10 de outubro de 2015

Capítulo 8 - Neferet

Os mortais descreveriam o que Neferet fez como sonho. Eles diriam que estavam tendo pesadelos tão vívidos que, ao acordarem, os sonhos haviam ficado com eles e até parecido reais.
Encolhida na toca da raposa, vestida apenas de sangue e Trevas, Neferet expandiu a sua consciência, examinando diferentes camadas de mundos materiais e imateriais, em uma busca pela sobrevivência.
Não, a imortal não havia sonhado.
Na verdade, a Tsi Sgili estava experimentando novamente a sua vida, um evento após o outro, revivendo os momentos que haviam culminado no nascimento de uma imortal e, desse modo, esperando redescobrir aquilo que a visão no espelho havia despedaçado: o seu objetivo e a sua verdadeira personalidade.
Neferet começou com a noite que foi refletida pelo espelho, no momento em que a sua inocência havia se perdido. Ela mais uma vez se tornou Emily Wheiler, uma garota de dezesseis anos que havia perdido a mãe há apenas seis meses, e reviveu a noite em que seu pai a atacou e a estuprou.
Ela podia sentir o cheiro dele: conhaque, hálito azedo, suor, cigarro e luxúria. Ela sentiu o desgosto de descobrir o que ele pretendia e o terror de saber que não podia escapar dele. Então ela experimentou mais uma vez a dor do seu corpo machucado e rasgado.
Ainda como Emily Wheiler, ela escapou, sangrando e desesperada, para ser rejeitada pelo seu noivo. Mas, no mesmo momento, ela foi salva pelo Rastreador que a Marcou como novata e alterou o seu destino para sempre.
Segura dentro da House of Night de Chicago, o seu corpo se curou sob a supervisão atenta de sua primeira mentora. Mas a mente dela não conseguia se recuperar. Emily precisava se vingar para se curar totalmente. A voz da sua mentora soou tão clara quanto se ela estivesse naquela noite de 1893.
—... uma necessidade insaciável por vingança se torna um veneno que vai tentar a sua alma e destruir a sua vida...
A mentora de Emily havia lhe explicado que ela precisava encarar a escolha entre esquecer o que seu pai havia feito para ela e seguir em frente com a sua nova vida de novata, ou afundar em autopiedade e carregar as cicatrizes que aquele monstro tinha causado, sem conseguir perdoar e esquecer.
A novata Emily Wheiler não fez nenhuma dessas duas escolhas.
O corpo de Tsi Sgili se contraiu em espasmos. A sua respiração se acelerou, embora ela não tenha despertado. Ela continuou totalmente inconsciente e em outra época, revivendo o nascimento de Neferet, Rainha da Noite.
Ela voltou para a casa dos Wheiler, o lar do seu pai, como uma vingadora, estrangulando-o até a morte reivindicando o seu novo nome e a sua nova vida – sem perdão, dúvida nem autopiedade.
A mão de Neferet se contraiu quando o espectro do seu passado segurou o seu colar de pérolas, suave e mortalmente, e reviveu o prazer que ela havia sentido quando acabou com a vida patética de Barry Wheiler.
Neferet reviveu outra coisa também – ela estava de novo preenchida por uma onda de energia causada por aquele primeiro assassinato. Ela não havia provado o sangue dele. Aquela ideia não passara pela sua cabeça, mas ela tinha sentido o poder de acabar com a respiração dele, de fazer o seu coração parar, de saber que ela havia feito o espírito dele fugir daquela casca mortal e quebrada.
A pele perfeita de Neferet se empalideceu com um calafrio, e logo depois se aquecera levemente.
Ela reviveu a sua fuga de Chicago por trem, acompanhando um pequeno grupo de vampiros que estava explorando lugares no oeste para novas House of Night. Na primeira parada do trem, Emily Wheiler enterrou o seu diário. Na terra que iria se tornar Oklahoma, ela sepultou a única lembrança do que havia acontecido a ela. Ela se lembrou de cavar aquela terra com uma pá, abrindo uma ferida vermelha como sangue seco de touro e que tinha o aroma do fim de todas as coisas. Com o enterro daquele triste registro da inocência perdida e do estupro vingado, começou a nova vida de Neferet.
Não foi uma vida fácil.
Mas dentro daquele cometa de renascimento sempre houve um centro sombrio de conforto que nunca abandonou Neferet. A noite era o seu mundo, e as sombras dos seus cantos mais escuros continham consolo e aceitação.
O Conselho da Escola de Chicago decidiu que não era seguro para a novata Neferet voltar pra lá, então ela foi transferida para a House of Night de Tower Grove em St. Louis. Lá os dons de Neferet se imprimiram com força dentro dela.
Neferet se encolheu mais, revivendo o momento seguinte que definiu quem ela iria se tornar.
Havia uma pequena gata malhada de pelo curto preto e cinza. Era uma gata comum, sem nenhum atrativo que chamasse a atenção de Neferet, não fosse pela sua inteligência aguçada e pelo polegar extra que ela tinha nas patas dianteiras. Era inverno em St. Louis, estava gelado e nevava, e a jovem Neferet achou que a gatinha malhada parecia estar usando aquelas luvas que cobriam todos os dedos.
A cozinheira mal-humorada da escola havia batizado a gata de Chloe, o mesmo nome de uma ladra humana que havia sida pega tentando invadir a escola, porque ela não conseguia impedir que o felino entrasse na sua cozinha, não importava quantas vezes ela trancasse as janelas e apesar de ela ficar de olho nas ajudantes de cozinha que tinham o hábito de esquecer as portas abertas.
Naquele dia, Chloe havia conseguido abrir a janela, subido em uma viga do teto, saltado na mesa em que os alimentos ficavam resfriando após sair do forno e se fartado com uma torta de miúdos, lambuzando as patas. A vampira tinha acabado de jogar o animal para fora da cozinha quando Neferet apareceu.
— Como ela conseguiu colocar luvas? — a jovem Neferet exclamou ao resgatar a pequena Chloe do monte de neve em que ela havia aterrissado, tirando os flocos brancos úmidos do seu pelo pardo e sorrindo enquanto a gata batia as patas no manto com pele de armarinho de Neferet.
A cozinheira riu e zombou de Neferet.
— Eu sei que você é jovem, mas não há motivo para soar como uma tola. Chloe é polidáctila, tem seis dedos. Com certeza você já viu os gatos da nossa Alta Sacerdotisa e do seu companheiro. Todos polidáctilos. Esse animalzinho deve ser parente deles, apesar de eu não ver nenhuma semelhança entre eles, exceto nas patas — a velha vampira se virou e foi embora, ainda gargalhando, balançando os cabelos e murmurando: — Luvas em um gato. A garota é bonita, mas não tem nada na cabeça...
Neferet se lembrou de como ficou vermelha de vergonha e raiva, até que Chloe levantou a cabeça e olhou nos seus olhos.
Então o mundo de Neferet mudou. Ela reviveu aquela excitação de saber o que estava passando pela mente da gata. Ela não ouvia propriamente palavras – gatos não pensam com palavras. Ela ouviu emoções, e emoções contavam histórias. Chloe irradiou travessura. A sua barriga estava cheia e quente e ela estava com sono. Mas, o mais importante, a gata olhou nos olhos de Neferet com amor, lealdade e alegria, e escolheu Neferet como sua para sempre.
Pandeia, há muito tempo a Alta Sacerdotisa em St. Louis, não chamou Neferet de tola nem zombou dela quando a jovem novata foi procurá-la, segurando Chloe adormecida, e descreveu com um espanto esbaforido as imagens de sonho que ela conseguia extrair da mente do felino.
— Alta Sacerdotisa, e eu posso sentir a mente da sua gata também! — Neferet falou rapidamente, apontando para a gata malhada e rechonchuda da vampira, que estava descansando preguiçosamente no batente da janela. — Ela está feliz, muito feliz, pois ela está grávida!
O sorriso da Alta Sacerdotisa quase ofuscou a zombaria da cozinheira.
— Querida Neferet, Nyx concedeu a você uma maravilhosa afinidade, uma ligação especial com os gatos, o animal mais próximo de nossa Deusa. Nyx deve dar muito valor a você para lhe premiar com um dom desses.
Aquele dia glorioso se esvaneceu e a experiência de Neferet mudou. Os meses se passaram tão rápido quanto as batidas do coração da Tsi Sgili.
Ela ainda era uma novata, porém mais velha. O que ela dizia era valorizado. Primeiro por causa da sua conexão com os felinos que perambulavam livremente pela House of Night como companheiros de novatos e vampiros. Depois porque, apesar de a sua afinidade ter começado com os gatos, logo ficou evidente que Neferet era capaz de alcançar a mente das pessoas quase tão facilmente quanto ela fazia com os gatos.
Imagens se levantaram do passado, uma depois da outra, deixando-a tonta por causa da sua velocidade.
— Neferet, seria ótimo se você pudesse vir até a cidade comigo. Preciso saber se a cidade está ficando agitada de novo por causa dos rituais da lua cheia — a sua Alta Sacerdotisa pedira.
Ela havia ido com Pandeia, abrindo-se para a onda de medo, ódio e inveja que os humanos locais dirigiam à Alta Sacerdotisa, apesar de eles sorrirem timidamente e tocarem na aba e seus chapéus para cumprimentá-la ou de desviarem os olhos e fingirem não vê-la.
Neferet começou a odiar ir até a cidade.
— Neferet, o Consorte humano da nossa nova professora está triste. Seria bom se você pudesse me dizer se ele deseja ir embora, mas tenho receio de perguntar — Pandeia lhe pedira em outra ocasião.
Neferet deslizara para dentro da mente do homem. O humano não estava triste. Ele era infiel à sua vampira e estava dando umas escapadas durante o dia, enquanto ela dormia, para jogar e frequentar prostíbulos em barcos no rio.
A professora o mandou embora e se esqueceu rapidamente dele, trocando-o por outro Consorte mais leal depois de duas semanas.
Mas Neferet achou difícil esquecer aquilo que ela havia captado dentro da mente do homem. Luxúria, inveja, ganância e desejo. Isso a envenenou.
Percebendo o quanto a Alta Sacerdotisa valorizava os seus conselhos, mais pessoas vieram procurá-la, sempre buscando respostas escondidas embaixo das máscaras dos outros.
Enquanto Neferet revivia essas experiências, ela sentiu o ressentimento que começou a crescer dentro dela. Todos eram tão carentes! Até a Alta Sacerdotisa.
— Neferet, diga-me se aquele guerreiro Filho de Erebus acha mesmo que sou bonita...
— Neferet, eu preciso saber se a minha companheira de quarto está falando a verdade sobre...
— Neferet, conte-me...
— Neferet, eu quero...
— Neferet, por que aquilo...?
A Tsi Sgili estremeceu, mas não acordou, enquanto uma experiência atrás da outra, uma memória atrás da outra, assomavam-se tão rapidamente que elas se fundiam uma às outras, tornando-se uma mistura de necessidade e ganância, de desejo e traição, de mentiras e luxúria.
As Trevas a haviam salvado. Neferet foi atraída para os jardins que desabrochavam à noite em Tower Grove. Os lugares mais sombrios de sua House of Night eram como amigos familiares para ela. Lá ela podia desaparecer, invocando a noite, de modo que os outros olhavam para ela sem nunca vê-la...
Chloe entendia. Ela era inteligente e precoce, e não importava qual pensamento insípido Neferet tivesse escutado, ela sempre encontrava um jeito de fazê-la sorrir. Ela sussurrava para a gata os sentimentos que estava aprendendo a nunca dizer em voz alta, a nunca mostrar para os outros novatos, a nunca, nunca mesmo, revelar a nenhum vampiro.
— Eu detesto quando Pandeia me pede para ouvir a mente de um humano, especialmente um do sexo masculino — Neferet contou ao felino novamente. — Eles são todos vis. Os pensamentos deles são obcecados pelos nossos corpos, por nos possuir, apesar de o medo deles ser tão forte que tem quase um cheiro próprio: hálito azedo, suor e um desejo insaciável.
Chloe deu um beijo de nariz em Neferet e esfregou o seu rosto contra o dela, enchendo-a de amor incondicional e aceitação.
— Quando eu for Alta Sacerdotisa, só vou usar meus poderes quando eu quiser. Eu não concordo com Pandeia e os outros. Só porque eu tenho esse dom, isso não significa que eu tenho que estar à disposição deles. Eu recebi esse poder, não eles. Eu deveria fazer com ele o que eu quisesse.
Em vez de se aconchegar a ela como sempre, a gata levantou os ouvidos e ficou empoleirada no colo de Neferet, olhando para os jardins da escola encobertos pela noite.
Na sua toca, a Tsi Sgili gemeu alto, sem querer reviver o que aconteceu em seguida, mas sem ser capaz de escapar das visões do seu passado.
A House of Night de Tower Grove tinha jardins exuberantes que se estendiam por mais de duzentos acres de terra isolados ao redor do campus principal. Os jardins eram meticulosamente bem cuidados, é claro, mas era o começo do século vinte e St. Louis ainda era conhecida como uma porta de entrada para o oeste selvagem. Os jardins hospedavam mais do que cascatas e flores que desabrochavam à noite.
Chloe farejou o ar.
Neferet inspirou profundamente junto com a gata. Quando o animal arquejou as costas, rosnando com ferocidade, Neferet também mostrou os seus dentes. Ambas estavam com raiva por um invasor ter entrado na sua House of Night.
Foi só quando Chloe saltou do seu colo que Neferet caiu em si e conheceu o seu medo. Ela correu atrás da gata.
O lince estava caçando coelhos e havia perseguido um até perto do canto escuro em que Neferet e Chloe estavam. Frustrado por perder a sua presa, o grande macho havia marcado o território em volta da clareira.
Chloe irrompeu no território do macho. Rosnando um aviso, o lince encarou a gatinha. Uivando e salivando, Chloe voou em direção ao macho, com as garras e os dentes para fora.
— Não — Neferet gritou junto com Chloe quando o lince atacou uma vez, duas vezes, batendo na gatinha como se ela fosse um inseto irritante, rasgando a sua barriga e a dilacerando com destreza.
O grande animal, pelo menos três vezes maior que Chloe, estava se aproximando do local em que a gatinha estava caída, contorcendo-se e sangrando, quando Neferet chegou à clareira.
O ódio tomou conta da novata, e ela arremeteu contra o animal, berrando a sua raiva sem palavras, com as mãos feito garras e os dentes expostos.
O lince colocou as orelhas para trás, guardando-as no crânio. Os seus olhos amarelos encontraram o intenso olhar esmeralda de Neferet. O que ele viu o fez parar. Tão rapidamente quanto o seu instinto de matar havia surgido, o seu instinto de autopreservação tomou conta dele fazendo o felino retroceder, desaparecendo nas folhagens.
Neferet correu até a sua gata. Chloe ainda estava viva. O seu coraçãozinho batia rápido e ela estava ofegando de pânico e dor.
— Não! Deusa, não! — Neferet rasgou o seu vestido e tentou colocar as vísceras da gata dentro de sua barriga e estancar aquele terrível fluxo de sangue. — Ajude-a, Nyx! Por favor, se eu sou tão importante para você como todo mundo diz, por favor, eu imploro que você a ajude! — tomada pela dor da gata e pelo seu próprio desespero, Neferet gritou para a noite. — Ajude-a, Deusa! Por favor, ajude!
O ar acima da clareira tremulou com uma luz prateada que faiscava como estrelas descidas a Terra, e uma mulher se materializou ao lado da gata moribunda. O seu cabelo era longo e tão branco quanto a lua cheia. Ela estava usando um vestido da cor do crepúsculo e uma tiara prateada enfeitada com uma fileira de diamantes.
Dentro da toca, a Tsi Sgili parou de contorcer o seu corpo sem parar. A sua respiração ficou superficial. A sua pele nua estava fria e tão pálida que parecia quase transparente na hora em que ela reviveu o seu primeiro encontro com Nyx.
— Minha filha, você é importante pra mim — a Deusa disse a ela. — E não apenas porque eu vejo um grande poder dentro de você. Eu amo você, assim como todos os meus filhos, por causa da sua verdadeira personalidade, aquela aí no seu interior que é vulnerável e está ferida, mas mesmo assim é corajosa o bastante para continuar a viver, a crescer e a amar.
— Então, Deusa, por favor. Salve Chloe. Ela é a coisa mais importante da minha vida. Eu a amo — Neferet implorou.
Nyx levantou os braços, e a seda que os envolvia tremulou como a luz da lua refletida sobre a água.
— Eu concedo a você um ótimo dom: a habilidade de suavizar a dor com seu toque. Deixe que isso lhe ensine compaixão, para contrabalançar o poder que está emergindo dentro de você — Nyx colocou as mãos na altura do seu coração e depois se inclinou para a frente, tocando a cabeça de Neferet.
Dentro da toca fria e escura, Neferet reviveu a sensação de preenchimento daquele toque divino e a sua respiração parou enquanto ela recordava. O toque da Deusa não a havia enchido de poder, mas sim de gentileza.
— Ah, abençoada seja, Nyx!
— É a Deusa! Abençoada seja, Deusa da Noite!
Gritos de júbilo vieram de toda parte ao redor de Neferet quando vampiros e novatos, que haviam escutado os seus pedidos de ajuda, chegaram à clareira.
— Abençoados sejam, meus filhos. Merry meet, merry part e merry meet again — Nyx saudou a todos, sorrindo bondosamente antes de desaparecer em um raio de luz da lua.
Neferet não viu a partida de Nyx. Ela estava concentrada em sua gata com todo seu ser. Ela colocou as mãos sobre o seu corpo ensanguentado, canalizando o toque mágico da Deusa.
Neferet sentiu a diferença instantaneamente. Chloe parou de sangrar. As batidas de seu coração se tornaram mais vagarosas. Os seus olhos opacos pela clarearam, só por um instante, e encontraram os dela. A gatinha irradiou amor, alegria e alívio. Então, completamente feliz e sem dor, a sua gata se aconchegou em suas mãos. Ronronando contente, ela esfregou o focinho de Neferet e morreu.
— Não! Não! Eu deveria ter sido capaz de salvá-la! — Neferet tinha colocado Chloe em seu colo e começado a chorar sobre o seu corpo sem vida quando uma dor explodiu em sua testa. Ainda segurando o corpo de Chloe, Neferet desabou, até que o seu rosto ficou pressionado contra o chão e o sangue e a terra absorveram os seus soluços.
— Neferet, minha filha! Eu estou aqui com você. Tudo vai ficar bem! — foi a Alta Sacerdotisa, Pandeia, quem a levantou. — Ah, Deusa abençoada, obrigada! — Pandeia exclamou quando Neferet ergueu o rosto. — Nyx não apenas concedeu a você o dom da cura, ela também a abençoou com a Transformação esta noite.
Ainda chorando e agarrada ao corpo de Chloe, Neferet estava tonta e confusa.
Pandeia olhou atentamente para as novas Marcas que decoravam o rosto de Neferet e proclamavam ao mundo que agora ela era uma vampira adulta, e depois se voltou para o corpo da gatinha.
— Oh, é Chloe. Eu sinto muito, Neferet — Alta Sacerdotisa acariciou a cabeça imóvel da gata. — Mas o seu toque curou a dor dela e Chloe seguiu em frente para o Outromundo, onde ela vai brincar com a Deusa.
Dentro da toca Tsi Sgili respirou fundo e falou em voz alta como ela havia feito no passado:
— Eu não a curei. Chloe está morta.
O olhar de Pandeia foi afetuoso e a sua voz, compreensiva.
— Eu sei que foi uma perda terrível, difícil para você suportar agora, mas quando você conseguir pensar com clareza sobre esta noite, vai perceber que a habilidade de tocar o espírito da pequena Chloe e de suavizar a sua morte a curou mais do que se você apenas tivesse reparado as suas feridas físicas. Nyx a abençoou em abundância.
Na sua toca, Neferet sussurrou em voz alta as palavras que ela apenas pensara em silêncio tantas décadas atrás: Nyx tirou de mim a única coisa que eu amava.
A raiva agitou a Tsi Sgili, fazendo com que ela chegasse perto de recobrar a consciência. A sua respiração se acelerou e ela quase abriu os olhos. Mas, antes de despertar completamente, o tempo se adiantou, levando-a até a próxima experiência definitiva em seu passado. O dia em que ela matou o seu amante e começou a ouvir sussurros sedutores do imortal alado – o mentiroso e traidor Kalona...

3 comentários:

  1. Não sei se é bom ou ruim não ter no mundo ''outra espécie'', como na série House of Night. Mas mesmo no universo da autora, o preconceito, egoísmo, crueldade; existem. Quem dera podermos ter a compreensão melhor dos outros, saber e aceitar o que somos e o que fazemos. A vida de Neferet foi difícil sim, mas nem mesmo isso é desculpa pelas coisas que fez. Podemos até cometer erros, mentir; mas desde que se aprenda com eles, e que seja ciente de suas consequências, é outra história. Neferet, no entanto, só tinha as coisas voltadas para si e o que ela achava. Talvez tenha razão, nesta parte que todos pedem ''ajuda'' à ela, e ambos - ela e o pessoal - foram egoístas. Primeiro, o pessoal, por ''usá-la'' como a solução de seus problemas. Os poderes são dela e ela realmente não precisava ajudá-los, mas percebemos que seu conceito de o que fazer com eles são errados, distorcidos (ou é o que eu acho, mas vocês entenderam o geral). Se Nyx não aparecesse, Neferet iria culpá-la de qualquer maneira. Talvez tivesse destinada à isso, talvez não, mas nunca deve ter parado para pensar que apesar das ações dos outros serem no mínimo egoístas, etc, os dela também eram assim. Ok, ok, ela é a vilã da história e tal, mas todos nós deveríamos refletir sobre isso. Por mais coisas erradas que os outros fazem, nós também não o fazemos?

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  2. A vida de Neferet foi realmente dura mas as escolhas ruins foram piores. A vida é feita de escolha e renuncias, ela escolheu o lado ruim e fácil culpar apenas os outros.

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  3. Neferet, deixou que suas escolhas e pensamentos errados, fizessem com que ela se tornasse a pessoa que é. Ela simplesmente achou que as trevas foram sua salvação, e não os poderes que a Deusa lhe deu. Independente do que tenha acontecido no passado e logo em seguida, ela não fez a escolha certa e acabou decaindo.

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