18 de outubro de 2015

Dois - O homem com sutiã de metal

A MANSÃO DA família era horrível.
Ah, claro, vocês não achariam. Apenas veriam uma enorme casa de tijolos marrons de seis andares com enfeites de gárgulas, os vitrais acima das portas e janelas, os degraus de mármore na entrada e todos os detalhes do blá-blá-blá de gente rica e se perguntariam por que estou morando nas ruas.
A resposta: tio Randolph.
Aquela casa era dele. Como filho mais velho, ele a herdou dos meus avós, que morreram antes de eu nascer. Eu nunca soube os detalhes do drama familiar, mas havia muito ressentimento entre os três filhos: Randolph, Frederick e minha mãe. Depois da Grande Cisão no Dia de Ação de Graças, nunca mais visitamos o antigo lar da família. Nosso apartamento ficava a poucos metros de distância, mas daria no mesmo se Randolph morasse em Marte.
Minha mãe só tocava no nome dele se por acaso passássemos de carro pela mansão. Ela apontava da mesma forma que apontaria para um penhasco perigoso. Está vendo aquela casa? Evite ir até lá.
Depois que comecei a morar nas ruas, às vezes passava por lá à noite. Eu olhava pelas janelas e via vitrines de vidro iluminadas exibindo espadas e machados antigos, elmos apavorantes com máscaras me encarando das paredes e estátuas delineadas nas janelas do andar de cima, como fantasmas petrificados.
Pensei várias vezes em invadir a casa para xeretar, mas nunca fiquei tentado a bater à porta. Por favor, tio Randolph, sei que você odiava minha mãe e não me vê há dez anos; sei que você liga mais para sua coleção enferrujada do que para a própria família; mas posso morar na sua linda casa e comer os farelos do seu pão?
Não, obrigado. Eu preferia ficar na rua, comendo falafel do dia anterior da praça de alimentação.
Ainda assim... parecia bem simples entrar, dar uma olhada e ver se conseguia encontrar respostas sobre o que estava acontecendo. E talvez, enquanto estivesse lá, pudesse pegar alguma coisa para penhorar.
Lamento se ofendo seu senso de honestidade.
Ah, espere. Não, não lamento nem um pouco.
Eu não roubo de qualquer um. Escolho imbecis antipáticos que já têm coisas demais. Se você dirige uma BMW novinha e estaciona na vaga de deficiente sem ter o adesivo, não vejo problema em arrombar sua janela e levar umas moedas esquecidas no porta-copos. Se você sai da Barneys com a sacola cheia de lenços de seda e está tão ocupado falando ao celular e empurrando as pessoas para passar que nem presta atenção, eu estou lá, pronto para furtar sua carteira. Se alguém pode gastar cinco mil dólares só para assoar o nariz, também pode pagar o meu jantar.
Sou juiz, júri e ladrão. E, no que diz respeito a imbecis antipáticos, achei que não podia existir ninguém pior do que tio Randolph.
A entrada da casa dava para a avenida Commonwealth. Segui para os fundos, para a poeticamente batizada travessa Pública 429. A vaga de Randolph estava vazia. Uma escada levava a uma entrada pelo porão. Se havia um sistema de segurança, não consegui ver. A porta tinha apenas uma fechadura simples, nada de tranca. O que é isso, Randolph? Eu esperava um desafio.
Dois minutos depois, eu estava lá dentro.
Na cozinha, me servi de peito de peru, torradas e leite direto da caixa. Nada de falafel. Droga.
Agora fiquei com desejo, mas encontrei uma barra de chocolate e a guardei no bolso do casaco. (Chocolate precisa ser saboreado, não comido às pressas.) Então subi as escadas até um mausoléu de mobília de mogno, tapetes orientais, pinturas a óleo, piso de mármore e candelabros de cristal... Era constrangedor. Quem vivia assim?
Eu não tinha noção do quanto tudo aquilo era caro quando tinha seis anos, mas minha impressão geral da mansão continuava a mesma: escura, opressiva e apavorante. Era difícil imaginar minha mãe passando a infância ali. Era fácil entender por que ela gostava tanto da natureza.
Nosso apartamento em cima da churrascaria coreana em Allston era bem aconchegante, mas mamãe não gostava de ficar dentro de casa. Ela sempre dizia que seu verdadeiro lar era Blue Hills. Fazíamos trilhas e acampávamos por lá fizesse chuva ou sol; o ar era fresco, não havia paredes nem teto e nenhuma companhia além de patos, gansos e esquilos.
Em comparação, a mansão parecia uma prisão. Enquanto estava sozinho no saguão, senti um arrepio, como se pequenos besouros invisíveis rastejassem pela minha pele.
Fui para o segundo andar. A biblioteca tinha cheiro de couro e cera com aroma de limão, como eu lembrava. Perto da parede, uma vitrine com os elmos vikings enferrujados e os machados corroídos de Randolph. Minha mãe me disse uma vez que Randolph dava aula de história em Harvard antes de alguma grande desgraça fazer com que fosse demitido. Ela não quis entrar em detalhes, mas o cara ainda era doido por artefatos.
Você é mais inteligente do que seus dois tios, Magnus, minha mãe me disse certa vez. Com suas notas, poderia entrar em Harvard se quisesse.
Isso foi quando ela ainda estava viva, eu ainda estava na escola e pensar no futuro ia além de como conseguir a próxima refeição.
Em um canto do escritório de Randolph, havia um grande pedaço de pedra que parecia uma lápide, com a frente entalhada e pintada com desenhos vermelhos elegantes e intrincados. No centro, havia um desenho rudimentar de uma fera rosnando, talvez um leão ou um lobo.
Tremi. Não vamos começar a pensar em lobos.
Eu me aproximei da escrivaninha de Randolph. Estava torcendo para encontrar um computador ou um bloco cheio de informações úteis, qualquer coisa que explicasse por que eles estavam me procurando. Mas, em vez disso, espalhados sobre a mesa havia pedaços de pergaminho finos como casca de cebola. Pareciam mapas que um estudante da época medieval tinha feito para a aula de estudos sociais: desenhos desbotados de uma costa, com vários pontos sinalizados em um alfabeto que eu não conhecia. Em cima deles, como peso de papel, estava uma bolsinha de couro.
Prendi a respiração. Eu conhecia aquela bolsinha. Desamarrei a corda e peguei uma das peças do dominó... Só que não era um dominó. Meu eu de seis anos supôs que Annabeth e eu brincávamos com dominós. Ao longo dos anos, a lembrança foi reforçando a si mesma. Mas, em vez de pontos, aquelas pedras tinham símbolos vermelhos pintados.
A que eu segurava tinha a forma de um galho de árvore ou de um torto:


Meu coração disparou. Não sabia bem por quê. Perguntei-me se ir até ali fora mesmo uma boa ideia. As paredes pareciam estar se fechando ao meu redor. Na grande pedra no canto, o desenho do animal parecia rosnar para mim, com o contorno vermelho brilhando como sangue fresco.
Fui até a janela. Achei que olhar a rua talvez ajudasse. Entre as avenidas ficava o Commonwealth Mall, um parque comprido coberto de neve. As árvores sem folhas estavam decoradas com luzes brancas de Natal. No final da quadra, dentro de uma cerca de ferro, havia a estátua de bronze de Leif Erikson sobre um pedestal, uma das mãos rente à testa. Leif olhava na direção do viaduto Charlesgate como se dizendo: Vejam só, descobri uma rodovia!
Minha mãe e eu gostávamos de fazer piada com Leif. A armadura dele era leve: uma saia curta e um peitoral que parecia um sutiã viking. Eu não sabia por que aquela estátua estava no meio de Boston, mas achei que não podia ser coincidência tio Randolph estudar vikings. Ele morou ali a vida toda. Devia olhar para Leif todos os dias pela janela. Talvez, quando criança, Randolph tenha pensado: Um dia, quero estudar os vikings. Homens que usam sutiã de metal são demais!
Meus olhos seguiram para a base da estátua. Alguém estava em pé ali... olhando para mim. Sabe quando você vê uma pessoa fora do contexto e demora um segundo para reconhecê-la? Na sombra de Leif Erikson, havia um homem alto e pálido com uma jaqueta preta de couro, calça preta de motoqueiro e botas de bico fino. O cabelo curto e espetado era tão louro que parecia branco. A única cor vinha de um cachecol listrado de vermelho e branco amarrado no pescoço e caindo sobre os ombros como um doce de Natal derretido.
Se eu não o conhecesse, podia achar que estava fantasiado de algum personagem de anime. Mas eu o conhecia. Era Hearth, meu companheiro sem-teto e “mãe” emprestada.
Fiquei um pouco assustado e ofendido. Ele me viu na rua e me seguiu? Eu não precisava de uma fada madrinha perseguidora cuidando de mim.
Abri os braços: O que você está fazendo aqui?
Hearth fez um gesto como se estivesse tirando uma coisa da mão em concha e jogando longe. Depois de dois anos andando com ele, eu estava ficando bom em ler linguagem de sinais. Significava SAIA.
Hearth não parecia alarmado, mas era difícil decifrá-lo. Ele nunca demonstrava muita emoção. Sempre que andávamos juntos, só me olhava com aqueles olhos cinza-claros, como se a qualquer momento eu fosse explodir.
Perdi segundos valiosos tentando entender o que ele queria dizer, por que ele estava aqui quando devia estar na praça Copley.
Hearth fez outro gesto: as duas mãos apontando para fora com dois dedos, se movendo para cima e para baixo duas vezes. Ande logo.
— Por quê? — perguntei em voz alta.
Atrás de mim, uma voz grave disse:
— Olá, Magnus.
Tomei um susto daqueles. Na porta da biblioteca havia um homem com peito largo, barba branca bem aparada e cabelo grisalho cortado curto. Usava um sobretudo de caxemira bege por cima de um terno de lã preto. As mãos enluvadas seguravam o cabo de uma bengala de madeira polida com ponta de ferro. Na última vez que o vi, o cabelo dele era preto, mas o reconheci pela voz.
— Randolph.
Ele inclinou a cabeça um milímetro.
— Que surpresa agradável. Estou feliz em encontrá-lo aqui. — Ele não parecia nem surpreso nem feliz. — Não temos muito tempo.
A comida e o leite começaram a se agitar no meu estômago.
— M-Muito tempo... para quê?
Randolph franziu a testa. O nariz se enrugou como se ele estivesse sentindo um cheiro desagradável.
— Você faz dezesseis anos hoje, não é? Eles estão vindo matar você.


27 comentários:

  1. "Lamento se ofendo seu senso de honestidade.
    Ah, espere. Não, não lamento nem um pouco."

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    1. aushauhsuah Ele tem um jeito Percy de falar.

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    2. S, tem msm. Naquela parte do primeiro capítulo que ele tinha vontade de gritar SURPRESA o Magnus fala tipo o Percy

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    3. eu já percebi o padrão ,tio Rick sempre tem um personagem meio Percy,irônico,meio "Jura??Não estou nem aí se vc é um deus e quer me matar ,só quero terminar de tomar minha coca em paz ,pode ser??"

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  2. adorei o jeito dele! Ele é muito divertido e tão louco quanto o Percy e a Sadie

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  3. Garotos ironicos são outro nivel
    -Tayná

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  4. Depois de tanto tempo sem visitar o blog, eu volto e descubro que você postou um dos livros que eu estava querendo tanto ler! Obrigado Karina! Sucesso para você e para o blog!

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  5. Esse Hearth é filho de Atena?Cabelo loiro quase branco,e olhos cinza-claro ? Magnus parece o Percy,adoro gente assim <3

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    1. tambem pensei q ele era filho de Atena, mas agr n sei

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  6. Kkkkk Ooook.. Esse cara e doido.. Ou seja.. ESSE LIVRO SERA DEMAIS KKKkkk

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  7. Adoro o jeito dele, pois ele não liga para nada; não liga se ofende a nós ou até msm a sua própria familía

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  8. AIMEUSDEUSES!
    JÁ AMO ESSE CARA!!!
    (sou dessas que se apaixona fácil, fácil por personagens, mas na vida real não tá dando a mínima pra nada que não seja amizade :P kkkkkk)

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  9. Em todos os livros do Rick tem que ter uma pessoa sarcástica. Imagine como ele não deve ser o sarcásmo em pessoa ._.

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  10. Olá sobrinho q eu não vejo a anos e q invadiu minha mansão
    Você faz 16 hj né? Eles estão vindo te matar
    Bem loco

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  11. Os livros do tio Rick sempre tem um ser com humor ou divertidos,Percy..Sadie...Leo...É agora Magnus,adoro esses personagens divertidos.

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  12. nossa só agora percebi a saudade que tinha desses títulos que só tio Rick consegue inventar kkkkk adorei o sarcasmo de Magnus com certeza ele e o Percy se dariam bem

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  13. So fico imaginandi o tio Rick fazendo uma historis con Percy Sadie Leo e Nagnus junto
    Ja amei <3
    Adoro o sacarsmo deses personagens




    Lu

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    1. O chato de VC encontrar um site e ler um livro que todos já leram a ,tipo ...eons é q todos já falaram tudo q VC ia dizer !!!!
      Só precisa concordar !!!
      Simplesmente sem graça !!!
      Kkkkkkkkkkkk Enfim ... Concordo com tudo mundo. Amo ,amo,,amo de paxão personagens sarcásticos e apaixono (e desapaixono ) com facilidade ...
      Ha amando a blog !!!!

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  14. Sarcasmo total...o Blog esta otimo Karina continue assim...

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  15. Deuses tio rick sempre faz um personagens percyzado do tipo ironico mais agil esse magnus e tipo "vc è um deus ? Nossa super fds pra vc deixa eu comer em paz e nao enche okay " caaraa euu tou amaandoo

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  16. Gente, adorei esse Magnus!!!

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  17. Adorei o Magnus KKKKKKKKK
    "tal derretido.
    Se eu não o conhecesse, podia achar que estava fantasiado de algum personagem de anime. Mas eu o conhecia. Era Hearth, meu companheiro sem-teto e “mãe” emprestada." Pq diabos eu imaginei a Mama Hearth cozinhando com um avental de florzinhas pro Mag? :v

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  18. To gostando bastante do começo do livro,mas esperava um personagem diferente do Magnus.Eu queria que o Rick inovasse sabe?Eu vejo muito do Percy nele,talvez eu esteja sendo chata e tirando conclusões precipitadas,mas vamos ver.
    -Lisa
    To amandoo!Parabéns pelo ótimo trabalho e muito obrigada Karina!
    pS:acho que vou amar o Hearth!

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