30 de outubro de 2015

Dois

Mesmo Damen podendo sentir o momento exato em que Sabine vira em nossa rua e entra no caminho pra casa, essa não é a razão pelo qual ele se vai.
Ele se foi por mim.
Pelo simples fato de que ele tem estado atrás de mim durante centenas de anos, procurando-me em todas as minhas reencarnações, para que pudéssemos estar juntos.
Só que nunca ficamos juntos. O que significa que nunca aconteceu.
Aparentemente cada vez que estávamos a ponto de dar o próximo passo e consumar nosso amor, sua ex-esposa Drina conseguia aparecer e me e matar.
Mas agora que eu a matei, que a eliminei com um bom – admito que foi fraco – golpe no chakra de seu coração, não existe absolutamente nada ou ninguém para interferir em nosso caminho.
Exceto eu.
Porque mesmo amando Damen com todo o meu ser, e definitivamente quero dar o próximo passo, não posso deixar de pensar nos últimos seiscentos anos.
Em como ele decidiu vivê-los (Estranhamente, de acordo com ele). E com quem decidiu vivê-los (Exceto de sua ex-esposa Drina, muitos outros foram insinuados). E, bem, tanto quanto, eu odeio admitir, sabendo de tudo isso me faz sentir um pouco insegura.
Ok, talvez muito insegura. Quero dizer, não é como se minha patética lista de garotos que eu beijei poderia alguma vez ser comparada com seus seiscentos anos de conquistas. E mesmo sabendo que estou sendo ridícula, mesmo sabendo que Damen tem me amado durante séculos, o fato é que coração e razão não são sempre amigos. E no meu caso eles quase nem se falam.
Mesmo assim, cada vez que Damen vem para minhas lições, eu sempre as transformo em uma prolongada sessão de beijos, cada vez pensando: É isso! Desta vez vai realmente acontecer! Só para empurrá-lo como se fosse o pior tipo de incômodo. E a verdade é que é exatamente como ele disse. Ele não pode mudar seu passado, é simplesmente assim. Não se pode desfazer algo que já está feito. Não há retrocesso, não há volta.
A única coisa que uma pessoa pode fazer realmente é seguir em frente, e isso é exatamente o que eu preciso fazer. Dar o grande salto a diante sem hesitar, sem olhar para trás nenhuma vez. Simplesmente esquecer o passado e moldar o futuro.
Eu só queria que fosse tão fácil assim.
— Ever? — Sabine sobe as escadas enquanto eu corro freneticamente pelo quarto, tentando organizá-lo antes de sentar-me em minha mesa e me esforçando para parecer que estou ocupada. — Ainda está acordada? — Ela pergunta, colocando sua cabeça dentro do quarto e mesmo sua roupa estando amassada, seu cabelo débil e seus olhos vermelhos de cansaço, sua aura está irradiando um belo tom verde.
— Eu estava terminando algumas tarefas — lhe digo, afastando meu laptop como se eu estivesse usando.
— Você comeu? — Ela se inclina contra a moldura da porta, seus olhos apertados e cheios de suspeitas, enquanto sua aura me alcança – o detector de mentiras portátil que ela carrega por todos os lugares sem que ela perceba.
— Claro — eu disse a ela. Assentindo e sorrindo e fazendo o melhor que posso para parecer sincera, mas a verdade é que meu rosto parece falso.
Odeio ter de mentir. Especialmente pra ela. Depois de tudo o que ela fez por mim, me aceitando depois do acidente, quando minha família inteira morreu. Quero dizer, ela não tinha a obrigação de fazer isso. Só porque ela é meu único parente que me restou vivo não significa que ela não poderia ter dito não. E acredite em mim, sua vida era muito menos complicada antes de eu chegar.
— Eu queria dizer alguma coisa além dessa bebida vermelha. — Ela se inclina, fazendo careta para o frasco em minha mesa, o líquido vermelho opaco com o sabor estranho e amargo que já não odeio tanto como costumava. O que é bom porque, segundo Damen, tomarei durante o resto de minha eternidade. Mas também não é como se eu não pudesse comer comida de verdade, é que simplesmente já não quero.
Meu suco imortal fornece todos os nutrientes que poderia precisar e sempre me sinto satisfeita sem importar se bebo muito ou pouco.
Mas ainda assim, sei o que ela está pensando. E não apenas porque posso ler todos os seus pensamentos, mas porque eu costumava pensar o mesmo sobre Damen. Eu costumava ficar muito incomodada ao vê-lo afastar o prato, recusar a comida ou fingir que comia. Até que eu descobri o seu segredo, claro.
— Eu, hum, comi alguma coisa mais cedo — finalmente disse, tentando não pressionar meus lábios, afastar meu olhar ou recuar – todas as coisas que normalmente me traem. — Com Miles e Haven — eu acrescento, esperando que isso explique a ausência de pratos sujos, embora saiba que dar muitos detalhes é ruim. Como um sinal com luzes vermelhas anunciando MENTIROSA A FRENTE! Sem mencionar que Sabine é advogada, uma das litigiosas de maior prestígio na firma em que trabalha, fazendo-a incrivelmente boa em detectar farsantes.
Mesmo ela utilizando esse dom exclusivamente para seu trabalho. Em sua vida pessoal, ela prefere confiar.
Exceto por hoje. Hoje ela não está acreditando em nenhuma palavra do que digo. Em vez disso ela me olha e diz:
— Estou preocupada com você.
Eu me viro para poder ficar de frente pra ela esperando demonstrar que estou aberta e pronta para escutar todas suas preocupações, mesmo que eu esteja bastante assustada.
— Estou bem — digo a ela, sorrindo e reafirmando com a cabeça para que ela acredite. — De verdade. Minhas notas estão boas, estou me dando bem com meus amigos, Damen e eu estamos... — faço uma pausa, me dando conta que nunca tinha falado com ela sobre meu relacionamento com ele antes. Nunca realmente o defini, e tenho praticamente guardado para mim.
E a verdade é, agora que eu comecei, não tenho certeza de como terminar. Quero dizer, nos referir como namorado e namorada soa tão banal e inadequado agora que nosso passado, presente e futuro estão em consideração, porque obviamente toda nossa história compartilhada nos faz muito mais que isso. Mas ainda assim, não é como se fosse proclamar publicamente como nós somos companheiros eternos ou almas gêmeas. Isso seria muito estranho e a verdade é que eu prefiro não definir. Já estou bastante confusa do jeito que as coisas estão. Além disso, o que eu poderia dizer a ela? Que temos nos amado durante séculos, e mesmo assim ainda não passamos da segunda base?
— Bem, Damen e eu estamos... Realmente indo bem — finalmente disse, engolindo com dificuldade quando me dou conta que eu disse bem no lugar de ótimo, que seria a única verdade que diria o dia todo.
— Então, ele estava aqui. — Ela coloca sua maleta de couro marrom no chão e olha pra mim.
Ambas completamente conscientes de como é fácil cair em suas armadilhas de litigiosa profissional.
Eu confirmo, mentalmente me chutando por insistir em ficar aqui ao invés de ir para a casa dele, como ele originalmente queria.
— Pensei ter visto o carro dele passar a toda velocidade. — Ela dirige seu olhar até a cama desfeita e as almofadas desordenadas e quando me olha de volta, não posso evitar me estremecer. Em especial quando pressinto o que virá.
— Ever. — Ela suspira. — Desculpa não estar aqui na maioria do tempo e por não passarmos muito tempo juntas. E mesmo que pareça que ainda estamos nos acostumando a viver juntas, eu quero que saiba que estou aqui para você. Se alguma vez quiser falar com alguém – eu irei te escutar.
Eu pressiono meus lábios e confirmo com a cabeça, sabendo que ela ainda não terminou, mas esperando que termine logo me mantenho calada e complacente.
— Porque mesmo que você pense que provavelmente eu sou muito velha para compreender o que você está passando, eu me lembro como era ter sua idade. Como esmagadora que pode ser a pressão constante de ter as medidas das modelos e atrizes e outras imagens impossíveis que você vê na TV.
Engulo seco e evito olhá-la, tentando não reagir de maneira exagerada, de não ir ao extremo de me defender já que é melhor que ela acredite nisso do que suspeitar da real verdade.
Desde que fui expulsa, Sabine tem estado me observando de perto mais do que nunca e quando ela recentemente carregou a estante de livros com livros de autoajuda tipo: Como Criar Um Adolescente Em Tempos Loucos Como Este, e também: Seu Adolescente e Os Meios de Comunicação (E O Que Você Pode Fazer Sobre Isso), se tornou mil vezes pior. Agora ela sublinha e destaca todos os comportamentos adolescentes mais alarmantes, e então me examina minuciosamente, verificando se há sintomas.
— Mas quero que saiba que é uma garota linda, muito mais bonita do que eu era na sua idade e isso de morrer de fome para competir com todas aquelas celebridades magras que gastam a metade da vida entrando e saindo da reabilitação não é apenas uma meta irracional e inalcançável, mas vai acabar fazendo com que você fique doente. — Ela me deu um olhar aguçado, querendo desesperadamente olhar através de mim. — Quero que saiba que você é perfeita do jeito que é, e me dói muito vê-la passar por isso. E se é por Damen, bem então, tenho que dizer que...
— Eu não sou anoréxica.
Ela me olha.
— Não sou bulímica, não estou fazendo nenhuma dieta maluca, não estou morrendo de fome, não estou forçando para ser tamanho zero, e eu não estou tentando parecer como uma gêmea Olsen. Sério, Sabine, pareço que estou passando fome? — Me levanto permitindo uma visão desobstruída de mim em toda minha gloriosa estrutura – vestida com jeans apertados – porque em todo caso, me sinto o oposto de magra. Eu pareço ter um desenvolvimento muito bom.
Ela me olha. E eu quero dizer, realmente me olha. Começando desde o alto da minha cabeça, até a ponta dos meus pés e parando em meus pálidos tornozelos expostos. Eu não tive nenhuma escolha a não ser mostrar que eu descobri que meu jeans favorito ficou muito curto e tive que enrolá-los para compensar.
— Eu só pensei... — ela se encolhe de ombros, insegura do que dizer agora que a evidência apresentada diante dela aponta claramente um veredito de não culpada. — Porque nunca te vejo comendo e sempre está tomando essa coisa vermelha...
— Então assumiu que passei de alcoólatra para anoréxica? — Eu rio para que ela veja que não estou com raiva – um pouco irritada talvez, mais comigo mesmo do que com ela. Deveria ter fingido melhor. Devia ao menos fingir que comia. — Não tem nada com o que se preocupar. — Sorrio. — Realmente. E para sermos claras, não tenho a intenção de usar ou vender drogas, experimentos com modificações em meu corpo, me cortar, me marcar, fazer algum piercing, ou o que quer que encontre na sua lista de O Top Dez Mal Ajustados Comportamentos Para Procurar Em Seu Adolescente dessa semana. E para registro, beber esse líquido vermelho não tem nada haver com tentar ser magra como as celebridades ou tentar agradar a Damen. Simplesmente acontece que eu gosto, e isso é tudo. Além disso, eu sei que Damen me ama e me aceita exatamente como... — eu paro, sabendo que comecei um assunto completamente diferente no qual não tenho vontade de falar e antes que ela possa formular as palavras que tem na cabeça, eu levanto uma mão e digo, — E não. Não é isso que eu quis dizer. Damen e eu estamos... — Conectados, saindo, namorado e namorada, amigos com benefícios, eternamente unidos. — Bem, estamos juntos. Você sabe, comprometidos, como um casal. Mas não estamos dormindo juntos.
Ainda.
Ela me olha com seu rosto tão apertado e desconfortável assim como me sinto por dentro. Nenhuma de nós duas quer falar sobre esse assunto, mas ao contrário de mim, ela sente que é seu dever.
— Ever, eu não estava insinuando... — ela começa. Mas então ela olha pra mim e eu olho pra ela, e ela dá de ombros decidindo que é melhor deixar assim porque ambas sabemos que ela certamente estava insinuando.
E eu estou tão aliviada de que tudo havia acabado relativamente fácil, que me pegou completamente desprevenida quando ela diz:
— Bem, como parece que você realmente se importa com esse rapaz, eu acho que deveria conhecê-lo. Então vamos agendar um horário para irmos todos jantar. Que tal este fim-de-semana?
Este fim de semana?
Eu engulo com dificuldade e olho pra ela, sabendo exatamente o que ela quer fazer: matar dois pássaros com uma refeição. Encontrando a oportunidade perfeita para me ver comer um prato cheio de comida, enquanto interroga Damen.
— Bem, isso parece ótimo e tudo mais exceto que a peça de Miles é na sexta — Lutei para manter minha voz calma e segura, — E então se supõem que haverá uma festa na qual provavelmente acabará muito tarde, então...
Ela concorda, com seus olhos fixos nos meus e seu olhar é tão misterioso que me faz suar.
— Então provavelmente não vai dar certo — termino de dizer, sabendo que eventualmente terei que passar por isso, mas esperando que não seja até muito tempo depois. Quero dizer, eu amo Sabine, e eu amo Damen, eu só não tenho certeza se vou amá-los juntos, especialmente uma vez que o interrogatório começar.
Ela me olha por um momento, então confirma e dá a volta, e quando estou a ponto de respirar aliviada, ela me olha sobre seus ombros e diz:
— Bem, sexta está claramente descartada, mas ainda nos resta o sábado. Por que você não diz para Damen estar aqui às oito?

8 comentários:

  1. Fernanda Boaventura4 de novembro de 2015 21:40

    Ahhhhhhhhh! Essa quero ver!

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  2. kkkkkkkkkkkkkkkk, essa eu pago para ver!
    Ass: Bina.

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  3. "Mas não estamos dormindo juntos.
    Ainda."
    q AINDA demoraaadoooo, eles me lembram da Rose e do Dimitri, eu tava louca pra eles transarem, e de 6 livros, só aconteceu duas vezes, DUAS VEZES! só, mas bjs, isso foi uns a mais, eheheheheh, mas n é só de bjs que se faz um humano, mudando a frasee

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  4. Sabine tem que relaxar um pouco! Anoréxica, drogada, alcoólatra.... Quer dizer, fala sério, nem todos os adolescentes são máquinas de problemas!!!

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