14 de outubro de 2015

Capítulo dezesseis

EU NÃO TENHO TEMPO PARA ESSA PORCARIA.
Cinco quer me encontrar ao pôr-do-sol na Estátua da Liberdade. Isso soa como um plano de um supervilão. Ele está mantendo Nove como refém e planeja matá-lo se eu não aparecer. Não sei o que ele quer de mim. Nas Nações Unidas me pareceu que ele estava tentando nos ajudar, apesar de seu jeito psicótico. Ao menos, ele evitou que eu machucasse Ella involuntariamente. Claro, ele possivelmente não sabe que estou contra o tempo aqui, que cada minuto desperdiçado em seus joguinhos é um minuto não gasto ajudando Sarah, Seis e os outros. Se ele soubesse, se importaria?
Mandei Sarah e Mark para o México com a recém-descoberta loriena, hacker e piloto, que mal posso esperar para conhecer. Eu os mandei para lá porque eles são literalmente a única ajuda que pude arranjar para Seis e o resto da Garde, que estão à espera da luta principal.
Pelo menos eles podem escapar agora. Eles não estão encurralados.
Seis e Sarah são espertas o bastante para evitar perdas e sair de lá. Isso é o que continuo dizendo a mim mesmo.
Faço um rápido cálculo mental. Mesmo que a Agente Walker pudesse, de alguma forma, convencer os militares a me emprestar seus caças mais rápidos, eu ainda não seria capaz de chegar ao México antes de Setrákus Ra. Não mais.
Isso não quer dizer que não vou tentar.
— Pode pelo menos me conseguir um barco? — pergunto a Walker.
Tendo deixado o caos das docas para trás, estamos novamente na tenda da agente do FBI.
— Para levá-lo à Estátua da Liberdade? — Walker assente com a cabeça. — Sim, posso conseguir isso.
— Mas tem que ser agora — respondo. — Preciso para agora.
— Cinco disse ao pôr-do-sol. Isso é quase daqui uma hora — Sam acrescenta sombriamente. Sei que ele está fazendo os mesmos cálculos que eu. Ele sabe que não chegaremos a tempo ao Santuário. Não a menos que deixemos Nove à mercê do destino que Cinco tem reservado para ele, e nenhum de nós deseja seguir por esse caminho.
— Não vou esperar. Não estamos no tempo de Cinco. Ele provavelmente está agora preparando uma armadilha ou coisa parecida. Seja o que ele quer. Vamos mais cedo. Se ele não estiver lá, então esperaremos pelo bastardo.
— Boa ideia — Sam concorda. — Vamos fazer isso.
— Consiga o barco — digo a Walker, e caminho para fora da barraca.
Daqui, no Brooklyn Bridge Park, podemos ver a Ilha da Liberdade. O contorno esverdeado da famosa estátua é visível contra o céu enevoado. Não levará muito tempo para chegarmos lá. Dessa distância, não posso discernir nenhum detalhe. Não posso dizer se Cinco está lá ou se preparou alguma armadilha para nós. Isso não importa, na verdade. O que encontrarmos, vamos enfrentar de cabeça erguida.
Sam me segue para fora.
— O que vamos fazer? — ele me pergunta. — Quero dizer, com Cinco.
— O que precisarmos — respondo.
Ele fica em silêncio e cruza seus braços, também olhando para a estátua sobre a água.
— Você sabe, eu sempre quis ver a Estátua da Liberdade — é tudo o que ele consegue pensar em dizer.
Dentro da barraca, posso ouvir Walker gritando em seu walkie-talkie.
Eventualmente, ela nos consegue uma lancha da guarda-costeira. O barco não tem artilharia como aqueles da marinha que avistei no porto, mas nos levará rápido à Ilha da Liberdade. Walker também chama agentes de sua confiança, integrando a equipe com três caras que conheço da força tarefa anti-ProMog que nos ajudou a ir atrás do secretário de defesa. Acho que eles foram os únicos que sobreviveram à batalha com Setrákus Ra nas Nações Unidas. Um deles é o homem que curei durante o primeiro conflito em Midtown, aquele de quem Sarah postou o vídeo na Internet. Ele quase parece envergonhado quando aperta minha mão.
— Agente Murray — ele se apresenta. — Nunca tive a chance de agradecer. Pelo outro dia.
— Não se preocupe com isso — digo a ele, então me viro para a Agente Walker. — Não precisamos de apoio. Apenas do barco.
— Me desculpe, John. Não posso deixar vocês dois ir lá sozinhos. Vocês são de interesse do governo agora.
Bufo.
— Oh, somos?
— São.
Não vou perder tempo discutindo sobre isso. Eles podem ir se quiserem. Vou na direção das docas, Sam ao meu lado, e Walker e seus agentes se espalham ao nosso redor como guarda-costas. Como sempre, recebo olhares dos soldados no caminho. Alguns deles parecem querer ajudar, mas tenho certeza de que estão sob ordens para não se envolverem conosco. A Agente Walker e o que restou do seu grupo de agentes anti-ProMog é toda a ajuda que o governo está disposto a nos conceder nesse momento. Ao menos eles melhoraram suas armas, tendo os agentes tendo trocado suas pistolas habituais por pesados rifles de assalto.
— Hey! John Smith de Marte! Espere!
Me viro a tempo de ver Daniela espremer seu corpo desajeitadamente por um grupo de soldados e correr em nossa direção. Os agentes que nos rodeiam erguem imediatamente seus rifles e, vendo isso, Daniela derrapa até parar a alguns metros, as mãos para cima. Ela olha os agentes do FBI com um sorriso arrogante no rosto.
— Está tudo bem, acalmem-se — digo a Walker e seu grupo, apontando para Daniela. — Ela é uma de nós.
Walker levanta uma sobrancelha.
— Você quer dizer...?
— Uma Garde humana — falo, mantendo minha voz baixa. — Uma das pessoas que Setrákus Ra quer junto dele.
Walker avalia Daniela.
— Ótimo — ela diz secamente.
Daniela apenas amplia seu sorriso.
— Vocês rapazes estão indo em uma aventura ou algo assim? Posso ir?
Franzo um pouco a testa pela forma que ela está levando tudo isso, e troco um olhar com Sam.
— Você encontrou sua mãe? — Sam pergunta a ela, e o sorriso de Daniela falha por um instante.
— Ela não está aqui, e nunca deu entrada na Cruz Vermelha — Daniela responde, dando de ombros como se não fosse nada. Mesmo que ela esteja tentando manter o tom normal, sua voz está trêmula e posso dizer que ela espera o pior. — Provavelmente saiu da cidade de outro jeito. Tenho certeza de que ela está bem.
— Sim, com certeza — Sam responde, forçando um sorriso.
— Estamos a caminho de confrontar um Garde traidor — digo a ela abruptamente.
Walker me lança um olhar, mas não tenho motivos para mentir. Todas as cartas na mesa.
— Whoa. Existem traidores, tipo, da sua espécie?
Penso sobre Cinco e como ele se virou contra nós e penso em Setrákus Ra e as incontáveis coisas horríveis que ele fez. Ele costumava ser um Garde também, talvez algo maior que isso, se pudermos acreditar na carta de Crayton para Ella. Então, olho para Daniela e considero ela e os outros humanos com Legados que ainda não encontramos. Eles irão lutar pelo bem? Ou alguns deles irão se voltar para Setrákus Ra como Cinco fez?
— Somos pessoas, como quaisquer outras — falo.
— Exceto pelos poderes incríveis — Sam acrescenta.
— Como qualquer um — continuo — podemos nos tornar maus sem a devida orientação.
Daniela está novamente com um sorriso travesso no rosto. É quase irritante, mas estou começando a perceber que é apenas um mecanismo de defesa. Quando ela se sente desconfortável, tenta com todas as forças devolver o favor.
— Beleza. Entendi. Você vai ser meu guia, John Smith? Meu sensei?
— Nós os chamamos de Cêpans, na verdade. Nossos treinadores. Mas eles se foram. Agora, aprendemos as coisas por nós mesmos.
Agente Walker pigarreia. Acho que ela quer que eu me livre de Daniela, mas não estou recusando ajuda. De jeito nenhum.
— Pode vir conosco — continua. — Mas você deve saber de uma coisa: o cara que estamos atrás é extremamente perigoso.
— Desequilibrado — Sam acrescenta.
— Ele já matou um de nós — continuo — e não acho que ele vá hesitar em fazer isso novamente. Quando acabarmos com ele, nossa amiga Agente Walker aqui vai nos conseguir um avião de alguma maneira, e descobriremos um jeito de matar o mogadoriano no controle antes que a invasão dele prossiga.
— Você está tentando me assustar? — Daniela pergunta com suas mãos nos quadris.
— Só quero que saiba no que está se metendo — respondo. — Durante o caminho, posso tentar te ajudar com sua telecinesia. Talvez descobrir o que mais você pode fazer. Mas você tem que dar seu melhor...
Daniela olha por cima de seu ombro. Percebo que, mais do que qualquer coisa, ela quer sair daqui. Ela quer se manter ocupada e evitar confrontar a real possibilidade de ter perdido toda a sua família durante o ataque a Nova York.
— Estou dentro. Vamos salvar o mundo e essa droga toda.
Sam sorri e não posso fazer nada a não ser dar um pequeno sorriso também, especialmente quando percebo a Agente Walker revirando os olhos. Com Daniela incorporada ao nosso pequeno grupo de agentes secretos, continuamos seguindo para o píer.
— Ei — Sam diz para Daniela, mantendo o tom de voz baixo. — Só para você saber, os mogs estavam mantendo prisioneiros em Nova York. Eles não estavam, tipo, matando tudo que se movesse.
— É, eu sei, os vi fazendo isso na minha vizinhança — Daniela responde. — E daí?
— E daí que só porque ela não está aqui, não quer dizer que sua mãe... você sabe...
— Sei. Obrigada — Daniela fala rispidamente, mas acho que ela realmente quis dizer isso.
A lancha da guarda-costeira está pronta e esperando por nós, um capitão fumante vestido em um uniforme amarrotado preparado para nos levar aonde quer que precisemos ir. Deixo Walker falando com ele, e alguns minutos depois estamos saltando sobre as ondas. Do outro lado da água, posso ver as luzes brilhantes de New Jersey, helicópteros surgindo e desaparecendo do nosso campo de visão.
Parece que os militares criaram um perímetro ali também, realmente querem ter certeza que os mogadorianos fiquem contidos em Manhattan. Olho na direção da cidade e encontro o lugar assustadoramente calmo. Ainda há mogs lá, tenho certeza, patrulhando as ruas e talvez criando uma fortaleza. Espero que muitos dos moradores tenham conseguido atravessar a ponte e, se não, espero que Sam tenha razão sobre os mogs estarem mantendo-os prisioneiros ao invés de os matarem. Isso significa que eles ainda podem ser salvos.
Quando a Ilha da Liberdade fica maior a nossa frente, Daniela me cutuca nas costelas.
— Vamos encontrar esse cara na Estátua da Liberdade? — ela pergunta.
— Aham.
— Cara, isso é uma porcaria para turistas.
Rapidamente atracamos as docas da Ilha da Liberdade. Meia dúzia de barcos estão flutuando ali, vazios, um deles com marcas de queimaduras em uma das laterais. Todo o lugar está deserto; ninguém visitando a Estátua da Liberdade durante a invasão. É quase pacífico aqui.
Enquanto saímos do barco, tento dar uma boa olhada no terreno. Me forço a pensar como Cinco, me perguntando onde seria o melhor lugar para uma emboscada.
Tenho que inclinar a cabeça para cima para ver a estátua. Nos aproximamos dela pelo lado em que ela segura o livro. A tocha banhada de ouro brilha no que resta da luz do dia. A grande senhora verde está sentada no topo de um enorme pedestal de granito, que por sua vez fica sobre uma base de pedra ainda maior que toma quase metade da ilha.
Para a direita, há um pequeno parque que parece intacto. Ele não estará escondido no parque – não é assim que Cinco trabalha.
O capitão do barco fica para trás, mas o resto de nós caminha pela doca na direção da estátua. Penso na primeira vez que encontrei Cinco, como ele usou um monumento de um monstro assustador no bosque para se revelar. Acho que o cara tem alguma coisa com marcos históricos. Ou talvez aquela estátua suja de madeira fosse uma pista, sobre o monstro escondido dentro de Cinco. Se este é o caso, me pergunto o que a escolha da Estátua da Liberdade significa. Provavelmente nada, penso, me lembrando que Cinco é um completo maluco.
Ao meu lado, Daniela abafa uma risada.
— Sabe, na verdade eu nunca estive aqui, mesmo vivendo nesta cidade minha vida inteira.
— Né, é como uma viagem de campo — Sam comenta. — Uma viagem de campo em que no final um maluco feito de aço sólido tenta te esfaquear até a morte.
— Ninguém vai ser esfaqueado até a morte — digo.
Quando entramos na praça que se estende ao redor da base da estátua, mantenho meu olhar centrado no pedestal superior. Decidi que é o lugar em que Cinco provavelmente estará. Ele pode voar, então seria fácil para ele alcançar aquela área, e isso permitiria que ele ficasse de olho em nossa chegada. Apesar disso, não vejo nenhum movimento lá em cima. Talvez ele não esteja aqui ainda. Ou talvez esteja se escondendo dentro da estátua. Ergo ainda mais meu pescoço, tentando vislumbrar algo dentro da coroa da estátua, mas é impossível. Teremos que ir lá dentro para ter certeza de que está vazia.
— Olha — Sam fala, baixando a voz. — Bem ali.
Viro minha cabeça para esquerda, na direção do gramado perfeitamente esculpido que se estende a partir da fundação da estátua.
Há um movimento. Uma forma brilhante se ergue lentamente da grama e dá passos vacilantes em nossa direção. Eu estava olhando para o lugar errado.
— Vocês estão adiantados — Cinco diz. — Excelente.
Dizer que Cinco parece acabado seria um elogio. Suas roupas parecem ter passado por um triturador – estão rasgadas, manchadas de sangue e cobertas de sujeira e cinzas. Sua pele é um aço prateado, fazendo-me pensar que ele está pronto para lutar, mesmo que pareça que ele mal possa se manter em pé. Seus traços parecem inchados e fora de lugar apesar de seu revestimento metálico, seu nariz está torto, e há entalhes visíveis na lateral de sua cabeça raspada. Ele está curvado, um braço balançando inutilmente ao se lado. Em seu outro braço há uma braçadeira com sua lâmina retrátil. A luz do entardecer reflete em sua pele.
Imediatamente, Walker e seu time flanqueiam Cinco. Eles têm suas armas apontadas para ele. Daniela vai para o lado oposto, ficando um passo atrás de mim.
— Uh, vocês deveriam ter descrito o cara traidor melhor — ela diz.
Cinco dá uma olhada nos agentes de Walker e zomba. Mesmo que ele pareça desgastado, ter um conjunto de armas apontadas para ele parece reacender seu temperamento intenso. Seu único olho se ajusta abrindo mais e ele se endireita.
— Não me faça rir com essa porcaria — Cinco diz para Walker, então se vira na direção do Agente Murray enquanto o homem aponta sua arma. — Sou à prova de balas, otário. Vamos, eu te desafio.
Há algo estranho na voz de Cinco. Soa metálica e estridente, quase como se ele estivesse tendo problemas para respirar.
Os agentes são inteligentes o bastante para não ficarem tão perto. Sei o quão rápido Cinco é. Se ele quisesse ir até um deles, seria capaz de chegar lá em um ou dois segundos com seu voo. Caminho sobre a grama, esperando atrair a atenção para mim antes que ele faça qualquer coisa maluca. Sam fica logo ao meu lado, Daniela alguns passos atrás.
É quando percebo uma forma grumosa perto de Cinco. É uma daquelas lonas azuis de construção envolvendo o que é obviamente um corpo, tudo isso bem apertado por correntes de aço de construção.
Tem que ser o Nove.
— Entregue-o — digo para Cinco, sem perder tempo.
Cinco olha para baixo, para o corpo, quase como se tivesse esquecido que ele estava ali.
— Claro, John — Cinco responde.
Cinco se curva e segura as correntes. Ele ergue o corpo de Nove com uma careta. Ele está machucado e cansado, e posso dizer que este show o está drenando mais do que imaginou. Com um grunhido animal, Cinco lança o corpo através dos metros que nos separam. Seguro Nove no ar com minha telecinesia e o desço gentilmente para o chão. Imediatamente, arranco as correntes e desenrolo a lona.
Nove está deitado inconsciente na grama a minha frente. Suas roupas estão nas mesmas péssimas condições que as de Cinco, seus machucados igualmente grotescos. Há queimaduras de tiros em seus braços e peito, uma de suas mãos está quebrada como se alguma coisa a tivesse esmagado, e há um corte feio em sua cabeça. Esta é a última coisa que me preocupa. Sangue empapa o cabelo negro de Nove – muito mesmo – e seus olhos não se abrem quando bato gentilmente em suas bochechas.
Sam coloca a mão em meu ombro.
— Ele está...?
— Oh, ele está bem — Cinco grunhe, respondendo à pergunta que Sam me fez. — Tive que bater com força nele para nocauteá-lo. Você provavelmente vai querer trabalhar com isso primeiro, doutor.
Coloco minhas mãos na lateral da cabeça de Nove, mas paro antes de começar a curá-lo. Isso vai requerer minha concentração, o que significa que não poderei ficar de olho em Cinco. Olho para ele.
— Você vai tentar alguma coisa estúpida?
Cinco levanta as mãos para cima, as palmas abertas, mesmo que um dos braços não se erga tanto quanto o outro. Então, ele cai para trás sentado.
— Não se preocupe, John. Não vou machucar nenhum dos seus amiguinhos. Ao mesmo tempo, seu olho passa por minha equipe, observando cada um deles. O olhar de Cinco se demora em Daniela. — Você não é policial. Qual é a sua?
— Não fale comigo, esquisito — ela devolve.
— Não perca seu tempo respondendo — Sam diz calmamente.
Cinco bufa e balança a cabeça, mais admirado que nunca. Ele arranca um punhado de grama a sua frente, rasga e o joga fora com um suspiro.
— Vamos logo com isso, John. Eu não tenho o dia todo.
Ainda estou desconfiado de que seja um tipo de armadilha, mas não posso adiar a cura de Nove por muito tempo. Pressiono minha mão na lateral da cabeça dele e deixo minha energia de cura fluir para ele.
Primeiro o corte em sua cabeça se fecha. Esse é apenas o dano superficial. Intuitivamente, posso sentir mais profundamente, traumas mais sérios afetando Nove. Seu crânio está fraturado e seu cérebro está inchado.
Foco meu Legado ali, porém estou cauteloso para não usar mais energia do que preciso. O cérebro é uma coisa delicada e não quero piorar a situação de Nove. Ele talvez continue a ter uma concussão quando eu terminar, mas pelo menos o dano mais sério será revertido.
Leva alguns minutos de concentração em Nove. Estou vagamente consciente do silêncio e da tensão ao meu redor. Quando termino, tiro minhas mãos de sua cabeça. As outras lesões podem esperar até que não estejamos na presença de um lunático.
— Nove? Nove, acorde — chamo, chacoalhando-o.
Depois de um momento, os olhos de Nove se abrem. Seu corpo tensiona e seus olhos dardejam no entorno descontroladamente. É como se ele estivesse esperando ser atacado novamente. Quando reconhece Sam e a mim, ele se acalma e sua expressão se torna sonhadora. Ele segura meu braço.
— Johnny! Eu peguei o filho da puta. Acertei-o em cheio — ele murmura.
— Pegou quem? — pergunto, e não obtenho resposta.
A cabeça de Nove já está pendendo para longe de mim. Curei suas lesões, mas não posso evitar sua exaustão depois de lutar pelas últimas vinte quatro horas sem parar. Ele está inconsciente. Nós provavelmente teremos que carregá-lo. Levanto meu olhar de Nove para ver Cinco ainda sentado na grama, nos assistindo. Vendo que Nove está fora de perigo, Cinco começa devagar uma salva de palmas sarcástica.
— Bravo, John. Sempre o herói — ele diz. — E quanto a mim?
— E quanto a você? — repito com os dentes cerrados.
— Não, na verdade, eu gostaria de uma resposta quanto a essa questão também — Walker diz, sua arma ainda apontada para Cinco. — Ele atacou nossos soldados e ajudou os mogadorianos. É basicamente um criminoso de guerra. Você quer apenas deixá-lo aqui?
— Vocês têm um tipo de prisão espacial supersecreta para caras metálicos do mal? — Daniela sussurra para mim.
— Para o inferno com ele — Sam diz. Ele é o único que entendeu que temos coisas mais importantes para lidar. Ele acena com desdém para Cinco e se inclina para Nove tentando ajudá-lo. — Vamos lá, John. Temos que dar o fora daqui.
Estou indo ajudar Sam quando Cinco fala novamente.
— É isso? — ele pergunta, soando quase carrancudo. — Vocês vão apenas me deixar ir?
Eu me endireito e o encaro.
— O que diabos você quer, Cinco? Você sabe quanto tempo nós já desperdiçamos com seu teatro estúpido? — gesticulo na direção de Manhattan, plumas de fumaça ainda subindo para o ar ali. — Você não é nossa prioridade agora, cara. Percebeu que estamos em guerra, né? Você não esteve tão longe para perder seus velhos amigos mogs matando milhares de pessoas, esteve?
Cinco olha na direção da cidade, contemplando a destruição ali. Seu lábio inferior se projeta pra fora.
— Eles não eram meus amigos — ele fala calmamente.
— É, não mesmo — respondo. — É uma pena que você só tenha percebido isso agora. Eles te usaram, Cinco, e agora eles não te querem mais. E nem nós. Você tem sorte de eu não ter vindo terminar o que o Nove começou.
Meu temperamento incendeia quando me lembro de todas as bobagens que Cinco fez no pouco tempo que o conheço. Como consequência de minhas palavras, dou um passo na direção dele. Sam coloca uma mão em meu ombro.
— Não — ele diz. — Apenas vamos embora.
Concordo, sabendo que Sam está certo. Ainda tenho algumas jogadas para atirar. Preciso livrá-las do meu peito.
— Acho que você pode ficar sozinho agora — digo a Cinco. — Isso é tipo o que você sempre quis, não é? Então, vá, corra de volta para a sua ilha tropical e se esconda, ou qualquer coisa que queira fazer. Apenas saia do nosso caminho e pare de desperdiçar nosso tempo.
Cinco olha para baixo, para a grama a sua frente.
— Você não tinha que vir — ele diz com amargura.
Isso na verdade me faz rir. A insanidade pura desse cara.
— Você nos fez vir aqui. Disse que mataria Nove se não viéssemos.
A testa de Cinco faz um clique metálico quando ele bate nela tentando se lembrar de algo.
— Não foi o que eu disse para esses perdedores do exército quando eles me acharam. Eu disse a eles que você ganharia uma nova cicatriz.
— Por que você ainda está falando com ele? — Sam pergunta, sua voz se elevando um pouco desnorteada. Ele se inclina em direção ao corpo de Nove, passa o braço dele sobre seu ombro e grunhe enquanto tenta levantá-lo.
O olho de Cinco captura os meus. Ele está focado em mim, ignorando totalmente os outros. Sei que ele está me atraindo para alguma coisa, só não sei o que é. Sam está certo sobre não gastarmos tempo aqui, mas não posso evitar.
— Do que você está falando? — pergunto a ele de má vontade, sabendo que é exatamente o que ele quer.
Em resposta, Cinco tira a camisa.
Essa simples ação parece tomar muito esforço, como se fosse difícil para Cinco levantar os braços. A camisa rasga ao prender em alguma coisa quando a puxa pela cabeça e ele uiva. Depois de alguns minutos olhando para seu peito, banhado em metal como o resto dele, percebo que há algo errado.
Cinco tem uma peça de metal saindo de seu esterno. Parece com um poste de uma placa de trânsito. Ele se vira de lado fracamente, e então posso ver a outra extremidade irregular atravessando suas costas. Cada extremidade termina com apenas alguns centímetros, ambas torcidas e deformadas como se Cinco as tivesse encurtado com suas mãos. Está atravessando-o totalmente, pelo que vejo, deve ter atingido um dos pulmões de Cinco e parte de sua espinha. O poste de metal pode até mesmo estar passando por seu coração.
— Eu já estava na minha forma de metal quando ele me atravessou com isso. E mesmo assim, não o parou — Cinco explica, sibilando suas palavras um pouco. Ele olha para Nove com algo perto de admiração. — Meus instintos me tomaram. Usei minha Externa de uma forma que nunca tinha usado antes, fiz o metal se tornar parte de mim. Posso sentir o frio dele dentro de mim, Quatro. É esquisito.
Cinco parece quase casual sobre isso. Tento me aproximar um passo na direção dele e ele sorri.
— Estou cansado e não posso manter minha Externa para sempre — Cinco diz. — Então eu quis que isso estivesse em suas mãos. Você é o cara bom, John. O racional. E você sempre esteve logo na minha frente na ordem, me mantendo vivo todos esses anos, me conhecendo ou não. Então o que vai ser?
Dou mais um passo cauteloso na direção dele.
— Cinco...
— Viver ou morrer? — Cinco pergunta, e então, sem aviso, ele desliga sua Externa, voltando ao estado normal.

26 comentários:

  1. Não sei se tenho raiva ou pena do cinco.

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    1. concordo com vc.

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    2. tô mais com pena que com raiva

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    3. Quando ele mata o oito, toda a gente quer ele morto, agora que ele está praticamente a morrer, sentem pena.. Depender de voces para salvar o mundo é como depender da garde.. Como dizia o Sun Tzu "A vitória está reservada para aqueles que estão dispostos a pagar o preço."

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  2. Acho q John devia matar ele,pra ele aprender

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    1. Você é uma pessoa amarga e sem coração

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    2. Morto não aprende nada, mas sempre é feita justiça.

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  3. -Não fale comigo, esquisito - ele devolve.
    Não seria ela devolve?

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  4. como é que ele ia aprender morto?

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    1. Ele ja aprendeu. E do jeito mais dificil. Pagou por todos os erros bobos com a propria vida. Isso foi apenas uma questão de escolha errada...

      ezequiel

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  5. Só acho que o 4 tem que se mostrar superior. . Nada vaia pagar o que o 5 fez mas matar ele não vai resolver nada. Ele é apenas um cara confuso precisa de ajuda .

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    1. Concordo, o 5 seria mais útil na guerra, que ele vai lutar com a Garde agora q aprendeu a lição ,e s ele sair do caminho é só chamar o 9.

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    2. Mas o 4 não precisa matar o 5, só não o deve é curar. Primeiro é um desperdicio de energia com alguém que certamente não a merece. Mais importante é que o 5 estava para matar o 9 e só o manteve vivo para atrair o 4.

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  6. "— Hey! John Smith de Marte! Espere!
    Me viro a tempo de ver Daniela espremer seu corpo dessa jeitado por um grupo de soldados e correm em nossa direção. "
    Na segunda linha não seria desajeitado? Está escrito "dessa jeitado"

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    1. Sim, isso mesmo... que coisa estranha. Devo ter dado espaço sem querer e o corretor arrumou assim... vou arrumar, obrigada, Kenia :)

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    2. Karina eu sei que você esta ocupada cuidando desse blog TÃO incrivel, mais você esqueceu de arrumar??

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    3. "posso dizer que este show o está drenando mais do imaginou."
      Não seria "mais do que imaginou"?

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    4. Moça,muito obrigado por trazer toda essa leitura até nós....obrigado mesmo

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  7. Entendi !!!!!!!!!!
    A cicatriz não seria do nove !!!!! Seria do cincooooo !!!!!!!!!!!! O covarde ( ou sera corajoso ?) ia si matar !!!!!!

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  8. "Viver ou morrer?"
    Eita, me senti em jogos mortais

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  9. Parece mais que ele ta usando o 4, ele sabe que jhon jamais deixaria alguem morrer assimm , mesmo que seja o idioto do cinco

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  10. Acho q o 5 morreu... Fiquei com pena, afinal ele só precisa de ajuda o Cenpan dele morreu, ele só fez o q foi conviniente no momento, faria a mesma coisa q ele. Ela errou gente. Errou muito feio quando matou o 8. Sério, fiquei bem chateada.
    A a bosta e q eu quando lia "Eu sou o Número 4" eu já sabia quem ia sobreviver até o final. Sabia q o 8 ia morrer, sabia q em alguns momentos de vai todo mundo morrer momentos do 4,6,7,9) eles iam viver. Agora eu n sei de nada. Acho q esse spoiler já aconteceu e agora tudo pode acontecer.
    Meu deus o Ra é doido!

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  11. Sinto raiva do Cinco, mas não mais por ter matado o Oito, mas por ser covarde. Primeiro covarde para lutar contra os mogs e se juntar a eles, e agora por simplesmente se render à morte, quando poderia estar tentando concertar as cagadas que fez. Culpa não ajuda, e morrer também não!

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  12. Me sinto culpada por sentir pena de Cinco.

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  13. Acho que o John devia deixar o Cinco morrer, affs cara estúpido devia ter se matado logo,inútil e ainda por cima matou o Oito.... #MorraCinco KKKK

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