9 de outubro de 2015

Capítulo 8 - Shaunee

— Damien, acho que eu devo ficar bem longe do estábulo. Lenobia já teve uma dose bem grande de fogo recentemente.
Shaunee olhou para Damien e Erin. Os três haviam se afastado quando Zoey disse para eles se dispersarem, mas, em vez de fazer isso, eles haviam ficado juntos, tentando imaginar onde cada um deles seria mais útil com os seus elementos.
— Você tem razão — Damien concordou. — Faz mais sentido que você vá até a pira de Dragon. Você vai ser útil por lá em breve.
Os ombros de Shaunee desabaram.
— É, eu sei, mas não estou nada ansiosa por isso.
— Simplesmente conecte-se ao seu elemento e vai ser fácil — Erin sugeriu.
Shaunee piscou surpresa para ela, não apenas por ela ter falado – Erin definitivamente estava evitando conversar com ela desde que as duas tinham virado ex-gêmeas – mas com o seu tom sem consideração. Ela estava falando sobre queimar o corpo de Dragon como se isso não fosse nada demais, como acender um fósforo.
— Nada em relação ao funeral de Dragon vai ser fácil, Erin. Com ou sem o meu elemento.
— Eu não quis dizer fácil para valer — Erin pareceu irritada.
Shaunee pensou que ultimamente Erin sempre parecia irritada.
— Só quis dizer que, quando você realmente se conecta ao seu elemento, as outras coisas não incomodam tanto. Mas talvez você não vá tão a fundo no seu elemento.
— Isso é besteira — Shaunee sentiu o calor de uma raiva crescente. — Minha afinidade com o fogo não é nem um pouco menor do que a sua afinidade com a água.
Erin deu de ombros.
— Tanto faz. Eu só estava tentando ajudá-la. De agora em diante, vou deixar de tentar — ela se virou para Damien, que estava olhando de uma para a outra, como se não soubesse se pulava no meio delas ou corria na direção oposta. — Eu vou para o estábulo. Lenobia vai ficar feliz de ver a água, e eu não tenho problemas em usar o meu elemento — sem dizer mais nada, Erin foi embora.
— Ela sempre foi assim? — Shaunee se ouviu perguntando para Damien algo que havia dias rondava a sua mente.
— Você tem que definir “assim”.
— Sem coração.
— Honestamente?
— Sim. Erin sempre foi tão sem coração?
— Isso é realmente muito difícil de responder, Shaunee — Damien falou gentilmente, como se estivesse pensando que precisava ser cuidadoso para que as suas palavras não a magoassem.
— Só me diga a verdade, mesmo se ela for dura — ela insistiu.
— Bem, então, honestamente, até vocês duas se separarem, era praticamente impossível saber como era cada uma individualmente. Nunca conheci nenhuma das duas sem a outra. Uma terminava as frases da outra. Era como se vocês fossem duas metades de um todo.
— Mas nem agora? — Shaunee o estimulou a continuar, quando ele hesitou.
— Não, agora é diferente. Agora vocês são indivíduos com personalidade própria — ele sorriu para ela. — O melhor jeito de colocar isso é que ficou bem óbvio para a maioria de nós que a sua personalidade é a com coração.
Shaunee ficou olhando Erin se afastar.
— Eu já sabia disso antes, e isso me incomodava. Sabe, o jeito com que ela era tão sarcástica, fofoqueira e maldosa. Mas também era tão divertido e legal estar com ela.
— Normalmente, divertido à custa de outras pessoas — Damien comentou. — Legal porque ela excluía os outros para parecer que ela era melhor do que todo o resto.
Shaunee encontrou o olhar dele.
— Eu sei. Agora eu vejo isso. Mas, antes, tudo o que eu conseguia ver era que nós éramos melhores amigas, e eu precisava de uma melhor amiga.
— E agora? — ele perguntou.
— Agora eu preciso conseguir gostar de mim mesma, e não posso fazer isso se eu for só a metade de uma pessoa inteira. Eu também estou cansada de sempre ter que dizer algo sarcástico, engraçadinho ou apenas simplesmente detestável — ela balançou a cabeça, sentindo-se triste e madura. — Isso não significa que eu ache Erin ridícula. Na verdade, quero que ela seja tão legal, divertida e incrível quanto eu acreditava que ela era. Só acho que acabei de descobrir que ela tem que ser, ou não ser, essas coisas por ela mesma. Isso não tem nada a ver comigo.
— Você é mais inteligente do que eu pensei que você fosse — Damien admitiu.
— Eu ainda sou péssima na escola.
Ele sorriu.
— Existem outros tipos de inteligência.
— Bom saber disso.
— Ei, não se subestime. Você poderia ser realmente boa na escola se você se esforçasse um pouco.
— Sei que isso parece uma coisa boa para você, mas por mim estou feliz com a parte dos “outros tipos de inteligência” — Shaunee falou, fazendo Damien rir. Depois acrescentou: — Eu vou até a pira. Talvez, se eu estiver por lá, possa ajudar.
— Ajudar os guerreiros ou a você mesma?
— Talvez ambos. Eu não sei — Shaunee respondeu com um suspiro.
— Vou acreditar que vai ajudar ambos — ele afirmou. — Vou andar por aí, como o ar. Vou tentar soprar para longe o resto de Trevas que ainda está impregnado neste lugar.
— Você também sente isso?
Ele assentiu.
— Posso sentir que a energia por aqui é ruim. Muita coisa negativa aconteceu em um período curto demais — Damien inclinou a cabeça, analisando Shaunee. — Agora que pensei mais nisso, não acho que você deve ficar longe do estábulo. O fogo não é mau. Você não é má. Lenobia sabe disso. Lembra como você fez os cascos dos cavalos se aquecerem para que a gente conseguisse cavalgar no meio daquela tempestade de gelo?
— Lembro — Shaunee respondeu, e aquela lembrança fez com que ela se sentisse mais leve.
— Então vá até a pira, ajude lá, mas vá até o estábulo também. Lembre a todos que o fogo pode fazer muito mais do que destruir. A forma como ele é manejado é o que importa.
— Imagino que você quer dizer algo como “o que importa é como o fogo é usado”?
Damien abriu o sorriso.
— Viu só, eu disse que você poderia ser boa na escola. “Manejar” é uma excelente palavra para o seu vocabulário: controlar ou dominar uma arte, uma disciplina etc.
— Você está fazendo a minha cabeça doer — Shaunee falou, e ambos riram.
— Então, vou encontrar com você no estábulo mais tarde?
— Sim, vai.
Damien começou a se afastar, mas voltou e deu um abraço rápido e apertado em Shaunee.
— Estou feliz porque você se tornou uma pessoa própria. E se você precisar de um amigo, eu estou aqui — ele falou, e então saiu apressado em direção ao estábulo.
Shaunee piscou com força para segurar as lágrimas, observando o cabelo castanho e macio de Damien balançando na sua brisa própria.
— Fogo — ela sussurrou — mande uma pequena faísca para Damien. Ele merece encontrar um cara gostoso que o faça feliz, principalmente porque ele sempre se esforça tanto para fazer os outros felizes.
Sentindo-se melhor do que estava se sentindo havia semanas, Shaunee começou a andar em outra direção. Os seus passos eram mais vagarosos, mais calculados do que os de Damien, mas ela não estava mais com medo de para onde estava indo. Ela também não estava ansiosa para a pira e para o fogo – ela não era Erin. Ela só não podia apagar a tristeza e a dor congelando os seus sentimentos.
E sabe de uma coisa? Eu não ia querer ser fria e congelada por dentro, mesmo que isso significasse que eu não fosse me ferir tanto, ela decidiu em silêncio.
Shaunee estava se centrando e extraindo força do calor constante do seu elemento. Obrigada, Nyx. Eu vou tentar manejá-lo bem, era o que ela estava pensando quando a voz do imortal penetrou na sua mente.
— Eu ainda não te agradeci.
Shaunee levantou os olhos e viu Kalona em pé diante da grande estátua de Nyx que ficava na frente do seu templo. Ele estava usando uma calça jeans e um colete de couro muito parecido com o que Dragon costumava usar. Só que esse colete era maior e tinha fendas através das quais as asas negras de Kalona emergiam e então se dobravam sobre suas costas. Esse colete também não ostentava a insígnia da Deusa, mas era difícil pensar nisso com ele a encarando com aqueles olhos âmbar do Outromundo.
Ele é mesmo absolutamente, inumanamente maravilhoso. Shaunee afastou o pensamento da sua mente e em vez disso se concentrou no que ele havia dito.
— Agradecer a mim? Pelo quê?
— Por me emprestar o seu celular. Sem ele, Stevie Rae não teria conseguido me ligar. Se não fosse por você, Rephaim poderia estar morto.
O rosto de Shaunee ficou quente. Ela encolheu os ombros, sem saber por que de repente se sentia tão nervosa.
— Você foi o cara que veio quando ela ligou. Você simplesmente podia não ter atendido e continuaria sendo um pai de merda — Shaunee falou sem pensar e só depois percebeu o que tinha dito.
Então ela fechou a boca e disse a si mesma: fique quieta!
Houve um silêncio longo e desconfortável, até que Kalona afirmou:
— O que você disse é verdade. Eu não tenho sido um bom pai para os meus filhos. Eu ainda não estou sendo um bom pai para todos os meus filhos.
Shaunee olhou para ele, imaginando o que ele queria dizer exatamente. A voz dele tinha soado estranha. Ela esperava que ele parecesse triste, sério ou até irritado. Em vez disso, pareceu surpreso e um pouco embaraçado, como se aqueles pensamentos tivessem acabado de ocorrer para ele. Ela queria poder ver a sua expressão, mas o rosto dele estava virado para o outro lado. Ele estava olhando para a estátua de Nyx.
— Bem — ela começou, sem saber muito bem o que dizer. — Você está melhorando o seu relacionamento com Rephaim. Talvez não seja tarde demais para consertar o seu relacionamento com os seus outros filhos também. Eu sei que, se o meu pai aparecesse e quisesse algo comigo, eu iria permitir. Pelo menos, eu daria uma chance a ele — o imortal virou a cabeça e ela o encarou. Shaunee se sentiu trêmula, como se aqueles olhos âmbar pudessem enxergar muito dela. — O que eu quero dizer é que acho que nunca é tarde demais para fazer a coisa certa.
— Você acredita mesmo nisso, honestamente?
— Sim. Ultimamente, acredito cada vez mais — Shaunee preferia que Kalona parasse de olhar para ela. — Então, quantos filhos você tem?
Ele deu de ombros. Suas asas enormes se levantaram um pouco e depois de acomodaram novamente.
— Perdi a conta.
— Parece que saber quantos filhos você tem é um bom jeito de começar aquela coisa toda de “quero ser um bom pai”.
— Saber algo e agir em relação a isso são coisas bem diferentes — ele falou.
— Sim, totalmente. Mas eu disse que é um bom meio de começar — Shaunee desviou o rosto na direção da estátua de Nyx. — Há outro bom ponto de partida.
— A estátua da Deusa?
Ela franziu a testa para ele, sentindo-se um pouco mais confortável sob o seu olhar.
— Não é só ficar perto da estátua dela. Tente pedir...
— O perdão dela não é concedido a todos nós! — a voz dele soou como um trovão.
Shaunee começou a tremer, mas ela desviou os olhos para a estátua de Nyx. Ela quase podia jurar que os seus belos lábios carnudos de mármore se curvaram em um sorriso bondoso para ela. Fosse ou não imaginação dela, aquilo deu a Shaunee o impulso de coragem que ela precisava, e a novata continuou apressadamente:
— Eu não ia dizer perdão. Eu ia dizer ajuda. Tente pedir a ajuda de Nyx.
— Nyx não iria me ouvir — Kalona falou tão baixo que Shaunee quase não o escutou. — Ela não me ouve há éons.
— Durante esses éons, quantas vezes você pediu ajuda a ela?
— Nenhuma — ele respondeu.
— Então como você sabe que ela não o está ouvindo?
Kalona balançou a cabeça.
— Você foi enviada a mim para ser a minha consciência?
Foi a vez de Shaunee balançar a cabeça em negação.
— Eu não fui enviada a você, e a Deusa sabe que eu já tenho problemas suficientes para lidar com a minha própria consciência. Tenho certeza absoluta de que não posso ser a consciência de ninguém mais.
— Eu não teria tanta certeza, novata jovem e ardente... Eu não teria tanta certeza — ele refletiu em voz alta.
Então, abruptamente, Kalona se afastou dela, deu alguns passos largos e rápidos e se lançou no céu da noite.


Rephaim

Ele não se importava muito com o fato de que a maioria dos outros garotos ainda o evitava. Damien era legal, mas ele era legal com praticamente todo mundo, então Rephaim não tinha certeza se a gentileza do garoto tinha alguma coisa a ver com ele. Pelo menos Stark e Darius não estavam tentando matá-lo nem afastá-lo de Stevie Rae. Recentemente, Darius até parecia um pouco mais amigável. O guerreiro Filho de Erebus o tinha amparado quando ele tropeçou dentro do ônibus na noite anterior, ainda fraco depois de ser curado magicamente de um ferimento mortal.
Meu Pai me salvou e depois fez juramento comprometendo-se a ser guerreiro da Morte. Ele realmente me ama, e está escolhendo o lado da Luz em vez das Trevas. Pensar nisso fez Rephaim sorrir, apesar de o ex-Corvo Escarnecedor não ser tão ingênuo e crédulo quanto Stevie Rae e os outros pensavam.
Rephaim queria que o seu pai continuasse no caminho de Nyx – queria isso muito mesmo. Mas ele, mais do que ninguém (exceto a própria Deusa), conhecia o ódio e a violência em que o imortal caído havia chafurdado por séculos. O fato de Rephaim existir era prova da capacidade do seu pai de causar imensa dor nos outros.
Os ombros de Rephaim desabaram. Ele havia chegado à parte dos jardins da escola onde ficava o carvalho destruído – metade dele apoiada no muro, metade no chão. O centro da árvore velha e grossa parecia que tinha sido atingido por um raio atirado por um deus furioso. Mas Rephaim sabia que não era isso.
O seu pai era um imortal, mas ele não era um deus. Kalona era um guerreiro, e um guerreiro caído. Sentindo-se estranhamente perturbado, Rephaim passou os olhos pela ferida profunda que era aquela destruição no meio da árvore. Ele se sentou em um dos galhos caídos bem em frente à copa quebrada da árvore, analisando o tronco grosso que estava encostado no muro leste da escola.
— Isso precisa ser consertado — Rephaim falou em voz alta, preenchendo o silêncio da noite com a humanidade da sua própria voz. — Stevie Rae e eu podemos trabalhar nisso juntos. Talvez a árvore não esteja completamente perdida — ele sorriu. — A minha Vermelha me curou. Por que ela não poderia curar uma árvore?
A árvore não respondeu, mas enquanto Rephaim falava ele teve uma estranha sensação de déjà vu. Como se ele tivesse estado ali antes, não apenas em outro dia normal de escola. Ele sentiu uma sensação de ter estado ali com o vento sob suas asas e o azul brilhante do céu à luz do dia.
Rephaim enrugou a testa e esfregou a mão nela, sentindo o começo de uma dor de cabeça. Será que ele tinha vindo até ali durante o dia, enquanto ele era um corvo, quando a sua humanidade estava escondida tão profundamente dentro dele que aquelas horas passava como um borrão nebuloso e indistinto de sons, cheiros e visão?
A única resposta que veio até Rephaim foi aquela pulsação surda em suas têmporas.
O vento batia ao redor dele, farfalhando através dos galhos caídos, fazendo sussurrar as poucas folhas marrons do inverno que ainda estavam presas ao velho carvalho. Por um momento, pareceu que a árvore estava tentando falar com ele, tentando contar os seus segredos.
Rephaim desviou o olhar de volta para o centro da árvore. Sombras. Casca de árvore partida. Tronco despedaçado. Raiz exposta. E parecia que o chão perto do centro da árvore já havia começado a sofrer uma erosão, quase como se houvesse um buraco se formando abaixo dela.
Rephaim estremeceu. Já houve um buraco abaixo da árvore. Um buraco que havia aprisionado Kalona dentro da terra por séculos. A lembrança desses séculos e da terrível existência meio irreal e repleta de ódio, violência e solidão que ele havia vivido durante esse tempo ainda era parte do fardo pesado que Rephaim carregava.
— Deusa, eu sei que você me perdoou pelo meu passado e sempre vou ser grato por isso. Mas será que você poderia me ensinar a me perdoar de verdade?
A brisa farfalhou de novo. Aquele som era reconfortante, como se o sussurro ancestral da árvore pudesse ser a voz da Deusa.
— Vou entender isso como um sinal — Rephaim falou em voz alta para a árvore, pressionando a palma da sua mão contra o tronco ao lado dele. — Vou pedir a Stevie Rae para me ajudar a consertar a violência que te despedaçou. Logo. Dou minha palavra. Vou voltar logo.
Quando Rephaim se afastou para continuar a sua ronda pelo perímetro da escola, ele pensou ter ouvido um movimento bem embaixo da árvore e imaginou que fosse o velho carvalho o agradecendo.


Aurox

Aurox estava andando agitado de um lado para o outro, cobrindo com três passos aquele pequeno espaço vazio abaixo do carvalho despedaçado. Então ele se virou e deu três passos curtos de volta para o outro lado. Ele continuou para lá e para cá, para lá e para cá. Pensando... pensando... pensando... e desejando desesperadamente ter um plano.
A sua cabeça doía. Ele não havia quebrado o crânio quando caiu no buraco, mas o machucado na sua cabeça tinha sangrado e inchado. Ele estava com fome e com sede. Achava difícil descansar dentro da terra, apesar de o seu corpo estar exausto e de ele precisar dormir para poder se curar.
Por que ele tinha achado uma boa ideia voltar para esta escola e se esconder nos jardins onde viviam o professor que ele havia matado e o garoto que ele tinha tentado matar?
Aurox segurou sua cabeça com as mãos. Não fui eu! Ele queria gritar aquelas palavras. Eu não matei Dragon Lankford. Eu não ataquei Rephaim. Eu fiz uma escolha diferente!
Mas a escolha dele não tinha importado. Ele havia se transformado em uma besta. E a besta espalhara um rastro de morte e destruição.
Havia sido tolice da parte dele ir até a escola. Tolice acreditar que ele poderia se encontrar ali ou fazer algum bem. Bem? Se alguém soubesse que ele estava se escondendo na escola, seria atacado, aprisionado e possivelmente morto. Apesar de ele não estar ali para ferir ninguém, isso não importaria. Ele iria absorver o ódio daqueles que o descobrissem e a besta emergiria. Ele não seria capaz de controlá-la. Os guerreiros Filhos de Erebus iriam cercá-lo e colocar um fim na sua existência miserável.
Eu já controlei a besta antes. Eu não ataquei Zoey. Mas será que ele teria a oportunidade de tentar explicar que não queria causar nenhum dano? Ou mesmo de ter um momento para testar o seu autocontrole e provar que ele era mais do que a besta dentro dele?
Aurox recomeçou a andar de um lado para o outro. Não, a intenção dele não iria importar para ninguém na House of Night. Tudo o que eles iriam ver era a besta. Inclusive Zoey? Será que até mesmo ela ficaria contra ele?
“Zoey o protegeu dos guerreiros. Foi por causa da proteção dela que você conseguiu fugir.” A voz de Vovó Redbird acalmou os seus pensamentos turbulentos. Zoey o havia protegido. Ela tinha acreditado que ele conseguia controlar a besta o suficiente para não machucá-la. A avó dela oferecera abrigo a ele. Podia ser que Zoey não o quisesse morto.
Mas os outros queriam.
Aurox não os censurava por isso. Ele merecia a morte. Apesar de ele ter recentemente começado a sentir e a desejar ter uma vida diferente, e fazer escolhas diferentes, isso não mudava o passado. Ele havia cometido atos violentos e desprezíveis. Ele tinha feito tudo o que a Sacerdotisa ordenara.
Neferet...
O nome dela, mesmo como uma palavra não pronunciada em sua mente, causou um arrepio pelo seu corpo agitado. A besta dentro dele queria ir até a Sacerdotisa. A besta dentro dele precisava servi-la.
— Eu sou mais do que uma besta — a terra em volta dele absorveu suas palavras, abafando a humanidade de Aurox. Em desespero, ele agarrou uma raiz retorcida e começou a puxá-la para tentar subir e sair daquele buraco de terra.
— Isso precisa ser consertado — aquelas palavras chegaram até Aurox lá embaixo.
O corpo dele congelou. Ele reconheceu a voz: Rephaim. Vovó havia falado a verdade. O garoto sobrevivera.
O fardo invisível de Aurox ficou um pouco mais leve. Aquela morte não precisava pesar na sua consciência.
Aurox se agachou, esforçando-se em silêncio para escutar com quem Rephaim estava falando. Ele não sentiu raiva nem violência. Certamente, se Rephaim tivesse a menor ideia de que Aurox estava escondido tão perto, o garoto seria tomado por sentimentos de vingança, não seria?
O tempo parecia passar devagar. O vento ficou mais forte. Aurox podia ouvi-lo chicoteando as folhas secas da árvore partida acima dele. Ele captou palavras que flutuaram com o ar frio: trabalhar... árvore... Vermelha me curou... Tudo na voz de Rephaim, sem nenhuma maldade, como se ele estivesse apenas refletindo em voz alta. E então a brisa levou até ele a prece do garoto:
— Deusa, eu sei que você me perdoou pelo meu passado e sempre vou ser grato por isso. Mas será que você poderia me ensinar a me perdoar de verdade?
Aurox mal respirava.
Rephaim estava pedindo ajuda da sua Deusa para perdoar a si mesmo? Por quê?
Aurox esfregou a testa latejante e se esforçou para pensar. A Sacerdotisa raramente tinha falado com ele, exceto para ordenar que ele cometesse um ato de violência. Mas ela havia falado quando ele estava por perto, como se Aurox não tivesse a capacidade de ouvi-la ou de formular pensamentos por si mesmo. O que ele sabia sobre Rephaim? Ele era o filho do imortal Kalona. Ele era amaldiçoado a ser um garoto de noite e um corvo de dia. Amaldiçoado?
Ele havia acabado de escutar Rephaim rezando, e na sua prece ele havia agradecido o perdão de Nyx. Certamente, uma Deusa não iria amaldiçoar e perdoar ao mesmo tempo.
Então, com um princípio de surpresa, Aurox se lembrou do corvo que tinha grasnado para ele e feito tanto barulho que havia provocado a sua queda naquele buraco.
Será que aquele corvo podia ser Rephaim? O corpo de Aurox se tensionou quando ele se preparou para o confronto aparentemente inevitável que estava por vir.
— Dou minha palavra. Vou voltar logo — a voz de Rephaim chegou novamente até Aurox.
O garoto estava indo embora, ainda que temporariamente. Aurox relaxou contra a parede de terra. O corpo dele doía e a sua mente zunia.
Era óbvio que ele não podia ficar naquele buraco, mas só isso era óbvio para Aurox.
Será que a Deusa de Rephaim, aquela que o havia perdoado, também o havia guiado até o buraco onde estava Aurox? Se fosse isso, era para mostrar a Aurox redenção ou vingança? Será que ele devia se entregar, talvez para Zoey, e sofrer as consequências que fossem necessárias? E se a besta emergisse de novo, e dessa vez ele não conseguisse controlá-la? Será que ele deveria fugir? Ou deveria procurar a Sacerdotisa e exigir respostas?
— Eu não sei nada — ele murmurou para si mesmo. — Eu não sei nada.
Com o peso da sua confusão e de toda a sua ânsia, Aurox abaixou a cabeça. Em silêncio e cheio de hesitação, ele imitou Rephaim e fez sua própria prece. Uma prece simples e sincera. E aquela foi a primeira vez na vida em que Aurox rezou.
Nyx, se você é mesmo uma Deusa misericordiosa, por favor, me ajude... Por favor...

Nenhum comentário:

Postar um comentário

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Os comentários estão demorando alguns dias para serem aprovados... a situação será normalizada assim que possível. Boa leitura!