18 de outubro de 2015

Dezoito - Eu compro uma briga contra o café da manhã

— ALI ESTÁ ELE. — T.J. se levantou e pegou minha mão. — Sente-se aqui com a gente. Você causou uma primeira impressão e tanto ontem à noite, no banquete!
Ele estava vestido da mesma forma que no dia anterior: de jaqueta azul de lã do exército com a camisa verde do hotel, calça jeans e botas de couro.
Com ele estavam o meio troll X, a ruiva Mallory Keen e um cara que imaginei ser o Mestiço Gunderson, que parecia um Robinson Crusoé com esteroides. A camisa dele era feita de retalhos de peles de animais. A calça de couro estava em frangalhos. Até pelos padrões vikings, a barba era desgrenhada, decorada com boa parte de uma omelete de queijo.
Meus quatro colegas de corredor abriram espaço para mim na mesa, o que foi muito legal.
Em comparação ao Salão dos Mortos, o salão dezenove era um ambiente íntimo. Havia umas seis mesas espalhadas pela sala, a maioria desocupada. Em um canto, as chamas de uma lareira estalavam em frente a um sofá surrado. Ao longo da parede, uma mesa de bufê exibia todo tipo de comida de café da manhã imaginável (e alguns tipos que eu nunca tinha imaginado).
T.J. e companhia tinham se posicionado em frente a um janelão virado para um amplo campo coberto de neve. Não fazia sentido, considerando que era verão no meu átrio no mesmo corredor, mas eu já tinha aprendido que a geografia do hotel era estranha.
— Ali é Niflheim — explicou T.J. — o reino de gelo. A vista muda diariamente, fica variando entre os nove mundos.
— Os nove mundos... — Encarei meus ovos mexidos, me perguntando de que sistema solar eles vieram. — Fico ouvindo todos falarem dos nove mundos. Mas ainda é difícil acreditar.
Mallory Keen soprou o açúcar de confeiteiro de cima do donut dela.
— Acredite, novato. Já visitei seis deles até agora.
— E eu, cinco. — Mestiço sorriu, mostrando para mim pedaços da omelete de queijo nos dentes.
— Claro que Midgard não conta. É o mundo humano. Já fui a Álfaheim, a Nídavellir, a Jötunheim...
— Eu fui à Disney World — disse X.
Mallory suspirou. Com o cabelo ruivo, os olhos verdes e açúcar de confeiteiro ao redor da boca, ela lembrava um Coringa com as cores invertidas.
— Pela última vez, seu cabeça-dura, a Disney não é um dos nove mundos.
— Por que tem esse nome, então? — X assentiu com arrogância, considerando a discussão vencida, e voltou a se concentrar na comida, sugando carne da carcaça de um crustáceo grande.
T.J. empurrou o prato vazio.
— Magnus, não sei se vai ajudar, mas os nove mundos não são planetas. Estão mais para... dimensões diferentes, camadas diferentes da realidade, todas ligadas pela Árvore do Mundo.
— Obrigado — falei. — Isso é bem mais confuso.
Ele riu.
— É, acho que é mesmo.
— A Árvore do Mundo é a do Salão dos Mortos?
— Não — respondeu Mallory. — A Árvore do Mundo é bem maior. Você vai ver, mais cedo ou mais tarde.
Isso me pareceu agourento. Tentei me concentrar na comida, mas era difícil com X ao meu lado se entupindo com um caranguejo mutante nojento.
Eu apontei para o casaco de T.J.
— Isso é um uniforme da Guerra Civil?
— Soldado na quinquagésima quarta infantaria em Massachusetts, meu amigo. Sou de Boston, como você. Só cheguei aqui um pouco antes.
Eu fiz os cálculos.
— Você morreu em batalha cento e cinquenta anos atrás?
T.J. deu um sorriso largo.
— No ataque a Fort Wagner, na Carolina do Sul. Meu pai era Tyr, deus da coragem, da justiça e do julgamento por combate. Minha mãe era uma escrava fugida.
Tentei encaixar isso na minha nova visão de mundo: um adolescente dos anos 1860, filho de uma ex-escrava e de um deus nórdico, agora estava tomando café da manhã comigo em um hotel extradimensional.
X arrotou, o que com certeza colocou as coisas em perspectiva.
— Deuses de Asgard! — reclamou Mallory. — Que cheiro é esse!
— Me desculpe — resmungou X.
— Seu nome é mesmo X? — perguntei.
— Não, meu nome de verdade é... — O meio troll disse alguma coisa que começava com alguns Ks e prosseguia por uns trinta segundos.
Mestiço limpou as mãos nas peles que formavam sua camisa.
— Está vendo? Ninguém consegue pronunciar isso. Nós o chamamos de X.
— X — concordou X.
— Ele é mais uma das aquisições de Sam al-Abbas — contou T.J. — X deu de cara com uma rinha de cachorros... uma daquelas ilegais. Onde foi mesmo, X? Em Chicago?
— Chiii-ca-go — afirmou X.
— Ele viu o que estava acontecendo e ficou louco. Começou a quebrar tudo, a bater nos apostadores e a libertar os cachorros.
— Os cachorros deveriam brigar quando tivessem vontade — disse X. — Não para humanos gananciosos. Deveriam ser selvagens e livres. Não ficar em gaiolas.
Eu não queria discutir com o grandalhão, mas não gostei muito da ideia de cachorros selvagens brigando quando tivessem vontade. Isso tinha muita cara de comportamento de lobos, um animal do qual eu me recusava a ser o arauto.
— Enfim — continuou T.J. — virou uma batalha e tanto: X contra um bando de gângsteres com armas automáticas. Acabaram matando-o, mas X levou vários bandidos com ele e libertou muitos cachorros. Isso foi... o quê... um mês atrás?
X resmungou e continuou a chupar o crustáceo.
T.J. abriu as mãos.
— Samirah o julgou honrado e o trouxe para cá. Caíram em cima dela por causa disso.
Mallory riu com deboche.
— Você está pegando leve. Um troll em Valhala. Até parece que eles deixariam isso passar impune.
— Meio troll — corrigiu X. — Esse é meu melhor lado, Mallory Keen.
— Ela não quis ofender, X — disse T.J. — É que os preconceitos dificilmente morrem. Quando cheguei aqui em 1863, também não fui recebido de braços abertos.
Mallory revirou os olhos.
— Então você os conquistou com sua personalidade incrível. Eu juro, vocês estão dando má fama ao andar dezenove. E agora temos Magnus.
Mestiço se inclinou na minha direção.
— Não ligue para Mallory. Ela é um amor quando você aceita que ela é uma pessoa horrível.
— Cala a boca, Mestiço!
O grandão riu.
— Ela só está mal-humorada porque morreu tentando desarmar um carro-bomba com a cara.
As orelhas da garota ficaram tão vermelhas quanto suco de morango.
— Eu não... não estava... Argh!
— Magnus, não se preocupe com aquela confusão ontem à noite — prosseguiu Mestiço. — As pessoas vão esquecer em algumas décadas. Acredite, já vi isso acontecer. Morri durante a invasão viking à Anglia Oriental, lutei no exército de Ivar, o Sem-Ossos. Levei vinte flechas no peito protegendo meu lorde!
— Ai — falei.
Mestiço deu de ombros.
— Estou aqui há... hum, quase mil e duzentos anos agora.
Eu fiquei olhando para ele. Apesar do tamanho e da barba farta, Mestiço parecia ter no máximo dezoito anos.
— Como você aguenta sem ficar maluco? E por que chamam você de Mestiço?
O sorriso dele sumiu.
— Vou responder à segunda pergunta primeiro... Quando nasci, era tão grande e feio que minha mãe disse que eu era uma mistura de humano e pedra. O nome pegou.
— E você continua feio — murmurou Mallory.
— Quanto a ficar maluco aqui... Alguns ficam, Magnus. Esperar o Ragnarök é difícil. O truque é se manter ocupado. Tem muita coisa para fazer aqui. Eu aprendi umas dez línguas, inclusive o inglês. Tenho doutorado em literatura germânica e aprendi a tricotar.
T.J. assentiu.
— Foi por isso que convidei você para o café da manhã, Magnus.
— Para eu aprender a tricotar?
— Para você ficar ativo! Passar tempo demais sozinho no quarto pode ser perigoso. Se você se isolar, começa a sumir. Alguns dos einherjar mais antigos... — Ele pigarreou. — Não importa. Você está aqui! É só aparecer todas as manhãs até o Juízo Final e tudo vai ficar bem.
Olhei pela janela para a neve caindo. Pensei no aviso de Sam para encontrar a espada, nas Nornas prevendo que uma coisa ruim aconteceria em nove dias.
— Vocês disseram que visitaram os outros mundos. Isso quer dizer que dá para sair do hotel?
O grupo trocou olhares.
— Dá — disse Mestiço. — Mas nossa tarefa principal é esperar o Ragnarök. Treinar, treinar e treinar.
— Eu andei de trem na Disney — disse X.
Não dava para saber se ele estava brincando. O meio troll parecia ter duas expressões faciais: cimento molhado e cimento seco.
— Ocasionalmente — disse T.J. —, os einherjar são enviados para os nove mundos em missões.
— Para caçar monstros — explicou Mallory. — Matar gigantes que entram em Midgard. Impedir bruxas e almas penadas. E, claro, lidar com desgarrados...
— Almas penadas? Desgarrados? — perguntei.
— A questão é — interrompeu Mestiço — que só saímos de Valhala por ordem de Odin ou dos lordes.
— Mas, hipoteticamente, eu poderia voltar para o mundo humano, Midgard ou sei lá qual é o nome...
— Hipoteticamente, sim — disse T.J. — Olhe, sei que essa história das Nornas deve estar deixando você doido, mas não sabemos o que a profecia significa. Dê um tempo aos lordes para decidirem o que fazer. Você não pode se precipitar e fazer alguma idiotice.
— Pelos deuses — disse Mallory. — Nós nunca fazemos idiotices. Como aquela ida ao Santarpio’s para comer pizza de madrugada. Aquilo não aconteceu.
— Fique quieta, mulher — resmungou Mestiço.
— Mulher? — Mallory levou a mão à faca no cinto. — Cuidado com as palavras, seu hamster sueco gigante.
— Esperem — falei. — Vocês sabem sair escondido de...
T.J. tossiu alto.
— Desculpe, acho que não ouvi direito. Tenho certeza de que você não estava nos perguntando sobre burlar as regras. Magnus, primeiro de tudo: se voltasse a Midgard agora, como explicaria para as pessoas que o conhecem? Todo mundo acha que você está morto. Normalmente, se nós voltamos, esperamos até todo mundo que conhecemos estar morto. É mais fácil assim. Além do mais, demora um tempo, às vezes anos, para sua força de einherji se desenvolver por completo.
Tentei me imaginar esperando anos. Eu não tinha muitos amigos e parentes para quem voltar. Ainda assim, não queria ficar preso ali, aprendendo novas línguas e tricotando suéteres durante séculos.
Depois de ver minha prima Annabeth, eu meio que queria encontrá-la mais uma vez antes de ela morrer. E, se Samirah estava certa quanto a minha mãe não estar em Valhala... eu precisava encontrá-la, onde quer que estivesse.
— Mas é possível sair sem permissão — insisti. — Talvez não para sempre, mas por um tempo.
T.J. se remexeu, incomodado.
— Valhala tem portas para todos os mundos. O hotel foi construído assim. A maioria das saídas é protegida, mas... bem, tem muitos caminhos para Boston. Boston é o centro de Midgard.
Olhei para as pessoas ao redor da mesa. Ninguém estava gargalhando.
— É sério?
— Claro — afirmou T.J. — Fica no tronco da Árvore do Mundo, o ponto mais fácil do qual se pode acessar os outros mundos. Por que você acha que Boston se chama Núcleo do Universo?
— Arrogância?
— Não. Os mortais sempre souberam que havia alguma coisa naquele local, mesmo não conseguindo identificar o que era. Os vikings procuraram o centro do mundo durante anos. Eles sabiam que a entrada de Asgard ficava no oeste. Foi um dos motivos para continuarem explorando a América do Norte. Quando encontraram os nativos...
— Nós os chamávamos de skraelings — disse Mestiço. — Lutadores impiedosos. Eu gostava deles.
— ... os nativos tinham várias histórias de como a presença espiritual era forte naquela área. Mais tarde, quando os puritanos fundaram as colônias, bem... A visão de John Winthrop de uma “Cidade na Colina” cintilando? Não era metáfora. Ele teve uma visão de Asgard, um vislumbre de outro mundo. E os julgamentos das bruxas de Salem? Histeria causada por magia que vazou para Midgard. Edgar Allan Poe nasceu em Boston. Não é coincidência o poema mais famoso dele ser sobre um corvo, um dos animais sagrados de Odin.
— Chega. — Mallory me olhou com asco. — T.J. leva uma eternidade quando precisa responder sim ou não a uma pergunta. A resposta é sim, Magnus. É possível sair, com ou sem permissão.
X quebrou uma patinha de caranguejo.
— Você não seria imortal.
— É — disse T.J. — Esse é o segundo grande problema. Em Valhala, você não pode morrer, não de forma permanente. Sempre ressuscita. É parte do treinamento.
Eu me lembrei do cara que foi empalado e arrastado por lobos no saguão. Hunding disse que ele estaria bem até a hora do jantar.
— Mas fora de Valhala?
— Lá fora, nos nove mundos — contou T.J. — você ainda é um einherji. É mais rápido, mais forte e mais resistente do que qualquer mortal comum. Mas, se morrer lá fora, continua morto. Sua alma pode ir parar em Helheim. Ou você pode se dissolver no abismo primordial, o Ginnungagap. É difícil saber. Não vale o risco.
— A não ser que... — Mestiço tirou um pedaço de ovo da barba. — A não ser que ele realmente tenha encontrado a espada de Frey e as lendas sejam verdadeiras...
— É o primeiro dia de Magnus — disse T.J. — Não vamos falar sobre isso. Ele já está bem assustado.
— Me assustem mais — pedi. — Que lendas são essas?
No corredor, uma corneta tocou. Nas outras mesas, os einherjar começaram a se levantar e a retirar os pratos.
Mestiço esfregou as mãos com ansiedade.
— A conversa vai ter que esperar. Está na hora da batalha!
— Hora da batalha — concordou X.
T.J. fez uma careta.
— Magnus, você precisa saber sobre a iniciação do primeiro dia. Não fique triste se...
— Ah, que isso! — interrompeu Mallory. — Não estrague a surpresa! — Ela me deu um sorriso cheio de açúcar de confeiteiro. — Mal posso esperar para ver o novato ser desmembrado!

16 comentários:

  1. — Ah, que isso! — interrompeu Mallory. — Não estrague a surpresa! — Ela me deu um sorriso cheio de açúcar de confeiteiro. — Mal posso esperar para ver o novato ser desmembrado!

    Pelos deuses Magnus está mais frito que percy na sua primeira captura da bandeira a sorte dele é que não a uma Annabeth para usa-lo de isca

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    1. caçadora de Artermis5 de janeiro de 2016 19:56

      sera? essa Mallory nao me inspira confianssa

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    2. Essa mallory parece uma filha de ares legal... ela me inspira a lutar!

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  2. Esperando meu sátiro24 de outubro de 2015 12:10

    Eita '-' desmembrado... Que coisa linda,não?
    Ah: só eu que quero saber que lenda é essa? :v

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    1. Esperando o sátiro? Estou esperando o sáriro, os lobos, procurando um guarda-roupa, tentando achar o Instituto do Rio de Janeiro, minha carta de Hogwarts está 7 anos atrasada. Mas não custa sonhar.

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  3. — Eu fui à Disney World — disse X
    Ah,que lindo. Até ele foi e eu não.
    — Chiii-ca-go — afirmou X.
    Chiii cago. .. Xi Cagou .. kakaakakakka morrida

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    1. Eu tbm pensei nessa melda

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    2. caçadora de Artermis5 de janeiro de 2016 20:11

      Chikamaro=Chikagaro
      amantes de Naruto endenderam

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    3. Que merda, caçadora! kkkkkkkkk
      ~MayaBet Luna

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  4. Eu aonda estou tentando imaginar o Magnus sem membros pedido para alguém matar ele pra os membro volta

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  5. Pela última vez, seu cabeça-dura, a Disney não é um dos nove mundos.
    — Por que tem esse nome, então? — X assentiu com arrogância, considerando a discussão vencida, e voltou a se concentrar na comida, sugando carne da carcaça de um crustáceo grande.

    Aheuahduaheuaheu

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  6. meu deussssssss isso vai dar ruim com certrza

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  7. Mallory suspirou. Com o cabelo ruivo, os olhos verdes e açúcar de confeiteiro ao redor da boca, ela lembrava um Coringa com as cores invertidas. Kkkkkkk


    A visão de John Winthrop de uma “Cidade na Colina” cintilando? Não era metáfora. Ele teve uma visão de Asgard, um vislumbre de outro mundo. E os julgamentos das bruxas de Salem? Histeria causada por magia que vazou para Midgard. Edgar Allan Poe nasceu em Boston. Não é coincidência o poema mais famoso dele ser sobre um corvo, um dos animais sagrados de Odin.

    AI MEU DEUS, Boston é mesmo o Núcleo do Universo!!! Será? TÔ confusa. E doidinha pra ver (ler, que seja) esse batalha. Como será que o Magnus vai sair dessa? Ele vá ser mesmo desmembrado, ou vai ganhar dar uma surra nos adversários? A julgar pelo fato dele quase arrancar as calças por tentar tirar a espada, acho que ele vai se dar muito mal.

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  8. "— Fique quieta, mulher — resmungou Mestiço.

    — Mulher? — Mallory levou a mão à faca no cinto. — Cuidado com as palavras, seu hamster sueco gigante."

    Opa,ela é feminista? ADORO

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