18 de outubro de 2015

Doze - Pelo menos não sou eu quem precisa perseguir a cabra

NO CORREDOR, MEUS vizinhos estavam começando a sair dos quartos. Thomas Jefferson Jr. parecia ter a minha idade. Tinha cabelo curto encaracolado, corpo magro e um rifle pendurado no ombro. O casaco azul de lã tinha botões de latão e divisas em forma de V nas mangas, o uniforme do exército americano na Guerra Civil, eu supus. Ele assentiu e sorriu.
— Como vai?
— Hã, morto, acho — respondi.
Ele riu.
— É, você vai se acostumar. Pode me chamar de T. J.
— Sou Magnus — falei.
— Vamos. — Sam me puxou.
Passamos por uma garota que devia ser Mallory Keen. Ela tinha cabelo ruivo crespo, olhos verdes e uma faca de caça, que estava sacudindo na cara de um sujeito de uns dois metros de altura em frente à porta marcada com um X.
— De novo a cabeça de porco? — Mallory falava com um leve sotaque irlandês. — X, você acha que quero ver uma cabeça de porco decepada toda vez que saio do quarto?
— Eu não consegui terminar de comer — resmungou X. — A cabeça do porco não cabe na geladeira.
Se fosse comigo, eu não teria criado caso com o sujeito. Ele tinha o tamanho de uma câmara de contenção de bombas. Se eu precisasse me livrar de uma granada sem pino, tinha certeza de que podia pedir para X engoli-la e o problema seria resolvido. A pele dele era da cor da barriga de um tubarão, cheia de músculos e verrugas. Havia tantas protuberâncias no rosto dele que era difícil saber onde ficava o nariz.
Passamos por eles, e X e Mallory estavam ocupados demais discutindo para prestarem atenção em nós.
Quando nos afastamos, perguntei a Sam:
— Qual é a do sujeito grande e cinza?
Sam levou o dedo aos lábios.
— X é meio troll. Ele é um tanto sensível quanto a isso.
— Meio troll. Isso existe mesmo?
— É claro — disse ela. — E ele merece estar aqui tanto quanto você.
— Ah, não tenho dúvidas. Só estava perguntando.
O tom defensivo dela me fez querer saber qual era a história por trás disso.
Quando passamos pela porta de MESTIÇO GUNDERSON, a lâmina de um machado partiu a madeira vinda de dentro do quarto. Ouvi gargalhadas abafadas.
Sam me apressou para o elevador. Ela empurrou vários outros einherjar que estavam tentando entrar.
— Esperem o próximo, pessoal.
A porta feita de lanças entrelaçadas se fechou. Sam inseriu uma chave em uma abertura no painel, apertou uma runa vermelha, e o elevador começou a descer.
— Vou levar você até o salão de jantar antes que as portas principais se abram. Assim, você pode analisar o território.
— Hã... claro. Obrigado.
Uma música calma nórdica começou a tocar, vinda do teto.
Parabéns, Magnus!, pensei. Bem-vindo ao paraíso dos guerreiros, onde você pode ouvir Frank Sinatra em norueguês PARA SEMPRE!
Tentei pensar em alguma coisa para dizer, preferivelmente alguma coisa que não fizesse Sam esmagar minha traqueia.
— Então... todo mundo do décimo nono andar parece ter mais ou menos a minha idade — comentei. — Ou... a nossa idade. Valhala só recebe adolescentes?
Samirah balançou a cabeça.
— Os einherjar são agrupados pela idade que tinham quando morreram. Você está na ala jovem, que vai até os dezenove anos. Na maior parte do tempo, você nem vai ver as outras alas, a dos adultos e dos idosos. É melhor assim. Os adultos... bem, eles não levam os adolescentes a sério, nem mesmo os que estão aqui há centenas de anos a mais do que eles.
— Típico — falei.
— Quanto aos guerreiros idosos, eles nem sempre se dão bem. Imagine uma casa de repouso muito violenta.
— Parece com alguns abrigos em que estive.
— Abrigos?
— Esqueça. Então você é uma valquíria. Você escolhe todas as pessoas que virão para o hotel?
— É — afirmou ela. — Eu escolhi pessoalmente todo mundo aqui.
— Ha-ha. Você entendeu o que eu quis dizer. Sua... irmandade ou sei lá.
— As valquírias são responsáveis por escolher os einherjar. Cada guerreiro aqui teve uma morte valorosa. Cada um tinha um apreço pela honra ou alguma outra ligação com os deuses nórdicos que os tornaram elegíveis para Valhala.
Pensei no que tio Randolph me contou, sobre a espada ser uma herança de meu pai.
— Uma ligação... como ser filho de um deus?
Fiquei com medo de Sam rir de mim, mas ela assentiu com seriedade.
— Muitos einherjar são semideuses. Outros são mortais comuns. Você foi escolhido para Valhala pela coragem e honra, não pela descendência. Ao menos, é assim que deveria ser...
Não consegui decidir se o tom dela era melancólico ou ressentido.
— E você? — perguntei. — Como se tornou valquíria? Teve uma morte valorosa?
Ela riu.
— Não. Eu ainda estou viva.
— E como isso funciona exatamente?
— Ah, eu levo uma vida dupla. Agora, vou acompanhar você ao jantar. Depois, tenho que voar para casa para terminar meu dever de cálculo.
— Você não está brincando, está?
— Eu nunca brinco sobre o dever de cálculo.
As portas do elevador se abriram. Nós entramos em um salão do tamanho de um estádio.
Meu queixo caiu.
— Caramba...
— Bem-vindo — disse Samirah — ao Salão de Banquete dos Mortos.
Fileiras de mesas e bancos compridos estavam dispostos como em um anfiteatro. No centro do aposento, em vez de uma arena, havia uma árvore mais alta do que a Estátua da Liberdade. Os galhos mais baixos deviam estar a trinta metros do chão. A copa cobria todo o salão, roçando o teto abobadado e passando por uma abertura enorme no alto. Acima, estrelas brilhavam no céu noturno.
Minha primeira pergunta não foi a mais importante:
— Por que tem uma cabra na árvore?
Na verdade, vários animais saltavam entre os galhos. Eu não conseguia identificar a maioria, mas oscilando em um dos galhos mais baixos estava uma cabra bem gorda e desgrenhada. As tetas inchadas jorravam leite como chuveiros vazando. Abaixo, no chão, uma equipe de quatro guerreiros corpulentos carregava uma tina grande e dourada em hastes apoiadas nos ombros. Eles iam de um lado para outro, tentando ficar debaixo da cabra para pegar os jorros de leite. A julgar pelo estado em que se encontravam, eles erravam muito.
— A cabra é Heidrún — explicou Sam. — O leite dela é fermentado para fazer o hidromel de Valhala. É bom. Você vai ver.
— E os caras correndo atrás dela?
— Pois é, é um trabalho ingrato. Se você não se comportar, pode acabar ficando com essa tarefa.
— Hã... eles não poderiam, sei lá, descer a cabra da árvore?
— Ela é uma cabra selvagem. O hidromel fica mais gostoso assim.
— Claro que fica — afirmei. — E... todos os outros animais? Estou vendo esquilos e gambás e...
— Petauros-do-açúcar e preguiças — disse Sam. — São fofos.
— Certo. Mas vocês jantam aqui? Não pode ser higiênico com as fezes dos animais.
— Os animais da Árvore de Laeradr são bem-comportados.
— A Árvore de... Lei-ra-dur. Até a árvore tem nome.
— Todas as coisas importantes têm nome. — Ela franziu a testa de novo. — Como é mesmo o seu?
— Engraçadinha.
— Alguns dos animais são imortais e têm tarefas específicas. Não consigo encontrá-lo agora, mas em algum lugar está um cervo chamado Eikthrymir. Nós o chamamos de Ike. Está vendo aquela cachoeira?
Era difícil não ver. De algum ponto da árvore, água escorria pelas reentrâncias no tronco e formava uma torrente poderosa que descia por um galho em uma cortina branca. A água se acumulava em um lago do tamanho de uma piscina olímpica, entre duas raízes da árvore.
— Dos chifres do cervo jorra água sem parar — disse Sam. — Ela flui pelos galhos até o lago. Dali, penetra o solo e alimenta todos os rios em todos os mundos.
— Então... toda água é produto do chifre de um cervo? Tenho quase certeza de que não foi isso que me ensinaram na aula de geografia.
— Não vem toda dos chifres de Ike. Também tem neve derretida, água da chuva, e poluentes, além de traços de fluoreto e cuspe de jötunn.
— Jötunn?
— Você sabe, gigantes.
Sam não parecia estar brincando, apesar de ser difícil ter certeza. O rosto dela era cheio de humor tenso, os olhos sempre em movimento e alertas, os lábios comprimidos como se ela estivesse sufocando uma gargalhada ou esperando um ataque. Eu conseguia imaginá-la fazendo comédia standup, mas talvez não com o machado no cinto. As feições me pareciam estranhamente familiares: a linha do nariz, a curva do maxilar, as mechas ruivas e aloiradas no cabelo castanho.
— Nós já nos conhecíamos? — perguntei. — Quer dizer, antes de você escolher minha alma para Valhala?
— Duvido — disse ela.
— Mas você é mortal, não é? Mora em Boston?
— Em Dorchester. Estou no primeiro ano do ensino médio na King Academy. Moro com meus avós e passo a maior parte do tempo inventando desculpas para encobrir minhas atividades de valquíria. Hoje, Jid e Bibi acham que estou dando aula particular de matemática para um grupo de alunos do ensino fundamental. Mais alguma pergunta?
Os olhos dela passaram a mensagem oposta: Chega de perguntas pessoais.
Eu me perguntei por que ela morava com os avós. Mas, aí, lembrei o que ela disse antes, sobre entender o que era sentir falta da mãe.
— Chega de perguntas — decidi. — Minha cabeça explodiria.
— Isso seria nojento — concordou Sam. — Vamos procurar um lugar para você antes que...
Por todo o salão, cem portas se abriram. O exército de Valhala entrou.
— O jantar está servido — disse Sam.

31 comentários:

  1. q q ta con te ceno aqui
    chifres q soltam água
    CHIFRES QUE SOLTAM ÁGUA

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    1. 😂😂 eu tb fiquei chocada c isso!! Cara,tantos nomes que nn sei pronunciar... ~mudando_o_assunto :v

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    2. Pobresinho está mas perdido que o percy no primeiro livro

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    3. não podemos esquecer q há chifres q cospem comida ;) kkkk

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  2. — E você? — perguntei. — Como se tornou valquíria? Teve uma morte valorosa?
    Ela riu.
    — Não. Eu ainda estou viva.
    — E como isso funciona exatamente?
    — Ah, eu levo uma vida dupla. Agora, vou acompanhar você ao jantar. Depois, tenho que voar para casa para terminar meu dever de cálculo.
    — Você não está brincando, está?
    — Eu nunca brinco sobre o dever de cálculo.

    Sera aquela Annabeth?

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    1. Não o nome dela é Sam, e a Annabeth e semideusa e não Valquiria.

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    2. Jura?? Eu não sabia!!! Ahh, por favor né?

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    3. caçadora de Artermis5 de janeiro de 2016 17:40

      deve ser tao inteligente quanto e as duas sao parecidas no humor e no jeito de ser

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  3. Kkk Perai vo procurar o cervo perto de ksa pra ser se tem agua no chifre dele kkkkk

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  4. — X é meio troll. Ele é um tanto sensível quanto a isso.
    imaginei ele cm a cara do trollface. acho q tenho q sair da internet de vez em quando











    se eu tentar pronunciar algum dos nomes nórdicos vou acabar invocando um portal pra dimensão paralela de cabras voadoras

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  5. Socorro,to mais confusa que eu tava quando li o Ladrão de Raios,que tá con teseno chifres que cospem comida,chifres que jorram água ...,QUAL O PROBLEMA DO TIO RICK COM CHIFRES??

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    1. caçadora de Artermis5 de janeiro de 2016 17:43

      mas o tio Rick tem um "pequeno" problema com os chifres sera q vai ter um q cospe fogo?

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  6. Yey! Uma mitologinha novinha e complicada pra eu entender!

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  7. Oba! Nomes que não sei pronunciar. c.c


    -ems

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  8. Cara, tantos nomes que não sei pronunciar...

    Pobresinho do Magnus está mas perdido que o Percy no primeiro livro

    ~coruja

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    1. Nomes impronunciáveis sempre! heauheauhe

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    2. Está mais perdido que o Percy quando entro no acampamento Romano isso sim kkkkkkk

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  9. Como pronunciar todos esses nomes?!?!

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  10. Será que existe ainda uma maneira da vida (ou morte) do Magnus ficar mais complicada? Ele já ta mais confuso do que o Percy quando descobriu o traseiro peludo do Grover ou o Jason quando acordou no ônibus segurando a mão da Piper....

    Pera, toda a água do mundo vem do chifre de um cervo, cuspe de gigantes, gelo derretido e chuva, suor de crocodilo... Wow, que coisa mais bizarra! E eu aqui ainda tentando entender qual o problema dos antigos com chifres... Chifres de pottamus cospem comida, de cervo jorram água, super normal isso. Rick Riordan complicando mais minha mente e fazendo com que eu me apaixone cada vez maus pelo livro! Quando mais complicada fica a historia, mais me da vontade de ler...

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  11. "— Mas você é mortal, não é? Mora em Boston?

    — Em Dorchester."
    AHHH EU JURO Q LI DONCASTER! Fazer oq, directioner fanática aqui....

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  12. Cabelo ruivo, olhos verdes, maluca... Só eu lembrei da Rachel Elizabeth Dare?

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  13. viih~filha de poseidon7 de julho de 2016 19:17

    Uma música calma nórdica começou a tocar, vinda do teto.
    Parabéns, Magnus!, pensei. Bem-vindo ao paraíso dos guerreiros, onde você pode ouvir Frank Sinatra em norueguês PARA SEMPRE!
    igual ao elevador do olimpo
    e frank sinatra lembrei do quiron kkkkk

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  14. eu já desisti faz um tempo de tentar pronunciar os nomes :p

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  15. Estou esperando pelo momento em que a história vai se tornar única para mim. Em que vai deixar de parecer com "essa" e "aquela". Isso é muito legal. Como Gabriel quando percebe que os olhos de Celily são apenas os dela e não os olhos de Will. Mas isso é meio complicado com tantas referências. Uma coisa de cada vez, pelo menos eu consigo pronunciar os nomes gregos, romanos e egípcios.

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  16. Ah, chifres que soltam água... Vou trazer esse cervo pro são paulo e o colocar sobre o cantareira... °u°

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  17. "[...] Os adultos... bem, eles não levam os adolescentes a sério, nem mesmo os que estão aqui há centenas de anos a mais do que eles.

    — Típico — falei." N sei pq,mas eu ri disso

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  18. Eu estou tentando pronunciar os nomes,mais é ,muito complicado!Eu deveria ter lido um pouco de mitologia nódica!

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