18 de outubro de 2015

Onze - Prazer em conhecê-lo. Agora, vou esmagar sua traqueia

DESABEI NA GRAMA.
Fiquei olhando os galhos da árvore com o céu azul ao fundo, senti dificuldade de respirar. Fazia anos que eu não tinha crise de asma, mas me lembrava das noites em que minha mãe me abraçava enquanto eu ofegava, sentindo como se um cinto invisível estivesse apertando meu peito. Talvez vocês estejam se perguntando por que minha mãe me levava para acampar e para subir montanhas se eu tinha asma, mas me fazia bem ficar ao ar livre.
Deitado no meio do átrio, inspirei o ar fresco e torci para que meus pulmões se acalmassem.
Infelizmente, eu tinha quase certeza de que aquilo não era asma, e sim um colapso nervoso. O problema não era só estar morto, preso em um pós-vida viking bizarro em que as pessoas pediam cabeça de porco no serviço de quarto e empalavam os amigos no saguão.
Pelo meu histórico de vida, aquilo era aceitável. É claro que eu acabaria em Valhala no meu décimo sexto aniversário. Era meu destino.
O que me abalou mesmo foi estar, pela primeira vez desde que minha mãe morreu, em um lugar confortável, sozinho e em segurança (pelo menos assim espero). Abrigos não contavam. Refeitórios populares, marquises e sacos de dormir debaixo da ponte também não. Eu sempre dormi com um olho aberto e outro fechado. Nunca relaxava. Agora, estava livre para pensar.
E pensar não era nada bom.
Não tive o luxo de sofrer a perda de minha mãe. Não tive tempo de me sentar e sentir pena de mim mesmo. De certa forma, isso foi tão útil para mim quanto as habilidades de sobrevivência que ela me ensinou: navegar, acampar, como fazer uma fogueira.
Todas aquelas viagens a parques, montanhas, lagos. Enquanto o Subaru velho dela funcionasse, passávamos todos os fins de semana fora, explorando a natureza.
De que estamos fugindo?, perguntei a ela numa sexta-feira, alguns meses antes de sua morte. Eu estava irritado. Queria dormir em casa uma vez na vida. Não entendia aquele desespero frenético de fazer as malas e partir.
Ela sorriu, mas pareceu mais preocupada do que de costume. Temos que aproveitar o máximo possível, Magnus.
Será que ela me preparou desse jeito de propósito? Era quase como se soubesse o que aconteceria... Mas não era possível. Se bem que ser filho de um deus nórdico também era bem improvável.
Minha respiração ainda estava abalada, mas me levantei e andei pelo novo quarto. Na foto sobre a lareira, o Magnus de oito anos exibia um sorriso com janelinhas e o cabelo embaraçado. Aquele garoto não tinha noção de nada, não dava valor para o que tinha.
Analisei as prateleiras. Ali estavam meus autores de fantasia e horror favoritos de uns anos atrás: Stephen King, Darren Shan, Neal Shusterman, Michael Grant, Joe Hill; minhas séries favoritas de quadrinhos: Scott Pilgrim, Sandman, Watchmen, Saga; além de um monte de livros que eu pretendia ler na biblioteca. (Dica de sem-teto profissional: bibliotecas públicas são abrigos seguros. Têm banheiros. Raramente expulsam crianças que estão lendo, a não ser que estejam fedendo ou arrumando confusão.)
Peguei o livro infantil ilustrado de mitos nórdicos que minha mãe lia para mim quando eu era pequeno. Dentro, havia imagens simplórias de deuses vikings sorridentes, arco-íris, flores e garotas louras bonitas. Além de frases como Os deuses viviam em um reino maravilhoso e lindo!. Não havia menção alguma a Surt, o Negro, colocando fogo em carrinhos de bebê e jogando asfalto derretido, nada sobre lobos assassinando a mãe dos outros e explodindo apartamentos. Isso me deixou irritado.
Na mesa de centro havia um caderno com capa de couro intitulado SERVIÇOS PARA HÓSPEDES. Dei uma folheada. O cardápio tinha umas dez páginas. A lista de canais de TV era quase tão longa, e o mapa do hotel, tão complicado, dividido em tantas subseções, que não consegui entender. Não havia indicação de portas de emergência informando: SAIA POR AQUI PARA VOLTAR PARA A VIDA ANTIGA!
Joguei o livro na lareira.
Enquanto ele queimava, outro apareceu na mesa de centro. O hotel mágico idiota não me deixava nem vandalizar as coisas direito.
Em um acesso de fúria, derrubei o sofá. Eu não esperava que fosse longe, mas saiu rolando pela sala e bateu na parede do outro lado.
Fiquei olhando para a trilha de almofadas espalhadas, para o sofá de cabeça para baixo, para o reboco rachado e as marcas de couro na parede. Como fiz aquilo?
O sofá ficou onde caiu, não voltou para o lugar num passe de mágica. A raiva foi passando. Acho que só arrumei mais trabalho para algum pobre funcionário como Hunding. Isso não foi justo.
Andei mais um pouco de um lado para o outro, lembrando do cara negro e flamejante na ponte e me perguntando por que ele queria a espada. Eu queria que Surt tivesse morrido também, e que a morte dele tivesse sido mais permanente, mas não estava otimista. Se pelo menos Blitz e Hearth tivessem se safado em segurança... (Ah, é. E Randolph também.)
E a espada... onde foi parar? No fundo do rio de novo? Valhala podia me ressuscitar com uma barra de chocolate no bolso, mas não com uma espada na mão. Isso era esquisito.
Nas velhas histórias, Valhala era o lugar de heróis que morreram em batalha. Eu me lembrava dessa parte. Não me sentia nem um pouco herói. Levei uma surra e uma bolada na barriga. Ao perfurar Surt e cair da ponte, falhei da forma mais produtiva possível. Morte honrada? Nem tanto. Fiquei paralisado.
Uma ideia me atingiu com a força de um martelo.
Minha mãe... Ela sim havia morrido com honra. Para me proteger de...
Nessa hora, alguém bateu na porta.
A porta se abriu e uma garota entrou... a mesma que sobrevoava a batalha na ponte e me puxou pelo vazio cinzento.
Ela estava sem o elmo, a cota de malha e a lança brilhante. O lenço verde estava ao redor do pescoço, e o cabelo castanho comprido caía livremente pelos ombros. O vestido branco tinha runas vikings bordadas ao redor da gola e dos punhos. Pendurados no cinto dourado havia um molho de chaves antigas e um machado de lâmina única. Parecia a dama de honra de um casamento do Mortal Kombat.
Ela olhou para o sofá caído.
— A mobília ofendeu você?
— Você é real — observei.
Ela bateu nos próprios braços.
— É, aparentemente.
— Minha mãe.
— Não — disse — não sou sua mãe.
— Não, digo, ela está aqui em Valhala?
A garota ficou de boca aberta. Olhou por cima do meu ombro, como se elaborando a resposta.
— Desculpa. Natalie Chase não está entre os Escolhidos.
— Mas ela foi a corajosa. Ela se sacrificou por mim.
— Eu acredito em você. — A garota examinou o chaveiro. — Mas eu saberia se ela estivesse aqui. Nós, valquírias, não temos permissão de escolher todo mundo que morre bravamente. Há... muitos fatores, muitas vidas após a morte diferentes.
— Então onde ela está? Eu quero ir para lá. Eu não sou um herói!
A garota correu na minha direção e me empurrou contra a parede com a mesma facilidade com que virei o sofá. E pressionou o antebraço no meu pescoço.
— Não diga isso — sibilou. — NÃO DIGA ISSO! Principalmente não hoje à noite, no jantar.
O hálito dela tinha cheiro de menta. Os olhos eram ao mesmo tempo escuros e cintilantes. Lembravam um fóssil que minha mãe tinha, a concha de um animal marítimo semelhante ao náutilo chamado amonite. Parecia ter um brilho interno, como se tivesse absorvido milhões de anos de lembranças enquanto ficou enterrado. Os olhos da garota tinham o mesmo tipo de brilho.
— Você não entende — gemi. — Eu tenho que...
Ela apertou meu pescoço com mais força.
— O que você acha que não entendo? A dor pela perda de sua mãe? A injustiça? Estar em um lugar onde você não quer estar, sendo obrigado a lidar com gente que você preferia não ver?
Eu não sabia como responder, principalmente porque não conseguia respirar.
Ela se afastou. Enquanto eu tossia e engasgava, ela andou pelo saguão, olhando de cara feia para nada em particular. O machado e as chaves balançavam no cinto.
Massageei meu pescoço machucado.
Que burrice, Magnus, falei para mim mesmo. Novo lugar, aprenda as regras.
Eu não podia começar a choramingar e fazer exigências. Tinha que deixar a questão da minha mãe de lado. Se ela estivesse em algum lugar, eu descobriria depois. No momento, aquele hotel não era diferente de um abrigo para jovens, acampamento de beco ou refeitório comunitário da igreja. Cada lugar tinha suas regras. Eu precisava aprender a estrutura de poder, a ordem hierárquica, as proibições que me fariam ser perfurado ou atacado. Eu tinha que sobreviver... mesmo que já estivesse morto.
— Me desculpe — falei. Sentia como se tivesse engolido um roedor vivo cheio de garras. — Mas que importância tem para você se sou herói ou não?
Ela bateu na testa.
— Uau, tudo bem. Talvez porque tenha sido eu que trouxe você para cá? Talvez porque minha carreira esteja em jogo? Mais um escorregão e... — Ela se controlou. — Não importa. Quando você for apresentado, siga o que eu disser. Fique de boca fechada, concorde e tente parecer corajoso. Não faça com que eu me arrependa de ter trazido você.
— Tudo bem. Mas, só para lembrar, eu não pedi nada.
— Pelo Olho de Odin! Você estava morrendo! Suas outras opções eram Helheim ou Ginnungagap ou... — Ela estremeceu. — Só digo que existem lugares piores do que Valhala. Eu vi o que você fez na ponte. Por mais que não admita, você foi corajoso. Você se sacrificou para salvar muita gente.
As palavras dela soavam como um elogio. O tom como se ela estivesse me chamando de idiota.
A garota veio até mim e me cutucou no peito.
— Você tem potencial, Magnus Chase. Não prove que estou errada, senão...
Uma corneta soou tão alto nos alto-falantes das paredes que sacudiu a foto sobre a lareira.
— O que é isso? — perguntei. — Ataque aéreo?
— Jantar. — A garota se aprumou. Respirou fundo e estendeu a mão. — Vamos começar de novo. Oi, sou Samirah al-Abbas.
Eu pisquei.
— Não me leve a mal, mas esse nome não me parece muito viking.
Ela deu um sorriso tenso.
— Pode me chamar de Sam. Todo mundo me chama assim. Serei sua valquíria esta noite. É um prazer conhecer você propriamente.
Ela apertou minha mão com tanta força que meus dedos estalaram.
— Agora, vou acompanhá-lo ao jantar. — Deu um sorriso forçado. — Se me fizer passar vergonha, vou ser a primeira a matar você.

35 comentários:

  1. Respostas
    1. Fui falar uns nomes desses aí e apareceu um pentagrama vermelho no chão .-.

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    2. ahueahueahueahue como seria? "Magsam"? ahueahue

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    3. Já ouviram falar em "sagu"?
      Então... eu sugiro sagu no plural, com um "n" no meio, tipo assim: "Sagnus" kkkkkkkkkk
      Só que eu não estou shippando os dois... ainda. Apenas estou sugerindo um nome para os shippers.
      E então o que acham?

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    4. Samirah al-Abbas + Magnus Chase :
      §£¢ Γ δ ∆ ζ∆ δ ε ζ ε Θ µν Ξ ξ πΣ σ Φ Ψ Ω ω
      Num deu certo O.o

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    5. Samag
      <3 Melhor

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    6. KKKKKKKKK MORRI COM ESSES SHIPPERS

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    7. Rachei com "sagu no plural"

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  2. — Agora, vou acompanhá-lo ao jantar. — Deu um sorriso forçado. — Se me fizer passar vergonha, vou ser a primeira a matar você.
    Já gostei dela!

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    1. caçadora de Artermis5 de janeiro de 2016 17:25

      lembra um pouco a Thalia

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    2. Me lembrou a Annabeth no primeiro livro do Percy Jackson, o jeito que ela trata o Jovem rapaz

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  3. Só espero que o cabelo dela não tenha cheiro de limão....

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  4. ja estou shippando SamxMagnus
    ainda não pensei num nome legal pro shipp n.n

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  5. É tipo Percy a Annabeth Bate depois beija

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  6. Lara Erudite Maris23 de outubro de 2015 17:21

    Samagnus? <(0.0)>

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  7. Opa.. Ainda nao vo me animar com o shipp pq percy e anabeht demoraram 5 anos pra ficar juntos.. sabe-se la esses dois hein..

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    1. O rick anunciou que vai ser uma triologia não uma quintologia como PJO

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    2. foram SÓ 4 ANOS
      não 5

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  8. MENINA SIMPÁTICA,aliás agora sei porque tem uns trocentos capítulos e porque é tudo pequeno.

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  9. Ela me lembra a Zoe das Crônicas dos Kane.....

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  10. Magnus + Sam= amor

    só eu shippo ?

    sarcasmo on~

    a Sam é super simpática ,educada ,amável

    sarcasmo of~

    ~coruja

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  11. Eu terminei o livro agr e to shippando os dois demais, sou mto trouxaaaaaaaa

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    1. somos duas, linda o/
      to com muito medo desse shipp não virar cannom :/

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  12. "No momento, aquele hotel não era diferente de um abrigo para jovens, acampamento de beco"
    Mais uma referência

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  13. "Ali estavam meus autores de fantasia e horror favoritos de uns anos atrás: Stephen King, Darren Shan, Neal Shusterman, Michael Grant, Joe Hill; minhas séries favoritas de quadrinhos: Scott Pilgrim, Sandman, Watchmen, Saga; além de um monte de livros que eu pretendia ler na biblioteca."
    Estou oficialmente casada com Magnus Chase. PESSOAS QUE LEEM WATCHMEN MERECEM MEU DEVIDO RESPEITO ♥

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  14. Amei essa nova personagem kkkkk
    E ainda por cima tmb me chamo Samira

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