18 de outubro de 2015

Cinquenta e cinco - Sou levado para a batalha pela Primeira Divisão Aérea Anã

O PAPAI GIGANTE escolheu a pior hora para voltar para casa.
Eu estava sentado na sala de jantar dele com a perna quebrada e os corpos das filhas dele caídos ao meu redor... uma situação particularmente ruim. Sam e eu ficamos nos olhando enquanto os passos do gigante ecoavam cada vez mais alto na sala ao lado.
A expressão de Sam dizia: Estou sem ideias.
Eu também não tinha nenhuma.
E, em momentos como esse, ver um anão, um elfo e um cisne caindo de paraquedas na sua cadeira é o ponto alto do seu dia. Blitzen e Hearth estavam presos lado a lado pelas cordas, com Gunilla, a ave, aninhada nos braços do elfo. Blitzen puxou os batoques e realizou um pouso perfeito. Atrás dele, o paraquedas se amontoou, um montinho de seda azul que combinava perfeitamente com seu terno.
Esse foi o único fato na chegada dele que não me surpreendeu.
— Como...? — perguntei.
Blitzen bufou.
— Por que você parece tão surpreso? Você distraiu as gigantas por tempo suficiente. Eu seria mesmo um péssimo anão se não fosse capaz de lançar um gancho da janela até a gaiola, atravessar até lá, libertar o cisne e usar meu paraquedas de emergência para chegar aqui embaixo.
Sam apertou a ponte do nariz.
— Você tinha um paraquedas de emergência esse tempo todo?
— Não seja boba — disse Blitzen. — Anões sempre carregam paraquedas de emergência. Você não?
— Vamos falar sobre isso depois — interrompi. — Agora...
— Meninas? — chamou o gigante no aposento ao lado. A voz dele parecia meio arrastada. — Cadê vocês?
Estalei os dedos.
— Vamos lá, pessoal, opções. Sam, você e Gunilla podem nos camuflar?
— Meu hijab só consegue cobrir duas pessoas — explicou Sam. — E Gunilla... o fato de ela ainda estar na forma de cisne deve indicar que está fraca demais para voltar ao normal.
O cisne grasniu.
— Vou interpretar isso como um sim — concluiu Sam. — Pode demorar algumas horas.
— O que nós não temos. — Olhei para Hearth. — As runas?
Não tenho forças, sinalizou ele, embora não precisasse dizer nada. Ele estava de pé e consciente, mas ainda parecia ter sido atropelado por um cavalo de oito pernas.
— Jacques! — chamei a espada. — Jacques, cadê você?
Na mesa acima de nós, a espada gritou:
— Cara, o que foi? Estou me lavando nessa caneca. Um pouco de privacidade seria bom!
— Magnus — disse Sam — você não pode pedir a ele para matar três gigantes seguidos. Esse esforço todo vai mesmo destruir você.
Na sala ao lado, os passos ficaram mais altos. O gigante pareceu tropeçar em alguma coisa.
— Gjalp! Griep! Eu juro... HIC!... Se vocês estiverem mandando mensagem de texto para aqueles gigantes do gelo outra vez, vou torcer o pescoço das duas!
— Para o chão — decidi. — Me levem para o chão!
Blitzen me pegou no colo, o que quase me fez desmaiar de dor, e gritou:
— Se segure!
E pulou da cadeira, conseguindo, de alguma forma, uma descida de paraquedas segura. Quando recuperei os sentidos, Sam, Hearth e nosso novo cisne de estimação estavam ao nosso lado, depois de aparentemente usarem a perna da cadeira para escorregar até o chão.
Eu tremia de náusea. Meu rosto estava coberto de suor e minha perna quebrada ardia como uma bolha enorme estourada, mas não tivemos tempo para detalhes menores, tipo minha dor insuportável.
Do outro lado da porta que levava à sala, as sombras dos pés do gigante foram ficando cada vez maiores, embora parecessem estar oscilando.
— Blitzen, me carregue por baixo daquela porta! — pedi. — Temos que interceptar Geirröd.
— Como é que é? — perguntou o anão.
— Você é forte! Já está me segurando. Ande!
Resmungando, ele correu na direção da porta, e cada sacolejo enviava uma pontada de dor até a base do meu crânio. O paraquedas se arrastava atrás de nós. Sam e Hearth nos seguiram, com o cisne grasnando, infeliz, nos braços do elfo.
A maçaneta começou a girar. Passamos por baixo da porta e saímos do outro lado, bem entre os pés do gigante.
Eu gritei:
— OI, E AÍ?
Geirröd cambaleou para trás. Acho que não esperava encontrar um anão paraquedista carregando um humano, seguido de uma humana e um elfo com um cisne no colo.
Eu também não estava preparado para o que vi.
Primeiro, o aposento em que entramos era pelo menos da metade do tamanho da sala onde estávamos. Pela maioria dos padrões, o salão seria considerado grande. O piso preto de mármore brilhava. Fileiras de colunas de pedra se intercalavam com braseiros de ferro com brasas, como dezenas de churrasqueiras. Mas o pé-direito só tinha uns oito metros. Até a porta pela qual acabamos de passar era menor deste lado, embora isso não fizesse sentido.
Passar pelo vão da porta seria impossível agora. Na verdade, eu não via como Gjalp ou Griep conseguiriam, a não ser que mudassem de tamanho conforme entravam de sala em sala.
Talvez fosse isso que acontecesse. Gigantes eram metamorfos. Versados em magia e ilusão. Se eu ficasse muito mais tempo ali, teria que levar um suprimento grande de remédio para enjoo e óculos 3D.
Na nossa frente, Geirröd ainda estava cambaleando, balançando hidromel no chifre que servia de copo.
— Quemsãocês? — perguntou ele com a voz arrastada.
— Convidados! — gritei. — Reivindicamos direitos de convidados!
Eu duvidava que isso ainda se aplicasse, pois matamos nossas anfitriãs, mas, como minha espada preocupada com etiqueta ainda estava na sala ao lado, se lavando para tirar gosma de nariz da lâmina, ninguém me desafiou.
Geirröd franziu a testa. Ele parecia ter voltado de uma festança animada versão Jötunheim, o que era estranho, pois ainda estava cedo. Aparentemente, a balada dos gigantes durava vinte e quatro horas por dia e sete dias por semana.
Ele usava uma jaqueta rosa-escura amassada, uma camisa preta para fora da calça listrada e sapatos sociais de couro legítimo cuja confecção deve ter custado a vida de vários animais. O cabelo preto estava penteado para trás com gel, mas em alguns pontos os fios se soltavam em mechas selvagens. O rosto tinha barba por fazer de três dias. Ele fedia a mel fermentado. A impressão geral era menos “frequentador de boate na moda” e mais “bêbado bem-vestido”.
A coisa mais estranha nele era o tamanho. Não que fosse baixinho. Seis metros ainda é muita coisa se você está procurando alguém para jogar na NBA ou trocar aquelas lâmpadas difíceis de alcançar. Mas o cara era minúsculo em comparação às filhas, que estavam mortas agora, claro.
Geirröd arrotou. A julgar pela testa franzida, ele estava fazendo um esforço enorme para ter pensamentos racionais.
— Se vocês são convidados... por que estão com meu cisne? E onde estão minhas filhas?
Sam forçou uma gargalhada.
— Ah, aquelas garotas malucas? Nós negociamos seu cisne com elas.
— É — falei. — Agora, elas estão no chão da outra sala. Não estão muito bem.
Fiz o gesto de beber direto da garrafa, o que deve ter confundido Hearthstone, pois parecia eu te amo em linguagem de sinais.
Geirröd pareceu entender o que eu quis dizer. Os ombros dele relaxaram, como se a ideia das filhas desmaiadas de tão bêbadas no chão da sala não fosse nada com que se preocupar.
— Ah — disse ele — desde que elas não estejam... HIC!... com aqueles gigantes do gelo de novo.
— Não, só estavam conosco — garanti.
Blitzen grunhiu enquanto me mudava de posição nos braços.
— Você é pesado.
Hearthstone, tentando participar da conversa, fez o sinal de eu te amo para o gigante.
— Ah, grande Geirröd! — disse Sam. — Viemos aqui para negociar pela arma de Thor. Suas filhas nos contaram que está com você.
Geirröd olhou para a direita. Na parede mais distante, quase escondida atrás de uma coluna, havia uma porta de ferro de tamanho humano.
— E a arma está atrás daquela porta — adivinhei.
O gigante arregalou os olhos.
— Que bruxaria é essa? Como você sabe?
— Queremos fazer um acordo pela arma — repeti.
Nos braços de Hearthstone, Gunilla grasniu, irritada.
— E também pela liberdade do cisne — acrescentou Sam.
— Rá! — Geirröd derramou mais hidromel. — Eu não... HIC!... preciso de nada que vocês tenham a oferecer. Mas talvez vocês pudessem... ARROTO... ganhar a arma e o ganso dourado.
— O cisne — corrigi.
— Tanto faz — respondeu o gigante.
Blitzen choramingou:
— Pesado. Está muito pesado.
A dor na minha perna dificultava o raciocínio. Cada vez que Blitzen se movia, eu tinha vontade de gritar, mas tentei manter a cabeça lúcida.
— O que você tem em mente? — perguntei ao gigante.
— Me entretenham! Joguem comigo!
— Tipo o quê... Banco imobiliário?
— O quê? Não! Tipo queimado! — Ele fez um gesto desdenhoso na direção da sala de estar. — Eu só tenho filhas. Elas nunca querem jogar queimado comigo. Joguem comigo!
Olhei para Sam.
— Acho que ele quer jogar queimado.
— Péssima ideia — murmurou ela.
— Sobrevivam dez minutos! — disse Geirröd. — É tudo que peço! Vou ficar... HIC!... feliz.
— Sobreviver? — perguntei. — Em um jogo de queimado?
— Ótimo, então você concorda! — Ele cambaleou até o braseiro mais próximo e pegou um carvão fumegante do tamanho de uma poltrona. — Eu começo!

28 comentários:

  1. Respostas
    1. Eu adorava, mas agora tô com medo.

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    2. eu chamo de queimada

      ~coruja

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    3. Sempre fui o melhor da minha sala! :)

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  2. O último jogo de queimado de um semideus, que eu me lembre, foi contra canadenses. Quase não termina bem.

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  3. lembrou o mar de monstros agora...

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  4. Não dá para se esquecer de PJO, eu diria q Magnus depende muito de Jacques

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  5. Esse povo leva a serio a palavra QUEIMADO msm kkkkkk
    pena q o Tyson nao ta ai kkkkkkk

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  6. Não confie em gigantes pra jogar queimado...nem em canadenses

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  7. Ainda bem que o jogo de queimado da minha escola é com uma bola e não com carvão em brasa, porque sempre me queimam primeiro.

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    1. Né! Também sou péssima em queimada - e olha que nem miravam muito em mim, de tão ruim que sou... sabia que podiam me deixar pra depois, na primeira vez que atirassem eu seria acertada mesmo ehauehauhe

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    2. eu também sou ruim em queimada e pior que miram em mim

      ~coruja

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    3. o nível de desvio meu era tão alto q de vez em quando eu me cansava e me deixava ser acertada

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  8. chamem o Leo e o Tyson para ajudarem eles!!!!!!!!!!!!

    ~coruja

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  9. Eu realmente espero q o Magnus melhore sua magia nos próximos livros pq ele n sabe lutar, a espada faz tudo por ele

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    1. Essa história aí n cola n, tá bem melhor que longas batalhas todo capítulo! Magnas vem sendo a melhor saga até o momento seguido de As crônicas dos kane e depois percy onde as batalhas são desenfreadas!

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    2. eu não entendo pq tanta preocupação por ele não saber lutar, a estratégia e persuasão dele foram be, úteis até agr: convencendo deuses, dando moral pro povo (principalmente o Blitz), sem falar q a cura dele salvou eles um bocado de vezes tb

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  10. — Cara, o que foi? Estou me lavando nessa caneca. Um pouco de privacidade seria bom!

    Eu: Ah desculpe Sr. Espada! Foi mal aí. Continue então lavando suas...Ãhn..partes ñ tão íntimas. Prometo que isso não vai se repetir.



    Oh May God!! Já não gostava muito de queimada antes, por quê sou a lerda e a bola só acerta minha cabeça. Aí tem a história do Percy, mas ele tinha o Tyson! E agora um gigante levando QUEIMADO a sério de mais col o Magnus de perna quebrada! (pq será que os Chase quebram tanto as partes da perna?) Algo me diz que não vai terminar assim tão bem

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  11. Imagino o magnus olhando perna e falando "Vc tinha q quebrar"
    QUEIMADO! QUE ADORO QUEIMADO! Mentira eu odeio mas agora estou passando a gostar!

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  12. po so eu fiquei com do do gigante ele fico parecendo aqueles pais preocupados e carentes...

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  13. Será que tem algum vilão que seja um tirano de verdade nos livros do tio Rick?kkk

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  14. "Fiz o gesto de beber direto da garrafa, o que deve ter confundido Hearthstone, pois parecia eu te amo em linguagem de sinais."
    "Hearthstone, tentando participar da conversa, fez o sinal de eu te amo para o gigante."

    Hearth definitivamente ficou muito drogado nesses últimos capítulos KKKKKKJJJKKKKK

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  15. Achei maravilhoso o tio Rick mencionar um elfo surdo... acreditem, o sinal para "eu amo você", é universal...

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