14 de outubro de 2015

Capítulo um

NÓS PASSAMOS PELA ASA QUEBRADA DE UM AVIÃO DE COMBATE EXPLODIDO, O pedaço de metal jogado no meio da rua de uma cidade como uma barbatana de tubarão. Quanto tempo se passou desde que vimos os jatos fazendo barulhos no céu, uma formação clara indo para o centro da cidade e na direção de Anubis? Parece que foi há dias, mas deve ter sido apenas a algumas horas. Algumas das pessoas que estão conosco – os sobreviventes – gritaram e aplaudiram quando viram os jatos, como quando a maré começa a subir.
Eu sabia o que aconteceria. Fiquei em silêncio. Apenas alguns minutos depois, pudemos ouvir as explosões enquanto a Anubis destruía esses jatos no céu, estilhaçando as peças militares mais sofisticadas da Terra por toda a ilha de Manhattan. Eles não mandaram mais nem um jato desde então.
Quantas mortes até agora? Centenas. Milhares. Talvez mais. E é tudo minha culpa. Porque eu não pude matar Setrákus Ra quando tive a chance.
— À sua esquerda! – um homem grita de algum lugar atrás de mim.
Viro minha cabeça, carrego uma bola de fogo instantaneamente, e incinero um mogadoriano enquanto ele virava a esquina. Eu, Sam e uma dúzia de sobreviventes que fomos juntando pelo caminho – mal conseguimos dar passos largos. Estamos na parte sul de Manhattan agora. Fugimos para cá. Lutamos até chegarmos aqui. Quarteirão por quarteirão. Tentando aumentar a distância entre nós e o centro da cidade, onde os mogadorianos estão em maior quantidade, onde vimos pela última vez a Anubis.
Estou exausto.
Eu tropeço. Mal consigo sentir meus pés, eles estão cansados.
Acho que estou prestes a desmoronar. Um braço passa em torno do meu ombro e me estabiliza.
— John? – Sam pergunta, preocupado. Ele está me segurando. Parece que sua voz está vindo de dentro de um túnel. Tento respondê-lo, mas as palavras não vêm. Sam vira a cabeça e fala com um dos sobreviventes. — Precisamos sair das ruas por algum tempo. Ele precisa descansar.
A próxima coisa que me lembro é de estar encostado contra a parede do hall de entrada de um prédio residencial. Devo der desmaiado por alguns minutos. Eu tento me fortalecer, descansar. Preciso continuar lutando.
Mas não consigo – meu corpo se recusa a ser punido novamente.
Deixo meu corpo se deslizar contra a parede para que eu então me sente no chão. O carpete está coberto de poeira e vidro quebrado que deve ter sido explodido de fora para dentro. Há mais ou menos vinte e cinco de nós aqui. Isso foi tudo o que conseguimos salvar. Todos sujos e manchados de sangue, alguns machucados, todos cansados.
Quantos ferimentos curei hoje? Foi fácil, no começo. Depois de um tempo, então, pude sentir meu Legado de cura drenar minha própria energia. Devo ter atingido meu limite.
Eu me lembro das pessoas não pelo nome, mas pelo estado em que as encontrei ou pelo o que curei. Braço-quebrado e Preso-embaixo-do-carro parecem preocupados, com medo.
Uma mulher, a Pulou-da-janela, coloca sua mão em meus ombros. Assinto para ela dizendo que estou bem e ela parece aliviada. Bem na minha frente, Sam conversa com um policial sem uniforme que parece ter uns cinquenta anos. Ele tem sangue seco por toda parte em um lado do rosto de um corte no topo da cabeça que curei. Esqueci o nome dele ou onde o encontramos. As vozes deles parecem distantes, como se fossem o eco vindo de um túnel a quilômetros de distância. Tenho que me focar para entender o que eles dizem, e mesmo isso me toma um esforço colossal. Minha cabeça parece estar envolta em algodão.
— Ouvi no rádio que temos um ponto de apoio na Ponte do Brooklyn — o policial diz. — Polícia de Nova York, Guarda Nacional, exército... caramba, todo mundo. Eles estão guardando a ponte. Evacuando os sobreviventes de lá. Fica a apenas alguns bairros de distância, e eles dizem que os mogs estão concentrados no norte da cidade. Nós podemos conseguir.
— Então vocês devem ir — Sam responde. — Partam agora que a costa está limpa, antes que mais patrulhas apareçam.
— Vocês deveriam vir conosco, garotos.
— Não podemos — Sam responde. — Um dos nossos amigos ainda está lá fora. Temos que encontrá-lo.
Nove. É quem precisamos encontrar. Da última vez que o vimos, ele estava lutando com Cinco em frente às Nações Unidas. Através das Nações Unidas. Temos que encontrá-lo antes de deixarmos Nova York. Temos que encontrá-lo e salvar tantas pessoas quanto pudermos. Meus sentidos estão começando a voltar, mas ainda estou demasiado exausto para me mover. Abro minha boca para falar, mas tudo o que consigo é um gemido.
— Ele está no limite — diz o policial, e sei que ele fala de mim. — Vocês dois já fizeram o suficiente. Venham conosco agora, enquanto podem.
— Ele vai ficar bem — Sam fala. A dúvida em sua voz me faz ranger os dentes e focar. Eu preciso me esforçar, levantar e continuar lutando.
— Ele desmaiou.
— Ele só precisa descansar por alguns minutos.
— Eu estou bem — murmuro, mas não acho que me ouviram.
— Você vai acabar sendo morto se ficar, garoto — o policial fala para Sam. — Vocês não podem continuar com isso. Há muitos deles para vocês dois. Deixe isso para o exército, ou...
Ele para. Nós sabemos que o exército já fez sua tentativa. Manhattan está perdida.
— Sairemos daqui o mais rápido que pudermos — Sam responde.
— Você aí em baixo consegue me ouvir? — o policial está falando comigo agora. Usando o mesmo tom na voz que Henri costumava usar. Eu me pergunto se ele tem filhos em algum lugar. — Não há mais nada que você possa fazer. Você nos trouxe até aqui, deixe-nos fazer o resto. Nós o carregaremos até a ponte, se for preciso.
Todos os sobreviventes da sala assentem, murmurando em concordância. Sam olha para mim, suas sobrancelhas erguidas em questionamento. Seu rosto está sujo com poeira e cinzas. Ele parece exausto e fraco, como se mal conseguisse se manter em pé. Uma arma mogadoriana está pendurada em sua cintura, presa por um fio de eletricidade cortado, e é como se o corpo todo dele pendesse naquela direção, o peso extra ameaçando derrubá-lo.
Eu me forço a levantar. Meus músculos estão cansados e quase inúteis. Estou tentando mostrar para o policial e para os outros que ainda tenho forças dentro de mim, mas posso dizer pelo modo que eles estão me olhando que estão com pena, que não pareço muito promissor. Eu mal consigo impedir minhas pernas de tremerem. Por um momento, parece que vou desmoronar no chão. Mas então, alguma coisa acontece – sinto como se uma força tivesse me levantado e começado a me carregar, suportando um pouco do meu peso, endireitando minhas costas e esticando meus ombros. Eu não sei como estou fazendo isso, onde estou encontrando forças, é quase sobrenatural.
Não, na verdade não é sobrenatural. É Sam. Telecinesia. Sam está se concentrando, tentando fazer parecer que ainda há um pouco de força dentro de mim.
— Vamos ficar — eu digo finalmente, minha voz rouca. — Há mais pessoas para serem salvas.
O policial move a cabeça em questionamento. Atrás dele, uma garota que lembro vagamente de tê-la salvo de cair de uma escada de incêndio começa a chorar. Não tenho certeza do motivo. Sam continua completamente focado em mim, com uma expressão de esforço no rosto, gotas de suor formando em sua têmpora.
— Mantenham-se em segurança — eu digo para os sobreviventes. — Então, ajudem quem vocês puderem. Este é o planeta de vocês. Vamos salvá-lo todos juntos.
O policial dá alguns passos até mim para apertar minha mão.
— Não esqueceremos de você, John Smith — ele fala. — Todos nós. Devemos nossas vidas a você.
— Mande todos eles para o inferno — alguém diz.
E então todos os outros do grupo de sobreviventes estão se despedindo e agradecendo. Aperto meus dentes no que espero ser um sorriso. A verdade é que estou muito cansado para isso. O policial – o líder agora, os manterá em segurança – garante que todos fiquem quietos e sejam rápidos, e então os lidera para fora do hall do prédio residencial e os guia em direção à Ponte do Brooklyn.
Assim que ficamos sozinhos, Sam me solta da força telecinética que usava para me manter ereto e eu caio para trás, me encostando na parede novamente, lutando para me manter de pé. Ele está sem fôlego e suando pelo esforço que fez para me manter daquele jeito. Ele não é lorieno e não teve treinamento adequado, mas de algum jeito desenvolveu um Legado e começou a usá-lo da melhor maneira que conseguiu.
Considerando nossa situação, ele não teve escolha de aprender a usá-lo no caminho para cá. Sam com Legados – se as coisas não estivessem tão caóticas e desesperadoras, eu estaria mais animado. Não tenho certeza de como nem porque isso aconteceu com ele, mas o mais novo poder de Sam é na verdade uma das únicas coisas que ganhamos desde que chegamos à Nova York.
— Obrigado — eu digo, as palavras saem com mais facilidade agora.
— Sem problemas — ele responde. — Você é o símbolo da resistência da Terra agora; não podemos deixá-lo caído por aí.
Tento me desencostar da parede, mas minhas pernas ainda não estão prontas para suportar todo meu peso. Seria mais fácil se eu apenas me arrastasse para a porta do apartamento.
— Olhe para mim. Não sou o símbolo de nada — resmungo.
— Pare — ele diz. — Você está exausto.
Sam coloca seu braço em volta de mim, me ajudando. Ele está se arrastando também, então tento não jogar tanto peso em cima dele.
Estivemos no inferno nas últimas horas. A pele das minhas mãos está formigando pelo tanto que tive que usar meu Lúmen, jogando bolas de fogo de pelotão em pelotão de mogadorianos. Espero que não tenha danificado nenhum nervo permanentemente ou coisa do tipo. O pensamento de acender meu Lúmen agora quase faz com que meus joelhos cedam.
— Resistência — eu digo amargamente. — Resistência é o que acontece depois de você perder uma guerra, Sam.
— Você sabe o que eu quis dizer — ele responde. Posso dizer pelo tom de sua voz trêmula que é um esforço para Sam parecer otimista depois de tudo o que vimos hoje. Pelo menos ele está tentando. — A maioria dessas pessoas sabia quem você era. Eles disseram que havia um vídeo seu ou coisa do tipo no noticiário. E tudo o que aconteceu nas Nações Unidas – você basicamente desmascarou Setrákus Ra na frente de uma audiência internacional. Todo mundo sabe que você tem lutado contra os mogadorianos. Que você tentou impedir isso.
— Então eles sabem que eu falhei.
A porta para o apartamento do primeiro andar está entreaberta. Eu a empurro e depois Sam a fecha e a tranca atrás de nós. Tento encontrar o interruptor de luz mais próximo, surpreso por ver que ainda há eletricidade aqui. A eletricidade só está presente em alguns pontos da cidade. Acho que esse bairro ainda não foi atingido com força. Apago as luzes rapidamente – na nossa atual situação, não queremos atrair atenção de nenhuma patrulha mogadoriana que possam estar nos arredores. Enquanto tropeço até o colchão mais próximo, Sam fecha as cortinas do apartamento.
O apartamento é pequeno, um cômodo só. Há uma pequena cozinha apertada separada da sala de estar por um balcão de granito, um pequeno closet e um banheiro. Quem quer que viva aqui definitivamente deixou tudo com pressa, há roupas espalhadas pelo chão, uma tigela de cereal virada para baixo e uma moldura de foto quebrada perto da porta, parecendo ter sido pisada. Na foto, um casal em seus vinte anos posa em uma praia tropical, um pequeno macaco no ombro do rapaz.
Essas pessoas tinham uma vida normal. Mesmo que tenham conseguido sair de Manhattan e estiverem em segurança, agora isso acabou. A Terra nunca mais será a mesma.
Eu costumava imaginar um lugar calmo como esse para Sarah e eu, uma vez que os mogadorianos forem derrotados. Não um apartamento apertado na cidade de Nova York, mas algo simples e calmo.
Há uma explosão ao longe, os mogs destruindo alguma coisa ao norte da cidade. Percebo quão ingênuos os sonhos de vidas pós-guerra são. Nada nunca mais será normal depois disso.
Sarah. Espero que ela esteja bem. Era o rosto dela que eu chamava em meus pensamentos nas horas mais difíceis da nossa batalha pelos bairros de Manhattan. Continue lutando e você irá vê-la novamente, era o que repetia para mim mesmo. Eu queria poder falar com ela. Eu preciso falar com ela. Não apenas com Sarah, mas com Seis também – preciso entrar em contato com os outros, tentar descobrir o que Sarah conseguiu com Mark James e seu misterioso contato, e para saber o que Seis, Marina e Adam fizeram no México. Isso tem de ter alguma ligação com Sam ter de repente desenvolvido um Legado. E se ele não for o único? Preciso saber o que aconteceu fora da cidade de Nova York, mas meu telefone via satélite foi destruído quando caí no Lago Oeste e o celular pré-pago está sem sinal de Internet. Até agora, somos apenas eu e Sam. Sobrevivendo.
Na cozinha, Sam abre a geladeira. Ele para e olha para mim.
— É errado pegarmos a comida dessas pessoas? — ele pergunta.
— Tenho certeza de que eles não irão se importar — respondo.
Fecho meus olhos pelo o que parece ser um segundo, mas deve ter sido mais, e quando os abro há um pedaço de pão perto do meu nariz.
Com uma mão esticada teatralmente como nas histórias em quadrinhos, Sam faz um sanduíche de pasta de amendoim flutuar até mim, junto com um prato de plástico e uma colher em frente ao meu rosto. Mesmo me sentindo fraco, não posso evitar sorrir com seu esforço.
— Me desculpe, não foi minha intenção acertá-lo com o sanduíche — Sam diz enquanto pego a comida do ar. — Ainda estou me acostumando com isso, obviamente.
— Não se preocupe. É fácil puxar e empurrar com telecinesia. A precisão é a parte mais difícil de se aprender.
— Sem brincadeiras — ele diz.
— Você está se saindo incrivelmente bem para quem desenvolveu telecinese há apenas quatro horas, cara.
Sam se senta no colchão perto de mim com seu sanduíche.
— Ajuda se eu imaginar que tenho, tipo, mãos invisíveis. Isso faz sentido?
Penso como foi quando eu treinei minha própria telecinesia com Henri. Parece que foi há tanto tempo.
— Eu costumava visualizar o que eu ia mover, e então desejava que acontecesse — explico a Sam. — Começamos com coisas pequenas. Henri costumava jogar bolas de baseball contra mim no quintal, e então eu praticava tentando segurá-las com minha mente.
— Ah, bem, não acho que brincar de batedor seja uma opção para mim neste momento — Sam observa. — Encontrarei outras maneiras de praticar.
Sam flutua seu sanduíche do colo. Ele inicialmente o aproxima da boca para mordê-lo, mas erra a altura depois de alguns segundos de concentração.
— Nada mal — comento.
— É mais fácil quando não estou pensando sobre isso.
— Como quando estávamos lutando pelas nossas vidas, por exemplo?
— Sim — Sam diz, movendo a cabeça assentindo. — Vamos falar sobre o que aconteceu comigo, John? Ou por que aconteceu? Ou... Eu não sei. O que isso significa?
— Os Gardes desenvolvem seus Legados na adolescência — eu digo, dando de ombros. — Talvez você seja apenas um cara atrasado.
— Amigo, você esqueceu que não sou lorieno?
— Muito menos Adam, mas ele tem Legados — aponto.
— É, mas o pai violento dele o conectou com uma Garde morta e...
Ergo uma mão e interrompo Sam.
— Tudo o que quero dizer é que nada está definido. Acho que os Legados não funcionam da forma que meu povo presumia — pauso por um momento para pensar. — O que aconteceu com você tem algo a ver com o que Seis e os outros fizeram no Santuário.
— Seis fez isso... — Sam começa.
— Eles foram lá para encontrar Lorien na Terra, e eu acho que conseguiram. E então, talvez Lorien tenha te escolhido.
Sem nem perceber, já devorei meu sanduíche de pasta de amendoim. Meu estômago ronca. Eu me sinto um pouco melhor, minha força começando a ser restaurada.
— Bem, é uma honra — Sam fala, olhando para suas mãos e pensando sobre tudo. Ou, mais provavelmente, pensando em Seis. — Uma honra aterrorizante.
— Você se saiu bem lá fora. Eu não poderia ter salvado todas aquelas pessoas sem você — eu digo, dando palmadinhas nas costas de Sam. — A verdade é que não sei que inferno está acontecendo. Não sei como, nem porquê você de repente desenvolveu um Legado. Estou apenas feliz por ter acontecido. Estou feliz por ainda ter um fiapo de esperança na nossa situação de morte e destruição.
Sam fica de pé, limpando os farelos das calças.
— É, esse sou eu, a grande esperança da humanidade, atualmente morrendo por outro sanduíche. Quer mais um?
— Eu posso fazer — digo a Sam, mas quando me inclino para levantar, sou imediatamente empurrado de volta para o colchão.
— Vai com calma — Sam fala, fingindo não estar cansado como eu estou. — Eu cuido dos sanduíches.
— Ficaremos aqui por apenas mais alguns minutos — eu digo, sonolento. — Então vamos procurar Nove.
Eu fecho os olhos, ouvindo Sam fazendo os lanches na cozinha, tentando sustentar a faca que espalha a pasta de amendoim com a força do pensamento. Ao fundo, sempre ao fundo agora, posso ouvir o barulho de lutas em algum lugar de Manhattan. Sam está certo – somos a resistência. Deveríamos estar lá fora resistindo. Se eu puder descansar por apenas alguns minutos...
Não abro meus olhos até Sam balançar meus ombros.
Imediatamente, posso dizer que dormi. A luz no apartamento mudou, dá para ver as luzes das ruas acesas, um brilho amarelado atravessando as cortinas. Um prato com sanduíches me espera num sofá próximo a mim. Estou tentado a ir lá e devorar todos. Parece que tudo dentro de mim está num nível animalesco agora – sono, fome, raiva.
— Por quanto tempo eu apaguei? — pergunto a Sam, sentindo-me um pouco melhor fisicamente mas também culpado por dormir enquanto há pessoas morrendo por toda Nova York.
— Mais ou menos uma hora — ele diz. — Eu iria deixá-lo descansar, mas...
Como explicação, Sam gesticula para trás, na direção de uma pequena televisão que está fixada em uma das paredes do quarto. O noticiário local na verdade está sendo transmitindo ao vivo. Sam deixou a televisão no mudo e a imagem ocasionalmente some e volta com a estática, mostrando a cidade de Nova York em chamas. Imagens granuladas ilustram a iminente Anubis atravessando o céu, suas armas laterais bombardeando os terraços dos arranha-céus mais altos até não sobrar nada além de destroços e poeira.
— Eu nem lembrei de verificar se ela estava funcionando até alguns minutos atrás — ele explica. — Pensei que os mogs teriam destruídos os prédios das emissoras, você sabe, por motivos de guerra.
Não esqueci o que Setrákus Ra me disse quando eu estava pendurado em sua nave sobre o Lago Oeste. Ele quer que eu assista a Terra cair. Lembrando agora daquela visão de Washington, D.C., que compartilhei com Ella, a cidade lá parecia bem destruída, mas não completamente arrasada. E havia sobreviventes para servi-lo. Acho que estou começando a entender.
— Não é um acidente — eu digo para Sam, pensando alto. — Ele deve querer que os humanos sejam capazes de ver a destruição que ele está causando. Não foi como em Lorien, onde sua frota apenas exterminou todo mundo. Foi por isso que ele tentou montar aquele show nas Nações Unidas, é por isso que ele criou aquela droga sombria da ProMog, para tentar dominar a Terra pacificamente. Ele planeja viver aqui depois de tudo. E se não houver ninguém para adorá-lo como os mogadorianos, pelo menos quer que os humanos sobreviventes o temam.
— Bom, a parte de todos o temerem está funcionando — Sam comenta.
Na tela, o noticiário mudou para uma cena ao vivo de uma âncora em sua mesa. O prédio da emissora desse canal provavelmente foi danificado de alguma forma durante a batalha, porque parece que eles mal conseguem se manter no ar. Apenas metade das luzes do estúdio está acesa e a câmera está desfocada, a imagem sem a resolução e tamanho que deveria ter. Ela fala diretamente para a câmera durante alguns segundos, apresentando a próxima imagem.
A âncora desaparece, substituída por um vídeo tremido feito por um celular. No meio de um cruzamento importante, uma figura obscura roda como um lançador de discos Olímpicos se aquecendo. Com exceção de que esse cara não está segurando um disco. Com uma força sobre-humana ele está girando outra pessoa pelo tornozelo. Depois de uma dúzia de giros, o cara solta o corpo, arremessando-o em direção à janela frontal de um cinema nas proximidades. O vídeo continua centrado no lançador, que erguendo os ombros, grita o que parece ser um xingamento.
É Nove.
— Sam! Aumenta o volume!
Enquanto Sam tateia em busca do controle remoto, quem quer que tenha filmado Nove corre para trás de um carro para se proteger. É desorientador, mas o cameraman consegue continuar gravando com uma das mãos erguidas por cima do carro. Um grupo de soldados mogadorianos apareceu no cruzamento, atirando em Nove. Assisto enquanto ele dança estupidamente para desviar dos tiros, usando telecinesia para arremessar um carro na direção deles.
— ... novamente, esse vídeo foi gravado na Union Square há alguns momentos — a voz trêmula da âncora narra enquanto Sam aumenta o volume. — Esse garoto superpoderoso, hum, é possivelmente um adolescente alienígena que estava nas Nações Unidas junto com o outro jovem identificado como John Smith. Nós o vemos aqui empenhado em um combate contra os mogadorianos, fazendo coisas humanamente impossíveis...
— Eles sabem meu nome — falo, quase um sussurro.
— Olhe — Sam diz, tocando meu braço.
A câmera está mostrando novamente o cinema, quando uma forma corpulenta lentamente se levanta da janela estilhaçada. Eu não tenho uma boa visão dela, mas imediatamente sei quem Nove estava arremessando. Ele voa do cinema para o céu, derruba alguns mogs que ainda estão no cruzamento, e então mergulha violentamente na direção de Nove.
— Cinco — Sam diz.
A câmera não consegue acompanhar Cinco e Nove enquanto eles se chocam contra o gramado de um pequeno parque nas proximidades, arrancando grandes pedaços de terra do chão.
— Eles estão se matando — eu digo. — Temos que ir até lá.
— Um segundo garoto extraterrestre está lutando com o primeiro, pelo menos quando não estão lutando contra os invasores... — a âncora continua, parecendo perplexa. — Nós não sabemos o motivo. Não temos muitas respostas até agora, receio. Apenas... fique em segurança, Nova York. Operações de evacuação estão acontecendo caso você tenha uma rota segura para a Ponte do Brooklyn. Se você está próximo à batalha, mantenha-se dentro de casa e...
Pego o controle remoto da mão de Sam e desligo a TV. Ele me observa enquanto levanto, para garantir que estou bem. Meus músculos gritam em protesto e fico tonto por alguns segundos, mas posso aguentar. Tenho que aguentar. Nunca a expressão “lute como se não houvesse amanhã” fez tanto sentido. Se eu for fazer isso da maneira certa – se vamos salvar a Terra de Setrákus Ra e dos mogadorianos, então o primeiro passo é encontrar Nove e sobreviver à Nova York.
— Ela disse Union Square — eu falo. — É pra lá que vamos.

24 comentários:

  1. - Ela disse Unión Square- eu fala. No último parágrafo Karina! Beijos e obrigada por postar.

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    1. Corrigido, Gisele. E obrigada por avisar :)

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  2. TE AMO MUITO KARINA SUA LINDA
    OBRIGADO POR SEU BLOG SER TÃO INCRÍVEL

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    1. kkkk valeu, Sandra! Espero que tenha uma boa leitura :)

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  3. Nas reações devia ter a expressão Uhhhhuuu! (Ou algo assim) é como estou me sentindo *-*

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  4. OMG!!! Td d bom!!!

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  5. Mds quase morri de tanto rir com o Nove girando o Cinco pelo tornozelo kkkkk

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  6. Que perfeito! Estava tão ansiosa por esse livro! OMG ♥

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  7. Olha, conheci seu blog através da pesquisa desse livro e já to amando :3

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  8. Karina querida,
    muito obrigada por me proporcionar essa leitura tão, tão esperada.
    Através do seu blog já li vários livros e comprei alguns.
    Estou começando a devorar esse.
    Obs.; tenho só 55 anos.
    Bjs:)

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  9. Karina querida,
    obrigada por me proporcionar essa leitura tão esperada.
    Adoro seu blog, e através dele já li vários livros e comprei alguns.
    Estou começando a devorar esse.
    Obs. tenho só 55 anos (esse q aparece no perfil é meu filho).
    Bjs:)

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  10. Obrigado por postar esse livro Karina, conheci seu Blog hoje e já estou amando kkk obrigado de verdade

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  11. Devo "der" desmaiado por alguns minutos. Eu tento me fortalecer, descansar. Preciso continuar lutando.

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  12. Alguém mata esse maldito 5 por favor!!!

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  13. Olá Karina, muito obrigado por disponibilizar o livro para leitura. Encontrei seu blog procurando o livro para download que não achei..
    Parabéns e obrigado! <3

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    1. Oi Sam, que bom que nos encontrou! De nada, espero que tenha ótimas leituras por aqui :)

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  14. eu já não to entendendo mais nada! kkkkkkkk

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  15. O mundo desabando e esses dois 'brincantes' ainda estão brigando... É muito amor!!!

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  16. chama os vingadores
    ~semi-deusa loriena

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  17. INCRÍVELLLL!!! Estou AMANDO.
    PS: Finalmente voltei depois de ler alguns contos para compreender melhor a história.

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