14 de outubro de 2015

Capítulo seis

UM GRANDE PESO CAI SOBRE MINHA PERNA, CRAVANDO OS ESTILHAÇOS AINDA mais fundo em minha coxa. É Phiri Dun-Ra. Ela tem novos ferimentos em seu rosto e braços, resultado de sua própria bomba improvisada. Seus pulsos e tornozelos ainda estão presos nas algemas de gelo, mas isso não a impede de se jogar em cima de mim. Ainda estou atordoada pela bomba, então não reajo tão rápido quanto deveria. Phiri dá uma cabeçada em meu peito e se contorce em cima do meu corpo.
— Agora vocês morrem, lixos lóricos  ela diz de uma forma maníaca, ainda histérica por sua armadilha com a bomba ter funcionado.
Eu não estou certa de qual é plano dela, talvez me morder até a morte ou me sufocar com o seu peso, mas não estou tão mal para deixar qualquer uma dessas coisas acontecer. Com um rápido movimento de telecinesia, arranco Phiri Dun-Ra de cima de mim. Ela cai na sujeira, rolando por cima de alguns estilhaços da bomba. Ela tenta levantar, gritando de frustação quando não consegue.
Ela fica quieta quando chuto a sua cara o mais forte que consigo.
Phiri bate no chão inconsciente.
— Fique comigo!
É a voz de Marina que me traz de volta ao mundo depois da raiva que estava sentindo ou eu provavelmente mataria Phiri agora mesmo. Eu viro para trás para vê-la inclinada sobre o corpo de Adam.
— Ele está...?
Cruzo a clareira, esquecendo que tenho um ferro de seis centímetros cravado em minha coxa. Eu ignoro a dor. Adam está bem pior que eu.
Entro no pequeno buraco que Adam foi capaz de fazer antes de a bomba explodir. Ele absorveu uma boa parte dos estilhaços, mas não tudo. A bomba, mesmo assim, praticamente explodiu na frente dele, fazendo-o sofrer a maior parte do impacto. Ele está de bruços agora, Marina se inclinando sobre ele, e fico com pena dele. O peito dele está aberto, como se alguém tivesse cavado um buraco lá. Ele deveria ter saído logo da frente em fez de ficar como um escudo humano. Mog idiota, tentando ser um herói.
Mas de algum jeito, ele ainda está consciente. Ele não consegue falar, todo o esforço concentrado em respirar. Os seus olhos estão arregalados e assustados enquanto ele sangra muito, a respiração entrecortada. As suas mãos, encharcadas de sangue, em punho.
— Eu posso fazer isso, eu posso fazer isso... — Marina repete para si mesma, não hesitando nem por um momento em colocar as suas mãos nos ferimentos de Adam.
Olhando melhor, percebo como esta situação deve ser tristemente familiar para ela. Como se fosse o Oito de novo.
A respiração dele fica cada vez pior, observo a pele dele se unir enquanto Marina o toca. E então alguma coisa estranha acontece, há uma crepitação e um chiado começa, como se começasse a pegar fogo, e parte do peito de Adam começa a faiscar antes de se desintegrar como quando um mogadoriano morre.
Marina leva um susto, tirando as suas mãos dele.
— Que droga foi essa? — pergunto.
— Eu não sei! — Marina grita. — Alguma coisa está lutando comigo, Seis. Estou com medo de estar machucando-o.
No momento que a cura de Marina para, o ferimento ainda aberto de Adam volta a sangrar. Ele está ficando pálido. Mais que o normal. A mão dele raspa pelo chão e encontra a de Marina.
— Não... argh, não pare...  Adam tenta murmurar, e enquanto ele tenta, consigo ver que há sangue preto dentro da sua boca. — Não importa o que aconteça... não pare.
Recompondo-se, Marina coloca as suas mãos sobre os ferimentos de Adam. Ela fecha os seus olhos e se concentra, uma gota de suor surge ao lado de uma mancha de terra no seu rosto. Já vi Marina curar ferimentos muitas vezes, mas não um ferimento que precisou de tanto esforço quanto este. O corpo de Adam aos poucos começa a se curar, até uma nova parte do seu corpo faiscar e se desintegrar, como se houvesse uma bomba dentro dele. Quando isso acaba, porém, o resto cura normalmente.
Leva alguns minutos, mas Marina finalmente termina de “fechar” Adam.
Ela cai sentada no chão, respirando como se tivesse terminado uma maratona, e as suas mãos tremem. Adam continua deitado, passando os seus dedos pela pele do seu abdômen que há alguns minutos não estava lá. Finalmente, ele levanta um pouco e se apoia no seu cotovelo e olha para Marina.
— Obrigado — ele diz, olhando-a nos olhos, com o seu rosto em uma mistura de assombro e gratidão.
— Não há de quê — Marina responde, tentando normalizar a sua respiração.
— Hum, Marina... Você se importa? — mostro o pedaço de metal preso na minha perna.
Marina geme pelo esforço, mas concorda, se mexendo, ficando de joelhos na minha frente.
— Você quer que eu arranque ou...?
Antes que ela possa terminar, arranco o estilhaço da minha coxa. Um novo ponto de sangramento faz um filete de sangue escorrer pela minha perna. A dor é forte, mas Marina logo esfria o local antes de usar seu Legado de cura em mim. Comparando com o de Adam, isso não leva tempo algum.
Quando ela termina, Marina olha imediatamente para Adam.
— O que foi aquilo quando eu estava curando você? Por que foi tão difícil?
— Eu... Eu não sei, exatamente. — Adam responde, olhando para longe.
— Você começou a se desintegrar um pouco — eu digo. — Como se estivesse morrendo.
— Eu estava morrendo  Adam diz. — Mas isso não deveria acontecer comigo. Só os soldados nascidos artificialmente que vocês já viram que se transformam em cinzas, porque eles são feitos completamente da biologia experimental de Setrákus Ra. Alguns nascidos naturalmente, como eu, recebem modificações que podem causar a desintegração quando morrem. Eu não recebi nada disso, acho. Pelo menos...
— Não que você saiba — termino o seu pensamento.
— Exatamente — ele responde, olhando para baixo como se de repente não confiasse mais em seu próprio corpo. — Eu estive em coma por três anos. É possível que o meu pai tenha feito algo a mim. Eu não sei o quê.
— O que quer que fosse, acho que o meu Legado tirou de você — Marina diz.
— Assim espero — Adam responde.
Nós três caímos em silêncio. Com as emergências médicas acabadas, só agora notamos como estamos ferrados. Caminho pelo chão chamuscado onde a bomba da Phiri Dun-Ra explodiu, jogando pedaços esfarrapados da mochila e pedaços disformes de metal. A mochila provavelmente estava cheia de conduítes, mas não encontro nada que pareça levemente inteiro.
Nós estamos completamente presos aqui.
Quando me viro, vejo que Adam se levantou e está olhando para o corpo inconsciente de Phiri.
— Nós deveríamos matá-la — ele diz friamente. — Não há nenhuma razão para a deixarmos viva.
— Nós não fazemos isso  Marina responde, com a voz gentil. — Ela não pode nos machucar enquanto está amarrada.
Adam abre a boca para responder, mas parece pensar duas vezes.
Marina acabou de salvar sua vida, então acho que ele sente que deveria escutá-la. Eu, na realidade concordo com os dois, Phiri Dun-Ra não é nada além de problemas, e mantê-la presa só vai nos ferrar de novo. Mas matá-la inconsciente parece errado.
— Nós vamos esperar ela acordar, pelo menos — eu digo de forma diplomática. — Para então decidirmos o que fazer com ela.
Os outros concordam em silêncio, carrancudos. Nós voltamos ao Santuário. Uso a telecinesia para flutuar o corpo inconsciente da Phiri com a gente. Quando voltamos, Marina mantém a algema de gelo em Phiri até chegarmos e prendermos com segurança a mogadoriana com cabos, e a mantemos dentro de uma das naves quebradas. Nesse momento, tenho certeza de que ela está se fingindo de morta. O melhor seria deixá-la. Marina está certa, ela não pode nos machucar enquanto estiver presa, e se ela se libertar, farei o desejo de Adam se tornar realidade.
Eu não sei mais o que fazer, então tento o telefone via satélite. Ainda não tivemos resposta de John. Isso me faz pensar que Phiri Dun-Ra pode estar falando a verdade sobre a guerra já ter começado. Não tenho nenhuma nova cicatriz, significando que John e Nove ainda estão bem vivos, mas isso não significa que as coisas não estão feias em Nova York.
— Adam, nós podemos entrar no sistema de comunicação de uma das naves? — pergunto. — Eu quero saber o que está acontecendo.
— Com certeza — ele responde, feliz com a oportunidade de fazer alguma coisa.
Nós três subimos abordo do nosso Skimmer, Adam sentado no banco do piloto. Ele consegue ligar o sistema elétrico da nave, as luzes acendem e alguma parte do Skimmer grunhe de esforço. Adam começa tentar captar sinal, pegando nada além de estática.
— Eu só preciso achar a frequência certa — ele diz.
Eu concordo.
— Está bem. Não é como se eu tivesse algo mais para fazer.
Ao meu lado, Marina olha para o Santuário pela janela do Skimmer.
Já que deixamos as luzes do perímetro ligadas, o Santuário inteiro está iluminado, o antigo calcário praticamente brilhando.
— Não perca as esperanças, Seis — Marina fala baixinho. — Nós vamos dar um jeito.
Quando Adam liga o rádio de novo a estática dá lugar ao uma voz mogadoriana brutal. O mog está falando roboticamente, de um jeito sem sentido, como se tivesse lendo uma lista. Claro que não consigo entender nada que ele está falando.
Eu cutuco Adam.
— Você vai traduzir?
— Eu... — Adam encara o rádio como se estivesse possuído, como se não soubesse o que dizer. Percebo que ele não quer me contar o que eles estão dizendo.
— Muito ruim? — pergunto, mantendo minha voz nivelada. — Só me conte quão ruim está.
Adam pigarreia e com a voz trêmula começa a traduzir.
— Moscou, resistência moderada. Cairo, sem resistência. Tóquio, sem resistência. Londres, resistência moderada. Nova Déli, resistência moderada. Washington D.C., sem resistência. Beijing, alta resistência, código de protocolo ativado...
— O que é isso? — eu o interrompo, perdendo a paciência com o grunhido. — O plano de ataque deles?
— São relatórios, Seis — Adam diz, levantando a voz. — As naves de guerra estão mandando os seus relatórios de como invasão está prosseguindo. Cada uma dessas cidades tem uma nave enorme de guerra fazendo uma ocupação, e elas não são as únicas...
— Está acontecendo? — Marina pergunta. — Pensei que nós tínhamos mais tempo.
— A frota está na Terra — Adam responde com o seu rosto branco.
— O que ele quis dizer com protocolo ativado? — pergunto. — Você disse que era em Beijing.
— Protocolo de proteção é o jeito de Setrákus Ra de manter a Terra colaborando para ocupação. Se eles estão em Beijing, isso significa que vão destruir a cidade — Adam diz. — Usando isso como uma mensagem para as outras cidades que possam causar problemas.
— Meu Deus... — Marina sussurra.
— Uma nave de guerra pode destruir uma cidade em horas — Adam continua. — Se eles...
Ele para, porque algo que estão dizendo no rádio chama a sua atenção. Ele engole em seco, aumentando o volume.
Eu balanço o seu ombro.
— O que é? O que você escutou?
— Nova York... — ele começa a falar, e belisca a ponta do seu nariz. — Nova York, resistência com ajuda da Garde...
— É a gente! É o John!
Adam balança a cabeça, terminando a tradução.
— Resistência com ajuda da Garde superada. Invasão bem-sucedida.
— O que isso significa? — Marina pergunta.
— Isso significa que eles venceram — Adam responde friamente. — Eles conquistaram a cidade de Nova York.
Eles venceram. A frase reverbera na minha mente.
Eles estão conquistando a Terra e nós estamos presos aqui.
Já que não tenho um alvo melhor, soco o painel de controle onde um zumbido alto começa. Faíscas saem do lixo que sobrou e Adam sai da cadeira de piloto, assustado. Marina se levanta e tenta colocar os seus braços a minha volta, mas eu a empurro.
— Seis! — ela grita atrás de mim quando pulo fora da cabine do piloto. — Ainda não está acabado!
Paro em cima da nossa nave sentindo a raiva queimar dentro de mim, mas sem tem nenhum lugar para canalizá-la. Olho para o Santuário, cheio de luz. Esse lugar deveria ser a nossa salvação. Nossa viagem até aqui não mudou nada, penso. Quase nos matou e agora nós estamos fora da guerra. Quantas pessoas estão morrendo porque nós não estamos lá ajudando o John a salvar Nova York?
Sinto um olhar nas minhas costas. Alguém está me observando. Eu me viro, e o meu olhar vai da estrada para as outras naves. Phiri Dun-Ra está acordada, amarada exatamente no lugar onde nós a deixamos.
Ela sorri para mim.

33 comentários:

  1. Tão ruim quando você acaba um capítulo e espera os comentários do pessoal e tal, mas está tudo vazio kkkkkkk
    ~Ana

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  2. esse é o preço de ser um dos primeiros a ler kkkkkk

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  3. É pq o livro foi lançado ontem ana jah jah vai tah cheio de comentários...
    Bjs

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  4. Não seimsemomplano dela é me matar com mordidas, kkkkkkkkkkkkkkk

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  5. Eles n sabem q o John ta vivo!!!!!!!!!!!!!!!!!!

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    1. Claro que sabem! Se não haveria novas cicatrizes, porém eles não sabem se estão em mãos inimigas!

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  6. É impressão minha , ou os autores querem q o Adam fique com a Marina?
    E pq que nessas missões em grupo ,a Seis sempre fica de vela?

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    1. Creio que é só impressão sua mesmo Clara Patriarca, é só Marina que é muito boazinha mesmo.

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    2. Eu quero que eles se apaixonem Kkkk shippo Arina ou Madam

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    3. Nheeee. Adam é da Um :333
      (E meu, mas como fã número um :3)

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  7. Sabem sim!! Ainda não apareceu a cicatriz no tornozelo!! Mas elas podem pensar que eles foram capturados ou algo do tipo...

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    1. Ahh é, esqueci completamente esse detalhe.KKK

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  8. Na verdade eles sabem sim, não veio nenhuma marca na perna ;)

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  9. pode até ser que o adam fique com a marina, mas acredito que não... ele gostava mesmo da um e ela do oito........ se fosse um romance dava pra forçar a barra mas uma série assim não precisaria que todo mundo tenha um par no final.... sem contar q qq um deles pode morrer antes disso : (

    Mariana

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    1. Não sugere isso por favor, Marina ta muito forte! Amo a seis! Mas Marina já sofreu tanto. Dos gardes ela foi quem menos treinou e quem mais evoluiu, por força propria. porque nem apoio de Adelina ela teve!

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  10. Pensei q o Adam fosse morrer....quase morro tbm

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    1. 2! "A bomba explode e sobe uma nuvem de cinzas" :o

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  11. Phiri Dun-Ra está acordada, "amarada" exatamente no lugar onde nós a deixamos.

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  12. Ahh tô ansiosa demais pro final >.<
    "...mas sem tem nenhum lugar para canalizá-la."
    acho que essa frase tem um erro Karina

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  13. Isso seis. Espanca a mog. Isso eh o que eles merecem.

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  14. Acho q o adam curte mais a seis do q a marina. Hahahaha
    Ele msm falou q ela lembra a um.

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    1. Infelizmente...

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    2. Rapaz! Ele tem medo e admiração por Marina, maria tá tão castigada que ela literalmente emana gelo kkkk E Não sei se vocês sabem mas ela é a mais velha dos gardes! la no Livro o poder dos seis Ela já estava preste a fazer dezoito anos enquanto quatro tinha que falsificar as identidades por conta da idade e dos nomes, mas ele e sam eram de menores

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  15. Ele deveria ter saído logo da frente em fez de ficar como um escudo humano.

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  16. Escudo humano ? Mas ele é um Mog kkk Que coisa

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  17. Marina e adam ja to esperando isso desde que 8 morreu e marina encontrou adam qnd vai acontecer

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  18. Nossa da uma raiva dessa Phiri Dun-Ra, eles já deviam ter matado ela, e tomara que a Marina fique cm o Adam, já shippo "Madam"

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  19. Só eu lembrei de Peregrina (A hospedeira), com essa história da um compartilhar o corpo com adam?

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  20. Esse povo tem de parar com essa cachaça de shippar o Adam com a Sete... Ela está de luto, nem deve estar pensando nessas coisas... Mal se despediu do Oito e já querem juntar ela com outro, eu hein, povo sem coração!

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