31 de outubro de 2015

Dezenove

Tudo começou muito bem. Tão bem e normal como qualquer outro dia. Despertei, tomei banho, vesti-me, passei pela cozinha para jogar um pouco de cereal na pia antes de misturar com um pouco de leite que agitei em um copo, minha habitual rotina das manhãs, de maneira que Sabine pensará que comi o café da manhã que ela fez.
Assentindo com a cabeça e sorrindo por todo o caminho até a escola enquanto o volúvel de Miles fala sobre o Holt, ou Florença, ou Holt e Florença enquanto me sinto aí a seu lado, parando, girando, acelerando, freando, perseguindo luzes amarelas, esperando o momento quando poderei ver de novo Damen.
Entretanto, no momento em que entro no estacionamento, a promeira coisa que vejo é uma SUV do tamanho de um mamute, estacionado justo ao lado do lugar que Damen guarda para mim. E quero dizer de mamute, como: grandes e feios. E então tenho visão de Damen apoiado no capô do carro, o que me enche de temor.
— Que diabos? — Miles pergunta boquiaberto. — Desistiu de viajar no ônibus para que pudesse conduzir um em seu lugar?
Saio de meu Miata, olhando entre o grande e feio carro de Damen, quase sem acreditar em meus ouvidos quando começa a citar uma série de estatísticas a respeito de sua classificação de segurança excelente e espaçosos assentos traseiros. Quero dizer, eu não me lembro de tê-lo visto uma única vez preocupar-se com a classificação de segurança quando me levava.
Isso é porque você é imortal, ele pensou, detectando meus pensamentos enquanto nos dirigíamos para a porta. Mas te recordo, as gêmeas não, e já que agora estão sob meu cuidado, é meu trabalho evitar que aconteça algo de mal.
Mexo a cabeça, olhando-o estreitamente, enquanto trato de pensar em uma resposta ágil. Meus pensamentos são interrompidos por Haven, que diz:
— Estão fazendo outra vez. — Ela se cruza os braços e olhe para nós. — Sabe, toda essa estranha, coisa pseudo telepática.
— Quem se importa com isso? — Diz Miles. — Damen está conduzindo um ônibus! — Ele engancha o polegar por cima do ombro, para a grande e negra monstruosidade e fazendo uma careta ao vê-lo.
— É um ônibus ou um carro de mamãe? — Olho de relance Haven, tampando os olhos do sol. Dando uma olhada a cada um de nós. — Seja o que for, uma coisa é certa, é tragicamente de média idade.
Miles assente com a cabeça, prestando total atenção ao tema agora.
— Primeiro a luva e agora isto? — Ele franze o cenho para Damen, a decepção nublando seu rosto. — Não tenho nem ideia do que está fazendo, mas amigo, está seriamente a ponto de perder sua vantagem. Não está nem sequer perto da estrela de rock que foi quando chegou pela primeira vez a esta escola.
Olho-o, os olhos entreabertos em acordo silencioso. Mas Damen só ri, muito preocupado pelo cuidado e alimentação das gêmeas para preocupar-se com o que pensam incluindo a mim. E, entretanto a figura do tipo paternal que ele começava a encarnar é que realmente me incomodava.
Miles e Haven continuaram, fazendo brincadeiras com Damen a respeito de sua nova maneira surpreendentemente pesada, quando de repente sinto um fio de energia palpitante entre nós. Quando ele agarra-me a mão e pensa: O que está acontecendo? Por que está assim? É por causa do gato? Pensei que tivesse entendido tudo.
Olhei para frente, me centrando em Miles e Haven, suspirando em voz alta enquanto mentalmente respondia: Não é a gata. Resolvemos isso ontem. Ela está de volta ao quarto de Haven, contando seus dias. É só que, bom, é como, aqui estou, como uma louca, tentando encontrar uma solução para que possamos estar juntos, e tudo o que parece te importar é manifestar televisores de alta definição e o carro mais feio do mundo a prova de bebê para que as gêmeas possam passear pela cidade! Movo a cabeça, sabendo que tenho que parar, antes de ir mais longe e realmente ter algo que lamentar.
— Tudo está mudando — digo-lhe, sem me dar conta de que isso foi dito em voz alta até que as palavras ressonaram em meus ouvidos. — E sinto se estou agindo como tola, mas estou muito frustrada de que não possamos estar juntos da maneira que queremos. Sinto falta de você, tanta falta que não posso suportar. — Faço uma pausa, meus olhos ardem, minha garganta estava quente e apertada, ameaçando fechar-se por completo. — E agora que as gêmeas vivem com você, e com meu novo trabalho começando e tudo, bom, é como se, de repente tivessem nos empurrado muitos anos de vida extressante. E confie em mim, ver seu novo automóvel agora não ajuda.
Observo-o, pensando que não há jeito de me fazer subir nessa coisa.
Imediatamente fico envergonhada quando o vejo me olhando com tanto amor e compaixão.
— Eu estava esperando que este verão fosse fantástico, sabe? Tinha a esperança de que poderíamos ter um pouco de diversão, só nós dois. Mas agora não vejo isso. E, para piorar, nem sequer mencionei que Sabine está saindo com o Muñoz. Meu professor de história. Esta sexta-feira de noite, jantarão às oito — levantei as sobrancelhas. Nem acredito que esta vida patética na realidade pertencesse a uma supostamente poderosa, recém imortal, uma garota de quase dezessete anos de idade.
— Tem um trabalho? — Ele se detém em seu lugar enquanto seus olhos procuram os meus.
— De tudo o que acabo de dizer você está enfocando nisso? — Sacudo a cabeça e rio de mim mesma.
Mas ele só me olha, o olhar fixo no meu enquanto ele diz:
— Onde?
— Místicos e Raios de lua. — Encolho os ombros, vendo que Miles e Haven despedem-se e cada um vai para suas aulas.
— Fazendo o quê? — Pergunta.
— Coisas em pequenas quantidades, principalmente. Já sabe, trabalhando como caixa, balconista, repondo as estantes, dando leituras, coisas assim. — Encolho os ombros, esperando que não preste muita atenção a essa última parte.
― Leituras psíquicas? — Abre a boca, detendo-se apenas por causa da aula. Aceno com a cabeça, olhando com nostalgia como meus companheiros de classe entrarem pela porta, preferindo me unir a eles do que ter que terminar o que comecei.
— Crê que isso é inteligente? Chamando esse tipo de atenção para si mesma?
Voltando a falar de novo agora que estamos sozinhos no corredor.
— Provavelmente não. — Encolho os ombros, sabendo que é definitivamente não. — Mas Sabine insiste que a disciplina e a estabilidade me farão algum bem. Ela só quer me controlar. É como instalar babá eletrônica. Assim quando Jude disse que precisava de ajuda na loja, bom, eu tinha mais alguma alternativa? — Faço uma pausa, vendo a expressão de sua cara, os olhos vigilantes, difícil de ler.
— Jude? — Seus olhos estreitando-se tanto que logo que posso vê-los. — Pensei que havia dito que alguém chamada Lina era proprietária da loja.
— Lina é a proprietária da loja. Jude é seu neto — digo, só que não é tudo. — Bom, ele não é seu neto real, é mas bem, ela o adotou. Ajudou-o depois que ele escapou de seu lar adotivo, ou o que seja. — Sacudo minha cabeça. Por último queria começar uma conversação a respeito de Jude, especialmente porquê Damen ficou alerta. — Pensei que poderia ajudar, já sabe, permitindo-me o acesso ilimitado a livros e a coisas que podem nos ajudar. Além disso, não é como se estivesse trabalhando aí sob meu nome real. Estou usando um aliás.
— Me deixe adivinhar. — Olha em meus olhos, vendo que a resposta aparece em meus pensamentos. — Avalon. Lindo. — Ele sorri, mas só brevemente antes de ficar sério. — Mas já sabe como funciona, não é verdade? Não é como um confessionário onde se está protegida por uma tela. A gente espera contato cara a cara. Eles querem ver se podem ou não confiar em você. Então o que está planejando fazer quando alguém, que te conhece casualmente, entrar para uma improvisada leitura de tarô? Já pensou nisso?
Franzi o cenho, me perguntando por que ele tem que transformar o que eu acreditava que era um bom negócio em um problema. E estou a ponto de dar alguma resposta ágil, algo como: Olá? Sou psíquica, quando Roman aparece.
Roman e outra pessoa, alguém vagamente familiar – alguém chamado Marco, que foi o cara que vi chegando a sua casa num Jaguar de época. Caminhando lado a lado, as pernas movendo-se rapidamente, os olhos se centrando nos meus. O olhar zombador de Roman, orgulhoso de meu pequeno segredo sujo.
Damen se move para me proteger, olha para Roman enquanto pensa: Mantenha a calma. Não faça nada. Eu me encarregarei disto.
Apareço por cima de seu ombro, vendo como Roman e Marco vêm para nós como um trem em sentido contrário. Olhava-me com olhos tão profundos, tão azuis, apagando tudo, mas seu sorriso, os lábios úmidos e brilhantes, a tatuagem Ouroboros. E a última coisa que pensei, antes que se aproximasse completamente, é que isto é minha culpa. Se eu tivesse mantido minha promessa a Damen, ficando longe dele, eu não estaria enfrentando isto agora.
Seus redemoinhos de energia me atravessaram, me atirando, me atraindo, me jogando em uma espiral de escuridão, me bombardeando com imagens de Damen , o antídoto poluído, minha visita imprudente, Haven, Miles, Florença, as gêmeas, tudo vindo tão rápido que logo que pude distingui entre eles. Mas as imagens individuais em si não são importantes, é o conjunto que quer eu veja. Todo isso para demonstrar uma só coisa: Roman está no comando agora, o resto de nós são marionetes, controlados por suas cordas.
— Bom dia, companheiros! — Diz, me liberando de seu controle deixando que meu corpo caísse em cima de Damen.
Mas apesar de seus doces murmúrios me afasto de Roman na sala, a fim de nos aliviar, convencida de que acabamos de nos esquivar de uma bala que por enquanto acabou, embora me dê conta de que é só o começo.
Mais está por chegar. Não há dúvida.
A cartada seguinte de Roman está destinada unicamente a mim.

3 comentários:

  1. A Ever tá com ciúme a toa! (Alias tô achando fofo ver Damen, todo responsável.) Acho que esse "ciúme" vai atrapalhar muito a relação entre os dois, e isso vai ser uma brecha para o Jude, ganhar espaço no coração dela...

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  2. A Ever e muito sonsa affs , esse Jude deve ser o Roman e ele disse que conseguiria de um jeito ou de outro conquistar ela o sorriso é o olhar de jude é familiar pq deve ser o roman 😒😒😒😒😒😒😒😒

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  3. Ever, reage mulher!! Para de fazer besteira e toma o controle da situação, porque,na boa, esse negócio todo do Roman é patético!

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