29 de outubro de 2015

Oito

— E aí? — Ele sorri e se senta segundos depois de o sinal tocar, mas, como a aula é do Sr. Robins, isso é o mesmo que chegar cedo.
Cumprimento-o apenas com um aceno de cabeça, de um jeito displicente, neutro, como se não estivesse nem aí para ele. Esperando esconder o fato de que, a essa altura, estou tão a fim que até ando sonhando com ele.
— Sua tia parece ser uma pessoa legal — ele diz, olhando para mim e batendo com a caneta na carteira, num irritante tec tec tec.
— É, ela é muito legal — resmungo, furiosa com o Sr. Robins, que não sai daquele banheiro, desejando que ele largue o maldito cantil de uísque e venha logo dar sua aula.
— Também não moro com minha família — diz Damen, a voz silenciando a sala, aquietando meus pensamentos, enquanto ele gira a caneta na ponta dos dedos, para lá e para cá, sem deixá-la cair.
Não digo nada. Apenas ajusto o iPod no compartimento secreto do capuz, cogitando ligar a música para bloquear Damen também. Não, isso seria grosseiro demais.
— Fui emancipado — ele acrescenta.
— Sério? — pergunto, apesar de ter prometido a mim mesma limitar nossas conversas ao mínimo necessário. Só que, bem, nunca conheci outro emancipado e sempre achei que todos fossem pessoas tristes e solitárias. Mas, a julgar pelo carro que dirige, as roupas que usa e os lugares que frequenta nas noites de sexta, Damen não parece nem um pouco infeliz com sua condição.
— Sério — ele diz. E assim que para de falar ouço os cochichos febrilmente trocados entre Stacia e Honor, que me chamam de esquisitona e outros qualificativos bem menos simpáticos que esse. Depois me espanto ao vê-lo arremessar a caneta para o alto, sorrindo enquanto ela desenha uma série de oitos preguiçosos no ar, antes de aterrissar perfeitamente na ponta do dedo dele. — E sua família, onde está? — ele pergunta.
Como é estranha essa alternância entre barulho e silêncio, barulho e silêncio, barulho e silêncio... Parece até uma versão nova para a dança das cadeiras, uma versão em que sempre acabo sobrando de pé.
— O quê? — digo, distraída pela caneta que agora paira entre a gente, bem como pelos comentários de Honor a respeito de minhas roupas. Quanto ao namorado dela, bem, o garoto concorda com tudo, feito um cordeirinho, mas ao mesmo tempo se pergunta por que ela, Honor, nunca se veste como eu. Minha vontade é pôr o capuz, ligar o iPod no volume máximo e dar um fim a essa história toda. Em tudo. Inclusive em Damen.
Principalmente em Damen.
— Onde sua família mora? — ele pergunta.
Fecho os olhos enquanto ele fala, saboreando a delícia que são esses poucos segundos de silêncio. Depois volto a abri-los e, encarando-o digo:
— Estão todos mortos.
Finalmente o Sr. Robins entra na sala.
— Sinto muito.
Damen se senta à minha frente na mesa do almoço, e eu corro os olhos pelo pátio, ansiosa para que Haven e Miles não demorem a chegar. E quando abro a bolsa com o lanche, vejo o quê? Uma tulipa! Igualzinha à do outro dia, espetada entre o sanduíche e o saco de batatas fritas. Não sei como ele fez isso, mas tenho certeza de que foi Damen quem a colocou ali. Na verdade, não são os truques de mágica que me incomodam, mas o jeito como ele olha para mim, fala comigo, aquilo que me faz sentir...
— Sua família. Eu não sabia que...
Olhando para baixo, fico rodando a tampinha da garrafa de suco para lá e para cá, para cá e para lá, preferindo mil vezes que ele tivesse esquecido o assunto.
— Não gosto de falar nisso — digo.
— Sei como é perder as pessoas que a gente ama — ele sussurra, estendendo o braço por cima da mesa e colocando a mão sobre a minha.
Sinto uma onda tão boa de calma, aconchego e segurança... Que fecho os olhos e baixo a guarda, entregando-me totalmente a esse momento de paz, feliz por ouvir o que ele diz, e não o que ele pensa. Feito uma garota normal. Mas com um garoto bem mais lindo que o normal.
— Hmm, licença — diz alguém. Abro os olhos novamente e dou de cara com Haven, as mãos plantadas na mesa, os olhos amarelos apertados e fixos em nossas mãos. — Eu não queria interromper.
Imediatamente coloco a mão no bolso, como se estivesse fazendo algo errado, algo que ninguém deveria ter visto. Minha vontade é explicar que aquilo não havia sido nada, que não significava nada, mas conheço minha amiga o bastante para saber que seria inútil.
— Cadê o Miles? — falo afinal, sem saber mais o que dizer.
Haven revira os olhos e senta ao lado de Damen, a aura passando de um amarelo forte a um vermelho muito escuro em razão dos maus pensamentos.
— Miles está trocando torpedos com sua nova paixão da internet, bilau_ no_cio_307 — ela diz, evitando meu olhar enquanto desembrulha seu cupcake. Em seguida, virando-se para Damen, acrescenta: — Então, como foi o fim de semana de todo mundo?
Mesmo sabendo que a pergunta não foi dirigida a mim, dou de ombros e fico olhando para minha amiga. Como faz todo santo dia, Haven prova o cupcake com a ponta da língua. (Nem sei por que faz isso; nunca a vi recusar um único cupcake desde que a conheço!) Mas quando volto o olhar para Damen, fico chocada ao vê-lo sacudindo os ombros também: pelo que vi na sexta-feira, imaginei que o fim de semana dele havia sido infinitamente melhor que o meu.
— Bem, como vocês podem imaginar — continua Haven —, minha noite de sexta foi um fracasso. Ótimo — diz ironicamente. — Passei a maior parte do tempo limpando o vômito do Austin, já que a empregada tinha ido pra Las Vegas e meus pais não se deram o trabalho de voltar de sei lá onde eles estavam. O sábado, em compensação, foi sen-sa-ci-o-nal! Tipo, o melhor da minha vida! Teria chamado vocês, claro, mas foi tudo de última hora. — Só então ela me dirige o olhar.
— Aonde você foi afinal? — pergunto como quem não quer nada, embora tenha acabado de ver um lugar escuro, de péssima energia.
— Uma boate muito irada a que uma garota do meu grupo me levou.
— Qual grupo? — Tomo um gole de água.
— Sábado é dia dos codependentes — ela responde sorrindo. — Bem essa tal garota, a Evangeline... Ela é hardcore total! Do tipo que eles chamam de doadora.
— Quem chama o que de doadora? — pergunta Miles, deixando seu Sidekick sobre a mesa e sentando-se a meu lado.
— Os codependentes — respondo, colocando-o a par. Haven revira os olhos e diz:
— Eles não, garota. Os vampiros. Doador é qualquer um que deixe outros vampiros se alimentarem dele. Chupar o sangue sabe, essas coisas. Mas eu sou o que eles chamam de “cachorrinho”, porque só fico por perto deles. Não deixo ninguém se alimentar de mim. Pelo menos, ainda não. — Ela ri.
— Por perto de quem? — pergunta Miles, levantando o Sidekick e conferindo as mensagens.
— Dos vampiros! Poxa, cara, se liga! Então. Essa codependente doadora, a tal da Evangeline... Aliás, este é só o nome de vampiro dela, não o nome real...
— As pessoas têm um nome de vampiro? — intervém Miles outra vez, deixando o telefone na mesa, agora num lugar onde possa vigiá-lo.
— Pode crer. — Haven faz que sim com a cabeça, empurrando o glacê do cupcake e lambendo a ponta do dedo.
— É como um nome de stripper? Tipo, o nome de seu primeiro animalzinho de estimação mais o nome de solteira de sua mãe? Porque aí meu nome seria Princesa Slavin. Uau, abalei. — Ele desanda a rir.
Haven suspira em busca de paciência.
— Ai, não é nada disso, garoto. Nome de vampiro é assunto sério pra caramba. Aliás, ao contrário da maioria, nem preciso trocar o meu, porque Haven já é nome de vampiro, orgânico, cem por cento natural, sem aditivos ou conservantes. — Ela ri. — Falei pra vocês que eu era uma princesa das trevas, não falei? Bem, voltando, a gente foi pra essa boate ultra descolada em algum lugar de Los Angeles, chamada Nocturnal ou qualquer nome parecido.
— Nocturne — corrige Damen, encarando Haven e dando um gole em sua bebida.
Ela larga o cupcake e começa a aplaudir.
— Muito bem! — exclama. — Finalmente alguém que sabe das paradas nesta mesa!
— E por acaso você encontrou algum “imortal” por lá? — ele pergunta, ainda com os olhos fixos nela.
— Milhares! O lugar estava lotado. Tinha até uma área VIP reservada só pra bruxos. Claro que dei um jeito de entrar, né? Tomei todas no bar de sangue.
— Ninguém pediu sua carteira de identidade? — pergunta Miles, digitando algo no telefone, participando de duas conversas ao mesmo tempo.
— Pode rir quanto quiser, porque me diverti muito! Mesmo depois de a Evangeline ter me dispensado para se embolar com um cara lá. Porque acabei conhecendo outra garota, mais irada ainda. Que, aliás, acabou de se mudar pra cá também. É bem provável que a gente comece a andar juntas.
— Mentira! — exclama Miles, fingindo espanto. — Você está dispensando a gente?
Haven revira os olhos.
— Não amole garoto. Só sei de uma coisa: meu sábado foi muito melhor que o de vocês. Talvez não o seu, Damen, porque você é um cara antenado, sabe das tendências, ao contrário desses dois manés aí — ela diz, apontando para mim e Miles.
— Então, como foi o jogo? — Dou uma cotovelada em Miles para que ele deixe de lado o cibernamorado e preste atenção exclusivamente em nós.
— Sei lá. Só sei que tinha muita gente torcendo, um time que ganhou e outro que perdeu. Quanto a mim, passei a maior parte do tempo no banheiro teclando com esse carinha aqui, que aparentemente é um mentiroso de marca maior — Balançando a cabeça, ele nos mostra o visor do telefone. — Olhem só pra isto! — ele diz, fincando o indicador no aparelho. — Passei o fim de semana inteiro pedindo uma foto dele, porque jamais vou me encontrar com ninguém sem ter visto antes, né? E é isto o que o desgraçado manda! Estúpido exibido!
Dou uma olhada rápida na tal foto e não entendo o porquê de tanta revolta.
— Como você sabe que este aí não é ele? — pergunto. Mas é Damen quem responde:
— Porque este aí sou eu.

18 comentários:

  1. kkkkkkkkkk, To rindo, mas não entendi! kkkkkkkkkkkkk
    Ass: Bina.

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    1. Fernanda Boaventura1 de novembro de 2015 22:28

      Também Não! kkkkkkkkkkkk

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    2. Tbm não kkkkkkkkkk

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    3. Eu tava pensando q a coisa era seria ai vem a bombo kkkk nao intendi Porcaria nem uma ( MAIS TO AMANDO)

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  2. Kkkkkkkk moldes e perfeito morro de rir
    Ass>amanda

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  3. Mano não entendi porcaria nenhuma kkkkkkkk rindoooo o o muito

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  4. essa serie é a mais confusa do mundo nunca fiquei boiando tanto assim kkkkkkkkkkkkk

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  5. — Miles está trocando torpedos com sua nova paixão da internet, bilau_ no_cio_307 KKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKK ESTOU MORTA
    cara
    miles e o melhor

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  6. kkkkk só eu entendi kkkkkkk
    o carinha q ta falando com o Miles mandou uma foto que deve ter tirado do Damen, e ai quando ele viu descobriu que ele tava mentindo

    "— Miles está trocando torpedos com sua nova paixão da internet, bilau_ no_cio_307 — ela diz, evitando meu olhar enquanto desembrulha seu cupcake. Em seguida, virando-se para Damen, acrescenta: — Então, como foi o fim de semana de todo mundo?" Kkkkkkk morri bilau_ no_cio_307

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  7. Pelo visto ninguém entendeu kkkkkkkkkk
    Tô AMANDO o Miles ♥

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  8. realmente boiando aqui kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkks

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  9. Tô asdorando muito tudo isso! 😂😂😂😂

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  10. O cara mandou a foto de Demem, falando para o Miles q era ele por isso ele saber q o cara la ta mentindo

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  11. Véii, odeio a amiga dela, ecaaa...

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  12. ana paula laurentina (filosofando)3 de outubro de 2017 05:42

    que brisa😂😂 kkk...

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Boa leitura :)