estavam descongelando e que talvez ela estivesse voltando a ser a garota que a gente conhecia.
Shaunee estendeu a mão. Erin a pegou.
— Estou feliz que você esteja aqui — Shaunee sussurrou.
Erin não disse nada.
— Seja discreta — eu falei para ela.
Erin assentiu com firmeza.
— Água, venha para mim — ela disse, e eu senti o cheiro do mar e das chuvas de primavera. — Molhe-as — ela continuou.
A água começou a gotejar nas gaiolas e uma poça se formou. Um punhado de aranhas se soltou do metal e mergulho na água abaixo delas.
— Stevie Rae — eu estendi a mão para ela, que a segurou e depois pegou a mão de Erin, fechando o círculo.
— Terra, venha para mim — ela disse. Os aromas e os sons de uma campina nos rodearam. — Não deixe essa coisa poluir o nosso campus.
Bem levemente, a terra tremeu sob nossos pés. Mas aranhas caíram das gaiolas para dentro das poças, agitando a água.
Finalmente, chegou a minha vez.
— Espírito, venha para mim. Ajude os elementos a expulsar essas Trevas que não pertencem à nossa escola.
Houve um barulho de vento e todas as aranhas despencaram das gaiolas, caindo dentro da poça. A água estremeceu e começou a mudar de forma, alongando-se, expandindo-se.
Eu me concentrei, sentindo a presença do espírito, o elemento com o qual eu tinha mais afinidade. Na minha mente, visualizei a poça de aranhas sendo jogada para fora de nosso campus, como se alguém estivesse esvaziando um balde de uma água de privada nojenta. Mantendo essa imagem em mente, eu ordenei:
— Agora, vá embora!
— Fora! — Damien ecoou.
— Suma! — Shaunee disse.
— Saia daqui! — Erin falou.
Agora, tchau! — Stevie Rae afirmou.
Então, como na minha imaginação, a poça de aranhas se levantou, como se elas fossem ser arremessadas da terra. Mas, em um piscar de olhos, a imagem se transformou em uma silhueta familiar – curvilínea, bela, mortal. As suas feições não estavam completamente formadas, mas eu reconheci a energia maligna que ela irradiava.
— Não! — eu gritei. — Espírito! Fortaleça cada elemento com o poder do nosso amor e lealdade! Ar! Fogo! Água! Terra! Eu os invoco, então que assim seja!
Houve um guincho terrível, e a aparição de Neferet foi impelida para frente. Ela ondulou sobre o nosso círculo, quebrando em cima de Erin como uma maré negra. Com o som de milhares de aranhas em movimento, o espectro escapou pela entrada principal da escola e então desapareceu completamente.
— Que merda. Isso foi mesmo asqueroso — Aphrodite disse.
Eu ia concordar com Aphrodite quando ouvi aquela primeira tosse horrível.
Senti o círculo se quebrar antes de vê-la cair de joelhos. Ela levantou os olhos para mim e tossiu de novo. O sangue escorreu de seus lábios.
— Não achei que isso fosse acabar assim — ela falou com a voz rouca.
— Vou chamar Thanatos! — Aphrodite saiu correndo.
— Não! Isso não pode estar acontecendo — Shaunee se ajoelhou ao lado de Erin, já ensopada de sangue. — Gêmea! Por favor. Você vai ficar bem!
Erin caiu nos braços dela. Damien, Stevie Rae e eu nos olhamos. Então, como se fôssemos um só, nós nos juntamos a Shaunee, enquanto ela amparava a sua amiga.
— Eu sinto muito — Shaunee soluçava. — Eu não queria ter dito nada daquelas coisas ruins que eu disse para você.
— Está... está tudo bem, gêmea — Erin falou devagar, entre uma tosse extenuante e outra, enquanto o sangue borbulhava na sua garganta e aquele líquido vermelho escorria dos olhos, nariz e ouvidos. — A culpa é minha. Eu... eu esqueci como se sente.
— Nós estamos aqui com você — eu toquei o cabelo de Erin. — Espírito, acalme-a.
— Terra, conforte-a — Stevie Rae disse.
— Ar, abrace-a — Damien pediu.
— Fogo, aqueça-a — Shaunee falou entre lágrimas.
Erin sorriu e tocou o rosto de Shaunee.
— Ele já me aqueceu. Eu... eu não me sinto mais fria e sozinha. Não sinto mais nada, só cansaço...
— Apenas descanse — Shaunee disse. — Eu vou ficar com você enquanto você dorme.
— Todos nós vamos — eu enxuguei as lágrimas do meu rosto com a manga.
Erin sorriu mais uma vez para Shaunee e então fechou os olhos e morreu nos braços de sua gêmea.

5 comentários:

  1. Que triste. Seria insensível também dizer que foi rápido?

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  2. Ela tava sendo uma vaca, mas foi triste sua morte.

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  3. House of night é uma série que você não pode se apegar a ninguém porque de repente a pessoa morre.

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  4. Talvez ela volte como caloura ou vampira vermelha afinal isso ta praticamente uma rotina

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