14 de outubro de 2015

Capítulo quatorze

— BATEDORES? — MARINA PERGUNTA. POSSO SENTIR SEU LEGADO VOLTANDO À tona, para se precisarmos lutar.
— Não é uma nave mogadoriana — Adam diz, dando um passo ao meu lado.
— Não — concorda, já percebendo. Coloco a minha mão no braço de Marina. — Está tudo bem. Você não... você não reconhece?
— Eu... — Marina para enquanto examina melhor a nave que se aproxima. Ela voa por cima das árvores e gira sem esforço no ar, diminuindo a sua velocidade logo acima da nova área de pouso dos mogs.
Embora esteja um pouco amassada e arranhada, até com um pouco de ferrugem nas bordas, a nave ainda reluz, seus painéis blindados, feitos com materiais que não são encontrados nesse mundo. A nave paira no ar por um momento, o sol brilhando, refletindo nas janelas coloridas da cabine do piloto, e em seguida, pousa suavemente.
— É uma das nossas — eu digo. — Como a nave que nos trouxe para cá. Para a Terra, eu quero dizer.
— Como isso é possível? — Adam devolve, perguntando.
— Esses são os nossos reforços? — Marina pergunta, sem tirar os olhos da nave. — O John comentou alguma coisa?
— Ele disse que estava enviando a Sarah, Mark e mais alguma coisa... — respondo um pouco atordoada. — Alguma coisa que nós tínhamos que ver para crer.
Quem poderia estar pilotando uma nave loriena? De onde ela veio? Dou um passo para frente.
A rampa de metal da parte de trás da nave começa a descer e eu fico tensa. Uma memória nebulosa que vem à tona, de uma rampa como aquela na minha infância, com Katarina ao meu lado, explosões e gritos ao fundo. Aqui estamos nós de novo, no meio da segunda invasão mogadoriana, e mais uma vez há uma nave lórica na minha frente. Só que dessa vez, eu não sei se deveria estar correndo na sua direção ou para longe. Mesmo que John já tenha me dito que a ajuda estava chegando, não consigo afastar a sensação de que isso pode ser uma armadilha. A paranoia vem me acompanhando até aqui, não há razões para ignorá-la agora.
— Preparem-se para qualquer coisa — digo aos outros. — Nós não sabemos o que vai sair de lá.
E então um beagle muito familiar desce a rampa correndo.
Bernie Kosar, com a língua para fora da boca, pula em mim primeiro, com as suas patas dianteiras apoiadas nas minhas pernas. A sua cauda é um borrão quando ele cumprimenta Marina, logo em seguida. E depois ainda salta em Adam. Ouço um som estranho, mas logo noto que é o riso de um mogadoriano.
Quando olho de volta para nave, Sarah Hart está parada no topo da rampa, com os seus braços abertos em saudação e com um sorriso.
— Oi, pessoal — Sarah diz casualmente. — Olhem o que nós encontramos.
Marina solta uma gargalhada de surpresa e logo sai correndo, encontrando a Sarah na ponta da rampa, já a envolvendo em um abraço.
Já faz um tempo desde que vi Sarah, ela já tinha ido para a sua missão secreta de se encontrar com o ex-namorado quando eu e Marina voltamos da Flórida. Ela está com o cabelo para trás, preso em um rabo de cavalo apertado, mas o seu sorriso é brilhante mesmo com algumas marcas sob os olhos, e percebo que estão avermelhados quando chego mais perto. Há também alguns arranhões e contusões que nem o seu sorriso consegue esconder. Sim, ela está feliz em nos ver, mas também está cansada, estressada e um pouco abatida. Independente disso, ela parece melhor do que nós, sujos depois de alguns dias na selva, queimados do sol e exaustos.
— Você está aqui — eu digo a Sarah, abraçando-a também. Na verdade estou um pouco distraída. Ainda não consigo tirar os olhos da nave.
— É bom ver você, Seis — Sarah responde, me abraçando apesar do suor e do pó. — John disse que vocês poderiam precisar de alguma ajuda e uma maneira de sair daqui. Então, nós trouxemos os dois.
Quem é exatamente esse “nós” se torna aparente um segundo depois.
O Mark James que sai da nave atrás da Sarah é muito diferente daquele cara que lutou um pouco ao meu lado em Paradise. Ele aposentou toda aquela coisa de cabelo-com-gel de jogador. O cabelo escuro dele está mais comprido e desgrenhado. Acho que ele perdeu um pouco de peso, seus músculos estão maiores do que me lembro. Ele tem um olhar cansado no rosto e está com os olhos bem fechados, o que sugere que ele não está acostumado com tanto sol.
— Whoa, merda — Mark diz, parando na metade da rampa. — Tem um deles atrás de você.
— Esse é Adam — apresenta Sarah. — Pensei que eu tivesse te contado sobre ele.
— É, acho que contou — Mark diz, fazendo sombra nos olhos enquanto encara Adam. — É apenas assustador ver um deles, você sabe, andando normal por aí. Desculpe, mano — acrescenta Mark, acenando para Adam.
— Está tudo bem — Adam responde diplomaticamente. Ela aponta por cima do seu ombro para onde a Phiri Dun-Ra está encapuzada e presa no Skimmer. — Eu não sou o único mog aqui, como você pode ver. Mas eu sou o mais amigável.
— Notável — Mark responde.
Sarah começa a fazer as apresentações necessárias. Eu a interrompo antes que possa realmente começar.
— Desculpa, mas onde vocês conseguiram essa nave? — pergunto, passando por ela e subindo na rampa.
— Sim, sobre isso... — Sarah responde, apontando para frente, como se eu devesse continuar explorando — ... você provavelmente vai querer falar com ela.
— Quem?
Sarah me dá um olhar de que eu deveria simplesmente parar de fazer perguntas e ir, então eu faço isso. Troco um olhar com Marina, que levanta as sobrancelhas também. Só alguns passos para dentro, e tenho o maior déjà vu. Estamos na área dos passageiros. É um espaço aberto, completamente desprovido de qualquer mobília. As paredes emitem uma luz suave indicando que a nave ainda está ligada. Tenho uma vaga memória de estar alinhada ao lado de outro Garde, e os nossos Cêpans nos empurrando para os exercícios de aeróbica e algum treinamento de artes marciais.
Vou caminhando até a parede mais próxima e passo os meus dedos pela superfície. O material de plástico responde, brilhando mais por onde os meus dedos passaram. As paredes são como uma grande tela touchscreen.
Puxo um comando da minha memória, rapidamente desenhando um símbolo lórico na parede. O símbolo pisca uma vez para mostrar que foi aceito, e em seguida, um barulho e então uma porta se abre e duas dúzias de camas surgem. Marina dá um passo para trás quando a porta se abre exatamente onde ela estava.
— Seis, essa é...?
— É a nossa nave — digo. — A mesma que nos trouxe para Terra.
— Eu sempre achei que ela tinha sido destruída ou... — Marina para e sacode a sua cabeça com espanto.
Ela passa os seus dedos na parede oposta, colocando outro comando. A parede inteira se transforma em uma tela gigante de alta-definição com a imagem de um beagle feliz perseguindo uma bola de tênis.
— “Em português, cachorro” — diz uma voz gravada com um sotaque lórico bem perceptivo. — “Cachorro. O cachorro corre. En español, perro. El perro corre...”
Curso de idiomas da Terra. Quantas vezes nós tivemos que ficar sentados assistindo esse vídeo enquanto voávamos para o nosso novo planeta? Eu tinha esquecido isso, mas todo o tédio da minha infância volta de uma vez só. Todo um ano claustrofóbico passado aqui, assistindo um cachorro correr em um campo verde.
— Ahh, desliga — eu peço para Marina.
— Você não quer ver o que o cão faz a seguir? — ela pergunta com um sorriso. Ela passa a sua mão pela parede e o programa para.
Vou até uma das camas e me agacho ao lado dela. Os lençóis cheiram a mofo e estão um pouco sujos. Eles provavelmente ficaram guardados por mais de uma década. Empurro os cobertores e o colchão para o lado, inspecionando a armação.
— Ah, olhe isso — eu digo.
Marina se inclina sobre o meu ombro. Lá, esculpida na armação de metal da cama, por uma garota entediada, está o número seis.
— Vândala! — Marina sorri.
O zumbido mecânico diminui até o silêncio e as paredes touchscreen piscam e desligam. Alguém acabou de desligar a nave.
— Do jeito que você deixou, né?
Marina e eu nos viramos na direção da voz e acabamos por encontrar uma mulher que lentamente emerge da cabine do piloto. Minha primeira observação é de que ela é linda de tirar o fôlego. A sua pele tem um tom escuro de marrom, suas maçãs do rosto altas e pronunciadas, cabelo escuro e curto. Ainda que ela esteja vestida com um macacão de mecânico com manchas de graxa, a mulher parece pertencer a uma capa de revista de moda. Eu rapidamente percebo que ela não é puramente impressionante apenas na aparência. É uma qualidade indiferente que a maioria das pessoas da Terra não seria capaz de perceber, mas eu percebo imediatamente.
Essa mulher é loriena.
Ela parece quase nervosa por ver eu e Marina. Deve ser por isso que levou tanto tempo para desligar a nave. Mesmo agora, ela continua na porta da cabine, tão incerta sobre nós quanto estamos com ela. Há um nervosismo nela, como se a qualquer momento ela fosse voltar para cabine do piloto e trancar a porta. Posso dizer que ela está tentando pensar em algo para dizer.
— Vocês devem ser Seis e Sete — ela diz depois de um momento, ao não conseguirmos nada além de olhares atônicos.
— Você... você pode me chamar de Marina.
— Pode deixar, Marina — a mulher diz com um sorriso gentil.
— Quem é você? — pergunto, finalmente encontrando minha voz.
— Meu nome é Lexa — a mulher responde. — Estive ajudando o seu amigo Mark através do apelido GUARD.
— Você é uma das nossas Cêpans?
Lexa finalmente sai da porta e se senta em uma das camas. Marina e eu sentamos na sua frente.
— Não, eu não sou uma Cêpan. O meu irmão era um Garde, mas ele não passou do treinamento da Academia de Defesa de Lorien. Eu estava matriculada lá também, como uma estudante de engenharia, quando ele... quando ele morreu. Depois disso, eu meio que, hã, me distanciei da Garde. O quanto você conseguisse em Lorien. Eu não me encaixava exatamente nas regras. Eu trabalhava muito com computadores, às vezes fora da legalidade. Eu não era ninguém especial, basicamente.
— Mas você acabou aqui — Marina diz, com a sua cabeça inclinada.
— Sim, eu fui contratada para reformar uma nave antiga para um museu...
Esse detalhe dá um clique na minha mente.
— Você veio na segunda nave para Terra — eu digo.
— Sim. Eu vim para cá com Crayton e a minha amiga Zophie. Vocês provavelmente já sabem disso, mas nós não fazíamos parte do plano dos Anciãos. Conseguimos escapar de Lorien graças a Crayton, bem, porque ele trabalhava para o pai de Ella, e porque nós tínhamos acesso a essa nave antiga. O pai da Ella, ele sabia o que estava por vir. Então me contratou para consertar a nave. Eu nem sabia realmente como pilotar. Tive que aprender, bem... durante o voo.
Sorrio para o humor negro de Lexa, mas a minha mente está correndo. Há mais de nós. Talvez os lorienos não estejam mesmo extintos. Eu deveria estar animada com isso, mas em vez disso fico desconfiada. Eu provavelmente só estou sendo paranoica depois do que aconteceu com o Cinco. Ainda assim, penso em Crayton e em como ele criou a Ella enquanto secretamente procurava o resto da Garde.
Ele nunca mencionou que veio com mais duas lorienas. Meus olhos se estreitam.
— Crayton nunca nos contou sobre vocês — eu digo, tentando não parecer tanto uma acusação.
Crayton escondeu muitas coisas de nós, afinal. Como a verdadeira origem da Ella, que só descobrimos depois que ele morreu.
— Eu acho que não — responde Lexa, franzindo a testa. — A sua única preocupação era em manter a Ella viva. Nós concordamos em não manter contato um com o outro. Era mais seguro para todos se mantivéssemos distância. Vocês sabem como são os mogs. Eles não podem torturar por informação se você na verdade não sabe de nada.
— E a sua amiga? Zophie? Onde ela está?
Lexa balança a cabeça.
— Ela não conseguiu. Seu irmão era o piloto desta nave. Da nave de vocês. Zophie veio procurar por ele, e na verdade pensou que o tivesse encontrado pela internet, mas...
Marina fica pálida.
— Mogs.
Lexa concorda tristemente.
— Depois disso, eu estava sozinha.
— Você não estava sozinha, afinal. Nós estávamos lá fora. Muitos de nós – droga, todos nós perdemos os nossos Cêpans. Alguns cedo demais. Nós poderíamos precisar de uma orientação. Por que você esperou tanto tempo? Por que não tentou nos encontrar?
— Você sabe porque, Seis. Pelas mesmas razões que o seu Cêpan não tentou achar os outros. Era muito perigoso tentar fazer contato. Tudo na Internet poderia significar exposição. Eu fiz o que pude de longe. Canalizei dinheiro e informações de grupos que estavam trabalhando para expor os mogadorianos. Comecei um website chamado “Alienígenas Anônimos” para espalhar as informações e tentar expor o que eles estavam fazendo com o ProMog. Foi assim que eu encontrei o Mark.
Penso como deve ter sido para ela, uma estranha em um planeta estranho, sem ninguém para confiar. Na verdade, não preciso imaginar pelo que ela passou. Eu vivi isso. Eu sabia do perigo e nunca parei de procurar os outros. Não consigo disfarçar a amargura na minha voz.
— Perigoso para nós ou para você?
— Para todos nós, Seis — Lexa responde. Noto que as minhas palavras a atingiram. — Eu sei que isso não é nem uma fração da responsabilidade que os Anciãos colocaram em vocês nove, mas... Eu não pedi por isso também. Consegui um trabalho em um museu e a próxima coisa que sei é que estou voando em uma nave velha para um planeta em um sistema solar completamente diferente com os últimos da Garde vivos como carga. Eu perdi meu irmão, a minha melhor amiga, a minha vida toda.
Ela respira fundo. Marina e eu ficamos em silêncio.
— Eu disse a mim mesma que estava ajudando o suficiente de longe. Então, fiz o que pude à distância. Apaguei todas as informações que eu encontrei de vocês online. Tentei deixar vocês invisíveis, não só para o mundo, mas para mim. Talvez fosse covardia. Ou vergonha. Eu não sei. Eu sabia lá no fundo que deveria estar fazendo mais. Eu sempre tive a intenção de recuperar a nave, e então contatar vocês, uma vez que tivessem idade suficiente e uma vez que eu...
— Você está aqui agora — Marina diz gentilmente. — Isso é o que importa.
— Eu não podia mais ficar escondida. Eu já tinha fugido de um planeta durante uma invasão. Decidi que era hora de parar de fugir.
Isso me atinge como um tapa. De algum jeito, depois de passar anos nos escondendo dos mogadorianos, todos nós decidimos que já era hora de parar de fugir. Eu só espero que não seja tarde demais.
— Estaria tudo bem se eu lhe desse um abraço agora? — Marina pede para Lexa.
A pilota é pega de surpresa, mas concorda. Marina a envolve em um grande abraço, enterrando o rosto no ombro da mulher. Lexa me vê observando e me dá um sorriso quase envergonhado antes de fechar os olhos e se deixar ser abraçada. Ela suspira, e talvez eu esteja imaginando isso, mas parece que um peso invisível saiu dos seus ombros.
Eu não me junto a elas. Abraço em grupo não é bem para mim.
— Obrigada por vir — eu digo depois de um momento. — Bem-vinda ao Santuário.
Com isso eu levo as duas para fora da nave. Dou uma última olhada na área dos passageiros da nave antes de enterrar o resto das memórias da fuga de Lorien. Eu não sou mais uma criança. Essa invasão vai ser diferente.
Lá fora, Adam e Mark parecem estar no meio de uma discussão. Sarah fica a alguns passos de distância deles, mais perto da nave, obviamente esperando por nós. Ela levanta as suas sobrancelhas em questionamento quando me vê e eu suspiro em resposta.
— Loucura quem você trouxe para o México — eu digo tentando ignorar o choque e a mistura de sentimentos de encontrar a Lexa.
Juntas, nós caminhamos até o Mark e Adam. Mark já com suor marcando sua camiseta, e parece que ele está tendo um problema em entender alguma coisa.
— Um buraco — ele diz, sem rodeios. — Vocês vão matar o Setrákus Ra com um buraco no chão.
Adam suspira, apontando para as seções de artilharia escondidas na mata.
— Você está realmente preso na parte do plano do buraco. Nós temos armas escondidas, bombas...
— Mas para o Setrákus Ra vocês têm um buraco.
— Percebo que é baixa-tecnologia, mas as nossas opções são realmente limitadas — Adam responde. — E nós não estamos tentando matá-lo. Essa não é nem uma possibilidade, considerando que qualquer coisa que fizermos será revertido na Ella. Nós só queremos atrasá-lo e comprar algum tempo para nós.
— Tempo para quê? — Mark pergunta.
Adam olha de relance para mim.
— Para resgatar a Ella, roubar a Anubis de Setrákus Ra embaixo do seu nariz ou os dois.
— Por que nós simplesmente não vamos embora? — Mark pergunta, já querendo voltar para a nave lórica recém-chegada. — Entendi que todas essas armadilhas podem ser uma boa ideia quando vocês estavam, bem, presos aqui. Mas agora nós podemos ir.
— Essa não é uma opção — Marina responde. — O Santuário deve ser defendido a todo custo.
— A todo custo? — Mark repete, olhando de novo para nave, e então de novo para o templo. — Que diabos têm de tão especial sobre esse lugar?
Percebo que a Lexa está estranhamente quieta durante a discussão.
Os seus olhos estão presos no Santuário, seu rosto pálido, com um olhar parecido com o de Marina, quando ela fica com aquele jeito, com os traços em reverência. Lexa deve ter percebido que estava sendo observada, porque balança a sua cabeça abruptamente e encontra o meu olhar.
— Esse lugar... — ela procura pelas palavras corretas. — Há alguma coisa especial nele.
— É um local lórico — Marina responde. — O lugar de Lorien agora, na verdade. A fonte dos nossos Legados está lá dentro.
— Nós acabamos de selar a entrada, senão lhes daríamos um tour — acrescento. — Nós poderíamos até apresentar a vocês a criatura que vive lá dentro. Bem legal, para uma Entidade feita de pura energia lórica.
Lexa me lança um rápido sorriso antes de responder.
— Eu posso sentir... o que quer que seja lá dentro. Posso senti-la nos meus ossos. Entendo o motivo de quererem proteger este lugar.
— Obrigada — Marina responde.
— Dito isso... — e agora Lexa olha na minha direção. — Tenha em mente que a minha nave, nossa nave, está pronta. Se vocês precisarem. Já derrubou uma das naves deles antes.
Aceno sutilmente e troco um rápido olhar com Adam. Marina pode não querer admitir que nós precisamos de uma, mas nós tínhamos uma estratégia de fuga da qualquer maneira, e essa é muito melhor do que correr na selva.
— Cara, o que quer que esteja lá dentro, é como se estivesse no comando dos Legados? — Mark pergunta, olhando para o Santuário com as mãos no quadril.
— Nós achamos que sim — confirmo.
— Então foi isso que decidiu que o nerd do Sam Goode deveria desenvolver super poderes e que eu... — então ele para, fazendo careta. — ... merda. Eu deveria ter sido mais legal no colégio.
Tento não rir. John deve ter contado a Sarah e Mark sobre os humanos desenvolvendo Legados graças à nossa brincadeira no Santuário. Eu não sei como a Entidade decide quem deve desenvolver Legados, mas realmente não espero que seja caras como o Mark, mesmo que ele esteja arriscando a sua bunda por nós pelos últimos meses.
Sarah por outro lado...
— E você? — eu digo, olhando para ela.
Sarah encolhe os ombros e olha para suas mãos, como se esperasse que raios de luz surgissem delas a qualquer momento.
— Nada ainda — ela diz, franzindo a testa. — Ainda sou só uma humana normal.
Sarah tenta agir normal, mas posso ver que isso está a incomodando. Depois de tudo o que ela já fez por nós, pelo John em particular, me parece um enorme descuido por parte da Entidade não dar Legados a ela, escolhendo outros humanos para desenvolvê-los.
— Pelo o que John nos contou, Sam descobriu que ele tinha Legados quando um píken estava quase caindo em cima deles — aponto. — Talvez você só não esteve em uma situação onde eles pudessem se desenvolver.
— Sim — Marina concorda, entrando na conversa. — Falando por experiência, os Legados têm o hábito de só se manifestarem quando você precisar deles.
— Oh, ótimo — Mark diz. — Então, se nós ficarmos por aí encarando a morte, talvez haja uma chance de pelo menos morrermos com superpoderes.
— Sim. Talvez — eu o respondo.
— Ou talvez a Entidade não tenha escolhido ninguém — Adam diz. — Talvez seja aleatório.
— Diz o mogadoriano com Legados — comenta Mark.
— Seja como for, está bom — Sarah diz, claramente tentando mudar de assunto. — Eu não estou contando que isso aconteça. Então, tanto faz. Mas isso não significa que eu não posso ajudar de outras formas. Acabei de falar com o John antes de pousarmos.
— Ele está a caminho? — pergunto. — Ele deveria estar trazendo as grandes armas com ele.
— Eu não sei se isso vai acontecer — Sarah responde, com uma carranca que só pode significar uma má notícia. — O governo não está exatamente cooperando. Tipo, eles querem lutar, mas não querem perder.
— Que merda significa isso?
— Que eles estão sendo uns bunda-moles — Mark explica.
— Eles não querem se jogar em uma luta contra o Setrákus Ra a menos que saibam que vão vencer. Então, eles vão nos apoiar, mas não vão lutar contra ele. Ainda não, de qualquer maneira.
— Patético — eu digo.
Sarah olha para Adam.
— John ainda quer que você consiga aquelas peças dos Skimmers.
— Assim ele pode dar essa tecnologia para o exército que não vai nos ajudar? — Adam pergunta, com uma sobrancelha levantada.
— Basicamente.
— Eu já cuidei disso. Tirei delas antes de colocar os explosivos nas naves — Adam responde, olhando para mim. — Vamos ou não entregá-las? Podemos decidir depois.
— Por que diabos nós vamos entregar se eles não vão nos ajudar a lutar? — pergunto a Sarah.
Todo esse acordo parece terrivelmente com o que a Agente Walker nos descreveu lá em Ashwood Estates. ProMog. Mesmo agora, com as grandes cidades praticamente como crateras fumegantes, o governo ainda está jogando e tentando ser legal com os alienígenas recém-chegados.
— Por diplomacia? — Sarah responde, dando de ombros como se a situação estivesse fora do seu controle. A qual obviamente está. Como normalmente, nós estamos sozinhos. — John acha que eles podem nos ajudar uma vez que vejam um modo de vencer os mogs.
— Quando ele vai chegar aqui? — Marina pergunta.
O rosto de Sarah fica triste.
— Mais más notícias. Cinco está mantendo Nove refém em Nova York.
Ouço estalos de gelo nos punhos de Marina.
— O quê?
— Sim, não é bom — Sarah responde. — John e Sam estão tentando achá-lo e impedi-lo antes de... bem, o que quer que seja que aquele psicopata está planejando.
— Eu deveria tê-lo matado — murmura Marina.
Lanço um olhar rápido para ela. Ela tem sido tão pacifista desde que estivemos no Santuário, tão parecida com a antiga Marina, toda da não-violência e serena. À primeira menção do Cinco, e a sua “escuridão” vem à tona.
Sarah continua, sem ter escutado Marina.
— Uma vez que eles tenham resolvido isso, John estará a caminho, mas...
Olho para a linha de árvores da selva. O sol já está começando a baixar.
— Ele não vai chegar a tempo — completo, sentindo um nó em meu estômago. — Vai ser só a gente.
— Ele vai tentar — Sarah insiste, e tenho certeza de que ela está esperando o seu namorado aparecer no horizonte como se fosse um herói, ele e Sam apoiados pelas forças armadas dos Estados Unidos. Eu não me iludo com isso.
— Nós precisamos voltar ao trabalho — aponto. — Tudo precisa estar pronto.
— Ou nós poderíamos ir embora — Mark diz, levantando as mãos.
Quando ele recebe um olhar feio de Marina, ele recua.
— Está certo, está certo. Mostre-me onde tenho que cavar.


Nós começamos a trabalhar.
Primeiramente, Adam coloca o corpo retorcido de Areal na nave de Lexa. A Chimæra parece um pouco melhor agora, como se a tensão estivesse saindo dos seus músculos, mas ele ainda não consegue mudar de forma e não está nem perto pronto para um combate. Ele vai ter que ficar observando tudo de longe.
Lexa quer ver os dispositivos que nós retiramos dos Skimmers, então Adam e eu mostramos a ela onde os empilhamos na tenda da munição. Cada um é uma sólida caixa de mais ou menos o tamanho de um laptop.
— Eles estavam atrás dos controles de pilotagem dos Skimmers — Adam explica, manuseando a abertura de um dos dispositivos, cheia de cabos. — Tentei mantê-los o mais intacto possível.
Nós os colocamos em uma mochila de pano e levamos para a nave da Lexa, prontos para serem entregues para os nossos generosos amigos no governo, que, em troca, nos darão um bando de nada.
Isso, é claro, presumindo que consigamos sair do México vivos.
— Vai funcionar? — pergunto a ela.
— Eu acho que sim — Lexa responde. Ela tira o recobrimento de um cabo e, em seguida, conecta o fio exposto na porta de alimentação do dispositivo de camuflagem. — Acho que não vamos ter certeza até tentarmos passar pelo campo de força deles.
Ir contra uma nave de guerra em uma nave lórica remodelada que pode ou não passar pelo campo de força impenetrável que há a sua volta. Essa é com certeza uma situação que eu não esperava.
— Se não funcionar...
— Nós poderíamos explodir — ela diz, antes que eu possa terminar. — Não vamos apressar isso, ok?
Enquanto Adam e Lexa continuam arrumando o dispositivo no sistema da nave lórica, o resto de nós vai trabalhar na cova em à frente entrada do Santuário. Adam conseguiu algumas pás que estavam enterradas nos equipamentos dos mogadorianos, aparentemente eles desistiram de tentar cavar a sua entrada para o Santuário há muito tempo. Mark parece um pouco feliz demais em tirar a camisa e começa a jogar pás de terra sobre o seu ombro. Bernie Kosar se junta à ele alegremente, e o Chimæra se transforma em uma toupeira imensa. Com os seus três dedos-garras, Bernie Kosar faz chover sujeira para fora da cova. Parece que ele está tendo uma explosão de energia. Mark, por outro lado, não fica muito tempo entusiasmado.
O calor da selva logo toma controle.
— Isso é uma merda! — eu o escuto reclamar várias vezes para Sarah, enxugando o suor da sua testa.
— Espere até os mogs aparecerem e começarem a atirar na gente — Sarah responde. — Você vai desejar ter mais trabalho manual.
Logo em seguida chegamos a uma camada de terra que é dura demais para que consigamos cavar com a pá. É muito mais fácil quando Adam vem e faz uma explosão sísmica para acabar com essas rochas, e então Marina e eu usamos a nossa telecinesia para tirar as grandes rochas da cova e esconder a terra e as pedras na selva.
Eventualmente, nós temos um buraco cavado. Agora que terminamos, Marina e eu usamos cuidadosamente a nossa telecinesia para levantar o nosso cubo depois de remover as sujeiras, e colocamos de volta no lugar. Ele está suspenso sobre a nossa cova, muito precariamente, mas parece muito natural para quem não sabe a diferença. Tenho certeza de que ele vai ceder fácil quando Setrákus Ra cair dentro do buraco de nove metros, para que ele não seja capaz de pular para fora. Com sorte, dentre essa e as outras armadilhas, nós conseguiremos distraí-lo para conseguir entrar a bordo da Anubis.
De volta à forma de beagle, Bernie Kosar fareja a borda escondida da cova, abanando o rabo. Ele parece aprovar.
— E agora? — Mark pergunta, tirando o pó das mãos. — Nós vamos colocar alguns arcos de disparo automático escondidos ou algo assim?
— Não vi nenhum tipo de arco espalhado por aí — Adam responde, coçando o queixo. — Mas nós podíamos fazer algumas lanças com os galhos das árvores. Como você está em talhar?
Ou Adam realmente não percebeu que Mark estava sendo sarcástico ou ele realmente gosta de fazer armadilhas.
— É, vamos deixar assim mesmo — Mark responde, se afastando.
Sarah e companhia, na verdade, tiveram a grande ideia de trazer alguns suprimentos. Todo mundo faz uma pausa, passando garrafas de água e comida. Todos nós fazemos um bom trabalho fingindo que não estamos assustados pelo inferno que está por vir.
Eu paro um pouco longe do resto do nosso grupo, comendo o meu sanduíche e pensando na nave lórica parada na pista de pouso. Alguma coisa está me incomodando, mas não consigo descobrir o quê. É como se tivesse uma voz baixinha gritando um aviso no fundo da minha mente e eu não conseguisse entender o que está dizendo. Vendo-me encarar a nave, Lexa se aproxima.
— Você acha que vai funcionar? — ela me pergunta, inclinando a sua cabeça para as nossas armadilhas.
— Você está me perguntando se nós vamos vencer essa batalha de hoje graças a um grande buraco e algumas armas escondidas na mata? — balanço a minha cabeça solenemente. — De jeito nenhum. Mas talvez nós consigamos estragar os planos do Setrákus Ra de alguma forma.
— Sei que isso provavelmente não significa muito vindo de mim — Lexa começa hesitante, claramente desconfortável. — Mas você é uma ótima líder, Seis. Você está mantendo todos juntos. A sua Cêpan ficaria orgulhosa. Diabos, todos de Lorien ficariam orgulhosos da luta em que vocês estão se metendo.
Posso ver que a Lexa não se refere só por hoje, ela se refere a todo o tempo na Terra, sobrevivendo contra os mogadorianos. Eu a observo pelo canto do olho. Reconheço uma qualidade semelhante nela. Ela é uma sobrevivente. Eu me pergunto se é nela que vou me transformar se essa guerra durar muito tempo; uma pessoa que evita se ligar aos outros, porque já sofreu muito. Talvez eu já seja assim.
— Sim — respondo sem jeito. — Obrigada.
Lexa parece satisfeita com essa breve troca. Ela provavelmente me entende assim como eu a entendo, e não quero um momento meloso. Com uma das mãos, ela aponta para selva, a oeste.
— Quando estávamos pousando, vi uma pequena clareira perto daqui. Colocarei a nave lá, longe do Santuário. Vou deixá-la sob o dossel de árvores para que eles não sejam capazes de ver.
— Bem pensado — concordo. — Não quero que Setrákus Ra saiba que estamos aqui.
— Sim. Há uma boa chance de que ele pense que vocês fugiram.
— Elemento surpresa é praticamente a única coisa boa que temos.
— Às vezes é tudo o que é preciso — Lexa responde, e então me deixa, caminhando em direção a nave.
Nossa nave, ela falou.
Eu a observo ir. Ainda há uma vozinha gritando na minha cabeça, mais alta agora, mas ainda não consigo entender. Eu não sei o que está tentando me dizer.
— Seis? Você ouviu isso?
É Marina, caminhando na minha direção com uma mão pressionada na sua têmpora como se alguma coisa estivesse lhe dando uma enxaqueca.
— Ouvi o quê? — pergunto a ela.
— É como... é como uma voz — ela diz. — Oh, Deus, talvez eu esteja ficando louca.
E é quando percebo que o que está me incomodando não é a voz da minha consciência ou um alerta mental se descontrolando. É literalmente uma voz em minha mente. Uma que não me pertence e está desesperadamente tentando ser ouvida.
— Você não está louca. Eu ouvi também.
Foco no zumbido estridente e, ao mesmo momento, a voz se torna perfeitamente clara, mas ainda distante, como se viesse através de um túnel.
Seis! Marina! Seis! Marina! Vocês podem me ouvir?
Marina e eu nos encaramos. Essa voz telepática pertence à Ella. John mencionou que os seus Legados ficaram mais aprimorados, mas sua telepatia deve estar seriamente forte para que ela seja capaz de transmitir a essa distância para mim e Marina. A cada segundo que passa, sua voz fica mais clara na minha cabeça.
Isso só pode significar que ela está chegando mais perto.
— Ella! — digo em voz alta, não acostumada a utilizar a comunicação telepática. — Onde você está? O que está acont...?
Ela me interrompe telepaticamente com um grito. “O que vocês estão fazendo aí? Eu avisei o John! Ele deveria ter avisado vocês”.
— Ele nos avisou — Marina diz. — Nós estamos aqui para tentar ajudar você. E para proteger o Santuário.
NÃO! Não, não, não, não! — Ella soa um pouco perturbada e definitivamente em pânico. Ele deveria ter avisado vocês.
— Nos avisar sobre o quê? — pergunto.
Avisar para fugir!, Ella grita. Vocês precisam correr! CORRAM OU VÃO MORRER!

18 comentários:

  1. Fala serio que realmente existia a mínima possibilidade de Rá cair em um buraco na mata???!!!

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    1. Né! Mark tinha total razão, um buraco?? kkkkk

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    2. — Um buraco — ele diz, sem rodeios. — Vocês vão matar o Setrákus Ra com um buraco no chão.
      kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk ai ai cada coisa

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  2. Eu só acho que o Setrakus Ra vai esplodir o templo e não entrar e que eles tem q vazar rápido

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    1. Ah, não acho que ele vá explodir. Ele quer capturar a Entidade que vive lá, não acabar com ela, né?

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    2. Mais uma Entidade que da poderes as pessoas deve sobreviver a uma esplosão né?

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  3. Achei mesmo que alguma coisa ia acontecer...
    Esse plano estava perfeito demais para ser verdade, e conhecendo a história deles...

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  4. Galera eu to quase indo procurar aquele carinha do coracao de tinta pra me colocar nessa historia pq CARA ISSO VAI DAR RUIM.. Se bem q vai ser engracado o sekratus ra caindo num buraco kkkk

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  5. fudeu tudo,pq eles não ouviram Ella,ela vê o futuro caramba é dificil de entender??


    xisto,xisto(entendedores entenderão)

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    1. O futuro é incerto como Ella disse ele se modifica há todo momento

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  6. — Oh, ótimo — Mark diz. — Então, se nós ficarmos por aí encarando a morte, talvez haja uma chance de pelo menos morrermos com superpoderes.

    Ri pacas kkkkkkkkkkkk

    - Brenda

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  7. — Eu já cuidei disso. Tirei delas antes de colocar os explosivos nas naves — Adam responde, olhando para mim. — Vamos ou não entregá-las? Podemos decidimos depois.
    Não devia ser: "Podemos decidir depois."?

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  8. Adam é quase o Fred de Scooby doo pra fazer armadilhas. Kkkkkk. Eu só queria que o final não fosse estilo Jogos Vorazes ou Divergente. Será que matar um planeta inteiro e 4 membros da Garde, além de todos os Cêpans não é suficiente?

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  9. MORRI de rir com esse capítulo kkkkkkkkkkkkk ♥

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  10. um buraco kkkkkkkk mds

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