9 de outubro de 2015

Capítulo 7 - Zoey

Stevie Rae e eu deveríamos encontrar Thanatos na sua sala de aula. Eu tinha ligado para ela quando estávamos no ônibus escolar a caminho da escola. Nós não havíamos conversado muito. Tudo o que ela tinha dito era que já sabia sobre a coletiva de imprensa de Neferet e que a gente devia ir direto para a sua sala.
A House of Night estava com cheiro de fumaça.
Aquele fedor estava impregnado na escola inteira. Quando nós entramos no estacionamento, percebi que aquele cheiro ruim não era apenas de fumaça. Infelizmente, eu já tinha bastante experiência para reconhecer o aroma penetrante do medo.
O dia normal de escola não havia começado, aquilo era bem óbvio. Havia novatos em grupinhos andando e fofocando para lá e para cá. Eles definitivamente não estavam a caminho da primeira aula. Aquilo deveria ser legal. Quero dizer, qual garoto não ama um dia de neve, um vazamento de água ou qualquer coisa assim? Mas de algum modo aquilo não era legal. Passava uma sensação confusa e de falta de segurança.
— Ok, bem, eu sei que não é normal de minha parte dizer isto, mas acho que Thanatos deveria ter obrigado todo mundo a ir para a aula hoje — Aphrodite assustadoramente ecoou meus pensamentos de novo enquanto descíamos do ônibus. — Agora o que está rolando é essa merda e um pânico do tipo “a gente não vai conseguir ficar sem Neferet.”
Ela fez um gesto englobando tanto os grupinhos de novatos sussurrando quanto os vampiros e novatos que estavam fazendo dois trabalhos horríveis: limpar o entulho do estábulo e colocar tábuas e vigas no enorme monte de madeira que ia se tornar a pira funerária de Dragon Lankford.
— Eu concordo com você, minha bela — Darius disse sombriamente.
Em silêncio, fiz uma prece rápida, mas fervorosa: Nyx, ajude-me a dizer e a fazer a coisa certa, ajudando os meus amigos, o meu círculo, a ficarem fortes e confiantes. Então eu encarei o meu grupo e segui os meus instintos.
— Ok, apesar de eu detestar admitir isso em voz alta, ou mesmo em voz baixa, Aphrodite está certa.
Aphrodite atirou para trás o seu longo cabelo loiro.
— É claro que estou.
— Esta escola precisa de uma boa dose de normalidade e, infelizmente, acho que nós somos o melhor tipo de normalidade que eles vão encontrar agora.
— Isso quer dizer que eles tão ferrados — Kramisha afirmou.
Ela estava usando a sua peruca curta e loira e um sapato de couro envernizado preto com um salto de doze centímetros. A saia dela era curta e supercintilante. De algum modo, aquele visual louco tinha dado certo, fazendo-me pensar (por uns 2,5 segundos) em usar salto com mais frequência.
— Eu estou falando sério, Kramisha — eu disse.
— Eu também — ela replicou.
— Olha só, pessoal. Nós podemos ser normais. Um novo tipo de normalidade, mais interessante — Stevie Rae sugeriu, abrindo um sorriso para Rephaim.
Aphrodite bufou. Eu a ignorei, sorri para Stevie Rae e continuei falando.
— Nós vamos nos separar. Parte de vocês vai para o estábulo, outra parte vai até a pira de Dragon. Lembrem-se, sejam normais — eu os orientei com firmeza. — Ajam como vocês fariam normalmente. A gente precisa segurar a onda e ajudar a colocar as coisas de volta nos trilhos, de um jeito aparentemente controlável. Olhem, neste momento parece que nós fomos atacados por todos os lados. O estábulo pegou fogo. Os gatos foram assassinados. Dragon está morto. E agora Neferet não é apenas uma louca do mal. Ela é uma louca do mal que envolveu a comunidade dos humanos em coisas que estão muito longe da sua compreensão ou da sua capacidade de lidar com elas. Nós temos que ficar fortes e visíveis. Precisamos manter a House of Night unida. Como eu falei para Thanatos na noite passada: nós somos muito mais do que crianças birrentas e já é hora de nos levantarmos, ficarmos juntos e conquistarmos o respeito que merecemos.
— Sábio conselho, Sacerdotisa — Darius disse, fazendo-me ter vontade de abraçá-lo. — Eu vou para a pira de Dragon para espalhar a calma por lá — ele sorriu carinhosamente para Aphrodite. — Venha comigo. A sua influência vai ser boa para os guerreiros que estão desolados com a perda do Mestre da Espada.
— Normalmente, eu diria que vou aonde você for, bonitão — Aphrodite respondeu. — Mas eu preciso conversar um pouco com a Z., então vou com ela falar com Thanatos. Que tal eu encontrar com você na pira depois disso?
As palavras dela me surpreenderam e eu pensei no fato de que, exceto por aquele papo com Shaylin mais cedo, eu realmente não tinha falado com ninguém desde o ritual de revelação. O trajeto de volta no ônibus, com o corpo de Dragon, havia sido silencioso e difícil. E então aconteceu o incêndio, os gatos mortos e, felizmente, o sono, apesar de eu ainda não ter dormido o suficiente. Tudo isso significava que ninguém havia me puxado de lado para falar sobre Aurox. Será que Aphrodite estava se preparando para fazer isso?
Dei uma olhada nela. Ela estava na ponta dos pés, dando um beijo em Darius. Ela parecia a mesma de sempre: louca pelo seu guerreiro e irritada com todo o resto.
— Eu também vou com Z. — a voz de Stevie Rae interrompeu a minha análise neurótica de Aphrodite. — Depois que terminarmos de falar com Thanatos, eu vou até a pira funerária. Vocês vão precisar construir uma fundação sólida lá, e a terra é o elemento certo para isso — ela deu um beijo rápido em Rephaim. — Você me encontra lá?
— Sim — ele retribuiu o beijo, tocando o queixo dela com carinho. Então ele olhou para mim. — Se ninguém tiver nenhuma objeção, eu gostaria de fazer uma ronda em volta do muro da escola, principalmente o muro leste. Se os filamentos de Trevas de Neferet estão serpenteando por aí, nós precisamos saber disso.
— Isso parece uma boa ideia. Vocês estão de acordo com isso? — perguntei, olhando para Stark e Darius. Os dois guerreiros assentiram. — Ok, ótimo. — Então voltei minha atenção para Stevie Rae. — Também acho que invocar o seu elemento é realmente uma boa ideia, Stevie Rae. Damien, Shaunee e Erin, mantenham os seus elementos por perto. Se eles puderem ajudar a fortalecer ou a apoiar as pessoas, invoquem-nos. Só não sejam totalmente óbvios e... — minha voz sumiu quando percebi o que eu estava dizendo. — Não. Isso é errado. Se vocês precisarem usar os seus elementos, sejam óbvios.
— Entendi o que você quis dizer, Z. — Damien afirmou. — Já está na hora de a House of Night saber que há forças prodigiosas do bem trabalhando ao nosso lado contra todas essas Trevas.
— “Prodigiosas” significa muito grandes — Stevie Rae traduziu.
— Nós sabemos o que quer dizer — Kramisha protestou.
— Eu não sabia — Shaunee falou.
— Nem eu — Erin concordou.
Tive vontade de sorrir para as gêmeas e dizer que era legal vê-las fazendo comentários tipo gêmeas de novo, mas assim que Erin falou ela ficou corada e se afastou de Shaunee, que estava parecendo superdesconfortável. Então eu desisti – temporariamente – e fiz uma nota mental para acender uma vela vermelha e uma azul para as duas e pedir a Nyx para dar uma ajuda extra a elas. Se eu conseguisse tempo pra isso. Que inferno, se Nyx tivesse tempo pra isso.
Eu reprimi um suspiro e continuei falando.
— Ok, ótimo. Então, dividam-se em grupos. Vão fazer coisas normais, como pegar alguns livros de estudo e ir até a biblioteca.
— Isso não é o meu normal — escutei Johnny B. resmungar, fazendo os garotos em volta rirem.
Eu gostei do barulho das risadas deles. Aquilo era normal.
— Então vá jogar basquete ou fazer alguma coisa típica de garotos no ginásio — eu sugeri, sem conseguir não sorrir para eles.
— Eu vou pro refeitório. A cozinha dos túneis parece que foi atacada por um enxame de gafanhotos. Z., nós precisamos dar uma passada no mercado antes de voltar para lá — Kramisha me avisou.
— Sim, bem, isso é normal. Vá em frente. Leve quem não conseguiu comer antes de vir para a escola com você. E, pessoal, espalhem-se. Não fiquem apenas comendo em grupinhos. Conversem com os outros garotos — afirmei.
Os novatos emitiram sons de concordância e se organizaram, dividindo-se em pequenos grupos em volta de Darius, as gêmeas, Damien e Kramisha. Rephaim partiu sozinho. Eu o olhei se afastando por um tempo, pensando se algum dia ele iria realmente se enquadrar no grupo, e o que seria do seu relacionamento com Stevie Rae se ele não conseguisse. Dei uma olhada para a minha amiga. Ela estava olhando com total adoração para Rephaim. Mordi meu lábio e continuei a me preocupar.
— Você está bem, Z.? — a voz de Stark soou baixinha ao meu lado, e ele colocou o braço sobre os meus ombros.
— Sim — respondi, encostando-me nele por um momento. — Só estou me preocupando obsessivamente, como sempre.
Ele me abraçou.
— Tudo bem, desde que você não comece a chorar. Aquele seu choro cheio de catarro não é nada atrativo.
Dei um soco nele de brincadeira.
— Eu nunca choro.
— Ah, sim, claro, e você nunca fica cheia de catarro também — ele falou, dando aquele sorriso fofo e metidinho para mim.
— Eu sei! Incrível, não? — caçoei.
— Ceeeerto — ele estendeu a palavra e beijou o topo da minha cabeça.
— Ei — eu falei, ainda aninhada seguramente em seus braços. — Você pode ir até o estábulo para dar uma mão para Lenobia? Eu vou conversar com Thanatos e depois vou até o estábulo e encontro com você lá.
Stark hesitou apenas por um instante e senti os seus braços me apertando contra ele. Stark não queria se separar de mim, principalmente com toda essa loucura rolando, mas ele concordou e disse:
— Vou estar lá, esperando por você — então ele beijou minha testa e me soltou, partindo em direção ao estábulo.
Eu estremeci, arrepiada depois do calor do seu toque. Os outros garotos começaram a se afastar em grupos, ficando só Stevie Rae e Aphrodite comigo.
— Eu vou com vocês, mas esperem só um segundo. Primeiro preciso ligar para a minha mãe. Ela tem de saber que Neferet não é só cheia de papo furado, mas também é cheia de perigo — Aphrodite falou.
— Você acha que ela vai te escutar? — eu quis saber.
— É claro que não — ela respondeu sem hesitar. — Mas vou tentar assim mesmo.
— Por que você não liga para o seu pai? Afinal, ele é o prefeito, e não a sua mãe — Stevie Rae sugeriu.
— Na casa dos LaFont quem manda é a mulher. Se há alguma chance de abrir os olhos do Senhor Prefeito em relação a Neferet, isso tem que partir da minha mãe.
— Boa sorte — eu disse.
— Bem, seja como tiver que ser — Aphrodite pegou seu telefone e se afastou de nós.
Surpreendendo-me, Shaylin saiu de um dos grupos que estava indo embora e caminhou até mim.
— Posso ir com vocês? — a sua voz era gentil, mas ela havia falado claramente e seu queixo estava levantado, como se ela estivesse preparada para uma luta.
— Por que você quer ir com a gente? — eu questionei.
— Quero perguntar a Thanatos sobre as minhas cores. Sei que vocês me disseram para manter segredo sobre o meu dom, e eu entendo por quê. Definitivamente, isso é algo que Neferet não precisa saber. Mas ela não é mais Alta Sacerdotisa, e eu tenho perguntas para as quais preciso encontrar respostas. Como Damien falou, já faz muito tempo desde que outra pessoa teve a Visão Verdadeira. Bem, Thanatos é inteligente. E idosa. Imagino que talvez ela possa me dar algumas respostas. Se vocês não se importarem, é isso — ela concluiu rapidamente.
Olhei para Stevie Rae.
— Você é a Alta Sacerdotisa dela. Por você tudo bem?
— Não sei muito bem. O que você acha?
— Acho que, se nós não podemos confiar em Thanatos, estamos totalmente ferrados — respondi honestamente.
— Bem, então acho que está na hora de definir quem está no nosso time, e acredito que Thanatos faz parte das pessoas de bem. Portanto, por mim tudo bem.
— Sim, ok — eu disse.
— Obrigada — Shaylin agradeceu.
— Bem, foi uma perda de tempo — Aphrodite se juntou a nós enquanto colocava o seu telefone de volta dentro de sua bolsa Valentino dourada, cintilante e superfofa. — Pelo menos não foi uma perda de muito tempo.
— Ela não escutou nada do que você falou? — eu perguntei.
— Ah, ela escutou. Então ela disse que tinha duas palavras para mim: Nelly Vanzetti. E aí ela desligou.
— Ahn? — eu mostrei que não tinha entendido.
— Nelly Vanzetti é a psicanalista da minha mãe — Aphrodite explicou.
— E por que a sua mãe iria falar o nome dela para você? — Stevie Rae ainda não havia entendido.
— Porque, caipira, esse é o jeito de a minha mãe me dizer que eu estou parecendo completamente louca. Não que ela se importe se eu estou louca mesmo. Com isso ela estava dizendo que não se importa em me ouvir, mas que ela vai pagar a psicanalista dela para fazer isso — Aphrodite deu de ombros. — A mesma coisa de sempre.
— Isso é muito maldoso — Shaylin comentou.
Aphrodite franziu seus olhos azuis.
— Por que você está aqui?
— Ela tem um dom — Stevie Rae falou.
— O meu nível de “não dou a mínima” está muito baixo em relação a isso — Aphrodite rebateu.
— Tenho algumas perguntas para fazer a Thanatos — Shaylin esclareceu.
— Ela vai com a gente — afirmei.
— Tanto faz — Aphrodite deu um olhar de desdém para ela. — Então vá indo. Na nossa frente. Preciso conversar com estas duas, sem ouvidos coloridos escutando.
— Vá indo, Shaylin — eu disse antes que as duas começassem a discutir. De novo. — Nós vamos encontrá-la no escritório de Thanatos.
Shaylin assentiu, franziu as sobrancelhas para Aphrodite e foi embora.
Aphrodite ergueu as mãos.
— Sim, eu sei, eu devia ter sido mais gentil, blá-blá-blá. Mas ela me enerva. Ela me lembra demais uma mini-Kim Kardashian, o que significa que ela é inútil, irritante e visível demais.
Olhei para Stevie Rae, esperando que ela argumentasse com Aphrodite. Mas tudo o que ela fez foi balançar a cabeça e dizer:
— Estou cansada de ficar chutando um maldito cachorro morto.
— Cachorro morto? Isso é tudo o que você tem para dizer? Sério? — Aphrodite protestou.
— Eu não estou falando mais com você — Stevie Rae disse a ela.
— Ótimo. Agora, vamos passar para coisas importantes. Vocês não vão gostar de nenhuma das coisas que eu tenho para contar, mas precisam me ouvir. A menos que vocês queiram ser como a minha mãe.
— Nós estamos escutando — assegurei a ela.
Stevie Rae continuou de boca bem fechada, mas assentiu.
— Em primeiro lugar, caipira, você sabe que ficou toda cheia de olhares de adoração para Kalona desde que ele molhou o seu menino-pássaro e o ressuscitou e...
— Ele derramou lágrimas imortais no seu filho e magicamente o trouxe de volta da morte que estava próxima. Ave Maria, você estava lá! Você viu tudo — Stevie Rae exclamou.
— Você não está mais falando comigo, lembra? Mas você acabou de tocar no ponto em que eu queria. Apenas algumas horas atrás, a gente acreditava que Kalona era tão louco e perigoso quanto Neferet. Agora ele é o guerreiro da Morte. A escola toda vai ficar babando em cima dele, do mesmo modo que ficou quando ele emergiu do chão. Nós vamos demonstrar melhor senso. Ou pelo menos eu vou demonstrar melhor senso. Seria bom se vocês duas se juntassem a mim.
— Eu nunca vou confiar nele — eu disse em voz baixa as palavras que vieram do fundo do meu coração.
— Z., ele fez seu Juramento a Thanatos — Stevie Rae argumentou.
Encontrei o olhar dela.
— Ele matou Heath. Ele matou Stark. Ele só trouxe Stark de volta porque Nyx o forçou a pagar a dívida de vida que ele tinha por causa de Heath. Stevie Rae, eu estive no Outromundo com ele. Kalona perguntou quando Nyx o perdoaria. Ela respondeu que ele só poderia pedir isso quando fosse digno do perdão dela.
— Talvez ele esteja se esforçando para isso agora — ela disse.
— E talvez ele seja um assassino, estuprador, manipulador e mentiroso — Aphrodite contra-atacou. — Se Zoey e eu estivermos erradas, ótimo. Você pode dizer “eu avisei” e todos nós vamos rir e dar uma puta festa. Mas, se nós estivermos certas, não vamos ser pegas desprevenidas quando um imortal caído causar mais violência.
Stevie Rae suspirou.
— Eu sei... eu sei. Faz sentido. Eu não vou confiar cem por cento nele.
— Ótimo. Mas fique ligada no seu menino-pássaro também. Ele confia cem por cento no pai, o que significa que Kalona pode usá-lo. De novo.
A expressão de Stevie Rae se endureceu, mas ela concordou.
— Sim, vou ficar.
— Em segundo lugar — Aphrodite desviou a sua atenção para mim — explique a merda estranha que passou pela sua cabeça quando você chamou aquele maldito touro de Heath na noite passada.
— O quê? — Stevie Rae deixou escapar. — Isso não é verdade, certo, Z.?
Ok, mentir seria fácil. Eu podia simplesmente dizer que obviamente Aphrodite tinha perdido a cabeça e estava ouvindo coisas. Afinal, uma montanha de coisas loucas havia acontecido ontem, tudo de uma vez. Isso sem falar em todos os elementos se manifestando tão poderosamente que nada mais era totalmente claro, exceto o assassinato da minha mãe por Neferet e o fato de ela ser a Consorte das Trevas.
E eu quase menti.
Então me lembrei do que o fato de mentir para os meus amigos tinha me custado antes – não apenas perder a confiança deles por um tempo, mas também havia me custado o meu respeito por mim mesma. Eu não me senti bem quando menti. Eu me senti fora de sincronia com a Deusa e com o caminho que eu acredito que ela quer que eu trilhe.
Então, inspirei profundamente e soltei a verdade em uma explosão de palavras:
— Eu olhei para Aurox através da pedra da vidência e vi Heath e isso me assustou e eu chamei o nome dele e Aurox se virou e olhou para mim antes de começar a se transformar de novo naquela coisa tipo touro e foi por isso que quando ele arremeteu contra mim eu simplesmente fiquei parada ali e disse a ele que ele não ia me machucar. Fim.
— Você ficou completamente louca. Que merda, acho que joguei fora antes da hora o telefone da psicanalista da minha mãe. Você precisa ser avaliada e medicada.
— Bem, eu vou ser mais gentil que Aphrodite, mas isso não faz o menor sentido, Z. Como Heath poderia estar ao redor de Aurox?
— Eu não sei! E ele não estava ao redor de Aurox. Foi como se Heath brilhasse sobre ele. Ou como se Heath fizesse uma sombra com um brilho da cor da pedra da lua sobre Aurox — tive vontade de gritar de frustração por não conseguir descrever o que eu havia vislumbrado.
— Como um fantasma? — Stevie Rae quis saber.
— Isso pode fazer um pouco mais de sentido — Aphrodite observou, concordando com Stevie Rae com a cabeça, como se as duas estivessem decifrando o que aconteceu. — Nós estávamos no meio de um ritual invocando a Morte. Heath está morto. Talvez a gente tenha atraído o fantasma dele.
— Eu não acredito nisso — falei.
— Mas você não tem certeza, certo? — Stevie Rae questionou.
— Não, eu não tenho certeza de nada, exceto que a pedra da vidência é magia antiga, e a magia antiga é forte e imprevisível. Ela nem deveria estar em lugar nenhum além da Ilha de Skye, então eu não sei o que está acontecendo com o fato de eu estar vendo coisas através dela aqui — atirei as mãos para cima. — Talvez eu tenha imaginado tudo. Talvez não. Isso é estranho, até para mim. Eu achei ter visto Heath, e então Aurox se transformou completamente naquela coisa feito touro e fugiu.
— Tudo aconteceu rápido demais — Stevie Rae comentou.
— Da próxima vez que você vir Aurox, tem que olhar para ele através dessa maldita pedra, com certeza — Aphrodite afirmou. — E não fique sozinha com ele.
— Eu não estou planejando isso! Nem sei onde ele está.
— Provavelmente, junto com Neferet de novo — Aphrodite respondeu.
Eu devia ter ficado de boca fechada, mas me ouvi dizendo:
— Ele disse que tinha escolhido um caminho diferente.
— É, logo depois de matar Dragon e de quase matar Rephaim — Aphrodite rebateu.
Suspirei.
— O que Stark acha disso? — Aphrodite perguntou. Como eu não falei nada, ela levantou uma sobrancelha loira. — Ah, entendi. Você não contou para ele, certo?
— Certo.
— Bem, eu não posso te censurar por isso, Z. — Stevie Rae falou gentilmente.
— Ele é o guerreiro dela. O seu Guardião — Aphrodite insistiu. — Por mais arrogante e irritante que ele seja, precisa saber que Zoey tem uma queda por Aurox.
— Eu não tenho!
— Ok, não por Aurox, mas por Heath, e você acha que Heath pode ser Aurox — Aphrodite balançou a cabeça. — Você percebe como isso soa como coisa de louco?
— Minha vida é uma coisa de louco — respondi.
— Stark precisa saber que você pode ser vulnerável a Aurox — Aphrodite disse com firmeza.
— Eu não sou vulnerável a ele!
— Diga a ela, caipira.
Stevie Rae não conseguiu olhar nos meus olhos.
— Stevie Rae?
Ela suspirou e finalmente olhou para mim.
— Se você acredita que existe uma chance, nem que seja mínima, de Heath estar rondando Aurox ou o que quer que seja, isso significa que você não vai pensar claramente em relação a ele. Eu sei. Se eu perdesse Rephaim e depois pensasse que o vi ao redor de outro cara, mesmo que isso parecesse loucura, esse cara seria capaz de me atingir. Aqui — ela apontou para o seu coração. — E isso, na maior parte das vezes, comanda aqui — ela apontou para a cabeça.
— Portanto, conte ao Cara do Arco o que você acha que viu — Aphrodite concluiu.
Eu detestava admitir, mas sabia que elas estavam certas.
— Certo. Vai ser péssimo, mas tudo bem. Vou contar para ele.
— E eu vou contar para Darius — Aphrodite avisou.
— Bem, e eu vou contar para Rephaim — Stevie Rae acrescentou.
— Por quê?! — eu queria explodir.
— Porque os guerreiros ao seu redor precisam saber disso — Aphrodite explicou.
— Está bem — respondi rangendo os dentes. — Mas só para eles. Estou cansada de um monte de gente falando sobre mim e meus problemas com os garotos.
— Bem, Z., você realmente arranja problemas com os garotos — Stevie Rae disse com um tom leve, enganchando o braço dela ao meu.
— Nós também precisamos contar isso para Thanatos — Aphrodite disse quando nós três começamos a caminhar em direção à sua sala de aula. — A afinidade dela é com a Morte. Faz sentido que ela entenda de fantasmas e coisas assim.
— Por que a gente não anuncia isso no Tulsa World e faz Neferet escrever uma maldita coluna de perguntas e respostas sobre o assunto? — eu reagi.
— Isso é quase um palavrão. Cuidado. “Maldita” é uma porta de entrada para o mundo dos palavrões. Quando você menos esperar, “foda” vai sair voando da sua boca — Aphrodite me ironizou.
— Foda voando? Isso soa errado — Stevie Rae falou para ela, balançando a cabeça.
Apertei o passo, praticamente arrastando Stevie Rae comigo e fazendo Aphrodite ter que dar uma corridinha para nos acompanhar. Eu não as escutei quando elas começaram a discutir sobre palavrões. Em vez disso, fiquei preocupada.
Eu me preocupei com a nossa escola. Eu me preocupei com a questão Aurox/Heath. Eu me preocupei em contar a Stark sobre a questão Aurox/Heath. E eu me preocupei com a contração no meu estômago e com a possibilidade de a minha síndrome do intestino irritável surgir de repente no meio de tudo. De novo.

3 comentários:

  1. Nossa Z. Tal tantos problemas!!! 😣

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  2. Um pequeno erro.
    "A escola toca (toda) vai ficar babando em cima dele, do mesmo modo que ficou quando ele emergiu do chão. Nós vamos demonstrar melhor senso. Ou pelo menos eu vou demonstrar melhor senso. Seria bom se vocês duas se juntassem a mim."

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  3. Nunca acabam os problemas de Z. :/ Obrigada pelos livros, entendo muito bem!

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Os comentários estão demorando alguns dias para serem aprovados... a situação será normalizada assim que possível. Boa leitura!