18 de outubro de 2015

Oito - Cuidado com o abismo, e também com o cara barbudo com o machado

NA ESCOLA, EU adorava terminar histórias assim.
É a conclusão perfeita, não é? Billy foi à escola. Teve um dia lindo. Então morreu. Fim.
Não deixa o leitor na expectativa. Não deixa pontas soltas.
Mas no meu caso, não.
Talvez vocês estejam pensando: Ah, Magnus, você não morreu pra valer. Ou não estaria contando esta história. Foi por pouco. No último segundo, você foi milagrosamente resgatado, blá-blá-blá.
Não. Eu morri mesmo. Cem por cento: barriga perfurada, órgãos vitais queimados, traumatismo craniano depois de uma queda de doze metros em um rio congelado, todos os ossos quebrados, pulmões cheios de água gelada.
O termo médico para isso é morto.
Nossa, Magnus, e como foi?
Doeu. Muito. Agradeço a preocupação.
Comecei a sonhar, o que foi estranho; não só porque eu estava morto, mas porque nunca sonho. As pessoas já tentaram argumentar comigo sobre isso. Disseram que todo mundo sonha, que eu só não lembrava dos meus. Mas afirmo: dormir para mim sempre foi como estar morto. Até eu estar mesmo morto. Aí, sonhei como uma pessoa normal.
Eu estava fazendo uma caminhada com minha mãe em Blue Hills. Devia ter uns dez anos. Era um dia quente de verão, com uma brisa fresca soprando dos pinheiros. Paramos no lago Houghton para jogar pedrinhas na água. Consegui fazer a minha quicar três vezes. Minha mãe conseguiu quatro. Ela sempre vencia, mas nenhum de nós ligava. Ela ria e me abraçava, e isso bastava para mim.
É difícil falar dela. Para realmente entender Natalie Chase, era preciso conhecê-la. Ela brincava que seu arquétipo era a Sininho, de Peter Pan. Se vocês conseguirem imaginar a Sininho com trinta e poucos anos e sem asas, usando camisa de flanela, calça jeans e botas, vão ter uma boa imagem da minha mãe. Era uma moça pequena com feições delicadas, cabelo louro curtinho e olhos verdes com um brilho alegre. Sempre que ela lia histórias para mim, eu ficava tentando contar as sardinhas no seu nariz.
Minha mãe irradiava alegria, não há outra forma de descrevê-la. Ela adorava a vida. Seu entusiasmo era contagiante. Era a pessoa mais gentil e tranquila que eu já conheci... até semanas antes de sua morte.
No sonho, ainda faltava muito para isso acontecer. Estávamos juntos no lago. Ela respirou fundo, inspirou o aroma de agulhas quentes de pinheiro e disse:
— Foi aqui que conheci seu pai. Em um dia de verão como este.
O comentário me surpreendeu. Ela raramente falava sobre meu pai. Eu não o conheci, nunca nem vi fotos. Isso pode parecer estranho, mas minha mãe não falava muito do relacionamento deles, então eu não perguntava.
Ela deixou claro que meu pai não tinha nos abandonado, apenas seguido em frente. Não havia ressentimentos. Restavam apenas boas lembranças do pouco tempo que ficaram juntos. Quando terminou, ela descobriu que estava grávida de mim e ficou feliz da vida. Desde então, éramos só nós dois. Nunca precisamos de mais ninguém.
— Você o conheceu no lago? — perguntei. — Ele era bom em arremessar pedras?
Ela riu.
— Ah, era. Ele me vencia de lavada. Naquele primeiro dia... foi perfeito. Bem, exceto por uma coisa. — Ela me puxou e beijou minha testa. — Eu não tinha você ainda, docinho.
Pois é, minha mãe me chamava de docinho. Podem rir. Conforme fui ficando mais velho, isso foi me deixando constrangido, mas só quando ela ainda estava viva. Agora, eu daria qualquer coisa para ouvi-la me chamar de docinho de novo.
— Como meu pai era? — perguntei. Foi estranho dizer meu pai. Como alguém que você nem conhece pode ser seu? — O que aconteceu com ele?
Minha mãe abriu os braços para a luz do sol.
— Foi por isso que eu trouxe você aqui, Magnus. Não consegue sentir? Ele está ao nosso redor.
Não entendi o que ela quis dizer. Normalmente, minha mãe não usava metáforas. Era tão literal e pé no chão quanto se podia imaginar.
Ela bagunçou meu cabelo.
— Venha, vamos apostar corrida até a praia.
Meu sonho mudou. Eu estava na biblioteca do tio Randolph. Na minha frente, deitado de lado na mesa, havia um homem que eu nunca tinha visto. Ele estava passando os dedos pela coleção de mapas antigos.
— A morte foi uma escolha interessante, Magnus.
O homem sorriu. Suas roupas pareciam novinhas em folha: tênis brancos reluzentes, calça jeans e camisa do Red Sox. O cabelo macio era uma mistura de ruivo, castanho e louro, despenteado de um jeito estiloso que dizia acabei de sair da cama e já estou bonito. O rosto era incrivelmente lindo. Ele poderia fazer comerciais de loção pós-barba, mas as cicatrizes arruinavam a perfeição. Pele queimada se esticava pelo nariz e bochechas, como linhas na superfície da lua. Também havia marcas ao redor da boca inteira, como buracos de piercing já cicatrizados. Mas por que alguém teria tantos piercings na boca?
Eu não sabia o que dizer para a alucinação cheia de cicatrizes, mas, como as palavras da minha mãe ainda ecoavam na minha cabeça, perguntei:
— Você é meu pai?
A alucinação ergueu as sobrancelhas. Então inclinou a cabeça para trás e riu.
— Ah, gostei de você! Vamos nos divertir. Não, Magnus Chase, não sou seu pai, mas pode ter certeza de que estou do seu lado. — Ele passou o dedo por debaixo do logotipo dos Red Sox na camisa. — Você vai conhecer meu filho em breve. Até lá, um conselhinho: as aparências enganam. Não confie nos motivos dos seus companheiros. Ah, e — ele se esticou na minha direção e agarrou meu pulso — diga ao Pai de Todos que eu mandei um oi.
Tentei me soltar. Sua mão parecia feita de aço. O sonho mudou. De repente, eu estava voando em meio a uma névoa cinza e fria.
— Pare de se contorcer! — disse uma voz feminina.
A garota que vi sobrevoando a ponte estava segurando meu pulso. Ela disparou galopando em seu cavalo de névoa, me puxando como se eu fosse um saco de roupa suja. A lança flamejante estava presa às suas costas. A armadura de cota de malha brilhava na luz cinzenta.
Ela me segurou com mais força.
— Você quer cair no Abismo?
Tive a sensação de que aquilo não era uma metáfora. Quando olhei para baixo, não vi nada, só um cinza infinito. Concluí que não queria cair ali.
Tentei falar. Não consegui. Balancei a cabeça, sem forças.
— Então pare de se mexer tanto — ordenou ela.
Por baixo do elmo, alguns fios de cabelo castanho escapavam do lenço verde. Os olhos dela eram da cor de tronco de sequoia.
— Não faça com que eu me arrependa disso — concluiu.
Perdi a consciência.

* * *

Acordei ofegante e assustado, com todos os músculos formigando.
Sentado, toquei minha barriga, esperando encontrar um buraco chamuscado onde antes ficavam meus intestinos. Não havia asfalto quente ali. Não sentia dor. A espada havia sumido. Minhas roupas pareciam estar em boas condições: nem molhadas, nem queimadas, nem rasgadas.
Na verdade, elas pareciam ser novinhas em folha. Fazia semanas que eu usava as mesmas roupas: minha única calça jeans, algumas camisas, minha jaqueta, mas elas agora não estavam fedendo. Era como se alguém tivesse lavado e secado as peças e me vestido outra vez enquanto eu estava inconsciente – o que era uma ideia perturbadora. Estavam até com aroma de limão, que me lembrava dos bons tempos em que minha mãe lavava minha roupa. Meus sapatos pareciam novos, tão brilhantes como na vez em que os peguei no lixão atrás da Marathon Sports.
Mais estranho ainda: eu estava limpo. Minhas mãos não estavam imundas. Parecia que eu havia acabado de tomar banho. Passei os dedos pelo cabelo e não encontrei nenhum nó, galho ou pedaço de lixo embolado nos fios.
Lentamente, me levantei. Eu não tinha nem um arranhão. Balancei o corpo. Sentia que era capaz de correr mais de um quilômetro. Inspirei o aroma de lenha queimando na lareira e de tempestade iminente. Quase ri de alívio. De alguma forma, sobrevivi!
Só que... não era possível.
Onde eu estava?
Aos poucos meus sentidos foram se expandindo. Eu estava no pátio de entrada de uma mansão opulenta, como as de Beacon Hill, com oito andares de calcário branco e mármore cinza imponentes se projetando ao céu de inverno. A porta dupla da frente era de madeira escura e pesada com rebites de ferro. No centro de cada uma havia uma aldrava de cabeça de lobo em tamanho real. Lobos... isso já bastava para que eu odiasse o lugar.
Olhei em volta, procurando uma saída. Não havia nenhuma; o pátio era cercado por um muro de calcário branco de mais ou menos cinco metros. Como era possível não ter nenhum portão de entrada?
Eu não conseguia ver direito por cima do muro, mas ainda estava em Boston, obviamente. Reconheci alguns prédios ao redor. Ao longe, via as torres do Downtown Crossing. Eu devia estar na rua Beacon, em frente ao parque Boston Common. Mas como tinha chegado ali?
No canto do pátio havia uma bétula alta com tronco branco. Pensei em subir nela para pular o muro, mas não alcançava nem os galhos mais baixos. Então, percebi que a árvore estava cheia de folhas, o que não era possível no inverno. Além disso, as folhas brilhavam em um tom de dourado, como se alguém as tivesse folheado a ouro.
Ao lado da árvore, havia uma placa de bronze presa à parede. A princípio, eu nem tinha reparado, pois havia marcadores históricos em metade das construções de Boston, mas resolvi dar uma olhada. As inscrições estavam em duas línguas: uma no alfabeto nórdico que eu vira mais cedo, e a outra eu conseguia entender.

BEM-VINDO AO BOSQUE DE GLASIR.
PROIBIDO MENDIGAR. PROIBIDO VADIAR.
PARA ENTREGAS: USAR A ENTRADA DE NIFLHEIM.

Certo... eu já tinha estourado minha cota diária de bizarrice. Precisava sair dali. Precisava pular o muro, descobrir o que havia acontecido com Blitz e Hearth, e talvez até com tio Randolph, se eu estivesse sendo generoso, depois talvez pegar carona até a Guatemala. Já estava de saco cheio daquela cidade.
De repente, a porta dupla se abriu com um rangido, irradiando uma luz dourada ofuscante. Um homem corpulento apareceu na entrada, usando uniforme de porteiro: cartola, luvas brancas e um paletó verde-escuro com cauda e as letras HV bordadas na lapela. Mas não era possível que aquele cara fosse mesmo um porteiro. O rosto cheio de verrugas estava manchado de cinzas. A barba não devia ser aparada havia décadas. Os olhos estavam injetados de sangue e com uma expressão assassina, e havia um machado de lâmina dupla ao lado dele. O crachá dizia: HUNDING, SAXÔNIA, MEMBRO ESTIMADO DA EQUIPE DESDE 749 EC.
— D-Desculpe — falei, gaguejando. — Eu devo... hã, casa errada.
O homem fez uma careta, aproximou-se e me cheirou. Ele mesmo cheirava a seiva de árvore e carne queimada.
— Casa errada? Acho que não. Você precisa fazer o check-in.
— Hã... o quê?
— Você está morto, não está? — disse o homem. — Venha. Vou levar você até a recepção.

33 comentários:

  1. Acho que o Rick torce pro Red Sox pq o Dan de The 39 Clues também diz torcer pra esse time (ou diz que odeia ele, eu realmente não lembro)

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    1. Na cultura nordica os guerreiros, quando morrem, são levados para valhala pelas valkyrias. É tipo um salão de guerreiros mortos que servem a Odin, o pai de todos. Creio que seja algo assim... Espero não ter dado spoiler, mas isso é apenas a cultura mesmo.

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    2. Isso me lembra do Mad Max....

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  3. Acredito que alguns de vocês tenham lido a Irmandade da Adaga Negra, quem leu acho que vai concordar que não pode ser apenas coincidência.
    "Suas roupas pareciam novinhas em folha: tênis brancos reluzentes, calça jeans e camisa do Red Sox." Butch e Vishous.
    "O cabelo macio era uma mistura de ruivo, castanho e louro." Phury
    "O rosto era incrivelmente lindo. Ele poderia fazer comerciais de loção pós-barba." Rhage
    "Mas as cicatrizes arruinavam a perfeição." Zsadist
    "Também havia marcas ao redor da boca inteira, como buracos de piercing já cicatrizados. Mas por que alguém teria tantos piercings na boca?" Quinn.
    É a própria junção de vários irmãos <333'
    (Bom, acho que não é Spoiler ><)

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  4. Nossa, Magnus, e como foi?
    Doeu. Muito. Agradeço a preocupação.

    Tio Leo de volta

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  5. ''Eu estava no patio de uma mansao opulenta tipo Beacon Hill'' .Beacon Hill igual a cidade de teen wolf

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  6. Kkkk Nunca li esses livros q tds falam kkkk

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  7. AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA
    é dificil ler um livro sobre uma mitologia q eu n entendo x( mas o magnus é mt Leo pra q eu pare de ler

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    1. Ele n é muito leo ele é muito hazel morrendo sem acabar a historia

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    2. Ele é muito Leo, Percy, Nico e Hazel -_-

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    3. ele é muito Magnus Chase, só '-' nem todos os personagens vc precisa relacionar com outros

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  8. Ah maravilhoso,ele morre no início da história e tem mais uns trocentos capítulos e sem detalhes nenhum sobre sua vida herança e quem diabos e seu pai.Que lindo tio Rick.

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  9. Calma gente.. ate parece que vcs nao estao acostumados com o tio Rick.. sempre é assim.. vai explicando mtooooooo devagar..

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  10. Billy foi à escola. Teve um dia lindo. Então morreu. Fim. kkk

    Nossa, Magnus, e como foi?
    Doeu. Muito. Agradeço a preocupação. kkkk

    morrendo de rir (não como o Magnus viu gente, sentido figurado)

    Mas afirmo: dormir para mim sempre foi como estar morto.
    pra mim também : (

    ~coruja



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  11. Esse livro está cheio das referências ehuehue

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  12. "Suas roupas pareciam novinhas em folha: tênis brancos reluzentes, calça jeans e camisa do Red Sox. O cabelo macio era uma mistura de ruivo, castanho e louro, despenteado de um jeito estiloso que dizia acabei de sair da cama e já estou bonito. O rosto era incrivelmente lindo. Ele poderia fazer comerciais de loção pós-barba, mas as cicatrizes arruinavam a perfeição. Pele queimada se esticava pelo nariz e bochechas, como linhas na superfície da lua. Também havia marcas ao redor da boca inteira, como buracos de piercing já cicatrizados."

    Sim, Magnus, a gente entendeu que
    você pira no cara.

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  13. Ahh
    Agora entendi.
    Não sou semideus grego. Sou semideus nórdico. Mas filho de quem?

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  14. Será que ele pode se encontrar com Annabeth? o.O

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  15. cara so eu lembrei daquele cara do barquinho do mundo inferior de percy jackson "votem quando estiverem mortos"

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  16. ''Nossa, Magnus, e como foi?
    Doeu. Muito. Agradeço a preocupação.'' Magnus se achando, não querido, não estou preocupada com você (ainda não lhe amo, como amo Percy ou Sadie... apesar de você me lembrar muito o Percy)estou apenas curiosa. u.u e gente,''Você está morto, não está?'' o que foi isso ? uahsuahs e ele é filho de Frey, deus nórdico da primavera, por isso a mãe dele vivia ao ar livre e naquela cena, diz que o pai dele está em todo lugar (na floresta).
    by Thalita

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    1. E eu aqui pensando que estivesse falando de Magnus Bane kkkkk

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