31 de outubro de 2015

Doze

Caminho para casa. Ou ao menos, essa era a minha intenção. Mas em algum lugar ao longo do caminho eu entrei numa curva. E depois outra. E outra. Meus pés movendo-se tão lentamente que praticamente arrastam, sabendo que não há necessidade de correr, que não há nada a provar. Apesar da minha força e velocidade, eu não sou páreo para Roman. Ele é o mestre deste jogo e eu sou apenas o seu peão.
Eu continuo, no fundo do coração de Laguna, ou da Vila, como é chamado. Muito acesa para ir para casa, também envergonhada para ir ver Damen, fazendo o meu caminho através das ruas escuras e vazias até parar diante de uma casa pequena e bem cuidada, com plantas florescentes crescendo em ambos os lados da porta e um tapete de boas-vindas, fazendo com que pareça quente, amigável, completamente boa.
Só que não é. Nem sequer perto. Agora se parece mais a uma cena de crime. E ao contrário da última vez que estive aqui, desta vez eu não me incomodei a bater.  Não tem sentido. Ava se foi faz muito tempo. Depois de roubar o elixir do Damen e deixá-lo entregue a sua própria sorte, sem intenção de retornar.
Abro a porta com minha mente e entro, dando uma rápida olhada ao redor antes de avançar, da sala à cozinha. Surpreendi-me por encontrar a sala, em geral bem arrumada, reduzida a um caos absoluto, a pia com montões de copos e pratos sujos, assim como o lixo espalhado no chão. E embora esteja certa de que não foi Ava quem fez isto, é evidente que alguém está aqui.
Arrasto-me pelo corredor, olhando em uma série de quartos, até chegar à porta de anil, que conduz ao que Ava chamava "espaço sagrado”, onde estava acostumada a meditar e chegar às dimensões mais à frente. Ao abrir a porta e entrecerrar os olhos na escuridão, vejo duas figuras dormindo atiradas no chão. Passo a mão pela parede procurando sem êxito o interruptor da luz, antes de me lembrar de minha habilidade de iluminar o quarto sozinha, só para encontrar as duas últimas pessoas que esperava voltar a ver.
— Rayne? — Ajoelho a seu lado, segurando a respiração enquanto ela se vira e abre um olho.
— Oh, hey, Ever. — Ela esfrega os olhos lutando para despertar. — Só que não sou Rayne, sou Romy. Rayne está ali.
Olho a sua irmã que gêmea no outro lado do quarto, observando a carranca que seu rosto se torna no segundo ela percebe que sou eu.
— O que faz aqui? — Eu lhes digo, me referindo à Romy de novo já que ela sempre foi a mais agradável das duas.
— Nós moramos aqui. — Ela dá de ombros, colocando sua camisa branca amassada dentro da saia azul quadriculada.
Eu a olho, observando sua pálida pele, seus olhos grandes e escuros, com seu nariz reto, o cabelo negro e ondulado com a franja reta e noto como as duas estão vestidas com o mesmo uniforme do primeiro dia que nos conhecemos. Mas a diferença do Summerland onde sempre aparecem de maneira limpa e antiga, agora são quase o oposto, tristemente desalinhadas e completamente abandonadas.
— Mas não podem viver aqui. Esta é a casa da Ava. — Sacudo a cabeça. A ideia delas em viver aqui, deixa-me muito desconcertada. — Talvez devessem pensar em ir para casa. Vocês sabem, de volta ao Summerland?
— Não podemos. — Rayne se colocando ao lado de sua irmã, certificando-se de que eles são de altura exatamente igual, sem querer, fornecendo a única pista real que me ajuda a distingui-los. — Graças a você, estamos presas aqui para sempre. — Murmura, me fitando.
Olho para Romy, esperando que ela me explique. Mas ela nega com a cabeça a sua irmã, antes de me olhar.
— Ava se foi. — Dá de ombros. — Mas não deixe que Rayne dê a impressão equivocada. Estamos muito contentes em te ver. Fizemos uma aposta sobre quando você apareceria.
Olho a ambas, rindo nervosamente quando digo:
— Oh, sério? Quem ganhou?
Rayne revira os olhos e aponta sua irmã.
— Ela. Eu tinha certeza que você nos abandonou para sempre.
Faço uma pausa, algo a respeito do que ela acaba de dizer me faz pensar:
— Espera, quer dizer que vocês estiveram aqui todo este tempo?
— Não podemos voltar. — Romy deu de ombros — Perdemos nossa magia.
— Bom, eu estou certa de que posso ajudá-las a voltar. Quero dizer, querem voltar, certo? — Olho para elas e vejo o sorriso de Rayne e Romy só assente com a cabeça.
Sabendo que isto será muito mais fácil do que pensam já que tudo o que tenho que fazer é criar o portal, conseguir que se mantenha, em seguida, dizer adeus e fazer a viagem de volta à Laguna, sozinha.
— Nós gostaríamos muito disso. — Diz Romy.
— E nós gostaríamos de sair agora. — Acrescenta Rayne, com os olhos estreitos. — Afinal, é o mínimo que pode fazer.
Eu engulo seco. Eu mereço isso, mas ainda me pergunto quem está mais desesperada para que elas partam, elas ou eu? Aproximo-me de Rayne enquanto fito o sofá me perguntando por que nenhuma delas não pensaram em dormir nele invés do chão.
— Venha... — Eu digo, olhando sobre meu ombro. — Você se senta aqui a minha direita, e Romy, senta aqui. — Aponto a almofada com grumos. — Agora tomem minhas mãos e fechem os olhos, então, concentrem-se em ver o portal com todas suas forças. Até ver um brilho dourado como se a luz estivesse diante de vocês. E assim que a imagem estiver clara, quero que se vejam pisando diretamente, sabendo que estou bem ao lado vocês, mantendo vocês seguras. Está bem?
Observo-as e as vejo fazer um gesto antes de ir tentarem atravessar o portal. Passo através da luz e nesse campo vasto e fragrante, abro os olhos e descubro que estou sozinha.
— Eu te disse. — diz Rayne, quando retorno à casa. Está de pé diante de mim, com os olhos cheios de ira, me acusando, com suas pequenas e pálidas mãos , balançando seus quadris sobre sua saia quadriculada. — Te disse que nossa magia se foi. Estamos presas aqui agora e não há forma de retornar. E tudo porque tentamos te ajudar!
— Rayne — Romy sacode a cabeça, então me dá um olhar de desculpa em seu rosto.
— Bom, é verdade! — Rayne franze o cenho. — Eu te disse que não devíamos correr o risco. Eu te disse que ela não iria nos escutar. Eu vi claro como o dia. A esmagadora possibilidade de ela fazer a escolha errada! — Sacode a cabeça e franzindo o cenho. —Foi exatamente como previsto. E agora somos nós que pagamos o preço.
Oh, vocês não são as únicas, acreditem. Com a esperança de que tenham perdido sua capacidade de ler a mente, desde que estou imediatamente envergonhada pelo pensamento. Não importa o quão ela me incomoda, eu sei que ela estará certa.
— Escutem... — Eu digo engolindo seco enquanto olho para ambas, sabendo que preciso arrumar isso. — Eu sei o quanto vocês querem voltar. Confiem em mim. E eu vou fazer todo o possível para ajuda-las. — Confirmo com a cabeça, vendo elas se olharem, seus dois rostos iguais marcados pela completa incredulidade. — Quero dizer, eu não sei exatamente como vou fazer, mas só sei que eu farei. Farei todo o possível para lhes ajudar a voltar. E enquanto isso, vou fazer todo o possível para mantê-las confortáveis e seguras. Palavra de escoteira. Está bem?
Rayne me olha, duvidando e lançando um suspiro.
— Apenas nos leve a Summerland. — diz ela, cruzando os braços sobre o peito. — Isso é tudo o que queremos. Nada menos que isso.
Aceno com a cabeça, me negando a deixá-la me atingir e digo:
— Entendido. Mas se eu vou ajudar, preciso que vocês respondam a algumas perguntas.
Elas se olham, Rayne lhe lança um olhar lhe pedindo que se cale.
— De maneira nenhuma.
Mas Romy, assentindo com a cabeça para mim e diz:
— Está bem.
E mesmo que eu não tenha certeza de como expressá-lo, é algo que me estive perguntando há um tempo:
— Desculpe se eu ofendê-las, mas vocês estão mortas? — Contenho a respiração, esperando ser tratada como louca, ou pelo menos insultada ou qualquer reação, mas ao contrário recebo risadas. Vendo como Rayne bater no joelho enquanto Romy rola no sofá em quase convulsão. — Bom, vocês não podem me culpar, tinha que perguntar. — Franzo o cenho, sem dúvida me insultaram. — Quero dizer, vivem em Summerland, onde um monte de gente morta passa um tempo. Pra não falar de suas peles anormalmente pálidas.
Rayne se apóia contra a parede, totalmente recuperada de seu ataque de risos, sorrindo olha para mim.
— Sim, somos pálidas. — Ela olha para sua irmã, e logo para mim. — Você não é bronzeada. E, nem por isso te consideramos uma defunta.
Faço uma careta de dor, sabendo que é verdade.
— Sim, bem, vocês tinham uma vantagem injusta. Graças a Riley, vocês sabiam tudo sobre mim muito antes que nos conhecêssemos. Vocês sabiam exatamente quem sou e o que sou, e se tiver alguma esperança de te ajudar, então eu vou ter que saber algumas coisas também. Assim podem se sentir incomodadas como desejar, pode resistir, é a única maneira ou vamos chegar à parte alguma. Conte-me a história de vocês.
— Nunca. — Rayne, diz, olhando a sua irmã, lhe advertindo que não revele.
Mas Romy a ignora e dirige-se a mim.
— Não estamos mortas. Nem sequer perto de estar. Somos como refugiadas. Refugiadas do passado, se quiser entender assim.
Eu olho entre elas, pensando que tudo o que tenho a fazer é baixar a guarda, concentrar o meu quantum remoto, e tocá-las para a história de toda a sua vida a ser revelada, mas figurando eu deveria pelo menos tentar obter a sua versão em primeiro lugar.
— Faz muito tempo. — Ela começa olhando a desaprovação de sua irmã, antes de tomar respirar fundo e avançar. — Faz muito tempo, de fato, enfrentávamos a uma… ― toca sua fonte, em busca da palavra correta, assentindo com a cabeça para mim quando diz: — Bem, digamos que estávamos prestes a ser vítimas de uma terrível Escuridão, um dos momentos mais vergonhosos de nossa história e tivemos que fugir para Summerland. E então, bem, eu acho que nós perdemos a noção do tempo e nós estivemos lá desde então. Ou pelo menos até a semana passada, quando viemos ajudá-la.
Rayne geme, caindo ao chão e tampando o rosto com as mãos, mas Romy simplesmente a ignora, sem deixar de me olhar quando diz:
— Mas agora, nosso maior temor tonou-se realidade. Nossa magia se foi, não temos aonde ir, e nem ideia de como sobreviver neste lugar.
— Que tipo de perseguição você fugiu? — Eu lhe pergunto, olhando-a de perto, em busca de pistas. — E quanto tempo faz que isto está acontecendo? Exatamente o que estamos lidando aqui? — Me perguntando se sua história é tão longa como a de Damen, ou se pertencem a um passado mais recente.
Elas se olham, comunicando-se em silêncio, então me aproximo de Romy, agarro sua mão tão rápido que ela não tem tempo para reagir. Imediatamente me instalo em sua mente, seu mundo, a história se desdobra como se eu estivesse ali, na margem, como um observador inadvertido, totalmente imersa no caos e no medo desse dia, testemunha de imagens tão horríveis que me sinto tentada a lhe dar as costas.
Observando como uma multidão enfurecida, vozes altas e tochas levantadas, tentavam invadir sua casa. Sua tia bloqueando a porta da melhor maneira possível, fazendo o portal e incitando os gêmeos para a segurança de Summerland. Ela está a ponto de passar o portal com forma deporta e as gêmeas desaparecem. Separados de tudo o que eles sabiam, sem terem ideia do que aconteceu com a tia até uma visita aos Grandes Salões de Aprendizagem lhes mostrou o tortuoso julgamento de falsas acusações que ela foi forçada a suportar. Recusando-se a confessar qualquer tipo de feitiçaria, tendo tomado a Rede Wicca.
"Aquilo não prejudica ninguém, faça o que quiser", e sabendo que ela não tinha feito nada de errado, ela rejeitou seu opressor e manteve a cabeça erguida até o fim... A forca onde ela foi brutalmente pendurada.
Cambaleio de costas, com os dedos procurando o amuleto debaixo de minha camiseta, algo a respeito de sua tia, no seu olhar era tão estranhamente familiar, deixou-me débil, instável, me recordando a mim mesma que estou segura, que elas estão seguras e que esse tipo de coisas não acontece nestes dias.
— Então agora você sabe. — Romy se encolhe de ombros quando Rayne sacode a cabeça. — Nossa história. Tudo sobre nós. Você nos culpa por escolhemos nos esconder?
Olho-as sem saber o que dizer.
— Eu… — limpo garganta e recomeço. — Sinto muito. Não tinha nem ideia. — Olho para Rayne, vejo como ela se nega a me olhar, então olho para Romy que solenemente inclina a cabeça. — Não tinha ideia de que vocês escaparam dos julgamentos das bruxas de Salem.
— Não exatamente. — Diz Rayne, antes que Romy fale.
— O que ela quis dizer que nunca fomos julgadas. Nossa tia foi acusada. Um dia foi venerada como a parteira mais procurada, e no seguinte, a levaram. — Ela contém o fôlego, seus olhos brotavam a lembrança como se tivesse sido ontem.
— Nós teríamos ido com ela, não tínhamos nada a esconder. — Diz Rayne, levantando o queixo e estreitando o olhar. — E certamente não foi culpa de Clara que o pobre bebê morreu. Foi o pai quem o fez. Não queria ao bebê nem à mãe. Então matou os dois e culpou Clara. A bruxa mais forte de toda a cidade, foi então que Clara fez o portal, e nos obrigou a nos esconder, e estava a ponto de unir-se a nós quando, bom, já sabe o resto.
— Mas isso faz mais de trezentos anos! — Eu grito, ainda não familiarizada com a ideia de sua existência, apesar de minha larga imortalidade.
As gêmeas se encolhem de ombros.
— Por que vocês não voltaram? — Eu sacudo a cabeça, diante do tamanho deste problema. — Quero dizer, têm alguma ideia de como mudaram as coisas desde que estiveram aqui? Sério. É como um mundo completamente diferente do mundo ao qual pertenciam.
— Não somos idiotas. — Rayne sacode a cabeça. — Conhecemos as coisas e os progressos realizados, em Summerland, já sabe. Novas pessoas chegam todo o tempo, manifestando as coisas às quais estão ligadas e não podem suportar ter que deixá-las. Mas isso não é o que queria dizer, de fato, nem sequer está perto. Não me refiro somente aos automóveis frente às carruagens de cavalos, e boutiques de moda frente ao costurado à mão, é mais a sua capacidade para adaptar-se no mundo, sabendo que é o século vinte e um, que é muito menos que uma mudança uniforme, é uma revisão completa e total.
— Aliás, Riley nos preparou — diz Romy, provocando um forte gemido de Rayne, e toda minha atenção. — Ela manifestou um internato e nos convenceu de nos matricular. É daí que vêm estes uniformes. Foi nossa professora, treinou conosco todas as formas modernas, incluindo nosso discurso. Ela queria voltar e estava decidida a nos preparar para a viagem. Em parte porque ela queria que nós cuidássemos de você, e em parte porque pensou que estávamos loucas por estar presas em nossa adolescência.
Congelo-me, de repente entendendo o interesse de Riley nelas, que tem muito menos a ver comigo, e tudo a ver com ela.
— Que idade vocês têm? — Sussurro, olhando Romy esperando a resposta. — Ou deveria dizer, que idade tinham quando chegaram pela primeira vez a Summerland?
Sabendo que não envelheceram nem um dia após.
— Treze. — Diz Romy, franzindo o cenho. — Por quê?
Fecho os olhos e sacudo a cabeça, sufocando a risada quando penso: “Eu sabia! ”
Riley sempre sonhava com o dia em que teria treze anos, uma adolescente de boa-fé que por fim chegou a importante idade de dois dígitos. Mas depois de morrer aos doze anos, tentou permanecer na Terra, tratando de viver sua adolescência indiretamente através de mim. Por isso tem sentido que tentasse convencer a Romy e Rayne para voltar, porque não queria que ninguém mais sofresse como ela.
E se Clara pôde encontrar a força, e Riley a esperança, em situações tão incrivelmente terríveis e tristes, sem dúvida posso superar Roman.
Olho as gêmeas, sabendo que não podem ficar aqui por sua própria conta ou voltar para casa e viver com Sabine e comigo, embora haja alguém que é muito capaz e preparado, se não inteiramente disposto a nos dar uma mão.
— Peguem suas coisas. — digo, em direção à porta. — Eu vou levá-las a seu novo lar.

4 comentários:

  1. Eu tenho certeza que essa tal pessoa qualificada, e o Damen!
    kkkkkkk O Deman cuidando de crianças!
    Ass: Bina.

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    1. Isso ai ele vai ser babá delas, ou melhor papai. Hahajaha

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Boa leitura! E SEM SPOILER!