18 de outubro de 2015

Cinquenta e quatro - Por que não se deve usar uma faca como trampolim

DESCER DE RAPEL pela parede do desfiladeiro foi a parte fácil.
Quando chegamos lá embaixo, comecei a ter sérias dúvidas. As gigantas eram menores do que a irmã morta, mas ainda tinham uns quinze metros. Se me pedissem para lutar com um dos dedões do pé delas, eu poderia vencer sem problema. Então não gostei das minhas chances.
— Me sinto o João no pé de feijão — murmurei.
Sam riu baixinho.
— De onde você acha que essa história veio? É uma memória cultural, um relato atenuado do que acontece quando os humanos entram em Jötunheim.
— Legal.
A espada zumbiu na minha mão.
— Além do mais, você não pode ser João. Você é Magnus.
Eu não tinha como discutir com essa lógica.
Seguimos pelo piso de pedra, passando por uma selva de poeira, migalhas de comida e poças de gordura.
A lareira estava tão quente que minhas roupas começaram a fumegar. Meu cabelo estalou. O fedor do cecê das gigantas, uma combinação de argila molhada e carne estragada, era quase tão mortal quanto uma espada entrando voando no meu nariz.
Chegamos a uma distância da mesa que nos permitiria falar com elas, mas as gigantas continuaram sem nos notar. As duas estavam de sandálias, vestidos de couro tamanho 380 e colares no estilo Flintstones, feitos com pedra polida. O cabelo preto estava preso em marias-chiquinhas. Os rostos cinzentos estavam horrivelmente pintados com blush e batom. Blitzen, meu conselheiro de moda, não estava comigo, mas eu achava que as irmãs gigantas iam para uma noitada com as amigas, apesar de ainda ser hora do almoço.
— Pronto? — perguntou Sam.
A resposta era não, mas respirei fundo e gritei:
— Oi!
As gigantas continuaram conversando, batendo os copos e mastigando a carne.
Eu tentei de novo.
— EI!
As grandonas pararam. Observaram a sala. Finalmente, a da esquerda nos viu. Caiu na gargalhada, espalhando pedaços de carne e gotas de hidromel.
— Mais humanos! Não acredito!
A outra giganta se inclinou.
— Aquilo é outra valquíria? E... — Ela farejou o ar. — Um einherji. Perfeito! Eu estava me perguntando o que teríamos para a sobremesa.
— Reivindicamos direitos de convidados! — gritei.
A giganta da esquerda fez uma careta.
— Por que você tinha que fazer isso?
— Queremos negociar. — Apontei para a gaiola, agora tão acima de nós que eu só conseguia ver a base enferrujada pairando como uma lua. — Pela liberdade daquele cisne. E também... possivelmente, sabe, se vocês tiverem alguma arma roubada por aí. Tipo, sei lá, um martelo, talvez.
— Muito discreto — murmurou Sam.
As gigantas se olharam como se estivessem se esforçando para não rir. Ficou óbvio que estavam enchendo a cara de hidromel.
— Muito bem — disse a giganta da esquerda. — Sou Gjalp. Esta é minha irmã, Griep. Aceitamos vocês como convidados para negociação. Quais são seus nomes?
— Sou Magnus, filho de Natalie — falei. — E esta é...
— Samirah, filha de Ayesha — concluiu Sam.
— Vocês são bem-vindos na casa do nosso pai, Geirröd — disse Gjalp. — Mas não consigo ouvir vocês direito aí embaixo. Vocês se importam se eu colocá-los em uma cadeira?
— Hã, tudo bem.
A outra irmã, Griep, nos pegou como se fôssemos brinquedos. Ela nos colocou em uma cadeira vazia, com o assento do tamanho de uma sala. O tampo da mesa ainda estava um metro e meio acima da minha cabeça.
— Ah, caramba — disse Griep. — Ainda não consigo ouvir. Posso levantar a cadeira para você?
Sam começou a dizer:
— Magnus...
Mas eu respondi:
— Claro.
Com um grito de alegria, Griep pegou nossa cadeira e levantou acima da cabeça. Se não fosse o encosto, Sam e eu teríamos sido esmagados no teto. Mas só caímos e levamos uma chuva de reboco.
Griep colocou a cadeira no chão. Demorou um tempo para meus olhos pararem de sacudir. Só então vi os rostos desdenhosos das gigantas acima de nós.
— Não deu certo — disse Griep, com uma decepção óbvia.
— Claro que não — reclamou Gjalp. — Você nunca dá esse golpe direito. Já falei, tem que ser uma coisa sem encosto, como um banco. E devíamos ter colocado aqueles espetos no teto.
— Vocês estavam tentando nos matar! — exclamei. — Isso não pode estar nas regras dos bons anfitriões.
— Matar? — Gjalp pareceu ofendida. — Essa é uma acusação totalmente sem fundamento. Minha irmã só fez o que você pediu. Ela pediu sua permissão para levantar a cadeira.
— Você acabou de dizer que era um golpe.
— Eu disse? — Gjalp piscou. De perto, os cílios cheios de rímel pareciam uma pista de obstáculos para uma corrida na lama. — Acho que não.
Olhei para a Espada do Verão, que ainda estava na minha mão.
— Jacques, elas violaram as regras do anfitrião? Porque tentar nos matar me parece meio exagerado.
— Se elas não admitirem a intenção, não — respondeu Jacques. — E as duas estão dizendo que foi sem querer.
As gigantas se empertigaram.
— Uma espada que fala? — comentou Gjalp. — Isso é interessante.
— Tem certeza que não posso levantar sua cadeira de novo para você? — ofereceu Griep. — Eu posso ir até a cozinha e buscar um banco. Não dá trabalho.
— Anfitriãs honradas — disse Sam, com a voz trêmula — por favor, nos coloquem com segurança na mesa, para negociarmos com vocês.
Griep resmungou, aborrecida, mas fez o que Sam pediu. A giganta nos colocou ao lado do garfo e da faca dela, que eram mais ou menos do meu tamanho. A caneca seria uma ótima torre de água para uma cidade pequena. Eu só esperava que o nome não fosse Bum Papai.
— Então... — Griep se sentou novamente na cadeira. — Vocês querem libertar o cisne? Vão ter que esperar até nosso pai chegar para negociar os termos. Ela é prisioneira dele, não nossa.
— Ela é uma valquíria, claro — acrescentou Gjalp. — Entrou voando pela nossa janela ontem à noite. Ela se recusa a mostrar a forma verdadeira. Acha que consegue nos enganar ficando com essa capa boba de cisne, mas papai é inteligente demais para ela.
— Droga — falei. — Bem, nós tentamos.
— Magnus... — repreendeu Sam. — Graciosas anfitriãs, vocês podem pelo menos aceitar não matar o cisne até termos a oportunidade de falar com Geirröd?
Gjalp deu de ombros.
— Como falei, o destino dela depende do papai. Ele pode deixá-la ir se vocês se oferecerem em troca, mas não sei. Precisamos de alguma coisa picante para o ensopado de hoje.
— Vamos deixar para atacar esse assunto depois — sugeri.
— Isso é só uma expressão — acrescentou Sam, rapidamente. — Meu amigo não está dando permissão para vocês atacarem nada, muito menos nós.
— Boa ressalva — falei para ela.
Sam me lançou um olhar que dizia: você é tão idiota. Eu já estava me acostumando.
Gjalp cruzou os braços, formando uma nova plataforma contra o peito.
— Vocês disseram que também querem negociar por uma arma roubada?
— É — respondi. — Uma coisa que tem a ver com trovão, se estiver com você. Não que nenhum deus do trovão tenha perdido uma arma recentemente.
Griep riu.
— Ah, nós temos uma coisa assim... uma coisa que pertence ao próprio Thor.
Como Thor não estava presente para xingar de forma criativa, Sam fez as honras e murmurou algumas palavras que eu duvidava que seus avós aprovassem.
— São apenas expressões — acrescentei rapidamente. — Minha amiga não estava dando permissão para vocês fazerem... nada dessas coisas grosseiras que disse. Vocês vão negociar conosco pelo m... pela arma da qual você falou?
— É claro! — Gjalp sorriu. — Na verdade, eu gostaria de encerrar logo as negociações, pois minha irmã e eu temos um compromisso...
— Com gigantes do gelo gêmeos muito gatos — acrescentou Griep.
— ... então vamos fazer um acordo justo — continuou Gjalp. — Vamos trocar a arma de Thor por essa adorável espada falante. E vamos libertar o cisne, tenho certeza de que papai não vai se importar, desde que vocês se entreguem em troca. Não vão conseguir um acordo melhor do que esse.
— Isso não é um acordo — resmungou Sam.
— Então recusem e vão embora em paz. Para nós, dá no mesmo.
Jacques vibrou de indignação, as runas brilhando.
— Magnus, você jamais me trocaria, não é? Nós somos amigos! Você não é como seu pai, não vai me abandonar assim que encontrar alguma outra coisa da qual gosta mais, não é?
Pensei na sugestão de Loki de entregar a espada para o meu tio Randolph. Na hora, fiquei tentado. Agora, a ideia parecia impossível, e só em parte porque a giganta queria nos colocar em uma gaiola e nos comer no jantar. Jacques já tinha salvado nossas vidas pelo menos duas vezes. Eu gostava dele, mesmo que às vezes me chamasse de señor.
Uma alternativa me ocorreu. Era uma ideia ruim, mas melhor do que a proposta da giganta.
— Jacques — falei — hipoteticamente, se eu falasse para as gigantas como matamos a irmã delas, isso quebraria as regras de etiqueta dos convidados?
— O quê? — exclamou Gjalp.
As runas de Jacques brilharam em um tom mais alegre de vermelho.
— Não há nenhuma quebra de protocolo nisso, meu amigo, porque aquilo aconteceu antes de sermos convidados.
— Tudo bem. — Eu sorri para a giganta. — Nós matamos sua irmã. Não era uma moça grande e feia que estava tentando bloquear o rio e afogar Thor? Pois é. Ela está morta agora.
— MENTIRA! — Gjalp ficou de pé. — Humanos insignificantes! Vocês não teriam como matar nossa irmã.
— Na verdade, minha espada entrou voando pelo nariz dela e destroçou seu cérebro.
Griep uivou de fúria.
— Eu devia ter esmagado vocês como insetos! Pena que esqueci o banco e não coloquei espetos estratégicos no teto!
Vou admitir, ter duas gigantas acima de mim berrando ameaças de morte foi meio apavorante. Mas Sam manteve a calma.
Ela apontou o machado para Griep.
— Então você estava tentando nos matar ainda agora!
— Claro, sua burra!
— E isso viola a regra dos anfitriões.
— Quem se importa? — gritou a giganta.
— A espada de Magnus se importa — disse Sam. — Jacques, você ouviu isso?
— Claro que ouvi. Mas eu gostaria de avisar que o esforço necessário para matar as duas gigantas pode ser demais...
— Pode matar! — Eu joguei a espada.
Jacques espiralou para cima, entrou direto pela narina direita de Griep e saiu pela esquerda. A giganta desabou, o que causou um tremor de 6,8 graus na escala Richter.
Gjalp sufocou um grito. Ela cobriu o nariz e a boca e cambaleou pela sala, enquanto Jacques tentava, em vão, abrir caminho por entre os dedos da giganta.
— Ah, essa é esperta! — gritou a espada. — Que tal uma ajudinha aqui?
— Magnus!
Sam empurrou a faca da giganta para a beirada da mesa até a lâmina se projetar como um trampolim.
Entendi o que ela queria que eu fizesse. Era loucura e burrice, mas não tinha tempo para parar e refletir. Corri com tudo e pulei na ponta da faca.
Sam gritou:
— Espere!
A essa altura, eu já estava no ar. Caí na faca, que me catapultou para cima. O plano funcionou mais ou menos. Eu aterrissei no assento vazio da cadeira, que não era tão distante a ponto de me matar, mas foi uma queda boa, suficiente para quebrar minha perna. Viva! A dor foi a de um prego quente enfiado na base da minha coluna.
Para Gjalp, foi pior. A faca rodopiante acertou-a no peito. Não a empalou. Não atravessou nem o vestido, mas o golpe foi suficiente para fazê-la gritar. Ela baixou as mãos e as levou até o peito por instinto, o que deu acesso total a Jacques ao nariz dela.
Um segundo depois, Gjalp jazia morta no chão ao lado da irmã.
— Magnus! — Sam desceu da mesa e pousou ao meu lado na cadeira. — Seu imbecil! Eu queria que você me ajudasse a jogar um saleiro na faca! Não esperava que você fosse pular nela!
— De nada. — Fiz uma careta. — Além disso, ai.
— A perna está quebrada?
— Está. Não se preocupe, eu me curo rápido. Talvez demore uma hora...
— Acho que não temos... — Sam começou a dizer.
Na sala ao lado, uma voz grave exclamou:
— Meninas, cheguei!

16 comentários:

  1. Ferrooooou!!!!!!!!

    Ezequiel

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  2. Já tá chamando ele de idiota, riu Rock já explicou o que isso significa. :> ship instalado com sucesso

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  3. A sam eh quase minha filha. Quase plagio do meu pseudo esse nome da mae dela vish!

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  4. Idea! Se pendure no teto e pula na cabeça dele

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    1. Isso não seria nada inteligente!

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  5. ferou tudo agora

    ~coruja

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  6. Crianças não tentem isso em casa! Usar uma faca como trampolim não é recomendável, e vc pode quebrar a perna. Me lembrei do tornozelo da Annabeth.

    - Alguma que tem a ver com trovão, se estiver com você. Não que nenhum deus do trovão tenha perdido uma arma recentemente.
    Kkkkkk nossa Magnus, que sutil.

    Toda vez que escuto Geirröd me lembro do Gerión (ou é Gerião?). Não sei pq

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  7. Na sala ao lado, uma voz grave exclamou:

    — Meninas, cheguei!

    Só eu lembrei do Dino da Silva Sauro? Kkkkkkkk

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  8. dois gigante de gelo gemeos e muito gatos....kkkkk morri

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  9. A história tá muito boa. Mas eu to achando essa espada apelona demais. Agora ele vai ficar parado fazendo nada enquanto a espada luta?

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  10. — Me sinto o João no pé de feijão — murmurei.
    Sam riu baixinho.
    — De onde você acha que essa história veio? É uma memória cultural, um relato atenuado do que acontece quando os humanos entram em Jötunheim.
    — Legal.
    A espada zumbiu na minha mão.
    — Além do mais, você não pode ser João. Você é Magnus.

    Eu vi lá atrás alguém dizer que em inglês o nome da espada é Jack e o nome de João o do pé de feijão em inglês também é Jack, por isso a espada dez aquilo, uma piada que se perde na tradução :(

    Parei de ler só pra escreve isso, que bestorola a minha!!! ¬.¬

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