18 de outubro de 2015

Cinco - Eu sempre quis destruir uma ponte

— VOCÊ NÃO PODE soltar uma bomba dessas e ir embora! — gritei quando Randolph saiu andando.
Apesar da bengala e do joelho ruim, o cara andava bem rápido. Ele parecia um medalhista de ouro olímpico em mancar. Avançando depressa, subiu na calçada da ponte Longfellow enquanto eu corria atrás dele, o vento gritando nos meus ouvidos.
Como era manhã, os trabalhadores estavam chegando de Cambridge. Uma fila única de carros ocupava a ponte inteira, quase parada. Era de se imaginar que meu tio e eu fôssemos os únicos burros o bastante para atravessar uma ponte a pé em temperaturas abaixo de zero, mas, como estávamos em Boston, havia uns corredores se exercitando, parecendo focas magrelas nos macacões de lycra. Uma mulher com dois filhos agasalhados dentro de um carrinho andava na calçada oposta. Os filhos dela pareciam quase tão felizes quanto eu.
Meu tio ainda estava uns cinco metros à frente.
— Randolph! — gritei. — Estou falando com você!
— O curso do rio — murmurou ele. — O aterro das margens... permitindo mil anos de padrões de marés instáveis...
— Ei! — Segurei a manga do casaco de caxemira dele. — Volte para a parte sobre meu pai ser um deus nórdico.
Randolph olhou ao redor. Tínhamos parado em uma das principais torres da ponte, um cone de granito projetando-se quinze metros acima de nós. Diziam que as torres pareciam saleiros gigantescos, mas sempre achei que lembravam Daleks do Doctor Who. (Sou nerd, sim, e daí? Me processe. Pois é, até garotos de rua veem TV às vezes, em salas de recreação de abrigos, em computadores de bibliotecas públicas... Damos nosso jeito.) Trinta metros abaixo, o rio Charles brilhava em um tom cinza-chumbo, a superfície sarapintada de neve e gelo, como a pele de um píton enorme.
Randolph se inclinou tanto sobre a amurada que fiquei nervoso.
— Que ironia — murmurou. — Logo aqui, dentre todos os lugares...
— Mas então, sobre meu pai...
Randolph segurou meu ombro.
— Olhe lá embaixo, Magnus. O que você vê?
Olhei com cuidado pela amurada.
— Água.
— Não, a ornamentação entalhada logo embaixo de nós.
Olhei de novo. Mas ou menos na metade da lateral do píer, um bloco de granito se projetava da ponte como um camarote de teatro com uma extremidade pontuda.
— Parece um nariz.
— Não, é... Bem, deste ângulo parece mesmo. Mas é a proa de um barco viking. Está vendo? O outro lado também tem. O nome da ponte é uma homenagem ao poeta Longfellow, que era fascinado pelos nórdicos e até escreveu poemas sobre os deuses deles. Assim como Eben Horsford, ele acreditava que os vikings haviam explorado Boston. O que explica essa ornamentação.
— Você devia ser guia de turismo — falei. — Todos os fãs fervorosos de Longfellow pagariam uma nota.
— Você não vê? — Randolph ainda estava com a mão no meu ombro, o que só me deixava mais ansioso. — Tantas pessoas ao longo dos séculos sabiam. Elas sentiram instintivamente, apesar de não terem prova. Essa área não só foi visitada pelos vikings. Ela era sagrada para eles! Bem abaixo de nós, em algum lugar perto desses barcos decorativos, estão as ruínas de um barco viking de verdade, com uma carga de valor incalculável.
— Continuo só vendo água. E continuo querendo saber sobre meu pai.
— Magnus, os exploradores nórdicos vieram aqui procurando os eixos dos mundos, o tronco da árvore. E encontraram...
Uma explosão ecoou do outro lado do rio. A ponte tremeu. A uns dois quilômetros de distância, em meio às chaminés e torres de Back Bay, ergueu-se uma coluna de fumaça preta oleosa.
Eu me segurei à amurada.
— Hum, aquilo ali não foi perto da sua casa?
A expressão de Randolph se fechou. A barba por fazer brilhou, prateada, ao sol.
— Nosso tempo está acabando. Magnus, estique a mão sobre a água. A espada está lá embaixo. Chame-a. Concentre-se nela como se fosse a coisa mais importante do mundo, a coisa que você mais quer.
— Uma espada? Eu... olha, Randolph, sei que você está tendo um dia difícil, mas...
— ESTENDA A MÃO!
Eu me encolhi diante da severidade em sua voz. Randolph só podia estar louco, falando de deuses e espadas e naufrágios antigos. Mas a coluna de fumaça em Back Bay era bem real. Sirenes soaram ao longe. Na ponte, motoristas colocaram a cabeça para fora da janela para olhar, tirando fotos com os celulares.
E, por mais que eu quisesse negar, as palavras de Randolph mexeram comigo. Pela primeira vez, senti como se meu corpo estivesse zumbindo na frequência certa, como se eu finalmente estivesse em sintonia com a trilha sonora ruim da minha vida.
Estiquei a mão sobre o rio.
Nada aconteceu.
É claro que nada aconteceu, repreendi a mim mesmo. O que você estava esperando?
A ponte tremeu com mais violência. Na calçada, um corredor tropeçou. Por trás de mim veio o estrondo de um carro batendo na traseira de outro. Buzinas soaram.
Acima dos telhados de Back Bay, vi uma segunda coluna de fumaça. Cinzas e fagulhas cor de laranja foram cuspidas do chão, como uma explosão vulcânica.
— Aquilo... aquilo foi bem mais perto — comentei. — Parece que alguma coisa está seguindo a gente.
Eu esperava mesmo que Randolph fosse dizer: Não, claro que não. Não seja bobo!
Ele pareceu envelhecer diante dos meus olhos. As rugas ficaram mais aparentes. Os ombros murcharam. Ele se apoiou pesadamente na bengala.
— Por favor, de novo, não — murmurou, baixinho. — Não como da última vez.
— Última vez?
Nesse momento, lembrei o que ele tinha dito sobre perder a esposa e as filhas: uma tempestade que veio do nada, fogo.
Randolph olhou nos meus olhos.
— Tente de novo, Magnus. Por favor.
Estiquei a mão na direção do rio. Imaginei que estava chamando minha mãe, tentando puxá-la do passado... tentando salvá-la dos lobos e do apartamento em chamas. Supliquei por respostas que explicassem por que a perdi, por que minha vida inteira desde então não passou de uma espiral de coisas ruins.
Logo abaixo de mim, a superfície da água começou a fumegar. O gelo derreteu e a neve evaporou, deixando um buraco na forma de mão, da minha mão, mas vinte vezes maior.
Eu não sabia o que estava fazendo. Tivera a mesma sensação quando minha mãe me ensinou a andar de bicicleta. Não pense no que está fazendo, Magnus. Não hesite, senão vai cair. Apenas siga em frente.
Movi a mão de um lado para o outro. Trinta metros abaixo, a mão fumegante espelhou meus movimentos, limpando a superfície do rio Charles. De repente, parei. Uma pontada de calor surgiu no centro da palma da minha mão, como se eu tivesse interceptado um raio de sol.
Havia alguma coisa lá embaixo... uma fonte de calor enterrada na lama gelada do fundo do rio.
Fechei os dedos e puxei.
Um domo de água cresceu e estourou como uma nuvem de gelo-seco. Um objeto parecido com um cano foi arremessado para cima e veio parar na minha mão.
Não se parecia nem um pouco com uma espada. Segurei-a pela ponta, mas não havia cabo. Se aquilo teve uma extremidade pontuda ou afiada, já se passou muito tempo. A coisa era do tamanho de uma espada, mas estava tão esburacada e corroída, coberta de craca e brilhando com lama e limo, que não dava para ter certeza nem de que era de metal. Resumindo, era o lixo mais infeliz, sem graça e nojento que já tirei magicamente de um rio.
— Finalmente!
Randolph olhou para os céus. Tive a sensação de que, se não fosse o joelho ruim, ele se ajoelharia no chão e faria uma oração para os deuses nórdicos inexistentes.
— É. — Ergui meu novo prêmio. — Já me sinto mais seguro.
— Você pode renová-la! — disse Randolph. — Experimente!
Eu virei a espada. Estava surpreso por ela ainda não ter se desintegrado na minha mão.
— Não sei, Randolph. Acho que essa coisa já passou faz tempo do ponto de renovação. Não sei nem se dá para ser reciclada.
Se pareço pouco impressionado ou ingrato, não me entendam mal. O jeito como tirei a espada do rio foi tão legal que pirei um pouco. Sempre quis um superpoder. Só não esperava que o meu envolveria tirar lixo do fundo do rio. Os voluntários do serviço comunitário adorariam.
— Concentre-se, Magnus! — ordenou Randolph. — Rápido, antes que...
A quinze metros, o centro da ponte explodiu em chamas. A onda de choque me empurrou contra a amurada. O lado direito do meu rosto parecia queimado de sol. Pedestres gritaram. Carros desviaram e bateram uns nos outros.
Por algum motivo idiota, corri na direção da explosão. Foi como se eu não conseguisse me controlar. Randolph foi atrás de mim, gritando meu nome, mas a voz dele parecia distante, sem importância.
Fogo dançava no teto dos carros. Janelas explodiram com o calor, e choveu vidro no asfalto. Motoristas saíram às pressas dos veículos e fugiram.
Parecia que um meteoro havia atingido a ponte. Um círculo de asfalto de três metros de diâmetro estava chamuscado e fumegava. No centro da zona de impacto, havia uma figura de tamanho humano: um homem negro em um terno escuro.
Quando digo negro, quero dizer que a pele era do tom mais puro e lindo de preto que já vi. Tinta de lula à meia-noite não teria sido tão preta. As roupas dele também: paletó e calça feitos sob medida, uma camisa de botão e gravata, tudo feito do tecido de uma estrela de nêutrons. O rosto era sobrenaturalmente bonito, como se talhado em obsidiana. O cabelo comprido estava penteado para trás e imaculadamente arrumado com gel. As pupilas brilhavam como pequenos anéis de lava.
Pensei: Se Satanás fosse real, seria como esse sujeito.
Depois pensei melhor: Não, Satanás seria considerado desleixado perto dele. Esse cara é tipo o consultor de moda do Satanás.
Ele fixou os olhos vermelhos em mim.
— Magnus Chase. — A voz era grave e ressonante, com sotaque vagamente alemão ou escandinavo. — Você me trouxe um presente.
Havia um Toyota Corolla abandonado entre nós. O consultor de moda do Satanás atravessou o carro para abrir caminho, derretendo o chassi como se fosse de cera.
As metades fumegantes do Corolla desabaram atrás dele. Os pneus derretidos viraram poças no chão.
— Também vou lhe dar um presente. — O homem negro estendeu a mão. Fumaça saía da manga e dos dedos de ébano. — Se me der a espada agora, pouparei sua vida.

37 comentários:

  1. Deve ser a quarta referência seguida a DW que o Rick faz

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  2. Nerds♥♥
    Já me apaixonei pelo Magnus

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  3. olha, parece bom pra mim, eu daria a espada '-'

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    1. Seria muito mais fácil se os heróis pensassem assim né, aliás seria mais fácil se eles ao menos pensassem. Pelo menos o tio Rick evita eles serem tão burros. ..

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    2. Sou nerd sim, e daí? Me processe.
      Isso foi totalmente Leo.

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  4. "Pensei: Se Satanás fosse real, seria como esse sujeito.
    Depois pensei melhor: Não, Satanás seria considerado desleixado perto dele. Esse cara é tipo o consultor de moda do Satanás." já to adorando o Magnus

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    1. Acho que é uma mistura do Leo com o Percy! Muito bom, adorei!

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    2. Eu n sabia q o Tio Rick podia ser melhor do q ele já é, mas se ele for Whovian (fã de Doctor Who), eu vou descobrir q estava enganada
      As:Karoline Salvatory

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    3. O consultor de moda do Satanás 😂😂

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  5. A família Chase em peso não consegue ficar longe do perigo,esse encontro não vai acabar bem eu acho!

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  6. Embora ñ seja o alto feiticeiro dobrookkyn eu ainda assim estou gostabdi dele...hehehe

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    1. Pq o alto feiticeiro do Brooklyn já é outro nível. Agora que tem dois Magnus, vou usar os sobrenomes para não confundir Bane <3

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  7. Amei o Magus
    #time nerd
    DW né tio Rick, sempre ele!!! kkkkkkk

    ~coruja

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  8. Brooklyn! De lá só sai coisas interessantes...quantos Magnus será que tem por lá?

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  9. Rick Riordan um dos poucos escritores que não importa o personagem ou o livro, sempre me faz rir e amar cada vez mais;

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  10. ACHO QUE MAGNUS É GAY AI TOMARA

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    1. kkkkk assim vai ficar ainda mais parecido com M. Bane, não acha?

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    2. Ia sim, só q nunca brilharia mais q o Bane kkk

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  11. Anabeth nao sab sobre esse lance nordico.. por isso nunca contou nd aos semi-deuses... o consultor de moda do lucifer esta ai.. eu daria uma de nico e sumiria nas sombras largando o tio louco para tras..kkkk

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  12. aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa
    mania de amar tds os personagens :x o vilão parece ser lgl :x

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  13. Sou nerd e dai? Me procese ... kkkkkk ja estou amando esse Magnus

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  14. kkkkkkkkkkkkkkkkkkk

    amando o Magnus
    Sou nerd ? sim me processe kkk
    Satanás pareceria deslexado perto dele ,ele poderia ser consultor de moda do satanás kkk

    ~coruja

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  15. doctor who <3 <3 kkkkkk ( sou nerd tambem me processe ) morri kkkkk

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  16. eu to achando q ele é filho de poseidon nordico

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  17. Só eu que pensei que ia aparecer um martelo na mão dele? kkkk decepção

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  18. Sò acho q o tio Rick e fã de Doctor Who kkk so acho
    Magnus e leo seriam perfeitos juntos

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  19. Citou doctor who já amei ♥ fiquei imaginando as torres em forma de Daleks gigantes.

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  20. DOCTOR WHO ADORO

    pra compensar o leo temos o magnus!

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  21. Não, Satanás seria considerado desleixado perto dele. Esse cara é tipo o consultor de moda do Satanás.(esse cara eh viaje kkkkkkkkkkkkk)

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