18 de outubro de 2015

Dezenove - Não me chame de Zé-Ninguém. Tipo, nunca

CONTEI PARA OS meus novos amigos que eu era alérgico a desmembramento. Eles só riram e me levaram para a arena. É por isso que não gosto de fazer novos amigos.
O campo de batalha era tão grande que não consegui entender direito o que estava vendo. Nos bons e velhos tempos, quando era sem-teto, eu dormia em telhados durante o verão. Conseguia ver a paisagem de Boston inteira, do Fenway Park até Bunker Hill. O campo de batalha de Valhala era maior do que isso. Oferecia talvez uns oito quilômetros quadrados de lugares interessantes para morrer, tudo dentro do hotel, como um pátio interno.
Era cercado pelas paredes do prédio: penhascos de mármore branco e varandas com grades douradas, algumas com cartazes pendurados, algumas decoradas com escudos e outras com catapultas. Os andares mais altos pareciam se dissolver no brilho enevoado do céu, tão brancos quanto uma lâmpada fluorescente.
No centro do campo havia algumas colinas escarpadas; áreas de floresta pontilhavam a paisagem. O círculo externo era coberto de pasto e cortado por um rio tão largo quanto o Charles. Vários vilarejos ocupavam as margens, talvez para os que preferissem guerrear em ambientes urbanos. Pelas centenas de portas ao redor do campo, batalhões de guerreiros entravam, as armas e as armaduras brilhando sob a luz intensa. Alguns einherjar usavam armadura completa, como cavaleiros medievais. Outros usavam camisas de cota de malha, calças e botas. Alguns estavam vestindo roupa camuflada e carregavam AK-47s. Um cara estava só de sunga. Tinha se pintado de azul e estava munido apenas de um taco de beisebol. No peito, trazia as palavras VEM ME PEGAR, MANO!
— Acho que não estou vestido de forma adequada — comentei.
X estalou os dedos.
— Não é a armadura que traz a vitória. Nem as armas.
Para ele era fácil dizer isso. O meio troll era maior do que algumas nações soberanas. Mestiço Gunderson também estava usando a abordagem minimalista. Havia tirado tudo menos a calça, embora carregasse dois machados assustadores de lâmina dupla. Ao lado de qualquer pessoa, Mestiço pareceria enorme. Ao lado de X, parecia um bebê... de barba, barriga tanquinho e machados.
T.J. ajustou a baioneta no rifle.
— Magnus, se quiser mais do que o equipamento básico, vai ter que tomá-lo ou negociá-lo. O arsenal do hotel aceita ouro vermelho e tem um esquema de troca.
— Foi assim que você conseguiu o rifle?
— Não, eu morri com ele, mas raramente o uso. Balas não têm muito efeito nos einherjar. Sabe aqueles caras com os fuzis? É só brilho e barulho. São as pessoas menos perigosas no campo. Mas esta baioneta? É de aço de osso, presente do meu pai. Aço de osso funciona muito bem.
— Aço de osso.
— É. Depois eu explico.
A mão que segurava a espada já estava suando. Meu escudo parecia frágil demais.
— Contra que grupos vamos lutar?
Mestiço me deu um tapinha nas costas.
— Contra todos! Os vikings lutam em pequenos grupos, meu amigo. Somos seus irmãos de escudo.
— E irmã de escudo — acrescentou Mallory. — Embora alguns de nós sejam apenas idiotas de escudo.
Mestiço a ignorou.
— Fique com a gente, Magnus, e... ah, você vai se dar mal de qualquer jeito. Vai morrer rápido. Mas acompanhe a gente. Vamos entrar em combate e matar o máximo possível!
— Esse é o seu plano?
Mestiço inclinou a cabeça.
— Por que eu teria um plano?
— Ah, às vezes nós temos — disse T.J. — As quartas são dias de cerco. Isso é mais complicado. Às quintas, soltam os dragões.
Mallory puxou a espada e a faca de lâmina serrilhada.
— Hoje é dia de combate livre. Adoro terças-feiras.
De mil varandas diferentes, cornetas soaram. Os einherjar partiram para a batalha.
Até aquela manhã, eu nunca tinha entendido o termo banho de sangue. Em poucos minutos, estávamos literalmente pingando.
Tínhamos acabado de entrar no campo quando um machado chegou voando do nada e acertou meu escudo, a lâmina perfurando a madeira acima do meu braço.
Mallory gritou e lançou sua faca, que se cravou no peito do cara que jogou o machado. Ele caiu de joelhos, rindo.
— Boa!
E desabou no chão, morto.
Mestiço abriu caminho por entre os inimigos, girando os machados, decepando cabeças e membros até parecer que estava em uma partida de paintball, mas usando só tinta vermelha. Era nojento. E apavorante. E sabem o mais perturbador nisso tudo? Os einherjar agiam como se fosse uma brincadeira. Matavam com alegria. Morriam como se alguém tivesse derrotado seu avatar em Call of Duty. Nunca gostei desse jogo.
— Que saco — murmurou um cara enquanto observava quatro flechas cravadas no peito.
Outro gritou:
— Vou pegar você amanhã, Trixie! — E caiu para o lado, uma lança enfiada nas entranhas.
T.J. cantava “The Battle Hymn of the Republic” enquanto atacava e defendia com a baioneta.
X destruía um grupo após outro. Estava com umas dez flechas enfiadas nas costas, como um porco-espinho, mas isso não parecia incomodá-lo. Toda vez que o punho dele acertava alguém, um einherji se tornava bidimensional.
Quanto a mim, ficava correndo de um lado para outro, como um rato assustado, erguendo o escudo e arrastando a espada. Tinham me dito que ali a morte não era permanente, mas achei isso difícil de acreditar. Um bando de guerreiros com objetos afiados tentava me matar. E eu não queria morrer.
Consegui me defender de um golpe de espada. Desviei de uma lança com o escudo. Tive a oportunidade de perfurar uma garota que estava com a guarda baixa, mas não tive coragem de fazer isso.
Foi um erro. O machado dela cortou minha coxa. Senti a dor subir até o pescoço.
Mallory acertou a garota.
— Vamos, Chase, não para! Você vai se acostumar com a dor depois de um tempo.
— Que maravilha. — Fiz uma careta. — Estou aguardando ansiosamente por esse momento.
T.J. enfiou a baioneta pela viseira de um cavaleiro medieval.
— Vamos tomar aquela colina!
Apontou para uma elevação na beira do bosque.
— Por quê? — gritei.
— Porque é uma colina!
— Ele adora tomar colinas — resmungou Mallory. — É uma coisa da Guerra Civil.
Atravessamos o campo de batalha na direção do terreno mais alto. Minha coxa ainda estava doendo, mas tinha parado de sangrar. Aquilo era normal?
T.J. ergueu o rifle e gritou:
— Atacar!
Na mesma hora, foi atingido nas costas por um dardo.
— T.J.! — gritei.
Ele me olhou nos olhos, deu um sorriso fraco e caiu de cara na lama.
— Pelo amor de Frigga! — reclamou Mallory. — Vamos logo, novato.
Ela segurou meu braço e me puxou. Mais dardos passaram voando por cima da minha cabeça.
— Vocês fazem isso todos os dias? — perguntei.
— Não. Como dissemos, nas quintas temos dragões.
— Mas...
— Ei, Zé-Ninguém, o negócio é se acostumar com o horror da batalha. Você acha isso ruim? Espere até termos que lutar de verdade no Ragnarök.
— Por que eu sou o Zé-Ninguém?
— Porque você é irritante.
Chegamos à beirada do bosque. X e Mestiço protegiam nossa retaguarda, retardando a horda que nos perseguia. E os inimigos haviam mesmo formado uma horda. Todos os grupos espalhados ao redor tinham parado de lutar entre si e estavam atrás de nós. Alguns apontaram para mim. Outros gritaram meu nome, e não de um jeito amigável.
— É, já localizaram você. — Mallory suspirou. — Quando falei que queria ver você desmembrado, não era para ser do meu lado. Enfim.
Quase perguntei por que todo mundo estava atrás de mim. Mas sabia a resposta. Eu era o novato. É claro que os outros einherjar se juntariam contra mim e os outros recém-chegados. Lars Ahlstrom já devia ter sido decapitado. Dede devia estar correndo por aí sem os braços. Os einherjar veteranos fariam de tudo para que essa experiência fosse a mais dolorosa e aterrorizante possível para nós, só para ver como reagiríamos. Isso me deixou com raiva.
Subimos a colina, sempre buscando refúgio atrás das árvores. Mestiço se jogou em um grupo de vinte caras que nos seguiam. Destruiu todos eles. Voltou rindo, com um brilho insano no olhar. Estava sangrando, com mais de dez ferimentos e uma adaga fincada no peito, bem acima do coração.
— Como é que ele ainda está vivo? — perguntei.
— Ele é um berserker. — Mallory olhou para trás, com uma mistura de desdém, impaciência e outra coisa... admiração? — Aquele idiota continua lutando até estar literalmente em pedacinhos.
Uma luzinha se acendeu na minha mente. Mallory gostava de Mestiço. Só se chama alguém de idiota tantas vezes se está a fim dessa pessoa. Em circunstâncias diferentes, eu teria feito uma piadinha, mas, enquanto ela estava distraída, ouvi um tunk: uma flecha cravada no pescoço dela.
Ela me olhou com raiva, como se dissesse isso é culpa sua.
E caiu. Ajoelhei ao lado dela e toquei seu pescoço. Consegui sentir sua vida se esvaindo. Consegui sentir a artéria cortada, os batimentos ficando cada vez mais fracos, todos os ferimentos que precisariam ser curados. Meus dedos ficaram mais quentes. Se tivesse um pouco mais de tempo...
— Cuidado! — gritou X.
Levantei o escudo. Uma espada bateu nele. Empurrei e joguei o atacante colina abaixo. Meus braços doíam. Minha cabeça estava latejando, mas, de alguma forma, consegui me levantar.
Mestiço estava a cinquenta metros de mim, cercado por uma multidão de guerreiros cutucando-o com lanças, enchendo-o de flechas. Continuou lutando, mas nem ele seria capaz de aguentar muito mais.
X arrancou o AK-47 da mão de um cara e bateu na cabeça dele.
— Vai, Magnus Zé-Ninguém — ordenou o meio troll. — Tome o cume pelo andar dezenove!
— Meu apelido não vai ser Zé-Ninguém — murmurei. — Não vai mesmo.
Cambaleei colina acima até chegar ao topo. Encostei no grande carvalho enquanto X atacava, se defendia e dava cabeçadas em vikings, deixando os inimigos inconscientes.
Uma flecha acertou meu ombro, me prendendo na árvore. A dor era tanta que quase desmaiei, mas arranquei a flecha e me soltei. O sangramento parou na mesma hora. O ferimento se fechou como se alguém o tivesse preenchido com cera quente.
Uma sombra passou por mim, algo grande e escuro vindo do céu. Levei menos de um segundo para perceber que era uma pedra, provavelmente lançada da catapulta de alguma varanda. Demorei mais um instante para perceber onde cairia.
Tarde demais. Não tive tempo de avisar a X; o meio troll e mais uma dúzia de einherjar desapareceram debaixo de um pedregulho de calcário, no qual estava escrito: COM AMOR, DO ANDAR 63.
Cem guerreiros ficaram olhando a pedra. Folhas e galhos quebrados voavam ao redor. E então, todos os einherjar se viraram para mim.
Outra flecha me acertou no peito. Eu gritei, mais de raiva do que de dor, e a puxei.
— Uau — comentou um dos vikings. — Ele se regenera rápido.
— Tenta com uma lança — sugeriram. — Tenta com duas lanças.
Eles falaram como se não valesse a pena se dirigir a mim, como se eu fosse um animal encurralado com o qual pudessem fazer o que quisessem.
Vinte ou trinta einherjar levantaram as armas. A raiva dentro de mim explodiu. Eu gritei, liberando energia como uma bomba. Cordas de arco se romperam. Espadas caíram das mãos dos donos. Lanças e armas e machados saíram voando para as árvores.
Tão depressa quanto começou, a onda de poder se esvaiu. Ao meu redor, cem einherjar largaram suas armas.
O cara pintado de azul estava na vanguarda, o taco de beisebol aos seus pés. Ele ficou me olhando, chocado.
— O que aconteceu?
O guerreiro ao lado dele tinha um tapa-olho e armadura de couro vermelho decorada com espirais prateadas. Com cuidado, ele se abaixou e pegou o machado.
— Álfar seidr — disse Tapa-Olho. — Muito bem, filho de Frey. Não vejo um truque desses há séculos. Mas aço de osso ainda é melhor.
Fiquei vesgo quando a lâmina do machado dele girou na direção do meu rosto. E então tudo ficou preto.

20 comentários:

  1. "Só se chama alguém de idiota tantas vezes se está a fim dessa pessoa."Annabeth mandou beijos ;)

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    1. Será q Annabeth vai aparecer de verdade na história? Que saudade dessa sabidinha!!

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    2. Será q Annabeth vai aparecer de verdade na história? Que saudade dessa sabidinha!!

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    3. caçadora de Artermis5 de janeiro de 2016 20:21

      Uma luzinha se acendeu na minha mente. Mallory gostava de Mestiço. Só se chama alguém de idiota tantas vezes se está a fim dessa pessoa. Em circunstâncias diferentes, eu teria feito uma piadinha, mas, enquanto ela estava distraída, ouvi um tunk: uma flecha cravada no pescoço dela.
      idiota ou cabeça de alga
      leo tbm teria feito uma piada com ou sem flecha kkkkkkkk

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  2. porque eu tenho a sensação que ele vai morrer muitas vezes? .-.


    P.S.: falando nisso, isso é tipo uma "mudança agradável" já que quase ninguém morre nos livros do tio Rick (mesmo que a pessoa não permaneça morta, como é o caso aqui)

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    1. As mortes dele são insanas como a do Leo

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    2. Esse garoto vai ser demais... Eu acho que ele ainda vai dar uma de Frank(Heróis do Olimpo)

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    3. Mortes são destruidoras, tipo a do Leo. Mas essas aí vão ser muito divertidas, como a do Oc-Oc (octavian)

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    4. Nem são, gentem, cês ficam triste com a morte da Bia e da Zoe não sei pq, as duas mal dá pra conhecer e a Bia foi uma sacana "largando" o irmão, o Luke e a Silena eram traidores e o Beckendorf tb mal era conhecido, ninguém gostava do Octavian, e se tu leu até o final de SdO sabe que o Leo não morreu de vdd

      destruidora mesmo são mortes que tu não esperava ou que tiveram grande impacto na história (tipo Sirius, de HP, e algumas de THG, TMI, etc)

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  3. pelo menos sabemos q ele tem um poder..

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  4. Um cara de sunga com um taco de beisebol....uma cruza de Bess e aquele treinador sátiro do HO.kkk

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  5. Mallory gostava de Mestiço. Só se chama alguém de idiota tantas vezes se está a fim dessa pessoa. Eu ja entendi isso Tio Rick,kakakaka.

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  6. — Por que eu sou o Zé-Ninguém?
    — Porque você é irritante.

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  7. Magnus, não é tão ruim ser um Zé-ninguém, depende do ninguém. Ninguém conseguiu o Velocino, Ninguém nesse caso era sua prima.

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  8. Só eu que acho o andar 19 igual a quinta coorte?

    Morriam como se alguém tivesse derrotado seu avatar em Call of Duty. Nunca gostei desse jogo.

    Tb não gosto desse jogo; prefiro Mario Kart kkkk oi? de onde eu tirei isso...kkknkkkk

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  9. '' Vamos tomar aquela colina!
    Apontou para uma elevação na beira do bosque.
    — Por quê? — gritei.
    — Porque é uma colina!
    — Ele adora tomar colinas — resmungou Mallory. — É uma coisa da Guerra Civil.'' ri muito
    by Thalita

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    1. tipo, semideuses tb amam colinas, principalmente as meio-sangue :v
      mas eu tenho a sensação que os nórdicos preferem colinas banhadas com sangue inimigo mesmo kkkk

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  10. Rata de Biblioteca6 de outubro de 2016 21:10

    Sinto q esse livro vai ter muitas batalhas e muito sangue
    Adorei :)

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