18 de outubro de 2015

Cinquenta e oito - Quem diabos é Hel?

EU ESTAVA SOZINHO no meio de uma tempestade de neve em Bunker Hill.
Minha exaustão tinha passado. Jacques voltou à forma de pingente no meu pescoço. Nada fazia sentido, mas não parecia um sonho.
Eu sentia como se estivesse mesmo em Charlestown, do outro lado do rio de Boston, bem onde meu ônibus do quarto ano nos deixou em um dos passeios da escola. Cortinas finas de neve caíam nas casas de pedra marrom. O parque em si não era mais do que um campo branco com algumas árvores nuas. No centro, um obelisco cinza se projetava rumo ao céu de inverno. Depois de ter passado um tempo na fortaleza de Geirröd, o monumento parecia pequeno e triste.
Thor dissera que eu havia sido enviado para onde precisava ir. Por que eu tinha que estar ali e não junto dos meus amigos?
Uma voz atrás do meu ombro disse:
— Trágico, não?
Eu nem me mexi. Acho que estava acostumado a entidades nórdicas invadindo sem aviso meu espaço pessoal.
Ao meu lado, olhando para o monumento, estava uma mulher com a pele pálida de elfo e longos cabelos negros. De perfil, parecia linda, com uns vinte e cinco anos. A capa de arminho cintilava como uma torrente de neve ao vento.
De repente, ela se virou para mim, e meus pulmões se apertaram no peito.
O lado direito do rosto da mulher era um pesadelo: pele murcha, gelo azul cobrindo pedaços de carne em putrefação, lábios finos como membranas sobre dentes podres, um olho branco e leitoso e tufos de cabelo ressecado como teias de aranha pretas.
Tentei dizer a mim mesmo: Calma, isso não é tão ruim. Ela é que nem o Duas Caras do Batman. Mas o Duas Caras sempre me pareceu meio cômico; fala sério, ninguém com o rosto tão danificado poderia estar vivo.
A mulher diante de mim era bem real. Parecia que tinha ficado presa com metade do corpo exposto a uma nevasca. Na verdade... parecia mais um demônio horrendo que tentou se transformar em humano, mas foi interrompido no meio do processo.
— Você é Hel. — Minha voz soou como se eu tivesse cinco anos de novo.
Ela levantou a mão direita esquelética, prendeu um tufo de cabelo atrás da orelha... ou melhor, de um pedaço de carne destruída por geladura que talvez já tivesse sido uma orelha.
— Eu sou Hel — concordou a mulher. — Às vezes sou chamada de Hela, embora a maior parte dos mortais não ouse pronunciar meu nome. Não vai fazer nenhuma piadinha, Magnus Chase? Está no inferno, abraça o capeta? Estou achando você meio caidinha, hein? Esperava mais coragem de você.
Eu tinha acabado de ficar sem coragem nenhuma. O melhor que conseguia era não sair correndo e gritando. Uma rajada de vento soprou sobre Hel, e alguns pedaços de pele necrosada do antebraço zumbi saíram voando junto com a neve.
— O q-que você quer? — perguntei. — Já estou morto. Sou um einherji.
— Eu sei disso, jovem herói. Não quero sua alma. Já tenho muitas. Chamei você aqui para conversar.
— Você me chamou? Achei que Thor...
— Thor — A deusa pronunciou o nome com certo deboche. — Se estiver procurando alguém capaz de zapear por cento e setenta canais de conteúdo HD, fale com Thor. Mas se tiver que enviar pessoas com precisão pelos nove mundos, ele não é de grande ajuda.
— Então...
— Então achei que estava mais do que na hora de conversarmos. Meu pai mencionou que eu procuraria por você, não foi? Ele lhe deu uma saída, Magnus. Entregue a espada para seu tio. Tire-a da jogada. É sua última oportunidade. Talvez você possa aprender uma lição com este lugar.
— Bunker Hill?
Ela se virou na direção do monumento, deixando só o lado mortal visível.
— Triste e sem sentido. Outra batalha inútil, como esta em que você está prestes a entrar...
Era verdade que eu estava meio enferrujado em história americana, mas tinha certeza de que não construíram monumentos no local de eventos tristes e sem sentido.
— Bunker Hill não foi uma vitória? Com os americanos rechaçando os britânicos do alto da colina? Só atirem quando virem...
Ela me encarou com olhos leitosos de zumbi, e não consegui me obrigar a dizer o branco dos olhos deles.
— Para cada herói, mil covardes — disse Hel. — Para cada morte honrosa, mil sem sentido. Para cada einherji... mil almas que entram no meu reino.
Ela apontou com a mão murcha.
— Bem aqui, um garoto britânico da sua idade morreu atrás de um fardo de feno, chorando e chamando a mãe. Era o mais jovem do regimento. O próprio comandante atirou nele por covardia. Você acha que ele gosta desse lindo monumento? E ali, no alto da colina, depois que a munição acabou, seus ancestrais jogaram pedras nos britânicos e lutaram como homens das cavernas. Alguns fugiram. Outros ficaram e foram massacrados com baionetas. Quem foi mais inteligente?
Hel sorriu. Eu não sabia que lado da boca era mais macabro, o zumbi ou a bela mulher que se divertia com massacres.
— Ninguém chegou a dizer o branco dos olhos deles — prosseguiu. — Isso foi uma lenda, inventada anos depois. Aqui nem sequer é Bunker Hill. É Breed’s Hill. E, apesar de a batalha ter saído muito cara para os britânicos, os americanos não venceram. Foram derrotados. A memória humana é assim... esquece a verdade e acredita no que for mais conveniente.
Neve derreteu no meu pescoço e umedeceu minha gola.
— O que você quer dizer? Que não devo lutar? Que devo deixar Surt libertar seu irmão, o Lobo Mau?
— Eu só aponto as opções — disse Hel. — Bunker Hill afetou mesmo o resultado da revolução? Se enfrentar Surt hoje, você estará adiando o Ragnarök ou acelerando-o? Entrar na batalha é o que o herói faria, o tipo de pessoa que vai parar em Valhala. Mas e as milhões de almas que viveram de maneira mais cautelosa e morreram tranquilamente na cama, de velhice? Elas acabaram no meu reino. Não foram mais sábias? Você pertence mesmo à Valhala, Magnus?
As palavras das Nornas pareciam espiralar ao meu redor no frio. Escolhido por engano, não era sua hora; um herói que, em Valhala, não pode permanecer agora.
Pensei no meu colega de corredor, T.J., ainda carregando o rifle e usando o casaco da Guerra Civil, correndo pelas colinas dia após dia em uma série de batalhas infinitas, esperando a morte final no Ragnarök. Pensei em Mestiço Gunderson, tentando manter a sanidade cursando doutorado em literatura quando não estava no modo berserker e esmagando crânios. Meu lugar era com esses caras?
— Leve a espada para seu tio — pediu Hel. — Deixe que os eventos se desenrolem sem você. É o caminho mais seguro. Se fizer isso... meu pai, Loki, pediu que eu recompensasse você.
A pele do meu rosto ardeu. Tive um medo irracional de estar sofrendo de geladura, assim como Hel.
— Me recompensar?
— Helheim não é um lugar tão ruim — explicou a deusa. — Meu salão tem muitas câmaras adoráveis para meus hóspedes favoritos. Posso promover um encontro.
— Um encontro... — Eu mal consegui dizer as palavras. — Com minha mãe? Você está com ela?
A deusa pareceu considerar a pergunta, inclinando a cabeça, metade viva, metade morta.
— Eu poderia conseguir. O status da alma dela, de tudo que ela era, ainda está no fluxo.
— Como...? Eu não...
— As orações e os desejos dos vivos costumam afetar os mortos, Magnus. Os mortais sempre souberam disso. — Ela mostrou os dentes, podres de um lado, imaculadamente brancos do outro. — Não posso devolver Natalie Chase à vida, mas posso unir vocês dois em Helheim se for seu desejo. Posso unir as almas de vocês lá, para que nunca se separem. Vocês poderiam voltar a ser uma família.
Tentei imaginar aquilo. Minha língua congelou na boca.
— Não precisa falar — disse Hel. — Só me dê uma indicação. Chore por sua mãe. Deixe suas lágrimas caírem, e vou saber que concorda. Mas tem que decidir agora. Se rejeitar minha proposta, se insistir em lutar sua própria batalha de Bunker Hill esta noite, juro que nunca mais verá sua mãe novamente, nem nesta vida e nem em nenhuma outra.
Pensei em minha mãe jogando pedrinhas comigo no Houghton’s Pond, os olhos verdes brilhantes de alegria. Ela abrindo os braços sob o sol, tentando explicar como era o meu pai. Foi por isso que eu trouxe você aqui, Magnus. Não consegue sentir? Ele está ao nosso redor.
Depois, imaginei minha mãe em um palácio frio e escuro, com a alma presa por toda a eternidade. Lembrei do meu próprio cadáver na capela, uma relíquia embalsamada, vestida para exibição.
Pensei nos rostos das almas afogadas girando na rede de Ran.
— Você está chorando — reparou Hel com satisfação. — Então temos um acordo?
— Você não entende. — Olhei para a deusa. — Estou chorando porque sei o que minha mãe ia querer. Ela ia querer que eu me lembrasse de como ela era. É o único monumento de que precisa. Ela não ia querer ficar presa, preservada, obrigada a viver como um fantasma em um submundo frio de depósito.
Hel fez cara feia, com o lado direito do rosto se enrugando e rachando.
— Você ousa?
— Você não queria coragem? — Tirei o pingente da corrente. Jacques, a espada, assumiu seu tamanho original, a lâmina soltando fumaça no frio. — Me deixe em paz. Diga a Loki que não temos acordo. Se eu vir você de novo, corto bem na linha pontilhada.
Ergui a espada.
A deusa se dissolveu na neve. Tudo ao meu redor sumiu. De repente, me vi equilibrado na beirada de um telhado, cinco andares acima do asfalto.

19 comentários:

  1. eu aqui quase chorando e ele vai e ameaça ela , cuidado com os deuses magnus

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    1. minha me esta me perguntando porque eu estou sorrindo (de orgulho) e chorando ao mesmo tempo

      ~coruja

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  2. Alguem lembrou de Percy no palácio de Hades em O Ladrão de Raios?

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  3. Magnus n tem noção do perigo, pqp... parece o Percy T~T

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    1. eu ainda acho que ele é grego tipo por parte de mãe

      ~coruja

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  4. O obelisco me lembrou dos Kane.
    Será que existe um nomo em Breed's Hill?

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    1. Acho que não nas crônicas dos kanes, Amos fala para os irmaos que o outro lado é perigoso por que outras forças que tomam conta do lugar (ele falando sobre os deuses gregos), acho que é meio que cada um no seu quadrado e ngm mexe com ngm

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    2. Aham, concordo. Cada deus, cada mitologia tem seu espaço, ninguém invade o de ninguém

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    3. Só que msm assim, tio Rick vai dar um jeito de juntar todo mundo!

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    4. todas as mitologias e o mundo mortal cada um com seu espaço

      ~coruja

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  5. Percy fez um deus inimigo no primeiro livro. Magnus já fez três, se eu não me engano.
    Tipo, o cara gostou da morte kkkkkkkk

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    1. Percy fez dois no primeiro livro Ares e Hades.

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    2. Semideuses gostam de desafiar deuses ...

      ~coruja

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  6. Corta bem na linha pontilhada. Mds!!!!
    Axo q o Magnus nao ta fazendo mts aliados :-| tipo eh todos contra ele :-(

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    1. cheio de inimigos ...
      3 deuses, todas as valquírias (menos a Sam), valha inteira, todos os anões (menos o blitzen), Fenir, Surt, todos os gigantes maus... tem mais alguém ?

      ~coruja

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    2. O tio dele os policiais e o serviço social, o povo todo de muitos abrigos... deuses, anões, semideuses, valquirias, mortais... o mlk n tem noção do perigo.

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  7. Ela me lembrou a Izanami, deusa do submundo na mitologia (e em uma religião que n me lembro o nome) do Japão. Amo as referências!!!

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