18 de outubro de 2015

Cinquenta e nove - O terror que é o ensino fundamental

ANTES QUE EU pudesse despencar para a morte, alguém me segurou e me puxou para trás.
— Opa, caubói — disse Sam.
Ela estava vestindo um casaco novo, azul-marinho dessa vez, com calça jeans escura e botas. Azul não era minha cor favorita, mas a deixou com uma aparência digna e séria, como uma oficial da força aérea. O lenço estava salpicado de neve. O machado não estava preso no cinto; acho que Sam o havia guardado na mochila.
Ela não pareceu surpresa de me ver. Na verdade, a expressão era preocupada, o olhar, distante.
Meus sentidos começaram a se ajustar. Jacques ainda estava na minha mão. Por algum motivo, não senti nenhum cansaço pelo assassinato recente das irmãs gigantas.
Abaixo de nós, a área asfaltada não era exatamente um parquinho – estava mais para um trecho entre prédios da escola. Dentro da cerca, algumas dezenas de alunos se amontoavam em pequenos grupos, conversando perto de portas ou se empurrando no gelo. Pareciam do sétimo ano, mas era difícil ter certeza com todo mundo de casaco escuro.
Fiz a espada voltar à forma de pingente e a prendi na corrente. Eu achava que não devia andar pelo telhado de uma escola segurando uma arma.
— Onde estamos? — perguntei a Sam.
— No meu antigo lar. — A voz dela tinha um tom amargo. — A Malcolm X Middle School.
Tentei imaginar Sam no pátio, no meio dos grupos de garotas, o lenço como a única coisa colorida na multidão.
— Por que Thor mandou você para o fundamental? Parece crueldade.
Ela deu um sorrisinho.
— Na verdade, ele me transportou para casa. Eu apareci no meu quarto, bem na hora em que Jid e Bibi entraram para perguntar onde diabos eu estava. A conversa foi pior do que o fundamental.
Meu coração afundou no peito. Estive tão concentrado nos meus próprios problemas que esqueci que Sam estava tentando manter uma vida normal no meio de tudo aquilo.
— O que você disse para eles?
— Que estava com uma amiga. Vão supor que eu estava falando de Marianne Shaw.
— E não com três caras estranhos.
Ela cruzou os braços.
— Falei para Bibi que tentei mandar uma mensagem de texto para ela, o que é verdade. Ela vai achar que foi culpa dela. Bibi é péssima com celulares. Na verdade, Jötunheim não tem sinal. Eu... eu tento não mentir, mas odeio enganá-los. Depois de tudo que fizeram por mim, eles têm medo de eu me meter em confusão, de acabar como a minha mãe.
— Você quer dizer uma médica bem-sucedida que gostava de ajudar pessoas? Nossa, seria terrível.
Ela revirou os olhos.
— Você sabe o que quero dizer, uma rebelde, um constrangimento. Eles me trancaram no quarto, disseram que eu estava de castigo até o Juízo Final. Não tive coragem de dizer que esse dia talvez fosse hoje.
O vento aumentou e girou as velhas hélices de ventilação de metal como cata-ventos.
— Como você saiu de lá? — perguntei.
— Eu não saí. Só apareci aqui. — Sam olhou para o pátio. — Talvez eu precisasse de um lembrete de como tudo começou.
Meu cérebro parecia tão enferrujado quanto as pás da ventilação do telhado, mas um pensamento ganhou tração e começou a girar.
— Foi aqui que você se tornou uma valquíria.
Sam assentiu.
— Um gigante do gelo... entrou na escola. Talvez procurando por mim, talvez caçando algum outro semideus. Destruiu algumas salas de aula, gerou pânico. Não parecia ligar se mortais morreriam. A escola se isolou. Ninguém sabia o que estava acontecendo. As pessoas achavam que um humano maluco estava criando confusão. Chamaram a polícia, mas não havia tempo...
Ela colocou as mãos nos bolsos do casaco.
— Eu provoquei o gigante: insultei a mãe dele, esse tipo de coisa. Então o atraí aqui para o telhado e... — Ela olhou para baixo. — Ele não sabia voar. Caiu bem ali no asfalto e se estilhaçou em um milhão de pedacinhos de gelo.
Ela pareceu estranhamente constrangida.
— Você enfrentou um gigante sozinha — observei. — Salvou sua escola.
— Acho que sim. Os funcionários, a polícia... ninguém nunca entendeu o que houve. Todo mundo achou que o cara tinha fugido. Na confusão, ninguém reparou no que eu fiz... exceto Odin. Depois que o gigante morreu, o Pai de Todos apareceu na minha frente, bem onde você está. Ele me ofereceu o trabalho de valquíria. E eu aceitei.
Depois da minha conversa com Hel, eu não acreditava que pudesse me sentir ainda pior. A perda da minha mãe ainda doía tanto quanto na noite em que ela morreu. Mas a história de Sam fez com que eu me sentisse mal de uma forma diferente. Sam me levou para Valhala. Perdeu seu lugar entre as valquírias porque acreditou que eu fosse um herói, um herói como ela. E, apesar de tudo o que aconteceu depois, ela não parecia me culpar.
— Você se arrepende? — perguntei. — De ter levado minha alma quando morri?
Sam riu baixinho.
— Você não entende, Magnus. Me mandaram levar você para Valhala. E não foi Loki. Foi o próprio Odin.
O pingente se aqueceu no meu pescoço. Por um instante, senti cheiro de rosas quentes e morangos, como se eu tivesse pisado em um bolsão de verão.
— Odin — repeti. — Pensei que ele estivesse sumido... que não aparecesse desde que você virou uma valquíria.
— Ele me mandou não dizer nada. — Sam estremeceu. — Acho que fracassei nisso também. Na noite anterior à sua luta com Surt, Odin me encontrou em frente à casa dos meus avós. Estava disfarçado de mendigo, com barba suja, um casaco azul velho, um chapéu de aba larga. Mas eu sabia quem ele era. O tapa-olho, a voz... Ele mandou que eu ficasse de olho e que o levasse para Valhala, se você lutasse bem.
No pátio, o sinal tocou, anunciando o fim do recreio. Os alunos entraram, empurrando uns aos outros e rindo. Para eles, era um dia de aula normal, o tipo de dia do qual eu mal conseguia me lembrar.
— Fui escolhido por engano — falei. — As Nornas disseram que eu não devia estar em Valhala.
— Mas você estava — retrucou Sam. — Odin previu. Não sei por que a contradição, mas temos que terminar essa missão. Temos que chegar à ilha hoje à noite.
Vi a neve apagar os passos no pátio vazio. Em pouco tempo, não haveria mais rastro dos alunos, tanto quanto não havia do impacto do gigante do gelo dois anos antes.
Eu não sabia o que pensar sobre Odin ter me escolhido para Valhala. Acho que devia me sentir honrado. O Pai de Todos achava que eu era importante. Ele me escolheu, independentemente do que as Nornas disseram. Mas, se era verdade, por que Odin não se deu ao trabalho de me encontrar pessoalmente? Loki estava preso em uma pedra por toda a eternidade e ele achou um jeito de falar comigo. Mímir era uma cabeça decapitada. Ele fez a viagem. Mas o Pai de Todos, o grande feiticeiro que supostamente podia distorcer a realidade apenas pronunciando o nome de uma runa... não podia fazer uma visita rápida?
A voz de Hel ecoou na minha cabeça: Você pertence mesmo à Valhala, Magnus?
— Acabei de voltar de Bunker Hill — contei para Sam. — Hel disse que podia me reunir com minha mãe.
Consegui contar a história inteira para ela.
Samirah esticou a mão como se fosse tocar meu braço, mas aparentemente mudou de ideia.
— Lamento, Magnus. Mas Hel é mentirosa. Você não pode confiar nela. Ela é como meu pai, só que mais fria. Você fez a escolha certa.
— É... mas mesmo assim. Alguma vez você já fez a coisa certa, sabia que era a coisa certa, mas ficou se sentindo péssima?
— Você acabou de descrever a maioria dos dias da minha vida. — Sam colocou o capuz. — Quando me tornei uma valquíria... Ainda não sei bem por que lutei com aquele gigante do gelo. O pessoal da Malcolm X era mau comigo. O lixo de sempre: me perguntavam se eu era terrorista. Puxavam meu hijab. Enfiavam bilhetes e fotos nojentas no meu armário. Quando aquele gigante atacou... eu podia ter fingido ser só mais uma mortal e fugido para um lugar seguro. Mas nem pensei nisso. Por que arrisquei minha vida por aquela gente?
Eu sorri.
— O quê? — perguntou ela.
— Uma vez me disseram que a bravura de um herói não é algo planejado, mas sim uma verdadeira reação heroica a uma crise. Tem que vir do coração, sem qualquer pensamento na recompensa.
Sam bufou.
— Essa pessoa deve ser bem arrogante.
— Talvez você não precisasse vir aqui — concluí. — Talvez eu precisasse. Para entender por que somos uma boa equipe.
— Ah, é? — Ela arqueou uma sobrancelha. — Agora somos uma boa equipe?
— Estamos prestes a descobrir. — Olhei para o norte, na direção da tempestade de neve. Em algum ponto naquela direção ficavam Boston e o Long Wharf. — Vamos procurar Blitzen e Hearthstone. Temos um gigante do fogo para apagar.

12 comentários:

  1. Respostas
    1. Não, no capítulo 25 acho ele disse q odeia azul.

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    2. Percy de novo fica c raiva do Magnus

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    3. Percy não pode fazer nada quanto a isso
      #MagnusacabacomPercy

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    4. Na vdd é #JacquesAcabaComPercy
      Pq o Magnus ainda n sabe lidar com uma espada que n faça as coisas pra ele, ele ainda n conquistou meu respeito nesse quesito. O Magnus vai ter que acertar o Percy com as mãos nuas.

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  2. Tem q diferenciar ne, esse trecho me lembrou de Leo e Hazel

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    1. também me lembrou !!!

      ~coruja

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  3. "— Um gigante do gelo... entrou na escola. Talvez procurando por mim, talvez caçando algum outro semideus. Destruiu algumas salas de aula, gerou pânico. Não parecia ligar se mortais morreriam. A escola se isolou. Ninguém sabia o que estava acontecendo. As pessoas achavam que um humano maluco estava criando confusão. Chamaram a polícia, mas não havia tempo..."
    Não era o Percy?

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    1. provavelmente não, em nenhuma história dele teve um gigante de gelo invadindo a escola pelo que eu me lembro

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  4. Serio... o esforço pra não shippar ta enorme

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  5. sem comentários esse capitulo ....
    mentira tem 6 comentários

    ~coruja

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