14 de outubro de 2015

Capítulo nove

OS SOLDADOS NOS PRESSIONARAM ATÉ OS TÚNEIS DO METRÔ PARA LONGE DA estação mais próxima e, finalmente até a luz do dia. Eles estão constantemente na nossa cola, um escudo humano, nos tratando como o Serviço Secreto trata o presidente.
Eu me deixo ficar mais próximo deles, sabendo que posso facilmente atravessá-los com um empurrão ao primeiro sinal de problemas. Nós não encontramos nenhuma patrulha mogadoriana no caminho de volta aos seus Humvees blindados, e rapidamente estamos ecoando pelas ruas preenchidas com pedaços dos prédios, os destroços, o resultado do bombardeamento feito pela Anubis ontem à noite.
Alcançamos a Ponte do Brooklyn rapidamente e sem incidentes.
No lado de Manhattan, o exército preparou uma barreira fortemente armada. Soldados empacotando metralhadoras observam as ruas de trás de um bloco de sacos de areia. Atrás deles, três linhas de tanques estão estacionadas, seis do outro lado da ponte, suas torres armadas e apontadas para o céu. Helicópteros carregados com mais misseis patrulham o céu e alguns botes bem cheios estão preparados no rio.
Se os mogadorianos tentarem tomar o Brooklyn, eles definitivamente encontrarão resistência.
— Vocês tiveram que lutar com muitos deles? — pergunto ao soldado que está dirigindo nosso Humvee enquanto nós passamos pela barreira segura e começamos a diminuir a velocidade devido ao engarrafamento na ponte.
— Nenhum. Senhor — ele responde. — Os hostis ficaram em Manhattan até agora. Aquela grande nave voou bem acima de nós essa manhã e não nos comprometeu. Você me diz, eles não querem nenhum pedaço de nossos soldados.
— Senhor — Daniela repete, levantando uma sobrancelha para mim e rindo.
— Eles estão preservando Manhattan — eu digo, inclinando para trás e franzindo a testa, sem entender porque os mogs não atacaram.
— É como se Setrákus Ra estivesse mandando uma mensagem — Sam diz calmamente. — “Olha o que eu posso fazer”.
— Se eles vierem até nós, nós estaremos preparados — o soldado diz, se intrometendo.
Olhando pela janela, descubro atiradores escondidos nas estruturas da ponte, vigiando o lado Manhattan da ponte através de seus binóculos.
Troco um olhar de dúvida com Sam. Quero acreditar nessa demonstração de força do exército, mas vi o tipo de destruição que os mogs são capazes de fazer. O único motivo pelo qual o Brooklyn ainda está de pé é porque Setrákus Ra permitiu.
O soldado estaciona nosso Humvee no meio de um quarteirão da cidade que foi convertido em uma área de preparação para os militares. Existem tendas nas proximidades, mais Humvees e muitos soldados com olhares inquietantes e com armas. Também há uma longa fila de civis, muito deles sujos e com lesões superficiais, agarrando seus bens escassos à medida que esperam em uma fila de contagem. No início dela, alguns voluntários com pranchetas anotam as informações das pessoas exaustas, antes de direcioná-las até os ônibus das cidades comandadas.
Nossa escolta me nota observando o lento processo de refugiados.
— Os voluntários estão tentando manter o controle dos sem teto — o soldado explica. — Então estamos evacuando para Long Island, Nova Jersey, qualquer lugar. Levando-os para longe da luta até conseguirmos recuperar Nova York.
O soldado mede Sam e Daniela de cima abaixo, então olha para mim de novo. De repente me ocorre que esse cara está esperando que eu lhe dê ordens.
— Você quer que evacuemos esses dois? — o soldado pergunta, referindo se aos meus companheiros.
— Eles estão comigo — eu digo a ele, e ele acena com a cabeça, aceitando sem questionar.
Daniela observa os voluntários checarem um casal idoso e ajudá-los a subir no ônibus.
— Eles têm uma lista ou algo que eu possa checar? Eu estou... procurando por alguém.
O soldado encolhe o ombro como se essa não fosse sua área de conhecimento.
— Claro, você poderia perguntar.
Daniela vira para mim.
— Eu estou indo...
— Vá — respondo, acenando. — Espero que você a encontre.
Daniela sorri para Sam, então para mim, e começa a se afastar.
— Hum, sobre aquela coisa toda de salvar o mundo... — ela começa, hesitando.
— Quando você estiver preparada, venha e me procure — eu digo a ela.
— Você está assumindo que em algum momento eu irei estar preparada — Daniela responde.
Ela ainda não mencionou sua mochila de dinheiro roubado, desde que ela foi deixada para trás no metrô.
— Sim, eu estou.
Daniela demora mais um segundo, os olhos fixados nos meus.
Então, acena para si mesma, se vira e corre em direção aos voluntários.
Sam olha para mim como se eu fosse louco.
— Você está a deixando ir? Uma das únicas... — Sam olha de relance para o soldado que ainda está pacientemente esperando próximo a nós, sem ter certeza de quanto ele deveria dizer.
— Não posso forçá-la a se juntar a nós, Sam — eu respondo. — Mas o que aconteceu a ela – o que aconteceu com você... tem que ter uma razão. Tenho fé de que isso não vai ser para nada.
— A barraca da Agente Walker está nessa direção, senhor — o soldado diz, acenando para eu e Sam seguirmos.
— Os celulares ainda estão funcionando? — pergunto a ele enquanto nós atravessamos o congestionado acampamento. — Preciso fazer uma ligação. É importante.
— Métodos tradicionais ainda não estão funcionando, senhor. Os inimigos se atentaram a isso. No entanto, nós provavelmente temos alguma coisa que você possa usar no centro de comunicação — o soldado diz, apontando para uma tenda próxima com muita atividade. — Todavia, devo levá-los diretamente à Agente Walker. Se você permitir.
— Se eu permitir?
— Nós fomos brevemente informados de seu histórico de... dificuldades com as autoridades — o soldado diz, timidamente examinando a alça de seu rifle. — Foi-nos dito para não entrar em combate ou forçar vocês a fazerem qualquer coisa. Os parâmetros da missão são limitados a apenas gentilmente cutucar.
Balanço minha cabeça, desacreditando. Não há muito tempo fui considerado um inimigo dos Estados Unidos. Agora, estou sendo tratado como um estrangeiro digno pelo exército.
— Tudo bem — eu digo, decidindo não tornar a vida difícil para nossa escolta. — Aponte-me a direção da Agente Walker e então ajude meu amigo Sam a colocar suas mãos em um telefone via satélite.
Momentos depois, ando ao lado do píer de concreto observando o East River e Manhattan. O ar está fresco e gelado, no entanto ainda está tingido com um irritante cheiro de queimado que sopra de Manhattan.
Daqui, tenho uma visão clara da destruição que os mogadorianos impuseram na cidade. Pilares de fumaça negra sobem no brilhante céu azul, o fogo que ainda queima. Existem lacunas no horizonte da cidade, espaços onde sei que edifícios deviam estar, simplesmente apagados pelas poderosas armas de energia da Anubis. Ocasionalmente, posso fazer um rasante entrelaçando entre os edifícios, os mogs patrulhando as ruas.
A Agente Walker está sozinha na grade, observando a cidade.
— Como você me encontrou? — pergunto como um modo de cumprimento, enquanto me aproximo.
A Agente do FBI que uma vez tentou me prender agora sorri para mim.
— Alguns sobreviventes mencionaram tê-lo visto — Walker responde. — Nós enviamos grupos para fora da área geral. Começamos a procurar onde a principal nave de guerra estava despejando artilharia pesada.
— Boa ideia — respondo.
— Estou feliz por você estar vivo — ela diz bruscamente.
O cabelo ruivo e grisalho da Walker está puxado para trás em rabo de cavalo. Ela parece exausta, olheiras pesadas abaixo de seus olhos. Em algum momento, trocou seu habitual casaco e terninho por um colete Kevlar, provavelmente emprestado do grande contingente do exército que está garantindo a segurança desta área. Seu braço esquerdo está em uma tipoia, e há uma bandagem feita às pressas em sua testa.
— Quer que eu a cure? — pergunto.
Em resposta, Walker dá uma olhada em volta. Nós dois estamos sozinhos no momento, em um pequeno parque escondido embaixo da Ponte de Brooklyn. Ou melhor, tão sozinhos quanto conseguimos ficar em um lugar que basicamente se tornou um campo para refugiados do dia para a noite. O gramado montanhoso atrás de nós está cheio de tendas improvisadas, onde nova iorquinos feridos e assustados se apertam. Acho que essas são as pessoas que recusaram serem evacuadas pela Cruz Vermelha, ou talvez estivessem feridas demais para fazer esta viagem.
Há tendas espalhadas pelo arredor do bloco, e tenho certeza que há pessoas agachadas nos chiques apartamentos construídos à beira do rio nas proximidades. Intercalados através dos sobreviventes, mantendo a ordem e cuidando dos feridos, estão os soldados, policiais e alguns médicos, apenas uma pequena parte da força de milhares que vi reunidos perto da ponte. É essencialmente um caos organizado.
— Esses seus poderes, eles têm limites? — Walker pergunta, olhando como uma mulher deixada na grama do parque que teve um braço severamente queimado tratado por um médico apressado.
— Sim, eu os sobrecarreguei ontem — respondo, coçando a parte de trás do meu pescoço. — Por que você pergunta?
— Porque por mais que eu aprecie a oferta, nós temos milhares de feridos aqui, John, com mais chegando a cada hora. Você quer gastar todo o seu tempo remendando as pessoas?
Encaro as filas das pessoas no parque, muitas delas descansando em nada mais do que a grama. A maioria delas está me observando. Ainda não estou confortável com isso, ser o rosto da Garde. Eu me viro de volta para a Walker.
— Eu poderia. Isso salvaria algumas vidas.
Walker balança sua cabeça me olha.
— Os mais feridos estão na tenda de classificação. Nós podemos dar uma passada por lá depois, se você quiser fazer toda essa coisa de Mãe Teresa. Mas você e eu sabemos que há maneiras melhores de gastar o seu tempo.
Eu não respondo, e não levo a questão adiante. Walker geme e caminha ao longo dos canais, indo em direção a uma coleção de tendas do exército levantadas nas proximidades de uma praça. Dou outra rápida olhada em volta do parque. Atravessando a ponte, as coisas parecem bem seguras. No entanto, de volta onde eu estava, está uma absoluta loucura. Pessoas feridas, soldados, policiais militares – eu nem sei por onde começar.
— Então, você é a responsável aqui? — pergunto a Walker, tentando me orientar.
Ela bufa.
— Você está brincando, certo? Há generais cinco estrelas na cena planejando operações de contra-ataque. A CIA e a NSA estão aqui, coordenando com pessoas de Washington, tentando dar sentido a todas as informações que estão sendo recebidas de todo o mundo. Eles tiveram o presidente em videoconferência mais cedo nesta tarde, por mais espirituoso que o Serviço Secreto seja. Eu sou apenas uma Agente do FBI, não muito em comando.
— Ok, se este é o caso, por que eles me trouxeram até você, Walker? Por que nós estamos conversando?
Walker para e vira para mim, com suas mãos nos quadris.
— Por causa de nossa história, nossa relação...
— É disso que você está chamando?
— Eu fui nomeada sua ligação, John. Seu ponto de contato. Qualquer coisa que você nos contar sobre os mogadorianos, suas táticas, esta invasão – isso será dito através de mim. Da mesma forma, qualquer requisição que você poderá fazer para as forças armadas dos Estados Unidos.
Deixo escapar uma risada aguda e sem graça. Eu me pergunto onde estão os generais. Procuro pelas tendas próximas procurando por alguma que pareça mais importante que as outras.
— Sem ofensa, Walker, mas eu não preciso de você como um meio comunicação.
— Não é você quem decide — ela responde, resumindo sua caminhada pelo píer. — Você tem que entender que as pessoas no comando, o presidente, seus generais, o que sobrou de seu gabinete – eles não eram do ProMog. Quando os mogs fizeram contato, nós quase tivemos um golpe bem-sucedido em nossas mãos com as escórias do ProMog defendendo a rendição. Por sorte, com o Sanderson fora da jogada...
— Espera aí. O que aconteceu com ele? — pergunto.
Eu perdi o sinal do secretário da defesa durante a batalha com Setrákus Ra.
— Ele não resistiu — Walker responde tristemente. — Eu tinha pessoas suficientes em Washington para se livrar da maioria das maçãs podres. Aquelas que nós sabíamos, pelo menos.
— Então você está dizendo que a maioria dos ProMog se foram e que nós fomos deixados com...
— Um governo fraturado que foi mantido totalmente nas sombras. Essa invasão, a ideia de aliens de outro planeta nos atacando, é tudo novo para eles. Eles aceitam que você está lutando do nosso lado. Mas você ainda é um extraterreste.
— Eles não acreditam em mim — eu digo, incapaz de manter a amargura da minha voz.
— A maioria deles nem mesmo acredita mais um no outro. E de qualquer forma, você não deveria confiar neles — Walker responde empaticamente. — Os membros ProMog conhecidos foram todos presos, mortos ou se esconderam. Mas isso não significa que pegamos todos eles.
Eu dou uma olhada para Walker, revirando meus olhos.
— Então melhor para mim continuar com o diabo que eu conheço, não é?
Ela abre os braços, obviamente não esperando que realmente eu a abrace.
— Isso mesmo!
— Tudo bem, aqui está meu primeiro pedido: contato. A Anubis – a nave de guerra que deixou Nova York essa manhã – está carregando Setrákus Ra e está indo para o México.
— Ah, bom — Walker interrompe. — Eles vão gostar disso. Uma ameaça a menos para os céus do EUA.
— Eles precisam enviar jatos, lutadores, drones, o que quer que eles tiverem — continuo. — A nave está indo em direção de um lugar de grande poder, um lugar lórico. Eu não tenho certeza do que Setrákus Ra quer lá, mas sei que será ruim se ele conseguir. Nós temos que levar a luta até ele.
A expressão da Walker fica mais sombria quanto mais eu falo. Já posso dizer que não vou gostar do que ela tem a me dizer. Ela me leva para fora do píer, atravessando algum emaranhado de grama e para em frente de uma tenda de lona ligeiramente isolada das outras.
— Um ataque direto não vai acontecer — ela responde.
— Por que diabos não?
— Meu quartel General — ela diz, empurrando a abertura da aba de entrada. — Vamos conversar lá dentro.
Dentro da tenda da Walker está uma cama não usada, uma mesa bagunçada e um laptop. Há um mapa da cidade de Nova York com linhas vermelhas cruzando nela – se eu tivesse que adivinhar, apostaria que as linhas vermelhas representam o caminho que a Anubis fez durante o ataque de ontem. Walker puxa um segundo mapa debaixo do mapa de Nova York, este do mundo inteiro. Há alguns sinistros Xs pretos desenhados sobre várias das principais cidades – Nova York, Washington, Los Angeles e lugares mais distantes como Londres, Moscou e Beijing. Há mais de vinte cidades marcadas neste mapa.
Walker bate seus dedos no papel.
— Essa é a situação, John — ela diz. — Cada marca é uma das naves de guerra. Você sabe como derrubar uma dessas coisas?
Balanço minha cabeça.
— Ainda não, mas ainda não tentei.
— A força aérea tentou ontem, e não deu muito certo.
Eu franzo a testa.
— Eu os vi voando. Sei que não conseguiram.
— Eles tiveram algum sucesso contra as menores naves, mas elas nem se comparam com a Anubis. A força aérea estava considerando outro ataque quando os chineses tentaram.
— O que isso significa?
— Algumas horas depois do ataque em Nova York, eles ficaram com os dedos no gatilho. Provavelmente estavam preocupados que seriam os próximos a serem atacados. Eles lançaram tudo o que puderam com exceção de uma bomba nuclear na nave que estava sobre Beijing.
— E?
— Vítimas em dezenas de milhares — Walker responde. — A nave de guerra ainda está no ar. Elas estão protegidas de alguma forma. Os cientistas chineses dizem que é um tipo de campo eletromagnético. Se cansaram de lançar jatos contra esse campo, então tentaram lançar paraquedas com uma pequena força diretamente na nave de guerra. Aqueles caras não sobreviveram ao contato com o campo.
Lembro-me do campo de força em volta da base mogadoriana de West Virginia. O choque que recebi ao tocá-lo foi o suficiente para me nocautear e me deixar doente por dias.
— Eu já atravessei o campo de força deles antes — eu digo a ela. —Literalmente.
— Como você o derrubou?
— Nunca consegui.
Walker me dá um olhar inexpressivo.
— E aqui estava eu , tendo um pouco de esperança.
Olho de volta para o mapa e balanço minha cabeça. Todo os Xs pretos me parecem uma batalha que não sei como vencer.
— Vinte e cinco cidades sob ataque. Você tem alguma notícia boa, Agente Walker?
— É isso — ela diz. — Esta é a boa notícia.
Levanto uma sobrancelha para ela.
— Alguns lugares, como Londres e Moscou, enviaram tropas para lutar contra os mogs. Mas não houve resposta como aqui ou em Beijing. Nenhum bombardeio, nenhum monstro furioso. É como se os mogs estivessem pegando leve com eles. E também há alguns lugares como Paris e Tóquio que não levantaram nenhum dedo se quer. Essas cidades não estão atualmente sob ataque. As naves de guerra e as naves de escolta estão controlando o espaço aéreo, mas além disso, não há nenhum mog em terra firme. E então, esta manhã, aquela nave de guerra voou bem em cima de nós, como se não fôssemos nada. Isso fez algumas pessoas pensarem que talvez eles não quisessem lutar. Talvez tudo isso seja um grande mal-entendido com os extraterrestres, que nós não deveríamos tê-los atacados primeiro.
— Nós não atacamos — aponto.
— Eu sei disso, mas em volta do mundo, o que nós vimos...
— Setrákus Ra está enviando uma mensagem — eu digo. — Mesmo sabendo que ele tem a vantagem, ele não quer uma batalha demorada. Ele quer intimidar a humanidade à submissão. Ele quer que nós desistamos.
Walker acena e anda até seu laptop. Ela coloca uma série de senhas, o que não é uma tarefa fácil considerando que ela tecla com apenas uma mão, antes de finalmente abrir um vídeo criptografado.
— Você está mais certo do que você imagina — Walker diz. — Não está claro como ele conseguiu acesso, mas esse vídeo apareceu nos canais de segurança da caixa particular do presidente. Outros líderes do mundo com que nós conversamos reportaram ter recebido a mesma coisa.
Walker aperta o botão “reproduzir” e um vídeo de qualidade HD com a imagem do rosto de Setrákus Ra aparece na tela. Meu sangue começa a gelar ao ver sua pele pálida e vazios olhos pretos, a cicatriz roxa escura que rodeia seu pescoço, seu sorriso convencido para a câmera.
É exatamente o mesmo sorriso que tinha um pouco antes de me arremessar no East RiverSetrákus Ra está sentado em uma cadeira ornamental de comandante na Anubis – eu me lembro de tê-la visto quando Ella me mostrou a nave. Sob seu ombro, a cidade de Nova York é visível através de uma grande janela do chão ao teto. O sol está nascendo, a cidade ainda está em chamas. Não há dúvidas em minha mente que ele escolheu essa cena de fundo de propósito.
— Respeitáveis líderes da Terra — Setrákus Ra começa, essas palavras educadas emitidas em um áspero estrondo. — Rogo para que essa mensagem os encontre com uma cabeça aberta depois do infeliz evento em Nova York e Beijing. Foi com grande relutância, e somente depois de uma tentativa de assassinato pelos alienígenas terroristas, que usei uma fração da força mogadoriana disponível contra suas pessoas.
— A propósito, vocês são os alienígenas terroristas — Walker comenta.
— É, percebi isso.
Setrákus Ra continua:
— Tirando essas circunstâncias lamentáveis, minha oferta para acolher a humanidade e mostrar-lhe que o Progresso Mogadoriano vale a pena ainda está de pé. Eu não sou nada se não souber perdoar. Enquanto minhas forças continuarão a manter a cidade de Nova York e Beijing como um lembrete do que acontece quando bestas imprudentes mordem a mão gentil que as guia, as outras cidades onde minhas naves de guerra estão posicionadas não têm o que temer. Assumindo, isto é, que meus generais recebam rendição incondicional destes governos nas próximas quarenta e oito horas.
Minha cabeça se vira para Walker.
— Eles não estão realmente acreditando nessa porcaria, não é?
Ela aponta para a tela.
— Tem mais.
— Adicionalmente — Setrákus Ra entoa — acredito que o governo dos Estados Unidos esteja abrigando os terroristas lorienos conhecidos como Garde. Continuar a ajudar essas almas retorcidas será considerado um ato de guerra. Eles deverão ser entregues a mim no tempo de rendição, no interesse de evitar o custoso e doloroso processo de retirá-los à força. E também é de meu entendimento que alguns humanos tenham sofrido de uma mutação nas mãos da Garde onde eles manifestarão alguns tipos de habilidades sobrenaturais. Estes humanos devem ser entregues a mim para tratamento.
— O que ele quer dizer com mutações? — Walker me pergunta. — Mais besteira?
Eu não respondo. Em vez disso, me afasto do laptop enquanto Setrákus Ra ainda está falando, meu olhar deslocando na direção da Agente Walker.
— Vocês têm quarenta e oito horas para se render, ou eu não terei escolha senão libertar sua humanidade de sua liderança estúpida e liberar suas cidades pela força...
O vídeo para e Walker vira o rosto para mim. Quando o faz, eu já tinha preparado uma pequena bola de fogo, pairando sobe a palma da minha mão.
— Oh, Jesus Cristo, John — ela grunhe, saindo de perto do calor.
— É esse o motivo de você me trazer aqui? — retruco, me afastando.
Estou meio que esperando um grupo de soldados entrar explodindo tudo para tentar me conter, então mantenho um olho na saída da tenda enquanto me movo em direção a ela.
— Meus amigos estão seguros?
— Você acha que mostrei isso para você como um prelúdio de uma emboscada? Fique calmo. Você está seguro.
Encaro Walker por mais alguns segundos. Nesse ponto, não tenho muita opção a não ser acreditar nela, especialmente considerando a alternativa de lutar um exército para sair daqui. Se o governo quer me entregar para Setrákus Ra como um gesto de boa vontade, isso provavelmente ainda não aconteceu. Extingo minha bola de fogo e encaro Walker.
— Então, isso é verdade? — Walker pressiona. — O que Setrákus Ra disse sobre os humanos manifestando habilidades sobrenaturais? Ele quis dizer que os humanos estão obtendo Legados?
— Eu...
Não tenho certeza o quanto devo compartilhar com Walker. Ela me diz que estou seguro, mas não tem muito tempo ela estava me caçando através do país. Embora ela alegue que o ProMog foi levado para as escuras, ainda há humanos por aí trabalhando contra nós. Droga, ela acabou de me dizer para não acreditar no governo. E se tiver novos Gardes em todo o mundo, e se algum liquidado como o Secretário de Defesa Sanderson chegar até eles antes de nós? E eu poderia revelar Sam e Daniela para Walker? Não posso dizer nada para ela. Não até eu ter descoberto primeiro.
— Eu não sei do que diabos ele está falando, Walker — falo depois de um momento. — Ele vai dizer qualquer coisa para conseguir o que ele quer.
Acho que ela pode dizer que estou escondendo algo dela.
— Eu sei que é difícil aceitar considerando nossa história, mas estou do seu lado agora — Walker diz. — Por ora, assim como os Estados Unidos.
— Por ora? O que isso significa?
— Isso significa que ninguém vai se render para o alienígena maníaco que acabou de explodir Nova York. Mas se ele começar a colocar fogo em mais cidades e nós não tivermos descoberto uma maneira de contra-atacar? As coisas podem mudar, John. Por isso que seu pedido por uma operação militar no México não vai acontecer. Primeiro, é um propósito perdido contra as naves de guerra. E segundo, de acordo com os fatos ocorridos, o mais sábio é não ajudarmos você abertamente por ora.
— Eles estão protegendo suas apostas — eu digo, incapaz de manter um sorriso no meu rosto. — No caso de eles decidirem em se render.
— Palavra do presidente que todas as opções estão abertas.
— Desistir não é uma opção. Eu já vi... — eu me contenho para não usar referências das visões do futuro de Ella, profecias de Legados poderosos não vai fazer muito peso para a superprática Walker. — Não vai acabar bem para a humanidade.
— Sim, você e eu sabemos disso, John. Mas quando Setrákus Ra começar a matar civis e tudo o que ele quiser em troca for você e os outros Gardes? Esse é um plano de ação que o presidente vai ser forçado a considerar.
Dou as costas, abrindo a aba da tenda para olhar para fora, me perguntando onde Sam está com o telefone via satélite. Eu também quero esconder meu rosto de Walker, sentindo que um ataque de pânico está chegando. Eu não sei o que fazer. Se o prazo de Setrákus Ra passar e ele começar a bombardear outra cidade, devo simplesmente deixar acontecer? Eu devo me entregar? Neste meio tempo, o que faço para impedir o ataque dele ao Santuário? E sobre Nove e Cinco, que ainda estão desaparecidos? É muita coisa para lidar.
— John?
Devagar, encaro Walker, garantindo que minha expressão esteja neutra. Mesmo assim ela deve detectar algo, porque atravessa a tenda e para em minha frente. Ela agarra meu ombro com seu braço bom, e estou tão surpreso por ter deixado isso acontecer. Há medo nos olhos de Walker, misturado com um tipo de determinação suicida. Eu já vi aquele olhar antes usado pelos meus amigos, pouco antes deles se jogarem em uma batalha contra o impossível.
— Você precisa me dizer como fazer isso — Walker fala para mim, sua voz baixa e trêmula. — Me diga como vencer essa guerra em menos de quarenta e oito horas.

7 comentários:

  1. "— Vá — respondo digo, acenando. — Espero que você a encontre."
    Respondo ou digo?

    "— Alguns sobreviventes mencionaram tê-lo visto você — Walker responde."
    "tê-lo visto você"

    "estão os soldados, policias e alguns médicos"
    Não seriam "policiais"?

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    Respostas
    1. Isso mesmo, Guilherme! Vou arrumar isso tudo, obrigada pro avisar!

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  2. "e alguns botes bem recheado".
    Não seria "recheados"

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  3. Evacuando civis para Long Island #partiuacampamentomeiosangue Caralho, como se vence uma guerra em 48 horas?!

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