6 de outubro de 2015

Capítulo 6 - Stevie Rae

— Stevie Rae, essa não é uma boa ideia. — Dallas disse, apressando-se para acompanhá-la.
— Eu não vou ficar fora muito tempo, prometo. — Stevie Rae disse, parando ao chegar ao estacionamento e olhando em volta à procura do pequeno carro azul de Zoey. — Ei, lá está ele e ela sempre deixa a chave dentro, porque as portas não trancam mesmo. — Stevie Rae tentou entrar no carro, abriu a porta destrancada e sentiu-se vitoriosa quando viu as chaves penduradas na ignição.
— É sério, eu queria que você fosse até o Alto Conselho contar para os vamps o que você sabe, mesmo se você não me contar e saber a opinião deles sobre o que está acontecendo com você, garota.
Stevie Rae se voltou para Dallas: — Esse é o problema, eu não estou certa sobre o que estou fazendo, e Dallas, eu não iria contar a um bando de vampiros o que eu não contaria para você primeiro, você devia saber disso.
Dallas enrubesceu:
— Eu costumava acreditar nisso, mas muitas coisas estão acontecendo rapidamente e você está agindo estranhamente.
Ela pôs as mãos em seus ombros. — Eu só tenho um pressentimento de que eu possivelmente possa fazer alguma coisa para ajudar Zoey, mas eu não vou descobrir como posso fazer isso se ficar aqui sentada com um monte de vampiros nervosos. Eu tenho que estar fora daqui. — Stevie Rae estendeu seus braços, sentindo a terra ao seu redor. — Eu preciso usar meu elemento para pensar. Parece que tem alguma coisa que estou perdendo, mas o entendimento disso está fora do meu alcance, e eu vou usar a terra para alcançar o que não sei.
— Você não pode fazer isso daqui? Tem um monte de terra por toda a escola.
Stevie Rae forçou um sorriso para ele. Ela odiava mentir para Dallas, mas ela não estava necessariamente mentindo. Ela realmente estava indo procurar uma maneira de ajudar Zoey e ela não podia fazer isso dentro da House of Night.
— Tem muita distração por aqui.
— Ok, olha eu sei que não posso te impedir de ir, mas eu preciso que me prometa uma coisa ou eu vou fazer uma burrice para na verdade te impedir.
Stevie Rae arregalou os olhos e dessa vez ela não teve que fazer força para sorrir. — Dallas, você vai tentar dar um chute em minha bunda?
— Bom, você e eu sabemos que isso seria apenas retardatário, mas não suscetível, é aqui que entra a parte de “fazer uma grande burrice.”
Ainda sorrindo para ele, ela disse: — O que você quer que eu prometa?
— Que você não vai voltar para o depósito agora, eles quase te mataram, você está recuperada, mas eles quase te mataram. Ontem. Então eu preciso que você prometa que não voltará lá para encará-los essa noite.
— Eu prometo — ela disse seriamente. — Eu não vou descer até lá. Eu te disse - Eu vou tentar achar uma maneira de ajudar a Z e lutar com aquelas crianças definitivamente não vai ajudar.
— Jura?
— Juro.
Ele se sentiu aliviado.
— Bom, agora o que eu tenho que dizer para os vamps sobre aonde você foi?
— Só o que eu te disse - que preciso estar rodeada por terra e sozinha. Que eu preciso descobrir alguma coisa e não posso fazer isso aqui.
— Tudo bem. Eu vou falar isso a eles. Eles vão ficar bravos.
— Yeah, mas eu vou voltar rápido — ela disse entrando no carro de Zoey. — E não se preocupe, eu vou tomar cuidado.
O carro ligou fazendo um barulho estranho, quando Dallas apareceu na janela. Suprimindo um suspiro irritado, ela a abriu. 
— Eu quase esqueci de te contar. Eu ouvi algumas crianças falando enquanto eu esperava por você. Está por toda a Internet que o espírito da Z não foi o único destruído em Veneza.
— O que diabos isso quer dizer, Dallas?
— O negócio é que Neferet levou Kalona até o Alto Conselho - literalmente. O corpo dele está lá, mas a alma dele se foi.
— Obrigada Dallas, eu tenho que ir. — Sem esperar pela resposta do garoto, Stevie Rae acelerou o carro de Zoey e saiu do estacionamento. Pegando rapidamente a direita na Utica Street, ela dirigiu no centro da cidade foi para o nordeste, em direção à periferia de Tulsa onde ficava o Museu Gilcrease.
O espírito de Kalona se foi também.
Stevie Rae acreditou por um momento que ele ficou tão assolado com a tristeza que sua alma se fora também.
— Não exatamente — murmurou para si mesma enquanto dirigia pelas ruas escuras e silenciosas de Tulsa. — Ele está atrás dela. — Assim que pronunciou as palavras, Stevie Rae percebera que estava certa.
E o que ela podia fazer sobre isso?
Ela não tinha a mínima ideia. Ela não sabia absolutamente nada sobre imortais, almas perdidas ou o mundo espiritual. Com certeza, ela estava morta, mas também não estava. E ela não se lembrava de seu espírito indo pra lugar algum. Presa... foi tudo escuro, frio, e sem som algum. E eu só queria gritar e gritar e... Stevie Rae estremeceu com seus pensamentos. Ela não se lembrava muito sobre aquelas coisas horríveis da hora de sua morte e ela não queria se lembrar. Mas ela conhecia alguém que entendia bastante sobre imortais, especialmente Kalona e o mundo espiritual. De acordo com a avó de Zoey, Rephaim não era nada além de um espírito antes de Neferet ressuscitar seu tosco pai.
— Rephaim vai saber alguma coisa, e o que ele sabe, eu saberei. — Ela disse resolutamente, seus dedos apertando o volante.
E se ele não quisesse revelar, ela usaria o poder do Imprint deles, o poder de seu elemento, e qualquer restante de poder que ela tivesse em seu corpo para obter as informações dele. Ignorando o jeito doente, terrível e culpado que ela sentia por pensar em lutar com Rephaim, ela acelerou mais e virou descendo a Gilgrease Road.
Stevie Rae não precisava imaginar onde encontrar Rephaim, ela simplesmente sabia onde ele estava. A porta de entrada da velha mansão já tinha sido aberta, ela se enfiou pelo escuro, frio, seguindo o seu rastro. Mas ela não precisava olhar pela porta da varanda para saber que ele estava lá fora. Ela sabia que ele estava lá. Eu sempre vou saber onde ele está, ela pensou melancolicamente.
Ele não se virou para vê-la direito. Stevie Rae precisou de tempo para tentar se acostumar com a visão dele novamente.
— Então você veio. — Ele disse, ainda sem olhá-la.
Aquela voz – aquela voz humana. Aquilo a golpeou novamente, assim como da primeira vez que ela ouviu.
— Você me chamou — ela disse tentando manter sua voz normal, tentando guardar para si a raiva que ela sentia por tudo o que o pai dele havia causado.
Ele se virou para ela, seus olhos se encontraram.
“Ele parece exausto.” Foi o primeiro pensamento dela. “Seu braço está sangrando novamente.”
“Ela ainda sente dor.” Foi o primeiro pensamento dele. “E está cheia de raiva.”
Eles ficaram olhando um para o outro silenciosamente, nem mesmo com vontade de falar seus pensamentos em voz alta.
— O que aconteceu? — Ele finalmente perguntou.
— Como você sabe que alguma coisa aconteceu?
Ele hesitou por um momento, obviamente escolhendo com cuidado suas palavras:
— Eu sei por você.
— Você não está fazendo sentido algum, Rephaim. — O som da voz dela falando o nome dele pareceu fazer um eco por todo o ar em volta deles, e a noite de repente foi pintada com a memória de uma neblina vermelha e cintilante que foi enviada pelo filho de um imortal para acariciar a pele de Stevie Rae e chamá-la pra ele.
— É por que não faz sentido para mim também — ele disse, com sua voz profunda, suave e hesitante. — Eu não sei nada sobre como funciona um Imprint, você vai ter que me ensinar.
Stevie Rae sentiu suas bochechas queimarem. Ele está falando a verdade. Ela percebeu. O nosso Imprint o deixa saber coisas sobre mim. E como ele poderia entender? Eu mal entendo.
Ela limpou a garganta.
— Então você está dizendo que sabe que algo aconteceu porque pode sentir isso vindo de mim?
— Senti, não compreendi. — Ele a corrigiu. — Eu senti sua dor, não como antes, logo após você me beber. Então seu corpo sentia dor, a dor de ontem a noite era emocional, não física.
Ela não conseguia parar de fitá-lo, o susto estava claro em seu rosto.
— Sim, foi. E ainda é.
— Fale-me sobre o que aconteceu.
Ao invés de respondê-lo, ela perguntou:
— Por que você me chamou aqui?
— Você estava sentindo dor. Eu podia sentir também — ele parou de falar, obviamente desconcertado pelo que estava falando, e então continuou. — Eu queria parar de sentir isso. Então eu mandei uma força te chamando para mim.
— Como você fez aquilo? O que era aquela neblina vermelha?
— Responda as minhas perguntas e eu responderei as suas.
— Bem. O que aconteceu foi que seu pai matou Heath, o garoto humano que era consorte da Zoey. Ela o viu fazendo isso e não pôde o parar, e isso destruiu seu espírito.
Rephaim continuou olhando para ela até ela sentir que ele estava olhando além de seu corpo, direto em sua alma. Ela também não podia desviar o olhar, e seus olhares se cruzaram. O difícil foi ela guardar sua raiva. Os olhos dele eram tão humanos. Apenas a cor era diferente e para Stevie Rae, a cor escarlate dentro deles não era repugnante. Verdadeiramente, eram fraternalmente familiares, esta cor outrora já havia tingido seus próprios olhos.
— Você não tem nada a dizer sobre isso? — Ela disse, tirando os olhos dele, podendo então fitar a noite vazia.
— Tem mais, o que você não está me dizendo?
Guardando sua raiva de volta. Stevie Rae encontrou os olhos dele novamente.
— O negócio é que alma do seu pai se foi também.
Rephaim piscou, o susto era claro em seus olhos.
— Eu não acredito nisso. — ele disse.
— Nem eu. Mas Neferet levou seu corpo sem espírito até o Alto Conselho, e aparentemente eles estão comprando a história. Você sabe o que eu acho? — Ela não esperou pela resposta dele, a voz dela era um misto de frustração, raiva e medo. — Eu acho que Kalona seguiu Zoey até o Outromundo porque ele está totalmente obcecado por ela. — Stevie Rae passou a mão por suas bochechas, enxugando as lágrimas que pensou estar derramando.
— Isso é impossível — Rephaim pareceu um pouco irritado como ela havia sentido. — Meu pai não pode voltar ao Outromundo. O reino foi proibido para ele.
— Bom, ele obviamente encontrou um jeito de entrar lá mesmo sendo proibido.
— Um jeito de entrar mesmo tendo sido banido pela própria Deusa da Noite? Como isso pode ter sido feito?
— Nyx o expulsou do Outromundo? — Stevie Rae disse.
— Foi uma escolha do meu pai. Ele era o único guerreiro de Nyx. O juramento se quebrou quando ele caiu.
— Ohminhadeusa! Kalona costumava ficar ao lado de Nyx? — Sem conscientemente perceber o que estava fazendo, Stevie Rae chegou mais perto de Rephaim.
— Sim. Ele a protegia da escuridão. — Rephaim olhou para a noite.
— O que aconteceu? Por que ele caiu?
— Pai nunca falava sobre isso. O que sei é que de todo o jeito isso o preencheu de raiva por séculos.
— E foi como você foi criado, a partir desta raiva.
O olhar dele encontrou o dela novamente.
— Sim.
— Isso o atingiu também? Essa raiva e escuridão? — Ela não podia parar de perguntar.
— Você não deveria saber disso? Como eu sei da sua dor? Não é assim que esse Imprint entre a gente funciona?
— Bem, é complicado, você foi meio que forçado a cumprir o papel de meu consorte desde que eu sou a vampira aqui e tudo mais. E é mais fácil para um consorte ter a sensação das coisas sobre o seu vampiro do que ao contrário. — O que eu tenho de você é...
— Meu poder — sua voz partiu-se. Ela não pensou que a voz dele continha raiva, apenas cansada e sem esperança. — Você tem minha força imortal.
— Caramba! É por isso que eu me curei tão absurdamente rápido!
— Sim, e por isso eu não.
Stevie Rae piscou surpresa.
— Bem, você deve se sentir horrível – você parece mal.
Ele fez um barulho que era parecido com uma gargalhada e um bufar.
— E você parece saudável e inteira de novo.
— Eu estou saudável, mas não vou estar inteira novamente até descobrir uma maneira de ajudar Zoey. Ela é minha melhor amiga, Rephaim. Ela não pode morrer.
— Ele é meu pai. E não pode morrer, também.
Eles se encararam. Os dois lutando para entender o que era isso entre eles, que os fizeram ficar juntos até mesmo na dor e na raiva que os rodeavam, definindo e separando seus mundos.
— Que tal isso: nós arranjamos alguma coisa pra você comer. Eu conserto essa asa de novo, o que não vai ser divertido pra gente, e então nós arranjamos um jeito de proceder sobre Z e seu pai. Você deve saber alguma coisa. Eu não posso sentir suas emoções como você pode sentir as minhas, mas eu posso sentir se você estiver mentindo para mim, e eu também estou certa de que posso te achar, não importa aonde você esteja. Então se você mentir para mim, eu te dou a minha palavra de que me virarei contra você e usarei todo o poder do meu elemento e o seu sangue.
— Eu não vou mentir para você.
— Bom. Vamos para dentro do museu achar a cozinha.
Stevie Rae deixou a varanda e o Corvo a seguiu como se ela estivesse acorrentado à Alta Sacerdotisa por uma corrente invisível e inquebrável.


— Você poderia ter tudo que quisesse no mundo com esse poder. — Rephaim disse, entre uma mordida e outra de um grande sanduíche que ela havia feito para ele das coisas que ainda não tinham vencido da geladeira industrial do restaurante do museu.
— Não. Não realmente. Quer dizer, eu posso fazer um cansado, sobrecarregado e meio idiota guarda noturno nos permitir entrar no museu e depois esquecer que a gente existiu, mas eu não posso governar o mundo ou alguma coisa louca desse tipo.
— É um excelente poder para dominar.
— Não, é uma responsabilidade que eu não pedi e que eu realmente não quero. Veja, eu não posso ser capaz de fazer humanos praticarem qualquer coisa que eu quiser que eles pratiquem. Não é o certo. Não se eu estou ao lado de Nyx.
— Pois a sua Deusa não dá aos seus indivíduos os poderes que eles desejam?
Stevie Rae o olhou por um tempo. Enrolando os cabelos em seus dedos, pensando que ele possivelmente estaria brincando, mas os olhos vermelhos que encontraram os dela eram completamente sérios. Então ela deu um longo suspiro e explicou:
— Não é por causa disso, mas porque Nyx acredita em dar a cada um o livre arbítrio, e quando eu brinco com a mente de um humano que não tem controle sobre isso, eu estou tirando o livre arbítrio dele. Não é o certo.
— Você realmente acredita que cada um no mundo deveria ter livre arbítrio?
— Eu acredito. É por isso que estou aqui hoje, falando com você. Zoey estendeu sua mão para mim. Então, em uma coisa meio de pagamento-para-a-frente, eu dei esse mesmo presente para você. 
— Você me deixou viver esperando que eu vá escolher o meu próprio caminho e não o do meu pai.
Stevie Rae ficou surpresa com o que ele disse tão espontaneamente, mas ela não respondeu o que lhe foi solicitado, só continuou.
— Sim, eu te disse que quando eu fechei o túnel atrás de você, deixando-te ir ao invés de entregar você aos meus amigos, você se tornou responsável pela sua vida. Você não pertencia mais ao seu pai ou a ninguém. — Ela pausou por um instante e disse tudo rapidamente. — E você já começou a traçar um caminho diferente me salvando naquele telhado.
— Uma dívida de vida não paga é uma coisa difícil de se levar adiante, era lógico que eu pagasse a dívida que existia entre nós.
— Sim, isso eu entendi. Mas e sobre essa noite?
— Essa noite?
— Você me mandou sua força e me chamou até aqui. Se você tinha aquele tipo de poder, por que simplesmente não quebrou o Imprint entre a gente? Isso teria acabado com a dor também.
Ele parou de comer e seus olhos escarlate encararam os dela.
— Não faça uma ideia errada de mim. Passei séculos na escuridão. Eu vivia com o mal como meu companheiro de cama. Eu estava ligado a meu pai. E ele estava cheio de uma raiva que possivelmente poderia destruir o mundo e se ele retornasse, eu estava destinado a ficar ao lado dele. Veja-me como sou, Stevie Rae. Eu sou a criatura de um pesadelo criado através de raiva e estupro. Eu caminhava entre os vivos, mas sempre me separava, sempre era diferente. Não era imortal, não era homem e nem uma fera.
Stevie Rae deixou as palavras dele entrarem por suas veias. Ela sabia que ele estava sendo completamente honesto com ela. Havia mais nele do que aquela máquina de raiva e maldade que ele tinha sido criado para ser. Ela sabia porque era testemunha disso.
— Bem, Rephaim. Que tal se você só considerar que possivelmente esteja certo?
Ela viu o entendimento sendo registrado em seus olhos coloridos de sangue.
— O que significa que eu também possa estar errado?
— Eu só estou dizendo.
Sem falar, ele sacudiu a cabeça e voltou a comer. Ela sorriu e começou a fazer pra ela mesma um sanduíche de frango.
— Então — ela disse, colocando mostarda no pão. — Qual é a sua teoria sobre o espírito do seu pai estar perdido novamente?
Os olhos dele se concentraram nos dela e ele disse uma palavra que fez o sangue dela congelar.
— Neferet.

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