14 de outubro de 2015

Capítulo dezenove

ENTÃO ASSIM É ESTAR MORTA.
Flutuo sobre meu corpo e mal me reconheço. Meu avô – ele começou a me transformar em um monstro, assim como ele. A garota quebrada lá embaixo está tão pálida e sem vida, que mal consigo acreditar que sou eu. Ou que era eu. Marina põe suas mãos sobre meu corpo, tentando me trazer de voltar, mesmo sabendo que seus Legados foram desativados. É triste vê-la distraída assim.
Eu não quero voltar para aquele corpo. É um alívio estar fora dele.
Não há mais a dor, e pela primeira vez em dias eu posso realmente pensar.
Na verdade, é meio estranho que eu possa pensar considerando que agora eu estou, você sabe... morta. Acho que a vida após a morte é assim.
Abaixo de mim, os outros – Marina, Seis e Setrákus Ra – todos se movem em câmera lenta. Posso ver muita coisa. Cada partícula do templo destruído que ainda flutua no ar é visível para mim. As gotas de suor na nuca do meu avô também são visíveis para mim. A energia lórica pulsante está dentro de todos eles, até mesmo de Setrákus Ra, e isso também é visível para mim.
Como eu posso ver tudo isso?
Eu apenas queria quebrar o domínio que Setrákus Ra tinha sobre mim, destruir seu feitiço mogadoriano nojento para que ele não pudesse mais me manter como refém. Eu queria ajudar meus amigos.
Alguma coisa me disse que a melhor forma de fazer isso era me jogar dentro daquele redemoinho de energia. Eu sabia que iria morrer e estava quase bem com isso. Estou feliz de não ser apenas escuridão e vermes. Qualquer que seja o próximo estágio, espero que não seja ver as pessoas que amo lutarem até a morte em câmera lenta.
Ella.
A voz vem de todos os lugares ao meu redor. Não apenas uma, mas várias vozes. Milhares delas. Ainda assim, desse coro eu consigo reconhecer algumas. Crayton. Adelina. Oito. Eles estão me chamando.
Você tem trabalho para fazer.
Eu caio em direção ao chão e meu corpo. Por um momento, estou cheia de pânico. Eu voltarei para dentro do meu velho corpo mais uma vez, para ser a marionete do meu avô? Mas então, de repente, um sentimento de calma cai sobre mim, como se eu tivesse sido enrolada em uma toalha aquecida. Nada pode me machucar, não agora.
Eu deveria me chocar contra o chão. Ao invés disso, continuo caindo. Eu passo através dos detritos e das pedras, e logo estou submersa em total escuridão. Não parece mais que estou caindo. Sinto como se estivesse flutuando no espaço – sem gravidade, sem peso, apenas uma levitação pacifica sem fim. Perco a noção de qual direção é para cima, qual é para baixo, ou qual leva até meus amigos, meu corpo. Mas isso não parece importante agora. Eu deveria estar enlouquecendo. Mas de algum jeito, sei que estou segura.
Lentamente, a luz começa a brilhar ao meu redor. Milhares de pontos azuis brilhantes flutuam ao meu redor, como a poeira flutua através dos raios de sol. É como a energia lórica na qual mergulhei.
As partículas se expandem e se contraem, me lembrando de pulmões. Algumas vezes elas se misturam em formas vagas, então rapidamente se rompem.
De alguma forma, tenho a sensação de que estou sendo observada.
Há uma rede de energia abaixo de mim e eu não sinto mais como se estivesse flutuando ou caindo. É mais como se eu estivesse sendo segurada, envolta por duas mãos gigantes. Eu me sinto relaxada e confortável, como se pudesse descansar aqui para sempre. É tão diferente dos últimos dias infernais pelos quais passei, onde exercer o mínimo da minha vontade me causava dores pelo corpo todo. Parte de mim quer desligar minha mente e deixar o que quer que seja que esteja acontecendo e me esticar aqui. Mas outra parte de mim sabe que meus amigos ainda estão lutando no mundo horrível em que vivem. Eu tenho que tentar ajudar.
— Olá? — eu chamo, testando minha fala.
Ouço minha voz, embora não pareça que eu tenha uma boca, pulmões ou sequer um corpo. É como a sensação de quando estou tendo uma conversa telepática, como se de alguma forma alguns dos meus pensamentos estejam mais altos do que os outros e esses são os que eu projeto para as outras pessoas.
Olá, Ella, uma voz responde. As bolhas de energia flutuando na minha frente pulsam em sincronia com a voz. Estranhamente, eu me sinto completamente confortável por ter uma conversa com um bando de bolhas flutuantes de néon.
— Estou morta? — pergunto. — Isso é tipo, o paraíso ou coisa assim?
Sinto cócegas agradáveis onde minha pele deveria estar. Acho que é assim que se sente quando essa coisa ri.
Não, isto aqui não é o céu, criança. E sua morte é apenas uma condição temporária. Quando a hora chegar, vou restaurá-la para sua forma física.
— Oh — eu pauso. — E se eu não quiser voltar?
Você vai querer.
“Não tenha tanta certeza, camarada”, eu penso, mas não digo.
— Então... onde estamos? O que é isso?
Você abandonou seu corpo e usou seus dons telepáticos para se abrigar em minha mente. Você misturou sua consciência com a minha. Ao menos sabia que era capaz de fazer isso, criança?
— Hm... não.
Eu não achei que saberia. Foi uma coisa perigosa de se fazer, jovem Ella. Minha mente é vasta e se estende através de todos os lugares e por todo o tempo desde que eu existo. Estou bloqueando você desse conhecimento, para que não a sobrecarregue.
Acho que é por isso que eu me sinto tão aconchegada nessa total escuridão, sem corpo e envolta pela energia lórica. Porque a Entidade Lórica está tomando conta de mim.
— Obrigado por isso — respondo.
De nada.
Me ocorre que eu provavelmente deveria estar perguntando algumas coisas importantes. Não é todo dia que você acaba dividindo sua mente com uma energia como essa.
— O que exatamente é você, afinal de contas?
Eu sou eu. Eu sou a fonte.
— Uh-huh. Mas como eu deveria chamá-la?
Há uma pequena pausa antes da voz me responder. Os pontos de energia nunca param de esvoaçar na minha frente.
Eu tenho sido chamada de muitas coisas. Uma vez, eu fui Lorien. Agora, sou a Terra. Seus amigos me chamaram de Entidade.
Então era isso que estava escondido dentro do Santuário, era o que Setrákus Ra queria. Marina e os outros devem ter conversado com ela antes do seu esconderijo ter explodido pelos ares. Embora, a Entidade... isso soe tão formal, alienígena e frio. Não é esse o sentimento que estou sentindo agora.
— Eu vou chamá-la de Legado — decido.
Como desejar, criança.
Legado parece tão calma. Foi apenas há alguns minutos que a Anubis estava sugando-a do chão através daquela engenhoca mecânica gigante.
— Meu avô machucou você quando ele a puxou da Terra? — pergunto.
Ele não pode me machucar, mas pode apenas me modificar. Uma vez modificada, eu não serei mais eu, e então a experiência da dor não irá pertencer à mim.
— Ok — respondo, sem entender nada. — Você está, tipo, presa abordo da Anubis agora?
Apenas uma pequena parte de mim, criança. Eu existo em vários lugares. Seu avô tentou me capturar antes, mas eu sou maior do que ele pensa. Venha. Vou lhe mostrar.
Antes que eu possa perguntar, “ir aonde?” – uma onda da energia lórica me varre para longe. Não estou mais flutuando na escuridão pacifica. Ao invés disso, estou dentro da própria Terra. É como uma daquelas imagens onde você pode ver as diferentes camadas da crosta terrestre – as placas tectônicas, os ossos dos dinossauros, lava derretida quente perto do núcleo do planeta. Eu posso visualizar tudo isso. Sinto-me minúscula em comparação a tudo.
Correndo através de cada camada da Terra, ligada ao próprio núcleo, há agora veias brilhantes de loralite. A energia é fraca em alguns pontos, forte em outros, mas não há lugar no planeta que não esteja perto do seu gentil brilho.
— Nossa — eu digo. — Você realmente se fez sentir em casa.
Sim, Legado responde. Isso não é tudo.
Nós subimos. Mais uma vez, o campo de batalha aprece abaixo de mim. Meus amigos e Setrákus Ra ainda estão se movendo como se estivessem presos em melaço. Seis está no processo de levantar uma rocha, com a esperança de acertar meu avô com ela.
No peito de Seis, bem perto de seu coração, há uma brasa da energia lórica. Marina e Adam também a possuem. Até Setrákus Ra tem uma fagulha de Lorien dentro dele, embora a dele pareça estar parcialmente envolta de algum tipo de substância preta. Ele se corrompeu de formas que não consigo entender.
O pensamento faz com que eu olhe em direção à Anubis. Há, situada na barriga da nave, um latejante fulgor de loralite. Não é nada comparado ao que acabei de ver no subsolo, mas ainda assim...
— O que ele vai fazer com aquilo? — pergunto a Legado. — Quero dizer, com você?
Eu vou lhe mostrar. Primeiro, você precisa juntar os outros. Decidi que todos eles devem ver o motivo de sua luta...
— Que outros?
Todos eles. Eu a ajudarei.
Sem avisar, minha mente começa a se esticar. É como se eu estivesse usando minha telepatia, tateando por mentes familiares, com exceção de que meu poder foi aumentado. Na verdade não parece tão bom, como se meu cérebro estivesse sendo puxado em todas as direções por um magnetismo muito forte.
— O que... o que você está fazendo?
Estou aumentando suas habilidades, criança. Pode ser um pouco desconfortável no começo. Peço desculpas.
— O que devo fazer?
Junte todos aqueles que eu marquei.
Pode ser loucura, mas na verdade eu sei o que isso significa.
Quando uso minha telepatia, posso realmente sentir todas as pessoas que foram tocadas por Legado na Terra. Eu miro em direção ao núcleo azul pulsante em Marina, pego-o com minha mão telepática e a puxo. É como quando eu era capaz de levar John para dentro das minhas visões, com exceção de que agora é muito mais fácil. Vou na direção de Adam também, trazendo-os para o aconchego da consciência de Legado. Então, eu hesito.
— E ele? — eu pergunto, olhando para meu avô.
Até ele. Devem ser todos.
Me sentindo um pouco enjoada por ter que entrar em contato telepaticamente com aquele cérebro retorcido e seu coração lórico estragado, puxo Setrákus Ra para cá. Tento absorver Seis agora, mas sua consciência luta contra a minha. Distantemente, estou ciente de seu corpo físico gritando alguma coisa.
— O que ela está dizendo? — pergunto a Legado.
Ela não compreende ainda que eu não interfiro, Legado fala. Todos vão ver, ou ninguém verá. Nenhuma vantagem será admitida.
Eu não sei o que Legado quer dizer e não tenho tempo para pensar nisso porque logo que a consciência de Seis abre caminho para a minha, nós estamos nos espalhando mais além.
O mundo inteiro se abre diante de mim. Centenas de pequenos pontos de loralite são mostrados nos continentes. Esses são os novos Gardes, os humanos que recentemente desenvolveram poderes. Legado os quer também. Eu os alcanço com minha mente, capturando-os um por um.
Um garoto em Londres que encara uma nave de guerra mogadoriana com suas mãos se abrindo e fechando enquanto ele tenta decidir o que fazer. O asfalto da rua se quebra e se rompe a cada movimento, pego pela telecinesia descontrolada do garoto.
Uma garota no Japão que há apenas alguns dias estava confinada à uma cadeira de rodas. Agora, ela se encontra andando através do pequeno apartamento de seus pais numa velocidade que não achava ser possível.
Um garoto numa vila remota da Nigéria, onde eles não foram atingidos de verdade pela invasão ainda. Seus pais estão chorando enquanto ele flutua sobre eles, emanando um brilho angélico.
Capturo todos com minha mente. Onde quer que Legado esteja nos levando, eles estão vindo.
Alguns deles estão assustados. Ok, muitos deles estão assustados. Seus Legados foram uma coisa, mas agora isso – uma repentina experiência telepática? Eu entendo que isso é um pouco demais. Eu falo com eles. Os conforto. Sinto que minha mente está forte o suficiente para que eu consiga manter múltiplas conversas de uma vez enquanto ainda estou recolhendo as pessoas com meu voo telepático.
Eu lhes asseguro que ficarão bem. Que isso é como um sonho.
Eu não digo a eles que não tenho ideia do que estou fazendo.
Então chego à Nova York. Pego Sam primeiro, mais porque estou tão animada por ele ter sido contemplado com Legados, e só quero lhe dar um abraço. O Cinco ferrado, o Nove maravilhoso em que também quero muito dar um abraço, uma garota nova – todos eles são acolhidos pelo meu abraço telepático. E então pego John. Tive mais experiências usando minha telepatia nele do que em qualquer outro; deveria ser fácil. Mas como Seis, ele luta contra mim. John quer lutar. Ou, bem, ele não quer ser pisoteado. Eu não posso dizer que o culpo.
— Aquilo irá nocauteá-lo? — eu pergunto. — Ele vai, tipo, ser devorado?
Não. Tudo isso vai passar num piscar de olhos.
— Não se preocupe, John — eu digo triunfantemente. — Só vai levar um segundo.
Puxo a consciência de John também. Pronto. Toda a Garde da Terra. Todos os seus batimentos lóricos pulsando, puxados para minha vasta consciência.
— Então, agora o que acontece? — pergunto a Legado.
Observe.

17 comentários:

  1. estamos chegando no final ..

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  2. Que ansiedade zulivre to quase morrendo kkkkk

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  3. Observo entao .. Cade??

    http://sexonautas.com/e/7718.gif

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    1. Primeiro os emojis, agora gifs, Melissa? ehuaheuaheuahe

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  4. kkkkk Desculpa é forca do habito.. Meus dedos tem vida propria no teclado kkkkk Mas se vc quiser eu paro ..

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  5. Gente todos da garde reunidos.TODOS.
    Meu coração tá batendo rápido de +.Me segura eu vou ler o próximo capítulo.SANTO PITTACUS ME AJUDE.

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  6. Tipo assim eu vou chamado de legado pq eu sou diferentona! Meus deuses, por lorien, que capítulo divo... O melhor ever! Tantos da gard aimmmmm que emoção!

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  7. Ella safadinha "o nove maravilhoso "😍

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  8. To contigo Ella:O Nove É maravilhoso!!! ;-}

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  9. Querida, quem não quer dar um abraço no Nove? Alguém faz uma série sobre isso? Please? E não estraguem os personagens.

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  10. Da até dó da Sarah por não ter legados.

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  11. Ai meu Deus vamo direto ao assunto to roendoas unhas aqui

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