31 de outubro de 2015

Dez

― Ever?
Fecho a janela e me ocupo do ensaio que se supõe deveria estar escrevendo para minha aula de inglês. Sabendo que Sabine se assustará ao me surpreender procurando no Google as antigas fórmulas alquímicas, em lugar da tarefa que ela está esperando ver.
Porque apesar do bem que sinto em estar recostada junto ao Damen, o batimento do coração, de nossos corações conectados em um, a longo prazo, simplesmente não é suficiente. Nunca será suficiente.
Eu quero uma relação normal com meu noivo imortal. Uma que seja sem barreiras. Uma onde realmente possa desfrutar da sensação de sua pele, em vez do que lembro e sinto em minha cabeça. E não vou parar até consegui-lo.
― Já comeu? — Ela põe sua mão em meu ombro enquanto aparece à porta.
E como não me preparei, e não me escondi de seu contato, isso é tudo o que necessito para ver sua versão do infame encontro no Starbucks. Que, infelizmente, não é tão diferente da versão do Sr. Muñoz, onde os dois atuam felizes e contentes, sorrindo um para o outro com abundante esperança. E apesar de que ela parece muito feliz, e não há dúvida de que merece ser feliz, sobretudo depois de tudo o que a fiz feito passar, ainda me consolo mesmo com a visão que tive faz uns meses, onde ela claramente termina com um menino bonito que trabalha no mesmo edifício que ela, me perguntando se eu deveria dizer ou fazer algo para mediar em seu entusiasmo, já que toda esta paquera não vai a nenhuma parte.
Mas também sei que já me arrisquei muito ao me expor a mim mesma perante o Sr. Muñoz, assim não direi nenhuma palavra. Não posso me permitir esse engano com ela também.
Giro ao redor em minha cadeira, me liberando a mim mesma de suas mãos. Querendo evitar ver mais do que já vi, esperando que a energia desapareça.
― Damen me fez o jantar — digo-lhe, com voz firme e baixa apesar do fato de que não é exatamente a verdade. A menos que o elixir que bebi conte.
Ela me olha, seu olhar se volta de repente confusa enquanto encontra o meu.
― Damen? — E dá um passo atrás. ― Esse é um nome que não escuto há algum tempo.
Estremeço-me, desejando não haver falado tão rápido. Deviater dito devagar, acostumá-la à ideia de vê-lo de novo.
― Significa que estão de novo juntos?
Encolho-me de ombros, permitindo que meu cabelo caísse em meu rosto e ocultando-o parcialmente. Tomo uma mecha e o giro ao redor, fingindo procurar pontas abertas, apesar de que já não as tenho.
― Simmm... ainda estamos na etapa de amigos. — Encolho-me de ombros. ― Quero dizer, realmente, somos mais que amigos, somos mais como…
Apaixonados e condenados – destinados a passar a eternidade no abismo… Apaixonados loucamente um pelo outro, mas sem poder nos tocar.
― Bom, sim, quero dizer, suponho que se pode dizer que estamos juntos novamente. — O digo, forçando um sorriso tão amplo que meus lábios virtualmente se dividem pela metade, mas ainda assim a mantenho, com a esperança de que ela acredite em mim. ― E você está de acordo com isso?
Ela passa uma mão por seu cabelo tão loiro como o ouro, um tom que estávamos acostumados a compartilhar, até que comecei a beber o elixir e o meu ficou mais e mais claro, e depois sentando-se sobre a beirada de minha cama, cruzando as pernas, e deixando cair sua pasta no chão, quatro sinais muito maus, que significam que está instalando-se para uma de suas largas e incômodas conversações.
Seu olhar se move através de mim, observando meus desgastados jeans, minha camiseta branca, em busca de sintomas, pistas, algum tipo de sinal revelador de angústia adolescente.
Havendo recentemente descartado anorexia e/ou bulimia quando meu elixir acrescentou quatro polegadas a minha altura e tonificou meu corpo com uma fina capa de músculo apesar de eu nunca ter feito exercícios. Mas esta vez não é minha aparência o que a deixa nervosa, se não minha conturbada relação com o Damen, é a que ativou seu código vermelho.
Logo tinha terminado um novo livro sobre paternidade, e em este se alegava que uma relação tumultuosa é motivo de grande preocupação. E embora isso possa ser certo, nada sobre a relação entre o Damen e eu poderia ser tratada em um capítulo de um livro.
― Não me interprete mal, Ever. Gosto do Damen. É agradável e cortês, e sem dúvida é muito centrado, entretanto, há algo estranho nessa autoconfiança, algo que parece bastante estranho para um jovem de sua idade. Como se de alguma forma muito grande para você ou… — De novo se encolhe os ombros, incapaz de terminar.
Tiro o cabelo de minha cara para poder vê-la melhor. Ela é a segunda pessoa que no dia de hoje notou algo sobre ele, sobre nós.
Primeiro foi Haven com tudo isso da telepatia, e agora Sabine está tendo problemas com sua maturidade e equilíbrio. E embora seja bastante fácil de explicar, o fato de que o estejam notando, é o que me preocupa.
― E embora haja só uns poucos meses de diferença entre vocês, ele de alguma maneira parece ter mais experiência. Muita experiência. — E de novo encolhe os ombros. ― E odiaría que se sentisse pressionada a fazer algo para o que não está preparada.
Aperto meus lábios fortemente e trato de não rir, pensando em que ela não poderia estar mais equivocada. Ao assumir que eu sou a menina inocente que é perseguida pelo grande lobo feroz, sem imaginar que realmente sou eu a depredadora nesta historia em particular, perigosamente perseguindo a minha presa até o ponto de arriscar sua vida.
― Porque não importa o que ele possa dizer, você tem o controle de seu corpo, Ever. Você é a que decide com quem, onde, e quando. Sem importar o que sentir por ele, ou por qualquer outro menino, eles não têm nenhum direito a te pressionar.
― Não é assim — respondo-lhe, interrompendo-a antes que isto fique mais embaraçoso do que já está. ― Damen não é assim. É um perfeito cavalheiro, um namorado ideal. Sério Sabine, está muito longe da realidade. Confie em mim nisto, de acordo?
Ela me olha por um momento, com sua clara e vacilante aura cor laranja, desejando acreditar, insegura sobre se deveria fazê-lo. Mas depois recolhe sua pasta e se dirige para a porta, detendo-se só para dizer:
― Estava pensando… — A olho, tentada a olhar dentro de seus pensamentos, apesar de minha promessa de nunca violar sua privacidade a propósito, a menos que seja uma emergência, o que claramente não o é. ― Já que a escola terminará logo, e como não te ouvi mencionar nenhum plano para o verão, pensei que poderia ser bom para você que procurasse um trabalho, talvez passar umas horas cada dia ocupada em algo. O que te parece?
O que me parece? Fico boquiaberta, com os olhos exagerados, a boca seca, e com perda total da fala. Bom, acredito que devia olhar cuidadosamente antes dentro de sua cabeça depois de tudo, porque é evidente que isto se pode considerar como uma chamada de emergência!
― Nada que seja de tempo integral ou coisas assim. Terá muito tempo para ir à praia e para estar com seus amigos. Só pensei que seria bom para ti se…
― É pelo dinheiro?
Minha mente segue confundida, desesperando-se por encontrar uma saída.
Se se tratar de uma simples questão de cooperação para a hipoteca e os mantimentos, então com muito gosto poderia ajudá-la com tudo o que necessitasse. Demônios, inclusive posso agarrar o que fica da apólice de seguro de vida de meus pais. Mas o que ela não pode ter é meu verão.
Oh não, de maneira nenhuma! Nem sequer um dia.
― Ever, é obvio que não se trata de dinheiro. — Ela desvia seu olhar, enquanto suas bochechas se tingem de cor rosa. Curiosamente incapaz de discutir os assuntos financeiros, para alguém que ganha a vida como litigante corporativo. ― Só pensei que poderia ser bom para você, sabe, conhecer gente nova, aprender algo novo. Sair de seu meio ambiente habitual por umas horas ao dia, e…
E se afastar do Damen. Não preciso ler seus pensamentos para saber do que se trata realmente.
Agora que ela sabe que estamos de novo juntos, está mais decidida a nos separar. E embora entenda sua preocupação devido às mudanças de humor e depressão aos quais a submeti quando Damen e eu estivemos separados, desta vez ela está equivocada. Não é como ela acredita. Embora não tenha nem ideia de como explicar-lhe e de uma vez manter meus secredos intactos.
― E casualmente, meu estagiário do verão acaba de desistir, e estou segura de que é questão de falar com outros sócios e o trabalho será seu.
Sabine sorri, com seu rosto radiante, e olhos brilhantes, esperando que eu também sorria e comemore.
― Mas essas posições não são geralmente reservadas para os estudantes de direito? — Pergunto, segura de que estou patéticamente pouco qualificada para encher esse emprego em particular.
Mas ela nega com a cabeça.
―Não nesse tipo de emprego. Isto é mais como uma vaga para responder telefones e preencher papéis. E realmente não há dinheiro tampouco, embora obtenha um crédito para a escola e um pequeno bônus ao final da temporada. Só pensei que poderia te fazer bem. Para não mencionar o bem que se veria nas solicitações para a Universidade.
Universidade. Outra coisa pela qual estava acostumada a me obcecar, mas já não é assim. Quero dizer, que uso poderiam ter todas essas aulas e professores, quando tudo o que tenho que fazer é pôr minha mão em um livro ou olhar dentro da cabeça de meu professor para saber todas as respostas?
― Eu não gostaria que alguém preenchesse a vaga, quando sei que é perfeita para o trabalho.
Olho-a fixamente, sem saber o que dizer.
― É uma boa experiência para uma pessoa de sua idade — acrescenta, com tom indignado por causa de meu silêncio. ― É recomendado em todos os livros. Dizem que fortalece o carácter, o compromisso e a disciplina para dividir tempo e fazer o trabalho.
Genial. Assim devo agradecer ao Dr. Phill por arruinar meu verão.
Estou totalmente brava com a Sabine até que a lembrança de como era ela quando cheguei aqui, tranquila, relaxada, me permitindo meu espaço e a liberdade necessária.
É minha culpa que ela tenha mudado.
Minha suspensão, minha negatividade a ingerir nada que não fosse o elixir vermelho, e todo o drama com o Damen foi que a estimulou. E aqui é onde a trouxe, a um estágio durante o verão que está empenhada em me assegurar.
Mas de maneira nenhuma posso passar o verão fazendo malabarismos com um montão de arquivos e responder telefones quando vou necessitar de todo o tempo livre para poder encontrar um antídoto para o Damen. E se estou trabalhando no escritório de Sabine, com ela e seus colegas espiando sobre meu ombro, não o vou conseguir.
Embora não é que possa dizer-lhe imediatamente.
Isto só acenderia seus alarmes. Tenho que jogar bem minhas cartas, fazê-la saber que não tenho nada contra a disciplina e a formação do caráter, mas prefiro fazer frente a essas coisas por minha conta.
― Estou totalmente de acordo em trabalhar — digo-lhe, tratando de não pressionar meus lábios, me pôr inquieta, ou romper o contato visual, três claras provas de que não estou sendo totalmente honesta. ― Mas, posto que já faz demasiado por mim, me sentiria muito melhor se eu pudesse encontrar meu próprio trabalho. Quero dizer, não estou segura sobre ser feita para o trabalho de escritório, assim que talvez pudesse olhar por outro lado. Ver quais são minhas opções. Até posso lhe ajudar com a hipoteca e a comida. É o menos que posso fazer.
― Que comida? — Ela ri, movendo sua cabeça. ― Você quase não come! Além disso, eu não quero o seu dinheiro, Ever. Embora possa ajudar a abrir um crédito se o desejar.
― Claro. — Encolho os ombros, me obrigando a luzir um entusiasmo que realmente não sinto já que não tenho nenhuma necessidade de tais coisas convencionais. ― Isso seria genial! — Acrescento, sabendo que quanto mais tempo possa manter o estágio fora de sua mente, será melhor para mim.
― Está bem então. — Ela choca seus dedos contra o pomo da porta enquanto finaliza seu plano. ― Tem uma semana para encontrar algo por sua conta.
Engulo a seco, tratando de manter minha surpresa fora da cara. Uma semana? Que trato justo é esse quando eu não sei nem por onde começar? Nunca antes tive um emprego. É possível que possa manifestar um?
― Sei que não é muito tempo — diz ela, lendo meu rosto. ― Mas odiaria que eles dessem o posto a alguém mais quando sei que é perfeita para ele.
Depois se dirige ao corredor e fecha a porta entre nós, me deixando muda, olhando os parpadeantes restos de sua aura alaranjada, seu campo de energia magnética, ainda rondando o espaço onde ela estava. Pensando em quão irônico é ao me afastar do Damen por assumir que não poderia obter um trabalho sem experiência, só para me encontrar a mim mesma me enfrentando ao mesmo destino.

2 comentários:

  1. Eu não gosta da Sabine! coisa chata

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  2. Sei que a preocupação da Sabine é justificável, mas ela tá chata com esse negócio de 'adolescentes problemáticos'!

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