14 de outubro de 2015

Capítulo vinte e um

ACORDO EM UMA BIBLIOTECA, COM O ROSTO EM UM CARPETE MACIO, CERCADO DE todos os lados por cadeiras confortáveis.
“Acordar” provavelmente não é o termo certo, na verdade. Tudo tem uma imprecisão nas bordas, inclusive meu próprio corpo. Posso dizer que ainda estou no estado de sonho que Ella criou, com exceção de que não estou mais no modo telespectador. Eu posso me mover e interagir com a sala, mesmo sabendo que não sei que diabos eu deveria fazer agora.
Eu me levanto e olho em volta. A iluminação aqui é branda e as paredes estão cobertas com estantes e livros de couro, todos os títulos nas lombadas escritos em lórico. Normalmente esse seria o tipo de lugar que eu não me importaria de explorar, exceto que de volta ao mundo real há um mogassauro vindo na minha direção e na dos meus amigos.
Ella me assegurou de que ficaríamos bem. Porém isso não significa que estou contente em me sentar em uma biblioteca astral esperando para ver o que acontece em seguida.
— Cara, alguém dá um lencinho umedecido para aquele frutinha do Pittacus Lore.
Eu me viro e encontro Nove parado no meio da sala onde não havia nada além de um espaço vazio minutos atrás. Ele assente para mim.
— Do que você está falando?
— Você viu aquilo também, né? A história da vida de Setrákus Ra?
Eu assinto.
— Aham, eu vi também.
Nove me olha como se eu fosse um idiota.
— O cara deveria ter matado Setrákus Ra quando teve a chance ao invés de ficar todo sentimental na situação. Qual é.
— Não sei — eu respondo, em voz baia. — Não é fácil ter a vida de alguém em suas mãos. Ele não tinha como saber o que aconteceria.
Nove bufa.
— Que seja. Eu estava gritando para ele matar aquele pateta, mas ele não ouvia. Obrigado por nada, Pittacus.
Para falar a verdade, não estou preparado para processar a visão, especialmente com os comentários de Nove. Eu queria poder reproduzir novamente para ter tempo de examinar minuciosamente meu planeta natal da forma que era séculos atrás. Mais do que nunca, eu queria poder ver mais daquele Legado Ximic. Nós ouvimos sobre histórias do quão poderoso Pittacus Lore era, sobre como ele tinha todos os Legados. Acho que foi assim que ele conseguiu. Vendo-o usar o Ximic, me fez pensar sobre quando desenvolvi meu Legado de cura. Aconteceu durante uma situação desesperadora: apenas quando eu tentava salvar a vida de Sarah o Legado se manifestou. E se não fosse um Legado de cura que se manifestou, afinal de contas? E se fosse meu Ximic se manifestando quando eu realmente precisei e apenas não fui capaz de descobrir como usá-lo para nada mais além de cura desde então?
Balanço minha cabeça. É bobeira esperar algo assim. Eu não posso querer melhorar meus Legados da mesma forma que Nove não pode desejar mudar o passado. Temos que vencer esta guerra com o que nos foi dado.
— O que foi feito está feito — digo para Nove, franzindo a testa. — O que importa é que paramos Setrákus Ra. Essa era a nossa missão.
— Aham. Eu também gostaria de evitar ser engolido por aquele monstrengo gigante lá em Nova York — Nove observa, olhando em volta.
Ele não parece estar enlouquecendo por causa do estado de sonho. Ele segue o fluxo.
— Ugh, livros. Você acha que algum desses livros fala sobre como matar aquele Godzilla?
Olho em volta também, mas não para os livros. Estou procurando por uma saída. Esta sala não parece ter qualquer tipo de porta. Estamos presos aqui. Ella, a Entidade Lórica, quem quer esteja no comando disso – eles não terminaram conosco ainda.
— Acho que estamos em algum tipo de sala de espera psíquica — falo para Nove. — Não tenho certeza de para quê.
— Legal — Nove responde, se jogando em uma das cadeiras. — Talvez eles vão nos mostrar outro filme.
— O que você acha que aconteceu com Sam e Daniela? Eu os vi desmaiando ao mesmo tempo que nós.
— Não faço a menor ideia — Nove diz.
— Você deveria pensar que nós acabaríamos no mesmo lugar.
— Por quê? — Nove pergunta. — Você acha que há lógica em qualquer operação alucinatória compartilhada telepaticamente?
— Não — admito. — Acho que não.
— Então, você acha que Ella está fazendo tudo isso, certo? Estou captando uma total vibe Ella.
— Sim — confirmo, assentindo em consentimento.
Nove está certo. Eu não tenho certeza de como estamos na projeção psíquica de Ella, eu apenas sei. É intuição.
Nove assobia.
— Droga, cara. A garota teve um melhoramento monstro. Eu meio que sinto que estamos ficando frouxos. Quero poder copiar alguns Legados como seu irmão Pittacus. Ou pelo menos arrumar aquela corda com a ponta afiada.
Suspiro e balanço a cabeça, um pouco envergonhado por ouvir Nove dizer em voz alta o que eu estava pensando. Eu mudo de assunto.
— Precisamos encontrar uma maneira de sair daqui.
Nove me olha com uma expressão engraçada, então eu me viro e sigo em direção a uma das estantes de livros. Começo a puxar os livros das prateleiras, pensando que talvez eu abra algum tipo de passagem secreta. Nada acontece e Nove ri de mim.
— Não deveríamos estar sentados por aí — eu digo, olhando para ele.
— Cara, o que mais podemos fazer? Você sabe o tanto que tentei matar o jovem Setrákus Ra enquanto estávamos assistindo aquela projeção? Muitas vezes — Nove soca uma de suas mãos na palma da outra, e então se arrepia. — Mas, sabe, eu não tinha nem braços e nem pernas. Não podemos fazer nada agora. Então vamos apenas relaxar. Estive lutando por dias e mesmo nessa cadeira, tipo, que é um fragmento da minha imaginação, eu me sinto confortável para caramba.
Desisto de puxar os livros da parede e volto para o centro da sala. Ignorando Nove, inclino minha cabeça e grito para o teto.
— Ella? Você pode me ouvir?
— Você parece estupidamente idiota agora — Nove comenta.
— Eu não sei porque você ainda está sentado aí — eu digo, encarando-o. — Agora não é hora para relaxar.
— Agora é a hora perfeita para relaxar — Nove responde, olhando para um relógio de pulso imaginário. — Vamos voltar para quase sermos mortos assim que Ella nos mostrar a droga da profecia maluca que ela teve.
— Eu concordo com Nove.
Eu me viro para a voz e encontro Cinco parado de pé a alguns metros de distância, recentemente manifestado em nossa pequena sala. Ele morde seus lábios e se dá de ombros para mim, como se ele não estivesse feliz em nos ver também. Mesmo nesse mundo dos sonhos, Cinco ainda está caolho. Pelo menos o local está coberto com um tapa-olho normal ao invés daquela gaze suja que ele ostenta no mundo real.
— Que diabos você está fazendo aq...?
Há um grito de guerra gutural atrás de mim e então Nove passa por mim num borrão. Ele ergue os ombros e segue com as mãos esticadas na direção do pescoço de Cinco. Por alguma razão, Cinco não esperava ser atacado à primeira vista e mal tem tempo de se proteger antes que Nove o alcance.
Exceto que, desta vez, Nove não o acerta. Ele passa através de Cinco e acaba com sua cara no meio de uma pilha de livros que retirei das prateleiras.
— Filho da mãe! — Nove grunhe.
— Huh — Cinco diz, olhando para seu peito, que com certeza parece sólido o suficiente para ser atingido.
— Não pode haver violência por aqui.
Todos voltamos nossos olhares para perto da parede dos fundos, onde um vão de porta acabou de se manifestar. No meio dele há um homem de meia idade com um corpo modulado, seu cabelo castanho ficando branco nas pontas. Ele parece exatamente da mesma forma que eu me lembro.
— Henri?! — exclamo.
Ao mesmo tempo, Nove grita:
— Sandor?! Que diabos?
Cinco não diz nada. Ele simplesmente olha para o homem no vão da porta, seus lábios curvados em um sorriso sarcástico.
Nove e eu trocamos um olhar rápido. Leva apenas alguns segundos para perceber que estamos vendo pessoas diferentes. Se realmente é Ella quem está controlando essa terra dos sonhos, ela deve ter puxado alguém de nosso subconsciente com o qual nos sentimos confortáveis. Exceto que, na realidade, não parece ter funcionado com Cinco. Ele mantém os punhos cerrados, como se fosse se atirar para frente a qualquer momento. E não posso evitar sorrir ao ver Henri, mesmo sabendo que esse momento é passageiro.
— Você é... você é real? — pergunto, me sentindo idiota por fazer essa pergunta.
— Eu sou tão real quanto uma memória, John — Henri responde.
Quando ele fala, vejo um pequeno brilho dentro de sua boca, a mesma energia que Setrákus Ra estava minando de Lorien. É similar à descrição que Seis fez do seu breve encontro em grupo com a reencarnação de Oito. Eu não acho mais que seja apenas Ella controlando essa projeção telepática. Ela está tendo ajuda de alguma coisa superpoderosa.
— Me desculpe por ter explodido a cobertura — Nove diz. Ele pausa esperando uma resposta, e então diz: — Sim, tudo foi totalmente culpa do Cinco, você tem razão.
Olho primeiro para Nove, e depois para cinco, que ainda não disse nada, porém parece estar ouvindo intensamente, e finalmente me volto para Henri. Nós não podemos ver ou ouvir o visitante do outro, apenas o nosso.
— O que você...? — estou prestes a perguntar a Henri o que ele faz aqui, mas penso melhor. Ele estar aqui faz tanto sentido quanto qualquer outra coisa. Há perguntas muito mais importantes que precisam ser respondidas. — O que estamos fazendo aqui?
— Vocês estão aqui para encontrar os outros — Henri responde, e então se vira e anda em direção ao vão da porta que não estava lá segundos atrás. Ele gesticula para seguirmos.
— Que outros?
— Todos eles — Henri diz, e então sorri para mim da mesma forma frustrante que ele costumava fazer. — Lembre-se, John. Você terá apenas uma chance para passar uma boa primeira impressão. É melhor aproveitá-la.
Eu não sei do que ele está falando, mas o sigo mesmo assim. Ele é meu Cêpan, afinal. Mesmo manifestado nesse estado de sonho maluco, ele ainda parece real. Eu confio nele. Nove segue para a porta também, seguindo a versão de Sandor que não posso ver, conversando sobre o Chicago Bulls. Cinco invejosamente segue a alguns passos atrás, ainda em silêncio.
Quando chego perto dele, Henri coloca as mãos em meus ombros. Ele abaixa sua voz, mesmo sabendo que os outros não podem ouvi-lo, como se ele estivesse me contando um segredo.
— Comece com aqueles que você sentiu, John. Eles serão mais fáceis. Lembre-se de como era. Visualize.
Eu encaro Henri, incerto da maluquice que ele está falando. Em resposta ao meu olhar, ele sorri daquela maneira novamente. Me dando dicas, me fazendo pensar sozinho nos detalhes. À moda Henri. Sei que isso me faz mais forte e mais inteligente durante a caminhada, mas mesmo assim me irrita.
— Eu não entendi o que você quis me dizer — falo.
Henri dá palmadinhas nos meus ombros, e então começa a descer para o hall.
— Você entenderá.

14 comentários:

  1. Que enigmático esse capítulo.
    Não acredito q jah tah acabando.

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  2. Eu acho que John vai ter os mesmos poderes que pittacus

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  3. mano que brisa, psicodélico isso cara

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  4. fala serio!!! pela forma que entendi Jhon vai ser o cara!!!!

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  5. Quatro é o cara! Na minha opinião ele é o que mais merece ser "sucessor" de Pitacus

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  6. Denunciem o Henri ele esta dando spoiler de quem é Pittacus... Hahaha logico que é o quatro né galera.. Quem mais seria ?

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  7. Eu tava com uma esperança de não ser 4 o Pittacus.Eu não gosto muito do Quatro.Me julguem.

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    1. Somo dois eu também não gosto muito dele a pesar que o prefiro o 9 e o 5

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    2. Concordo! Bem que podia ser uma das meninas, a Seis, a Marina ou a Ella.
      PS: Também apoiaria o Nove ♥

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  8. "Eu não sei do que ele está falando, mas o sigo de mesmo assim."
    Não seria "mas o sigo mesmo assim"??

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  9. Nossa Henri quanto tempo,nem parece q estou lendo a mesma história q vc já participou

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  10. VAI LÁ MOZÃO !! To aki só na torcida pra tu ver Pittacus.

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  11. Caralho, to aqui imaginando John lutando com todos os legados!! Como pronuncia esse Legado? Eu leio o X como em "saxofone", pensar Chimic parece meio bobo. O fato do primeiro livro ser sobre o John é meio que uma dica. Nove resumiu toda visão, Pittacus ferrou tudo. Kkkkkkk. Setrákus me lembra Valentim, voltando da puta que pariu depois de não sei quantos anos só para perturbar.

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