31 de outubro de 2015

Dezessete

No dia seguinte, quando retorno a casa logo depois da escola, Haven está diante de mim, com os olhos manchados de rímel azul, escorrendo por seu rosto. Apertava um pacote coberto em seus braços.
— Sei que deveria ter avisado. — Ela se apressa em caminhar para mim, sua cara estava vermelha e torcida pelas lágrimas. — Eu realmente não sabia o que fazer, então vim aqui. — Ela retira a manta me mostrando um rígido gato preto com incríveis olhos verdes e de aparência débil.
— Ele é seu? — Ao observá-los, noto como suas auras são irregulares e desgastadas.
— É ela. — Haven assente com a cabeça, e com cuidado a cobre com a manta e a leva de novo a seu peito.
— Eu não sabia que tinha uma gata. — Limpo os olhos, queria ajudar, mas não sabia o que fazer. Meu pai é alérgico, mesmo assim sempre tivemos cães. — É por isso que hoje não foi à escola?
Ela assente com a cabeça, segue-me para a cozinha, onde agarra uma garrafa de água e derrama-a em uma tigela.
— Quanto tempo esteve contigo? — Pergunto-lhe, vendo como coloca a gata em seu colo e colocando o prato na sua frente. Mas a gata não tinha o menor interesse e rapidamente se afasta.
— Poucos meses — encolhe os ombros, deixando a água e lhe acariciando a parte superior da cabeça. — Ninguém sabe. Bom, além do Josh, Austin, a empregada, que jurou guardar o segredo, mas ninguém mais. A minha mãe daria um ataque. Deus não permita que um ser vivente arruíne seu esquema de decoração de desenhista. — Ela sacode a cabeça. — Ela vive no meu quarto, a maior parte do tempo debaixo da cama. Mas deixo a janela aberta para que possa sair e passear de vez em quando. Quero dizer, sei que se supõe que viverão mais se se mantiver dentro de casa, mas que tipo de vida é essa? — Ela me olha, sua normal e brilhante aura ensolarada se tornou cinza pela preocupação.
— Qual é seu nome? — Olho atentamente à gata, mantendo a voz em um sussurro, tratando de disfarçar minha preocupação.
— Charm. — Os cantos de seus lábios se elevaram ligeiramente enquanto olhava entre nós. — Chamei-a assim porque ela traz sorte ou ao menos isso foi o que me pareceu naquele momento. A encontrei do lado de fora de minha janela, na primeira vez que Josh e eu nos beijamos. Pareceu-me tão romântico. — Encolhe os ombros. — Como um bom sinal. Mas agora — ela sacode a cabeça e olha para outro lado.
— Talvez eu possa ajudar — digo-lhe, uma ideia começava a formar-se. Uma que não estou certa de que possa funcionar, mas ainda assim, tentarei, já que não tenho nada a perder.
— Ela não é exatamente um gatinha. É uma velha senhora. O veterinário me disse que a mantivesse confortável sempre que pudesse. E eu gostaria de mantê-la em casa, já que realmente gosta de estar debaixo de minha cama. Mas minha mãe já decidiu que vai decorar todos os quartos apesar de meu pai ameaçá-la de vender a casa, e agora o decorador está lá, junto com um agente imobiliário e todos estão discutindo, um verdadeiro desastre. E já que Josh está em uma audição para sua nova banda, e Miles está se preparando para sua atuação desta noite, pensei em vir aqui. — Ela me olha. — Não que você seja a última opção. — Ela se encolhe, dando-se conta do que acabava de dizer. — É só que sempre está tão ocupada com Damen que eu não queria te incomodar. Mas se está ocupada, não tem que ficar com ela. Quero dizer, se ele for vir ou algo assim, posso somente…
— Confie em mim.
Apóio-me no balcão e sacudo minha cabeça.
— Damen... — olho fixamente a parede, me perguntando como expressá-lo. — Damen está bastante ocupado nestes dias. Assim duvido que venha aqui por estes dias.
Olho para ela e Charm, leio sua aura e agora sei que está mais confusa do que parece. E, embora saiba que não é justo, ético, ou o que seja, embora saiba que é o círculo da vida e que não se deve interferir, não posso suportar ver minha amiga sofrer com tudo isto, quando não tenho uma meia garrafa de elixir da sessão dentro de minha mochila.
— Estou triste — sussurra, acariciando debaixo do queixo do Charm. — Quero dizer, obviamente, ela viveu uma longa e boa vida, mas ainda assim, por que tem que ser tão triste quando termina?
Encolho os ombros, apenas a estava escutando, a mente me zumbia com a promessa de uma nova ideia.
— É tão estranho como, como em um minuto está tudo possivelmente tão bem, mas pelo menos está aqui. E então, no momento seguinte se vai, como aconteceu com Evangeline. Nunca a voltamos a vê-la ou a ter notícias dela de novo.
Eu bato meus dedos no balcão de granito, sabendo que não é exatamente a verdade, mas não quero discutir.
— Acredito que simplesmente não entendo o que acontece. É algo assim como: para que se preocupar em estar conectado com algo se nunca vai durar? — Sacode a cabeça. — Então se tudo é finito, se tudo tiver um começo definido, meio e fim, então por que temos um início em primeiro lugar? Qual é o ponto quando tudo conduz até o final?
Ela sopra a franja de seus olhos e me olha.
— E não me refiro à morte. — Ela assente com a cabeça para sua gata. — Apesar de que é onde terminam todos, não importa o quão duro se lute.
Observo ela e Charm, assentindo com a cabeça como se eu estivesse ali. Como se eu fosse igual a todo mundo. Esperando minha hora para o final mórbido.
— Refiro-me à morte de uma maneira mais metafórica. De uma forma em que nada dura para sempre, sabe por quê? A verdade, é que nada está foi construído para durar. Nada.
— Mas Haven — comecei falar, mas ao tentar, pela segunda vez, ela me lança um olhar que significa silêncio.
— Escuta, antes de tratar de me vender todas essas tolices sobre o lado positivo não há nada que não se termine. — Ela estreita o olhar de uma maneira que me põe os nervos à flor da pele, o que me faz perguntar se saberá algo sobre de mim, se ela está tratando de algum jeito de me fazer cair. Mas quando faço uma pausa profunda e a olho, é claro que ela está lutando contra seu próprio conjunto de demônios internos, não comigo.
— Não é possível, verdade? — Sacode a cabeça. ― A menos que fale de Deus, ou o amor universal, ou o que seja, mas isso não é o que estou falando, de todos os modos. O que quero dizer é, que Charm vai morrer, meus pais estão a ponto de divorciar-se e sejamos sinceras, Josh e eu vamos terminar em algum momento também. E isso é um fato puramente inevitável, então… — Sacode a cabeça e limpa o nariz.
― Bom, se me permite, algo assim como tomar o controle da situação e decidir quando fazê-lo, antes de que ele possa me machucar . Porque com certeza há duas coisas: a) vai terminar e b) Alguém obrigatoriamente sairá machucado. E por que esse alguém tem que ser eu? — Ela olha para o outro lado, gotejando pelo nariz, seus lábios torcidos. — Guarde minhas palavras neste momento, sou a garota de teflón. Tudo funciona bem em mim, nada pode me pegar.
Olho-a, sabendo que isto é toda uma história, mas disposta a tomar a palavra.
— Sabe o que? Tem razão. Tem toda a razão — digo-lhe e seu olhar é de total surpresa. — Tudo é finito. — Tudo menos Roman, Damen, e eu! ― E você também tem razão em dizer que você e Josh provavelmente terminarão em algum momento, e não só porque tudo se acaba como diz, mas sim porque essa é a maneira em que a maioria das relações da escola secundária acaba, ou seja, não chegam além da graduação.
— É assim como você vê com Damen? — Ela pega na manta de Charm enquanto me olha. — Vocês não fizeram nada na noite anterior?
Aperto os lábios e evito olhá-la, sabendo que sou a pior mentirosa do mundo.
— Eu trato de não pensar muito nisso. Mas o que quero dizer é que, só porque algo termina não significa que seja algo mau ou que alguém seja obrigado a fazer mal, ou que nunca deveria acontecer em primeiro lugar, ou o que seja. Porque se cada passo nos leva ao seguinte, então chegaremos a alguma parte e como vamos crescer se evitarmos tudo o que possa nos magoar?
Ela me olha, assentindo com a cabeça ligeiramente, como se ela entendesse meu ponto de vista, mas sem reconhecê-lo plenamente.
— Assim quase não há outro remédio do que continuar, simplesmente sair e esperar o melhor e quem sabe, inclusive poderia aprender uma coisa ou duas com o passar do tempo.
Olho-a, sabendo que não se deu por vencida completamente. Então acrescento:
— Acredito que o que estou tentando te dizer é que não pode escapar, somente porque algo não vai durar. Tem que depender disso e te deixar levar até o fim. Esta é a única maneira de seguir. — Encolho os ombros, desejando poder ser um pouco mais eloquente. — Pense nisso, se não tivesse resgatado a sua gata. Se não tivesse dito que sim quando Josh te pediu que saíssem, há muitos momentos maravilhosos que teria perdido.
Ela me olha, ainda querendo discutir, mas sem dizer uma palavra.
— Josh é um tipo muito doce, e está louco por você. Não acredito que deva jogá-lo pela janela, tão cedo. — Aliás, digo-lhe, sabendo que me ouve mas realmente não me escuta. — Não deveria tomar esse tipo de decisões quando se sentir tão estressada.
― O que!? Mudar não é uma razão suficiente?
— Josh se mudou? — Eu arregalo os olhos.
Sacode a cabeça, acariciando as orelhas de Charm e dizendo:
— Não Josh. Eu. Meu pai continua falando da venda da casa, mas seria mais justo se discutisse isso com Austin ou comigo.
Olho-a, tentada a olhar dentro de sua cabeça e ver por mim mesma, mas lembro de minha promessa anterior preservar meus amigos e sua intimidade.
— Tudo o que sei com certeza é que o valor de uma frase aparece todo o tempo.
Sacode a cabeça, me olhe quando ela diz:
— Mas você sabe o que isto realmente significa, se algo disto for realmente verdade? Significa que não irei ao Bay View no próximo ano. Não vou me formar com minha turma. Eu irei a qualquer escola do Condado de Orange por causa de toda esta confusão.
— Não vou deixar que isto ocorra — digo-lhe, com o olhar fixo nela. — Não há possibilidade de que vá. Você não pode se formar sem nós.
— Bem, isso é muito bom, mas... — Encolhe seus ombros. — Mas não estou certa de que você possa detê-lo. Está um pouco fora de seu alcance, não acha?
Olho para ela e sua gata, sabendo que não está totaltamente fora de meu alcance.
Encontrar um antídoto para Damen? Possivelmente. Ajudar minha melhor amiga a não se mudar e salvar a sua gata? Nem tanto.
Há muito que posso fazer. Muito. Ainda assim, eu só a olhei e disse:
— Acho que resolveremos. Confie em mim, tá bom? Talvez você possa morar aqui comigo e Sabine? — Assente com a cabeça como se soubesse que eu estava falando sério, inclusive quando sabia que Sabine nunca aceitaria. Mas mesmo assim precisava tranquilizá-la de algum modo, já que não posso lhe dizer o que decidi fazer.
— Faria isso? — diz me olhando de relance. ―Sério?
— É obvio. — Encolho osombros. — O que quiser.
Ela engole com força e olhe ao redor, movendo a cabeça quando diz:
— Você sabe que eu nunca aceitaria, mas ainda assim, é bom saber que nestes momentos difíceis continua sendo minha melhor amiga. — Arregalo os olhos e digo, sempre supus que fosse Miles, não eu. — Bom, e Miles. — Ela sorri. — Quero dizer, posso ter dois melhores amigos, um oficial e um substituto? — Ela limpa o nariz de novo, movendo a cabeça quando ela adiciona, — Aposto que estou um desastre, verdade? Vamos, me diga, eu aceito.
— Não te vejo como um desastre — digo-lhe, me perguntando por que de repente se concentrou em seu aspecto. — Tem um olhar triste. Há uma diferença. Além disso, o que importa?
— Acho que você deve estar em dúvida se deve ou não me ajudar — encolhe os ombros. — Tenho uma entrevista de trabalho, mas não tem jeito de ir com este aspecto. E não posso levar a Charm.
Olho a sua gata, observando como a energia vital vai escapando pouco a pouco, sabendo que tenho que me mover rápido, antes que seja muito tarde.
— Vou ficar com ela. Não tenho que ir a nenhuma parte de todo o jeito. — Ela me olha, duvidando se deve deixar a sua gata moribunda aos meus cuidados. Mas concorda com a cabeça, olhando para um lado e levantando Charm de seus braços. — Sério. Só tem que ir fazer o que tem que fazer, e eu vou cuidar dela. Já fui babá. — Eu sorrio, animando-a a chegar a um acordo. Ela duvida, nos olhando.
Então abre sua grande bolsa para tirar um pequeno espelho de mão, antes de molhar o dedo e limpar o rímel borrado de suas bochechas.
— Não será por muito tempo. — Agarra um lápis negro e desenha uma grosa e imprecisa linha ao redor de cada olho.
— Talvez uma hora ou duas. — Ela me olha, trocando o lápis pelo rubor.
— Tudo o que tem que fazer é alimentá-la e lhe dar um pouco de água se ela quiser. Mas provavelmente não irá querer. Ela não quer nada por enquanto. — Ela passa batom nos lábios com um toque de brilho e reorganiza a franja, antes de colocar sua bolsa no ombro e se dirige em direção à porta, sobe em seu automóvel e então se vira e me diz:
— Obrigada, preciso deste trabalho mais do que pensa. Preciso começar a economizar um pouco de dinheiro, assim poderei emancipar-me como Damen. Estou cheia dessa vida.
Olho para ela, sem saber o que dizer. A situação de Damen é única. Não é em absoluto o que parece.
— Eu sei, sei que provavelmente não serei capaz de me manter no mesmo estilo de Damen, mas ainda assim, prefiro viver com dificuldade do que me sujeitar aos caprichos e as impulsivas decisões de meus pais. De qualquer maneira, você está de acordo com isto?
Aceno com a cabeça, abraçando e apertando mais a gatinha, mentalmente animando-a a suportar, só um pouco mais, até que possa ajudá-la.
Haven desliza e gira sua chave, ligando o motor e diz:
— Prometi a Roman não chegar tarde. Se me apressar vou chegar a tempo. — Olha pelo espelho retrovisor enquanto dá à ré.
— Roman? — Congelo, minha expressão era de puro pânico, mas incapaz de mudá-la, encolhe os ombros, saindo de meu caminho enquanto me diz, — Foi ele quem me conseguiu a entrevista.
Agito-me quando ela desaparece pela rua, me deixando com uma gata moribunda nos braços, e sem nenhuma palavra para poder adverti-la.

3 comentários:

  1. eita lasquera
    Ferrou tudo esse Roman de novo

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  2. Kkkkkkkkk...Apostto Q A Ever Se Arrependeu D Ñ Ler A Ment Da Haven...Kkkkk..
    Tenho Nojo Do Roman!

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