18 de outubro de 2015

Dezessete - Eu não pedi bíceps

NÃO DORMI DIREITO. E não sonhei com mortes gloriosas. Já passei por isso, já cheguei à vida após a morte.
Enquanto eu estava no jantar, meu sofá foi colocado no lugar e consertado. Sentei nele e folheei meu velho livro infantil de mitologia nórdica, mas não havia muito sobre Frey. Tinha uma imagem pequena de um sujeito louro de túnica passeando em um bosque, com uma moça loura ao lado e dois gatos brincando aos pés deles.
Frey era o deus da primavera e do verão!, dizia a legenda. Era o deus da riqueza, da abundância e da fertilidade. Sua irmã gêmea, Freya, a deusa do amor, era muito bonita! Ela tinha gatos!
Joguei o livro para o lado. Que ótimo. Meu pai era um deus inferior que passeava no bosque. Devia ter sido eliminado logo no começo da última temporada de Dançando com os asgardianos.
Se fiquei arrasado ao saber isso? Nem um pouco. Vocês podem não acreditar, mas nunca me preocupei de verdade em saber quem era meu pai. Nunca me senti incompleto, achando que minha vida só faria sentido se eu o conhecesse. Eu sabia quem eu era: filho de Natalie Chase. Quanto à questão de a vida fazer sentido... já tinha visto muitas coisas estranhas para esperar isso.
Mas ainda havia muitos itens na minha lista de coisas que não entendo. Bem no topo: como um garoto de rua podia ser filho do deus da abundância e da riqueza? Isso é que era piada de mau gosto. E também: por que eu entraria na mira de um cara barra-pesada como Surt? Se ele era o lorde de Muspellheim, o Grande Rei da Cocada Preta, não devia implicar com heróis mais interessantes, como os filhos de Thor? Pelo menos, o pai deles tinha um bando de filmes. Frey não tinha nem os próprios gatos. Precisava pegar os da irmã emprestados.
E a Espada do Verão... supondo que era a espada que resgatei do rio Charles, como ela foi parar ali? Por que era tão importante? Tio Randolph a procurava havia anos. A última coisa que Sam me disse foi para encontrar a espada de novo. Se ela pertencia ao meu pai e meu pai era um deus imortal, por que ele tinha permitido que sua arma ficasse no fundo de um rio por mil anos?
Fiquei olhando para a lareira apagada. As palavras das Nornas não saíam da minha cabeça, por mais que eu quisesse esquecê-las.
Arauto do Lobo. Agora lembrei o que era um arauto: sinalizava a chegada de uma força poderosa, como um súdito anunciando o rei ou um céu vermelho antes de um furacão. Eu não queria ser o arauto do lobo. Já tinha visto uma quantidade de lobos suficiente para toda a eternidade. Queria ser o arauto do sorvete ou do falafel.
Escolhido por engano, não era sua hora.
Era um pouco tarde para anunciar isso. Eu era um maldito einherji. Meu nome estava na porta. Eu tinha a chave do frigobar.
Um herói que, em Valhala, não pode permanecer agora.
Gostei mais desse verso. Talvez significasse que eu poderia sair dali. Ou também poderia significar que os lordes me derreteriam em uma explosão de luz ou me dariam como comida para a cabra mágica.
Em nove dias o sol irá para o leste,
Antes que a Espada do Verão a fera liberte.
Esses versos eram os que mais me incomodavam. Até onde eu sabia, o sol ia do leste para o oeste. E quem era a fera? Eu podia apostar que era um lobo, porque é sempre um maldito lobo. Se era para libertar um lobo, era melhor que a espada continuasse perdida.
Uma lembrança começou a me incomodar... um lobo preso. Olhei para o livro infantil de mitologia, quase tentado a pegá-lo novamente. Mas eu já estava perturbado o bastante.
Magnus, escute, dissera Sam. Você precisa encontrar a espada. Tem que impedi-los.
Eu me sentia mal por Samirah al-Abbas. Ainda estava irritado por ela ter me levado para lá, principalmente se tivesse sido por engano, mas não queria vê-la expulsa da ordem das valquírias por causa de um vídeo editado que me fez passar por idiota. (Tudo bem, por mais idiota do que o normal.)
Cheguei à conclusão de que deveria ir dormir. Não estava cansado, mas, se ficasse acordado pensando ainda mais, meu cérebro derreteria.
Tentei a cama. Macia demais. Acabei no átrio, deitado na grama, olhando para as estrelas em meio aos galhos.
Em algum momento, devo ter adormecido.
Um som alto me despertou, no susto; um galho estalando. Alguém soltou um palavrão.
O céu estava ficando cinza na luz da aurora. Algumas folhas caíram. Galhos balançavam como se algo pesado tivesse subido neles.
Fiquei deitado, parado, olhando. Nada. Será que imaginei a voz?
No corredor, um pedaço de papel foi enfiado por baixo da minha porta.
Eu me sentei, grogue.
Talvez a gerência estivesse me mandando a conta e me avisando para fazer o check-out. Cambaleei até a porta.
Minha mão tremeu quando peguei o papel, mas não era a conta. Era um bilhete manuscrito em uma letra cursiva muito bonita.

Oi, vizinho,
Venha tomar café da manhã com a gente no salão 19. Fica no final do corredor, à esquerda.
Traga suas armas e sua armadura.
T.J.

T.J.... Thomas Jefferson Jr., o cara do outro lado do corredor.
Depois do fiasco da noite anterior, eu não sabia por que estavam me convidando para o café da manhã. Também não entendia por que precisava de armas e armadura. Talvez os pãezinhos vikings contra-atacassem.
Fiquei tentado a fazer uma barricada na porta e me esconder no quarto. Talvez assim me deixassem em paz. Talvez, quando todos os guerreiros estivessem ocupados praticando Bikram yoga até a morte, eu pudesse me esgueirar e procurar uma saída para Boston.
Por outro lado, eu queria respostas. Não conseguia tirar da cabeça a ideia de que, se ali era um lugar para os mortos honrados, minha mãe talvez estivesse em algum canto. Ou de que alguém pudesse saber para qual pós-vida ela foi. Pelo menos, esse tal T.J. parecia simpático. Eu poderia andar com ele um tempo para ver o que tinha para me contar.
Fui até o banheiro.
Tive medo de que o vaso sanitário fosse alguma máquina de morte viking com lâminas de machado e um arco acionável pela descarga, mas era normal; não mais assustador do que os banheiros públicos do Boston Common.
O armário do espelho tinha o tipo de produto que eu costumava usar... quer dizer, pelo menos quando tinha uma casa.
E o chuveiro... Tentei me lembrar da última vez que tomei um banho quente, demorado e relaxante.
Claro, cheguei a Valhala me sentindo magicamente limpo, mas depois de uma noite de sono ruim no átrio, estava pronto para uma chuveirada.
Tirei as camadas de camisa e quase gritei.
Qual era o problema com meu peito? Por que meus braços estavam daquele jeito? O que eram aquelas partes estranhamente inchadas?
Normalmente, evitava me olhar no espelho. Meu rosto não era uma coisa que eu gostava de ver regularmente. Mas, naquele momento, encarei meu reflexo.
Meu cabelo era o mesmo, um pouco menos sujo e embaraçado, mas ainda ia até a altura do queixo, como uma cortina louro-escura, partido ao meio.
Você parece o Kurt Cobain, minha mãe dizia, para me provocar. Eu adorava o Kurt, pena que ele morreu.
Ah, adivinha, mãe!, pensei. Agora também tenho isso em comum com ele!
Meus olhos são cinzentos, mais parecidos com os de Annabeth do que com os da minha mãe. Têm um vazio assombrado e assustador, mas tudo bem; me foi bem útil nas ruas.
Já meu peito, eu mal reconheci. Desde meus dias ruins de asma quando eu era pequeno, sempre fui meio magrelo. Mesmo com tantas caminhadas e acampamentos, eu tinha o peito magro, costelas projetadas e pele tão branca que minhas veias azuladas pareciam um mapa rodoviário.
Agora... as novas áreas inchadas pareciam músculos.
Não me entendam mal. Não foi tão dramático quanto virar o Capitão América. Eu ainda era magro e pálido, mas meus braços estavam definidos. Não parecia mais que eu ia sair voando no primeiro vendaval. Minha pele estava mais lisa, menos transparente. Todos os machucados e cortes e picadas que acumulei morando na rua tinham desaparecido. Até a cicatriz na palma da minha mão esquerda, de quando me cortei com uma faca de caça aos dez anos, sumira.
Eu me lembrei do quanto me senti forte quando cheguei a Valhala, da facilidade com que joguei o sofá do outro lado da sala na noite anterior. Não tinha parado para pensar naquilo.
Como foi que Hunding chamou Valhala? Promoção?
Fechei a mão.
Não sei bem o que deu em mim. Acho que, quando percebi que nem meu corpo era o meu, a raiva, o medo e a incerteza das últimas vinte e quatro horas chegaram a um ponto crítico. Minha vida foi arrancada de mim. Fui ameaçado, humilhado e promovido à força. Eu não pedi nenhuma suíte. Não pedi bíceps.
Bati na parede. Literalmente.
Meu punho atravessou o azulejo, o forro e uma tábua de cinco por dez centímetros. Puxei a mão. Mexi os dedos. Nada parecia quebrado.
Observei o buraco em forma de punho que fiz acima do suporte de toalhas.
— É — resmunguei. — As camareiras vão me amar.
A chuveirada ajudou a me acalmar. Depois, enrolado em um roupão felpudo com as iniciais HV bordadas, fui até o closet procurar roupas. Lá dentro havia três calças jeans, três camisetas verdes (todas com o selo de PROPRIEDADE DO HOTEL VALHALA), cuecas, meias, um par de tênis de corrida de qualidade e uma espada na bainha. Encostado na tábua de passar, encontrei um escudo verde redondo com a runa dourada de Frey no meio.
Está certo, então. Acho que eu já sabia o que vestiria hoje.
Passei dez minutos tentando descobrir como prender a bainha da espada no cinto. Eu era canhoto. Isso queria dizer que a espada ficava à direita? Havia diferença entre espadas para canhotos e espadas para destros?
Tentei puxá-la e quase arranquei a calça. Ah, eu seria um sucesso no campo de batalha.
Treinei brandir a espada. Eu me perguntei se ela começaria a zumbir e a controlar minha mão, como aconteceu na ponte, quando enfrentei Surt. Mas não. Essa parecia um pedaço normal de metal, silenciosa e sem piloto automático. Consegui embainhar sem perder nenhum dedo. Prendi o escudo nas costas, da mesma forma como os guerreiros no jantar de ontem. A tira pesou no meu pescoço e quase me sufocou.
Olhei no espelho de novo.
— Você, senhor — murmurei — parece um grande imbecil.
Meu reflexo não argumentou.
Saí para procurar o café da manhã e matá-lo com minha espada.

39 comentários:

  1. esse comentário me fez lembrar o tornozelo quebrado da annabeth kkkkkkkkkkkk

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  2. Você parece o Kurt Cobain, minha mãe dizia, para me provocar. Eu adorava o Kurt, pena que ele morreu.
    Ah, adivinha, mãe!, pensei. Agora também tenho isso em comum com ele!
    kkk
    eu sou canhota tbm, mas assisto steven universo então sei usar uma espada... ou um cabo de vassoura ._.
    AMPLIE A BASE E O CORPO ABAIXADO
    MESMO RECUANDO NÃO DEIXE DE ME OLHAR

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    1. caçadora de Artermis5 de janeiro de 2016 19:40

      "eu sei q sou so humana mas com minha espada eu irei lutar"
      Perola tem um "pequeno" problema com o stevem e a rouse ela nao consegue diferenciar os dois as vezes

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    2. Eu também assisto Steven Universe

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  3. acho que o café da manhã vai nocautear ele

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  4. "Você parece o Kurt Cobain, minha mãe dizia, para me provocar. Eu adorava o Kurt, pena que ele morreu."

    Kurt <3 *-*

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  5. Aposto 20 dracmas no café da manhã

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    1. Aposto 25 que ele vai aprender como usar a espada nesse" café da manhã "

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    2. caçadora de Artermis5 de janeiro de 2016 19:42

      aposto trinta dracmas q msm assam ele vai continuar se achando um idiota mas o respeito dos outros vai aumentar

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    3. aposto quarenta que ele vai apanhar feio,mas depois vai dar uma surra no adversário

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    4. Aumento a aposta da Kate em 20%

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    5. Que tá recolhendo as dracmas é a Karina-chan??? Tô apostando no palpite Da Kate.

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  6. — Você, senhor — murmurei — parece um grande imbecil.
    Meu reflexo não argumentou.
    Nossa q absurdo como assim o reflexo n argumentou ?????

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    1. Vai ver ele pensou q tava hospedado no Caldeirão Furado!

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    2. shuahsuahs não tinha pensado nisso!

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    3. Rick é estranho, os reflexos e tornozelos nem respondem a pessoa...

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    4. hahahahahahahaha que estranheza né Killer???!!!

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  7. kkkk Nao conheco o kurt.. MAGNUS X CAFE DA MANHA.. Quem vcs acham q ganha facam suas apostas..

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    1. Kurt Cobain era o cantor da banda Nirvana :)

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    2. eu senti que esse anônimo colocou " :) " pra não colocar esse: ¬¬' ou esse -.-'

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  8. magnus é canhoto <3 eu tbm ! canhotos vao dominar o mundo!

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    1. o Jace tb é canhoto :o
      muitos canhotos

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  9. PRECISO COMPRAR ESSE LIVRO!!!!!!!(embora prefira Percy jackson e os olimpianos e os Herois do Olimpo)



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  10. Se ele era o lorde de Muspellheim, o Grande Rei da Cocada Preta kakakakakakaka 'é sempre o maldito lobo' Pseh..perae Lobo..Casa dos Lobos. .Romanos..Jason..É assim que ele vai encontrar Jason ? *aceito spoilers*

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    1. Filha,ninguem vai encontrar o Jason. Se encontrar, ele provavelmente estará desmaiado, e a Piper ainda vai tá falando que ele é lindo. Por favor, chega de Jason.
      -Adohe

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  11. Freya, a deusa do amor, era muito bonita! Ela tinha gatos!

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  12. Não me entendam mal. Não foi tão dramático quanto virar o Capitão América.
    O que falar dessa parte ? Kkkkk

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  13. Bem no topo: como um garoto de rua podia ser filho do deus da abundância e da riqueza? Isso é que era piada de mau gosto.

    só eu lembrei do Leo quando descobriu que era filho de Hefesto (por causa da mãe dele, pra quem não lembra)

    ~coruja

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  14. — Você, senhor — murmurei — parece um grande imbecil.
    Meu reflexo não argumentou.


    haushaush Parece o Percy com a camiseta, a Annabeth com o tornozelo e o Jason

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  15. "Pelo menos, o pai deles tinha um bando de filmes."
    "Não foi tão dramático quanto virar o Capitão América."
    O que falar desse garoto que conheço a dezessete capítulos mas já considero pacas??

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    1. caçadora de Artermis5 de janeiro de 2016 19:46

      aquele primeiro menino me lembra meu meio irmao Jason sempre desmaiando

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  16. Eu era canhoto. Isso queria dizer que a espada ficava à direita? Havia diferença entre espadas para canhotos e espadas para destros?

    minha vida definida em duas linhas a duvida de que as coisas não são feito para canhotos...

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  17. — Você, senhor — murmurei — parece um grande imbecil.
    Meu reflexo não argumentou


    Percy e a camiseta do camp e annie com seu tornozelo, serio msm tio rick gosta de fzr as pessoas levarem vacuo delas msm

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  18. Você parece o Kurt Cobain, minha mãe dizia, para me provocar. Eu adorava o Kurt, pena que ele morreu.
    Ah, adivinha, mãe!, pensei. Agora também tenho isso em comum com ele!

    Sabia, Disse isso num comentário anterior, kkkkk
    Adorando o livro até agora!

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  19. "Normalmente, evitava me olhar no espelho. Meu rosto não era uma coisa que eu gostava de ver regularmente. Mas, naquele momento, encarei meu reflexo."

    te entendo, tb não gosto de me olhar no espelho, não necessariamente por eu ser feia (até pq não sou u.u), mas é meio desconcertante, principalmente em lugares públicos

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  20. "Arauto do lobo" = Lobo Poderoso chegando
    "Antes que a Espada do Verão a fera liberte" = A espada corta as correntes de Fenrir (o primeiro Lobisomem, filho de Loki, que foi acorrentado) que mata Odin, e o juízo final começa. Então Magnus tem que inpedir que isso aconteça.

    Montei uma nova teoria da conspiração aqui hsuahuahsuahsua
    ~Isa

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