29 de outubro de 2015

Dezesseis

— Disneylândia? — Desço de meu carro completamente surpresa. De todos os destinos possíveis na Califórnia, este era o último da lista.
— Não existe lugar mais feliz — diz Damen, sorrindo. — Você já esteve aqui?
Faço que não com a cabeça.
— Ótimo, então serei seu guia. — Ele me oferece o braço e me conduz ao interior do parque. Caminhando pela Main Street, tento imaginá-lo aqui antes. Um cara tão requintado, tão descolado, tão sexy... Difícil imaginá-lo batendo perna no reino de Mickey Mouse. — No meio da semana é bem melhor — ele comenta. — Fica mais vazio. Vem, quero lhe mostrar minha parte favorita: Nova Orleans.
Paro no meio da rua e arregalo os olhos para ele.
— Você vem aqui tanto assim? A ponto de ter um lugar favorito? Achei que tivesse acabado de se mudar.
— E acabei mesmo. Mas isso não significa que não tenha vindo aqui antes. — Ele ri e me puxa em direção à Casa Mal-assombrada.
Em seguida visitamos Os Piratas do Caribe, e assim que saímos de lá ele pergunta:
— Então, de qual você gostou mais?
— Hmm... Os Piratas — concordo com a cabeça —, eu acho.
Damen olha para mim.
— Os dois são bem legais — explico. — Mas Os Piratas têm o Johnny Depp, né? O que é uma grande vantagem, você não acha?
— Johnny Depp? — ele retruca, as sobrancelhas arqueadas. — Então ele é meu principal concorrente?
Não me dou o trabalho de responder. Correndo os olhos pela figura de Damen (os jeans escuros, a camisa preta de mangas compridas, as de sempre) chego à conclusão de que não tem ator de Hollywood que seja páreo para ele. Mas não vou dar o braço a torcer, claro.
— Quer ir de novo? — ele pergunta, com os olhos brilhando
E lá vamos nós e depois de volta à Casa Mal-assombrada. Na parte final, em que os fantasmas pegam carona em nosso carrinho, fico esperando que Riley surja entre eles a qualquer instante, rindo, acenando e fazendo suas palhaçadas. Em vez disso, só aparecem aqueles fantasmas da Disney, e deduzo que ela ainda esteja ocupada com seu misterioso compromisso.
Depois de mais algumas voltas nessas duas mesmas atrações, Damen e eu sentamos no Blue Bayou, o restaurante que fica dentro da área dos Piratas. Tomando meu chá gelado, olho para ele e digo:
— Olha só. Estou careca de saber que isto aqui é um parque enorme, com mais de dois brinquedos, que não têm nada a ver com piratas ou fantasmas.
— É, parece que sim — ele diz, sorrindo. Depois espeta o garfo num pedacinho de lula e leva até minha boca. — Antes tinha um lugar chamado Missão Marte. Ele era conhecido por ser o lugar ideal para dar uns amassos, já que era bem escuro lá dentro.
— Não tem mais? — pergunto, e imediatamente sinto o rosto queimar de vergonha, ao perceber quanto pareci afobada. — Não que eu quisesse ir nem nada. Perguntei só de curiosidade.
Damen olha para mim com uma nítida expressão de malícia, e diz, negando com a cabeça:
— Não, faz tempo que fecharam.
— Então você ia lá beijar quando tinha o quê, dois anos de idade? — Dou uma garfada no bolinho de champignon, esperando que esteja bom.
— Que nada — ele responde sorrindo. — Isso foi antes do meu tempo.
De modo geral, faço o possível para evitar lugares como este, tão congestionados de pessoas, energias, auras e pensamentos. Mas na companhia de Damen tudo é diferente. Sempre que nos tocamos, sempre que ele fala, tenho a impressão de que estamos sozinhos no mundo.
Depois do almoço, continuamos nosso passeio e visitamos todos os brinquedos de alta velocidade, evitando os que envolvem água, ou pelo menos os que nos deixam ensopados. Assim que escurece, Damen me leva ao castelo da Bela Adormecida, e ficamos ali, junto ao canal, esperando pelos fogos de artificio.
— Então estou perdoado? — ele diz a certa altura, os braços me envolvendo a cintura, e começa a mordiscar meu pescoço, meu queixo, minha orelha. Os fogos estouram de repente, mas ficam distantes, quase inaudíveis, quando nossos corpos se tocam e os lábios de Damen aproximam-se dos meus.
— Olhe só pra isso — ele sussurra, e aponta para os desenhos que vão se formando na imensidão escura do céu: as espirais roxas, as cascatas douradas as fontes prateadas, os crisântemos rosados e o grand finale: uma dúzia de tulipas vermelhas. Os estalos são tão fortes e rápidos que chegamos a sentir o chão vibrando sob nossos pés.
Peralá. Tulipas vermelhas?
Viro-me para Damen com um enorme ponto de interrogação no olhar mas ele apenas sorri e aponta o queixo para o céu. E embora as tulipas já estejam se desfazendo, a imagem delas é consistente, gravada em minha mente.
Em seguida, ele me puxa para perto e sussurra em meu ouvido:
— Pronto, acabou. A balofa já está cantando.
— Você está chamando a Sininho de “balofa”? — digo, rindo.
Tomando-me pela mão, ele me leva aos portões de saída.
De volta ao estacionamento, entro no Miata e abro um sorriso quando Damen passa a cabeça pela janela e diz:
— Não se preocupe, teremos vários dias como este. Da próxima vez, vou levá-la ao Califórnia Adventure.
— Achei que a gente tivesse acabado de fazer isso, uma aventura na Califórnia — digo sorrindo, mais uma vez espantada com a capacidade que ele tem de saber o que estou pensando antes mesmo que eu diga alguma palavra. — Então, você vai na frente de novo? — Coloco a chave na ignição e dou partida no carro.
— Não. — Ele nega com a cabeça, sorrindo. — Agora sou eu quem vai seguir você. Quero ter certeza de que você chegou direitinho a sua casa.
Saindo do estacionamento, sigo pela autoestrada que vai para o sul e tomo o rumo de casa. E quando olho pelo retrovisor não consigo conter um sorriso ao constatar que Damen está bem ali, atrás de mim.
Eu tenho um namorado!
Um namorado lindo, sexy, inteligente e charmoso!
Que faz eu me sentir uma garota normal outra vez.
Que faz eu me esquecer a esquisitona que de fato sou.
Alcanço o banco do carona, tiro do plástico o moletom que ganhei de presente e passo os dedos pelo Mickey costurado à malha, relembrando o momento em que Damen o escolheu para mim.
— Repare que este aqui não tem capuz — ele disse, segurando o moletom a meu lado, tentando acertar o tamanho ideal para mim.
— O que você está querendo dizer com isso? — Eu me olho no espelho. Ao que parecia, Damen detestava meus moletons de capuz tanto quanto Riley.
— Fazer o quê? — ele respondeu. — Prefiro você sem o capuz.
Novamente abro um sorriso quando me lembro do beijo que ele me deu na fila do caixa, do calorzinho gostoso que senti nos lábios e...
De repente meu celular toca; olhando pelo retrovisor, vejo que Damen também está segurando o dele.
— E aí? — digo baixinho, da forma mais sensual possível.
— Que voz melosa é essa, garota? — diz Haven. — Sinto muito decepcioná-la, mas sou eu quem está falando, sua boa e velha amiga.
— Ah, desculpe. Tudo bem com você? — Dou seta indicando minha direção, de modo que Damen saiba para onde estou indo.
Só que ele não está mais atrás de mim.
Corro os olhos por todos os retrovisores, mas não o encontro em nenhuma das pistas da autoestrada.
— Você está me ouvindo? — pergunta Haven, claramente irritada.
— Desculpe, o que foi que você falou? — Diminuo a velocidade e dou uma rápida olhada para trás, à procura do BMW preto de Damen. Um caminhão gigante passa por mim, e o motorista faz um gesto obsceno pela janela.
— Falei que a Evangeline sumiu!
— Como assim, “sumiu”? — pergunto, hesitando em tomar a saída 133 da autoestrada. Ainda nenhum sinal de Damen. Mas tenho certeza de que ele não me ultrapassou.
— Liguei pro celular dela um milhão de vezes, mas ela não atendeu.
— E daí? — digo, doida para dar fim à conversa e me concentrar no sumiço de outra pessoa.
— E daí que ela também não está em casa, e ninguém viu a garota desde a noite de Halloween.
— Como assim? — Dou mais uma conferida nos retrovisores, outra olhada para trás, e nada de Damen. — Ela não voltou da boate com vocês?
— Não exatamente — diz Haven, meio sem jeito.
Depois de mais duas buzinadas seguidas por gestos obscenos desisto de esperar por Damen. Assim que terminar de falar com Haven vou ligar para o celular dele e esclarecer tudo.
— Alô-ou? — ela diz do outro lado da linha, praticamente berrando. — Poxa, Ever, se você estiver ocupada e não puder conversar, fale logo! Posso ligar pro Miles, O.K.?
Respiro fundo em busca de paciência.
— Haven, desculpe. É que estou dirigindo, meio distraída. Mas você sabe tanto quanto eu que o Miles ainda está na aula de teatro. Por isso você ligou pra mim. — Passo para a pista da esquerda e piso fundo no acelerador, a fim de chegar em casa o mais rápido possível.
— Deixe pra lá — ela resmunga. — Bem, não lhe contei isso ainda, mas a Drina e eu meio que fomos embora sem a Evangeline.
— Vocês o quê?
— É, da Nocturne. A garota, tipo... sumiu. Procuramos por toda parte, mas não a encontramos. Achei que ela tivesse, sei lá, conhecido um cara e se mandado com ele. No caso da Evangeline, isso não chega a ser nenhuma surpresa, e então nós, tipo... fomos embora.
— Vocês a deixaram sozinha em Los Angeles? Na noite de Halloween? Quando todos os malucos da cidade estão soltos na rua? —Tão logo as palavras saem de minha boca, vejo a cena: as três garotas num lugar escuro, meio barra-pesada, Drina levando Haven para a ala VIP para pegar alguma bebida, propositalmente deixando a Evangeline para trás.
A visão termina aí, mas tenho certeza de que não há garoto algum com ela.
— O que a gente podia fazer? Caramba, não sei se você sabe, mas a Evangeline tem dezoito anos, pode fazer o que bem entende! Além disso, a Drina falou que ia ficar de olho nela, mas depois perdeu a garota de vista também. A gente acabou de se falar. Ela está tão arrasada quanto eu.
— Drina? Arrasada? — Reviro os olhos, achando isso difícil de acreditar. Drina não me parece capaz de sentir o que quer que seja, muito menos remorso.
— Como assim? Você mal a conhece!
Contraio os lábios e acelero um pouquinho mais, em parte porque sei que esse trecho da rodovia não tem polícia, mas também porque não vejo a hora de chegar em casa e esquecer tudo isso: Haven, Drina, Evangeline, o sumiço de Damen... Mesmo sabendo que não vou conseguir.
— Desculpa, vai — murmuro afinal, e desacelera para uma velocidade mais segura.
— Deixe pra lá. É que... bem, estou tão nervosa,me sentindo tão culpada... e não sei o que fazer.
— Já ligou para os pais dela? — pergunto, apesar de já intuir a resposta.
— A mãe é alcoólatra e mora em algum buraco do Arizona; o pai se mandou quando ela nem era nascida. E, acredite, o proprietário do apê onde ela mora só quer saber de vagar o imóvel pra passá-lo adiante. Demos queixa na polícia, mas aparentemente eles não estão nem aí.
— Eu sei — digo, e ajusto os faróis para a escuridão do cânion.
— Como assim, você sabe?
— Quer dizer, sei como você deve estar se sentindo — enrolo-me para explicar.
Haven suspira do outro lado da linha.
— Onde você está, afinal? — pergunta. — Por que não apareceu na hora o almoço?
— Estou cruzando o Laguna Canyon, voltando pra casa depois de passar a tarde na Disneylândia. O Damen me levou. — A lembrança me faz sorrir, mas apenas por alguns segundos.
— Caraca, isso é muito estranho — diz Haven.
— Nem me fale — digo, ainda achando que Damen e Disneylândia não têm mais que algumas letras em comum, apesar de ter visto com meus próprios olhos quanto ele se divertiu.
— Não, é que a Drina também estava lá. Fazia anos que não ia à Disney e queria ver o que tinha mudado. Não é bizarro? Vocês não se cruzaram por lá?
— Hmm... não. —Apesar das pontadas no estômago, do suor nas mãos e repentina sensação de medo, faço o possível para não demonstrar sinal de espanto.
— Ué. Estranho. Se bem que o lugar é enorme e vive entupido de gente — diz Haven, rindo de si mesma.
— Tem razão — digo. — Mas, olha, agora preciso desligar. Nos vemos amanhã?
Antes que ela possa dizer qualquer palavra paro o carro no acostamento e procuro por Damen na lista de chamadas recebidas do celular. Em vão. Porque a chamada dele aparece como número privado.
Belo namorado esse que arrumei. Não sei o telefone da criatura, muito menos o endereço.

7 comentários:

  1. Fernanda Boaventura2 de novembro de 2015 13:31

    Talvez esteja "julgado o livro pela capa" mais não gosto desta Drina.

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  2. Qual sera o problema com esse cara ein

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  3. Só posso de dizer Fernanda que você está jogando o livro pela capa!
    Ass: Bina.

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  4. Essa drina me lembrar dabria quando dava uma de 😇 e mesmo assim a nora n acreditou naquele demônio 👿

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  5. "— E aí? — digo baixinho, da forma mais sensual possível.
    — Que voz melosa é essa, garota? — diz Haven. — Sinto muito decepcioná-la, mas sou eu quem está falando, sua boa e velha amiga." kkk rachei kkkkkkk
    "— Johnny Depp? — ele retruca, as sobrancelhas arqueadas. — Então ele é meu principal concorrente?" kkkkkk rachei de novo kkkkkkkk

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    1. O macho pode ser lindo como for, mas ainda sou mais o Johnny <3

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