29 de outubro de 2015

Dezoito

Voltando da escola, chego em casa e encontro Damen à minha espera nos degraus da entrada, sorrindo de um modo que limpa as nuvens do céu e, com elas, todas as minhas dúvidas.
— Como você passou pela portaria? — pergunto, certa de que não liguei para permitir a entrada dele.
— Charme e um carro bacana funcionam sempre. — Ele ri, fica de pé e limpa a poeira da parte de trás de sua calça preta. — Então, como foi seu dia?
Dou de ombros, sabendo que estou quebrando a mais fundamental de todas as regras: a de nunca convidar um estranho para entrar em casa, mesmo que seja seu suposto namorado.
— Ah, o de sempre — digo. — A substituta falou que nunca mais vai voltar, a Sra. Machado pediu que eu nunca mais voltasse...
Olhando de relance para Damen, fico tentada a continuar inventando histórias, pois vejo que ele não está prestando a menor atenção. Embora sacudindo a cabeça como se estivesse ouvindo, ele parece preocupado, distante.
Na cozinha, enfio a cabeça na geladeira e pergunto:
— E você? Fez o que o dia inteiro? —Tiro uma garrafa de água mineral e ofereço a Damen, mas ele agradece com a cabeça e dá um gole em sua bebida vermelha.
— Dei um passeio de carro, surfei e fiquei esperando o sinal tocar pra ver você de novo — ele responde sorrindo.
— Bastava ter ficado na escola — digo. — Aí você não ia ter de esperar.
— Tentarei me lembrar disso amanhã. — Ele ri.
Apoiada na bancada, fico rodopiando a tampinha da garrafa de água, aflita por estar sozinha com Damen neste casarão vazio, com tantas perguntas por fazer, sem a menor ideia de como iniciar.
— Quer ir lá pra piscina? — digo afinal. Talvez o ar fresco e o céu aberto me deixem um pouco mais calma. Mas ele faz que não com a cabeça e me toma pela mão.
— Prefiro ir lá pra cima — diz —, dar uma olhada em seu quarto.
— Como você sabe que meu quarto fica lá em cima? — pergunto, olhando desconfiada para ele.
— Os quartos ficam sempre na parte de cima, não ficam? — ele responde rindo.
Fico na dúvida: não sei se devo ceder aos caprichos dele ou arrumar um jeito educado de evitá-lo. Mas Damen aperta minha mão e diz:
— Vem, prometo que não vou morder. — Depois abre um sorriso tão irresistível que só me resta um desejo: que Riley não esteja à minha espera no quarto.
Mas assim que chego ao topo da escada ela irrompe da minha sala de estudos e vai logo dizendo:
— Ah, minha irmã, sinto muito! Eu não queria brigar com... Ôpa! — Ela para de repente e arregala olhos de coruja para nós dois.
Mas continuo andando para meu quarto como se nada tivesse visto, torcendo para que minha irmã tenha o bom senso de dar o fora e só voltar mais tarde. Bem mais tarde.
— Parece que você deixou a televisão ligada — diz Damen, e entra na sala de estudos e TV conjugada ao quarto. Por pouco não avanço em Riley quando vejo que ela segue atrás dele, olhando-o de cima a baixo, e começa a saltitar, sacudindo os polegares em sinal de aprovação.
Apesar das minhas caretas de súplica, ela se esborracha no sofá e planta os dois pés nos joelhos de Damen.
Furiosa com a falta de desconfiômetro da pentelha, saio a passos firmes para o banheiro, apostando que cedo ou tarde ela fará alguma besteira, algo maluco que me deixará em maus lençóis. Arranco o moletom e inicio minha rotina de todos os dias: escovo os dentes com uma das mãos, passo desodorante com a outra, enxáguo a boca e visto uma camiseta limpa. Depois desfaço o rabo de cavalo, passo um pouquinho de brilho nos lábios, espirro um perfume e volto à sala. Riley ainda está lá, examinando o interior das orelhas de Damen.
— Venha dar uma olhada na varanda — digo, louca para afastá-lo de minha irmã. — A vista é linda.
Mas ele faz que não com a cabeça e diz:
— Mais tarde. — Depois bate no sofá para que eu sente a seu lado, e Riley logo começa a pular de alegria.
Por um instante fico observando Damen: ele ali, inocentemente achando que está sozinho no sofá, sem desconfiar de nada, quando na verdade a espetada que sente no lóbulo da orelha, a coceira nos joelhos, o friozinho no pescoço, tudo isso é cortesia de minha finada irmãzinha.
— Hmm... esqueci minha água no banheiro — digo, firmando os olhos em Riley e dando meia-volta para sair, achando que ela virá atrás de mim caso ainda tenha um algum juízo na cabeça.
Mas Damen levanta e diz:
— Permita-me.
E quando se levanta para sair, espremido entre o sofá e a mesinha, ele nitidamente se desvia das pernas de Riley, que balançam sobre a borda.
Assim que ficamos sozinhas, eu e minha irmã trocamos caretas, mas, antes que eu possa dizer qualquer palavra, ela já se desmaterializou no ar.
— Aqui está — diz Damen, jogando a garrafa em minha direção e livremente cruzando o mesmo espaço que, minutos antes, ele cruzou com tanta cautela. Ao perceber minha cara de espanto, pergunta: — Que foi?
Apenas balanço a cabeça e volto os olhos para a TV, dizendo a mim mesma que tudo não passou de uma boba coincidência. Que de modo algum ele poderia ter visto Riley.
— Então, me diga: como é que você consegue?
A essa altura estamos ao lado da piscina, esparramados numa espreguiçadeira depois de devorarmos uma pizza quase inteira. Ou melhor: depois que eu devorei uma pizza quase inteira, já que Damen parece mais com uma modelo que com um garoto, dessas que empurram a comida para um lado, depois para o outro, enrolam, enrolam e não dão mais que duas ou três mordidas. Ele bebericou seu líquido vermelho muito mais do que comeu.
— Consigo o quê? — ele pergunta, o braço levemente descansando em minha barriga, o queixo roçando meu ombro.
— Tudo! Sério. Você nunca faz dever de casa, mas sabe todas as respostas. Pega um pincel, molha na tinta e, voilà, dali a pouco pintou um Picasso muito melhor que o próprio Picasso! Por acaso você é ruim em algum esporte? Desses que não têm coordenação motora alguma? Por que você não confessa agora?
Ele exala um suspiro.
— Bem, nunca fui grande coisa no beisebol. — Depois sussurra em meu ouvido: — Mas, sem falsa modéstia, sou fera no futebol e mando razoavelmente bem no surfe.
— Então deve ser a música. Aposto que você não sabe nem onde fica o dó.
— Me dê um violão e toco alguma melodia pra você ouvir. Ou um piano, um violino, um saxofone...
— Então o que é? Deixa de onda, vai. Todo mundo manda mal em alguma área! Conta pra mim!
— Por que você quer saber? — ele pergunta, e me puxa para mais perto. — Por que arruinar essa imagem perfeita que faz de mim?
— Porque fico me sentindo uma retardada, uma trapalhona sempre que estou a seu lado. Detesto isso. Sério, sou medíocre em tantos assuntos! Preciso saber que você tem algum defeito também. Vou me sentir melhor. Diga pra mim, vá.
— Você não é nada medíocre — ele diz, roçando o nariz em meus cabelos, a voz séria demais.
Mas me recuso a desistir. Preciso saber de alguma característica que o torne mais humano, pelo menos um pouco.
— Só um defeitinho, sério. Por favor. Mesmo que você tenha de mentir. É por uma boa causa: minha autoestima.
Tento me virar para vê-lo melhor, mas Damen aperta seu abraço, deixando-me imobilizada. Depois dá um beijinho em minha orelha e sussurra:
— Você quer mesmo saber?
Faço que sim com a cabeça, o coração batendo a mil, o sangue pulsando freneticamente nas veias.
— Sou péssimo em relacionamentos.
Olhando fixamente para o fogo no aquecedor do jardim, tento imaginar o que ele quis dizer com isso. Tudo bem, fui eu que insisti para que ele respondesse, mas não fazia questão de uma resposta tão séria assim.
— Hmm... se importa de explicar um pouquinho melhor? — pergunto afinal, com um risinho nervoso. Nem sei se quero mesmo alguma explicação. E se a Drina tiver alguma relação com isso? Detestaria ter de tocar no assunto.
Damen me aperta ainda mais, respirando fundo. E fica assim por tanto tempo que dá a impressão de que nunca mais vai abrir a boca para dizer o que quer que seja. Mas ele finalmente diz:
— É que... sempre acabo decepcionando as pessoas.
— Mas você só tem dezessete anos! — Desvencilho-me do abraço para olhar nos olhos dele. — Quantas decepções você pode ter causado até agora?
Mas em vez de responder ele se joga sobre mim e sussurra em meu ouvido:
— Que tal um mergulho?
Mais uma prova da perfeição de Damen: ele sempre guarda uma sunga no carro.
— Sabe como é, na Califórnia a gente nunca imagina quando vai precisar de uma — ele diz, parado à beira da piscina, sorrindo para mim. — Também tenho uma roupa de mergulho. Será que devo buscar?
— Não sei — digo, e entro pelo lado fundo da piscina, fumacinhas de vapor subindo a meu redor. — Você vai ter de pagar pra ver.
Ele aproxima-se da borda e finge testar a temperatura da água com o pé.
— Nada disso — digo. — Vai ter de pular de uma vez.
— Posso dar um salto mortal?
— Cambalhota, canhão, o que você quiser — respondo rindo. Depois, ele dá um perfeito salto carpado, emergindo a meu lado.
— Perfeito! — diz, os cabelos lambidos para trás, o rosto ensopado, os cílios pontilhados por gotas minúsculas. E quando acho que vai me dar um beijo, mergulha novamente e nada para o outro lado.
Então respiro fundo, engulo meu orgulho e nado atrás dele.
— Assim está bem melhor — ele diz, e me puxa para um abraço.
— Tem medo do fundo? — pergunto, meus pés quase alcançando o chão.
— Eu estava me referindo a você. Devia se vestir assim mais vezes.
Dou uma rápida conferida em meu corpo desbotado, que quase se confunde com o branco do biquíni, e tento evitar uma crise de insegurança diante do corpo perfeitamente esculpido e bronzeado à minha frente.
— Muito melhor que aqueles jeans e moletons, não acha? — Damen ri. Não sei ao certo o que dizer, portanto nada digo.
— Mas acho que você faz o que tem de fazer, certo? — ele acrescenta.
Corro os olhos por seu rosto em busca de alguma pista, suspeitando que ele queria dizer algo mais, como se conhecesse os motivos que de fato tenho para me vestir do jeito que me visto.
— Está na cara que você teme a ira de Stacia e de Honor. Aquelas duas não gostam muito de concorrência, não é? — Damen leva meus cabelos para trás das orelhas e faz um carinho em meu rosto.
— Por acaso estou concorrendo com elas a algo? — digo, lembrando-me das rosas brancas que volta e meia ele dá a Stacia, do bate-boca com a garota hoje na escola, da ameaça que ela certamente pretende cumprir. Damen nada fala, apenas fica olhando para mim, por um tempo aparentemente interminável, longo o bastante para que o clima se desfaça entre nós e eu me afaste dele.
— Ever, nunca houve competição alguma! — ele diz, e vem atrás de mim.
Mas vou por baixo d'água até a borda e saio da piscina o mais depressa possível, sabendo que devo agir rápido: se deixar que ele se aproxime, não vou conseguir dizer o que preciso, as palavras vão evaporar de minha boca.
— Como é que eu vou saber, se uma hora você está de um jeito, depois está de outro? — pergunto, as mãos trêmulas, a voz incerta, o coração querendo deixar tudo isso de lado e voltar ao anoitecer romântico que vinha rolando até agora. Mas sei que preciso ser firme e seguir adiante, aconteça o que acontecer. — Quer dizer, uma hora você fica me olhando desse jeito, cheio de carinho, depois fica dando o maior mole pra Stacia, quase se derretendo por ela!
Franzo os lábios e espero que ele diga algo, observando-o sair da piscina também vir caminhando em minha direção, lindo, molhado, quase cintilante. Mal consigo respirar.
— Ever, eu... — Ele suspira de olhos fechados. Ao abri-los, dá mais um passo à frente e diz: — Nunca tive a intenção de magoar você. Juro. — Depois passa o braço a meu redor e busca meu olhar. Quando enfim cedo e olho de volta, ele continua: — Em nenhum momento quis ser leviano. Sinto muito se dei a impressão de que estava brincando com seus sentimentos. Falei que não era bom nesse tipo de assunto. — Por fim ele sorri e, passando os dedos por meus cabelos molhados, traz mais uma tulipa vermelha.
Olho fixamente para ele, fazendo uma rápida vistoria de seu corpo. Nenhuma manga de camisa para esconder algum objeto, nenhum bolso, nada. Apenas um par de ombros largos, um peitoral definido, um abdômen tanquinho, enfim, um maravilhoso corpo seminu, apenas com uma sunga molhada... e a maldita tulipa em uma das mãos.
— Como você faz isso? — pergunto, segurando a respiração, cansada de saber que em minha orelha não havia tulipa alguma.
— Faço o quê? — ele retruca, e novamente abraça minha cintura, puxando-me para mais perto.
— As tulipas, as rosas, essas coisas todas! — sussurro, fazendo o que posso para ignorar as mãos que tocam minha pele, que me deixam tão aquecida, tão sonolenta, quase embriagada.
— Mágica — ele responde sorrindo.
Afasto-me dele, busco uma toalha e me cubro com ela.
— Por que você nunca fala a sério? — A essa altura já me pergunto se não me meti numa grande enrascada, se ainda tenho tempo para cair fora.
— É sério! — ele resmunga. Veste a camiseta, recolhe o restante das roupas, procura suas chaves e sai correndo. Antes de chegar ao portão, no entanto, vira-se para trás e diz: — Sabine acabou de chegar!
E embrulhada na toalha úmida, morrendo de frio, vejo em silêncio meu misterioso namorado sumir na escuridão da rua.

15 comentários:

  1. Pelo anjo, ainda não entendi por que tulipa!
    Ass: Bina.

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    1. Uma caçadora de sombras a vista? Hahaha

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    2. Shadowhunters ??

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    3. tulipas, significam, amor eterno, incondicional, amor verdadeiro, amor real!
      oque parece muito nesse livro!!!!!!!!!!!

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  2. Cara adorei o livro de certo modo mais confessos que tô boiando um pouquinho
    Ass>Amanda Drew

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  3. Pelo anjo... estou amando esse livro mas tambem estou boiando um pouco no quesito Daman /o\

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  4. Nossa só eu tô lembrando do patch ao ver as atitudes dele? ?? Tá estranho mais tô gostando

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  5. Caçadora de sombras ( de que livro é? ) Pelo anjo (????) Eu boiando em vários quesitos amadas.... AMANDO #Damever (inventei agr kkk)

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    1. Olá, Letícia! Ambas são expressões relacionadas às séries da Cassandra Clare - Os Instrumentos Mortais e As Peças Infernais. Caçadores de Sombras é como são chamados os fãs... e "pelo Anjo" equivale a "por Deus"

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  6. "Por um instante fico observando Damen: ele ali, inocentemente achando que está sozinho no sofá, sem desconfiar de nada, quando na verdade a espetada que sente no lóbulo da orelha, a coceira nos joelhos, o friozinho no pescoço, tudo isso é cortesia de minha finada irmãzinha." kk, eu acho engraçado, mas ela morreu...mesmo podendo ver a irmã, ela ta morta, ngm ve ela, seu corpinho deve ta se decompondo num caixão e tals e o espirito dela preso ali... "— Prefiro ir lá pra cima — diz —, dar uma olhada em seu quarto." awn safadinho kk se meu Dimka tivesse sido assim, hohoho, mentira! ele n iria ser tão...Dimitri kk
    dai eu tenho que pergunta, como que vcs não sabem que ele é um vampiro? "Tiro uma garrafa de água mineral e ofereço a Damen, mas ele agradece com a cabeça e dá um gole em sua bebida vermelha." BEBIDA VERMELHA helloooooooooooooooooooooooooooooo, eles devem ser almas gemias, sei lá, sei q ODEIO a tal de Drinha, vaca, fdp, sem vergonha, poluidora de mentes, kk ela é a malvadona da história

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    1. sinceramente karina n sei pq vc deixa essa guria fazer isso.
      COMO ME IRRITA.

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    2. Isso que nem publiquei todos os comentários da Vitória... deixei vários de fora :v

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  7. Sera que tem explicação do porque das tulipas...??
    Ai,ai ta na cara q o Damen é um vampiro <3

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