9 de outubro de 2015

Capítulo 5 - Zoey

Eu havia adormecido aconchegada nos braços de Stark, então foi totalmente confuso acordar com ele me sacudindo, fuzilando-me com os olhos e quase gritando: “Zoey! Acorde! Pare com isso! Estou falando sério!”.
— Stark? Ahn? — eu me sentei, desalojando Nala, que havia se transformado em um donut laranja e gordo em cima do meu quadril.
“Miiaaauuu!”, Nala resmungou e caminhou até a ponta da cama. Olhei para a minha gata e para o meu guerreiro: ambos estavam me encarando como se eu tivesse cometido um assassinato em massa.
— O que foi? — falei em meio a um grande bocejo. — Eu só estava dormindo.
Stark pegou seu travesseiro e o estufou para ficar mais sentado na cama. Ele cruzou os braços, balançou a cabeça e desviou os olhos de mim.
— Acho que você estava fazendo muito mais do que apenas dormir.
Eu quis estrangulá-lo.
— Sério, o que há com você? — perguntei.
— Você disse o nome dele.
— O nome de quem? — fechei os olhos, tendo um flashback com aquele velho filme assustador chamado Vampiros de Almas 2 e me perguntando se Stark tinha se transformado em uma réplica alienígena dele mesmo.
— Do Heath! — Stark franziu a testa para mim. — Três vezes.
Isso me acordou. Ainda sem olhar para mim, ele disse:
— Com o que você estava sonhando?
O que ele falou me deixou totalmente chocada, provocando uma batalha mental em mim. Com que diabo eu estava sonhando? Pensei no que tinha acontecido mais cedo. Lembrei de Stark me beijando antes de eu ir dormir. Lembrei que o beijo foi supergostoso, mas eu estava muito cansada e, em vez de fazer algo além de retribuir o beijo, tinha encostado a cabeça no ombro dele e desmaiado. Depois disso, eu não me lembrava de mais nada, até ele começar a me chacoalhar e a gritar comigo para que eu parasse.
— Não tenho a menor ideia — respondi honestamente.
— Você não precisa mentir para mim.
— Stark, eu não mentiria para você — afastei meu cabelo do rosto e toquei no braço dele. — Eu não me lembro de ter sonhado com nada.
Então ele olhou para mim. Os seus olhos estavam tristes.
— Você estava chamando Heath. Eu estou dormindo bem aqui ao seu lado, mas você estava chamando por ele.
O jeito com que ele falou me deu um aperto no coração. Eu detestava tê-lo magoado. Eu podia ter dito que era ridículo ele ficar bravo comigo por algo que eu tinha falado quando estava dormindo, algo de que eu nem me lembrava. Mas, ridícula ou não, a mágoa de Stark era real. Deslizei a minha mão para dentro da dele.
— Ei — eu disse baixinho. — Sinto muito.
Ele entrelaçou seus dedos aos meus.
— Você queria que ele estivesse aqui em vez de mim?
— Não — afirmei.
Eu amava Heath desde que eu era criança, mas eu não trocaria Stark por ele. É claro que o resto da verdade era que, se fosse Stark quem tivesse sido assassinado, eu também não trocaria Heath por ele. Mas definitivamente aquilo era algo que Stark não precisava ouvir, nem agora nem nunca.
Amar dois caras era uma coisa confusa, mesmo quando um dos dois estava morto.
— Então você não estava chamando por Heath porque queria estar com ele em vez de mim?
— Eu quero você. Juro — eu me inclinei para a frente e ele abriu os braços para mim.
Eu me encaixei perfeitamente contra o peito dele e inspirei o seu cheiro familiar. Ele beijou o topo da minha cabeça e me abraçou.
— Sei que é idiota ter ciúmes de um cara morto.
— É — falei.
— Especialmente porque na verdade eu gostava do cara morto.
— Pois é — concordei.
— Mas nós pertencemos um ao outro, Z.
Eu me inclinei para trás para poder olhar nos olhos dele.
— Sim — eu disse seriamente — nós pertencemos. Por favor, nunca se esqueça disso. Não importa quanta loucura estiver rolando ao redor de nós... Eu posso lidar com isso, mas preciso saber que o meu guerreiro está do meu lado.
— Sempre, Z. Sempre — ele afirmou. — Eu te amo.
— Eu também te amo, Stark. Sempre — então eu o beijei e mostrei para ele que absolutamente não havia motivo algum para ele ter ciúme de ninguém.
E, pelo menos por um tempinho, deixei que o calor do amor dele afugentasse a lembrança do que eu tinha visto quando olhei através da pedra da vidência naquela noite...
Da próxima vez que despertei, foi porque eu estava quente demais. Ainda estava nos braços de Stark, mas ele tinha se mexido um pouco e atirado sua perna por cima de mim, fazendo de mim um casulo com meu cobertor azul e felpudo. Desta vez, ele não estava dando uma de Namorado Louco. Ele estava fofo, dormindo como um garotinho.
Como sempre, Nala tinha feito sua cama no meu quadril, então antes que ela resmungasse eu a levantei um pouco, deslizando junto com ela para o lado mais frio da cama o mais silenciosamente possível. Totalmente adormecido, Stark fez um movimento vago com a sua mão da espada, como que estendendo o braço para me defender. Eu me concentrei em pensamentos felizes – Coca-Cola, sapatos novos, gatinhos que não espirravam no meu rosto – e ele relaxou.
Tentei relaxar também – para valer. Nala me encarou. Cocei atrás da orelha dela e sussurrei:
— Desculpe por acordá-la. De novo.
Ela esfregou a cara no meu queixo, espirrou em mim e pulou de volta em cima do meu cobertor azul e felpudo. Então ela girou três vezes em círculo e voltou a ser um donut adormecido de pelos.
Suspirei. Eu precisava fazer como Nala, ficar encolhida e voltar a dormir, mas a minha mente estava desperta demais. E junto ao fato de estar desperta vinha o ato de pensar. Depois que fizemos amor, Stark havia murmurado meio sonolento:
— Nós estamos juntos. Todo o resto vai se resolver.
E eu tinha adormecido sentindo-me segura de que ele estava certo.
Mas agora que, infelizmente, eu estava totalmente consciente, não conseguia evitar aquela coisa toda de pensar demais e me preocupar demais. Apesar de eu supor que, se Stark soubesse o que eu imaginei ter visto através da pedra da vidência na noite passada, ele iria retirar aquele comentário de “todo o resto vai se resolver” e voltar ao papel de Senhor Tenho Ciúme de um Cara Morto.
Coloquei minha mão em cima da pequena pedra arredondada que pendia de uma fina corrente de prata em volta do meu pescoço e balançava inocentemente entre os meus seios. Parecia normal – como qualquer outro colar que eu poderia ter usado. Ela não estava irradiando nenhum calor estranho. Eu a tirei de debaixo da minha camiseta e a ergui devagar. Inspirei profundamente para me fortificar e dei uma olhada em Stark através da pedra.
Nada estranho aconteceu. Stark continuou sendo Stark. Virei o colar um pouco e olhei para Nala. Ela continuou sendo uma gata adormecida gorda e alaranjada.
Coloquei a pedra da vidência de novo embaixo da minha camiseta. E se eu tivesse imaginado tudo aquilo? Como Heath poderia estar em Aurox? Até Thanatos disse que Aurox tinha sido criado pelas Trevas através do sacrifício da minha mãe. Ele era um Receptáculo – uma criatura sob o controle de Neferet. Mas ela precisou matar Shadowfax para controlá-lo totalmente, e Aurox tinha feito aquelas perguntas sobre o que ele realmente era para Thanatos.
Ok, mas alguma dessas coisas fazia diferença? Aurox não era Heath. Heath estava morto. Ele havia partido para um reino mais distante do Outromundo para o qual eu não pude ir porque Heath estava morto.
Refletindo a minha inquietação, Stark se remexeu, franzindo a testa em seu sono. Nala rosnou de novo. Eu não queria de jeito nenhum que eles acordassem, então saí da cama em silêncio e andei nas pontas dos pés para fora do quarto, abaixando-me para passar embaixo do cobertor que Stark e eu usávamos como porta.
Coca-Cola. Eu precisava seriamente de uma dose de Coca-Cola. Talvez eu tivesse sorte e encontrasse um pouco de cereal Count Chocula e um resto de leite que não estava azedo.
Hum, só de pensar nisso eu me senti um pouco melhor. Eu realmente merecia um pouco do cereal que eu tanto amava no café da manhã.
Fui arrastando os pés pelo túnel mal iluminado, passando por corredores menores e outras portas fechadas com cobertores, atrás das quais meus amigos descansavam enquanto aguardávamos o sol se pôr. Até que entrei na área comum que usávamos como cozinha.
O túnel meio que acabava ali, abrindo espaço para algumas mesas, laptops e geladeiras grandes.
— Deve ter sobrado um pouco de Coca por aqui — murmurei para mim mesma, enquanto eu vasculhava a primeira geladeira.
— Tem na outra geladeira.
Dei um gritinho idiota e pulei de susto.
— Ah, Shaylin! Não fique espreitando pelos cantos assim. Você quase me fez fazer pipi nas calças.
— Desculpe, Zoey — ela foi até a segunda das três geladeiras e pegou uma lata de Coca não diet, totalmente cheio de açúcar e cafeína, e o estendeu para mim com um sorriso de desculpas.
— Você não deveria estar dormindo? — sentei na cadeira mais próxima e dei um gole no meu refrigerante, tentando não parecer tão mal-humorada quanto eu estava.
— É, bem, eu estou cansada sim. Posso sentir que o sol não se pôs ainda, mas estou com muita coisa na cabeça. Entende o que quero dizer?
Bufei ligeiramente.
— Entendo perfeitamente o que você quer dizer.
— A sua cor está meio que desligada — Shaylin fez esse comentário de um jeito indiferente, como se ela tivesse acabado de falar algo tão normal quanto mencionar a cor da minha camiseta.
— Shaylin, na verdade eu não entendo muito bem sobre essa coisa de cor que você costuma falar.
— Eu também não sei muito bem o quanto entendo. Tudo o que sei é o que vejo e, se não penso muito sobre isso, normalmente faz sentido para mim.
— Ok, dê um exemplo de como isso normalmente faz sentido para você.
— Isso é fácil. Vou usar você como meu exemplo. As suas cores não mudam muito. Na maior parte do tempo, você é roxa com pontinhos prateados. Mesmo quando você estava se preparando para ir ao ritual na fazenda de sua avó, e sabia que isso seria algo difícil de assistir, as suas cores permaneceram as mesmas. Eu conferi porque... — ela perdeu a fala.
— Você conferiu porque... — eu a incentivei a continuar.
— Porque eu estava curiosa. Eu conferi as cores de todos antes de vocês saírem, mas, bem, acabei de perceber como isso soa invasivo.
Franzi minha testa para ela.
— Isso não é como se você estivesse lendo nossas mentes nem nada parecido. Ou é?
— Não! — ela me assegurou. — Mas quanto mais passa o tempo em que eu tenho essa coisa da Visão Verdadeira, e quanto mais eu pratico, mais real isso fica para mim. Zoey, eu acho que isso me diz coisas sobre as pessoas, coisas que às vezes elas preferem esconder.
— Como Neferet. Você disse que por dentro ela tem cor de olho de peixe morto, e por fora ela é deslumbrante.
— Sim, exato. Mas também como o que eu estou vendo em você. Mas, como Kramisha diria, eu não devo me meter onde não fui chamada.
— Por que você não me conta o que está vendo em mim, e depois eu digo se acho que você está se metendo onde não foi chamada ou não?
— Bem, desde que você voltou do ritual na fazenda de sua avó, as suas cores estão mais escuras — ela fez uma pausa e me encarou. Então ela balançou a cabeça e se corrigiu: — Não, isso não é totalmente preciso. As suas cores não estão apenas mais escuras, elas estão mais turvas. Como se o roxo e o prata tivessem sido misturados e cobertos de lama.
— Ok — falei devagar, começando a entender o que ela quis dizer com violação. — Entendi que você vê uma diferença em mim, e isso é meio estranho, principalmente porque você falou que minhas cores não costumam mudar. Mas o que isso significa para você?
— Ah, sim, desculpe. Acho que significa que você está confusa com alguma coisa, com algo sério. Isso está incomodando você. Realmente mexendo com a sua cabeça. É mais ou menos por aí?
Concordei com a cabeça.
— É mais ou menos por aí.
— E você se sente estranha por eu saber disso?
Assenti novamente.
— É, um pouco — pensei por um instante nisso e então acrescentei — Mas aí vai a verdade: eu me sentiria menos estranha se soubesse que posso confiar que você não vai tagarelar para todo mundo que as minhas cores estão turvas e que eu estou realmente confusa com algo. Isso sim seria violação.
— Sim — ela soou triste. — Foi o que pensei também. Quero que você saiba que pode confiar em mim. Nunca fui fofoqueira. Além disso, esse dom que Nyx me deu quando fui Marcada, bem, é totalmente incrível. Zoey, eu posso ver novamente — Shaylin parecia que ia explodir em lágrimas. — Não quero estragar tudo. Vou usar esse dom do modo que Nyx quer que eu use.
Percebi que ela estava bastante perturbada e me senti mal por ela – principalmente por eu ter algo a ver com o fato de ela estar perturbada.
— Ei, Shaylin, está tudo bem. Eu entendo como é ter um dom pelo qual você sente uma grande responsabilidade e como é não querer estragar tudo. Caramba, você está falando com a Rainha de Meter os Pés pelas Mãos. — Fiz uma pausa e então acrescentei: — Isso é parte do motivo pelo qual estou confusa agora. Eu não quero tomar mais uma decisão errada, idiota e imatura. O que eu faço e digo afeta muito mais gente do que apenas eu. Quando tomo decisões ridículas, é como aquelas peças de dominó caindo uma atrás da outra. Novatos, vampiros e humanos, todos podem se ferrar. Isso é péssimo, mas não muda o fato de que eu realmente tenho um dom de Nyx e que sou responsável pelo modo como esse dom é usado.
Shaylin pensou um pouco no que falei, e eu dei um gole no meu refrigerante. Na verdade, eu estava gostando de conversar com ela. Era infinitamente melhor do que ficar quebrando a cabeça com Aurox, Heath, Stark, Neferet e...
— Ok, mas o que fazer nesta situação? — Shaylin interrompeu meus pensamentos. — O que fazer se eu vir as cores de uma pessoa mudarem? É minha responsabilidade contar isso para alguém... alguém como você?
— O que você quer dizer? Tipo, chegar para mim e falar: “Ei, Zoey, as suas cores estão todas turvas. O que está rolando?”?
— Bem, talvez, mas só se nós formos amigas. Mas eu estava pensando mais em algo como o que aconteceu hoje, quando eu vi Nicole. As cores dela eram como as do resto do grupo de Dallas: feito sangue misturado com tons de marrom e preto. Como algo sangrando no meio de uma tempestade de areia. Na noite passada, no estábulo, as cores dela tinham mudado. Ainda havia um vermelho enferrujado ali, mas parecia mais claro, mais brilhante, não no mau sentido. Mais como se estivesse ficando mais limpo. É estranho, mas juro que vi um pouco de azul nela. Mas não como o azul do céu. Mais como o mar. Foi isso que me fez pensar que o lado mau dela pode estar desaparecendo e, depois que pensei isso, senti que estava certa.
— Shaylin, o que você está dizendo é realmente confuso — afirmei.
— Não, para mim não é! Está ficando cada vez menos confuso. Eu simplesmente sei as coisas.
— Eu entendi e acredito que você está dizendo a verdade. O problema é que o seu saber é tão subjetivo. É como se você estivesse transformando a vida em uma prova, e as pessoas fossem as respostas, mas, em vez de as suas pessoas-respostas serem alternativas tipo verdadeiro ou falso, onde é fácil julgar se o que você captou é certo ou errado, elas são respostas dissertativas. E isso significa que o seu resultado pode variar dependendo de muitas coisas diferentes. Nada é preto ou branco — suspirei.
Minha própria analogia estava fazendo minha cabeça doer.
— Mas, Zoey, a vida não é preto no branco ou verdadeiro e falso, nem as pessoas — ela deu um gole no seu refrigerante, o qual eu percebi que era claro.
Fiquei pensando que eu realmente não entendia o refrigerante claro: não tinha cafeína e nunca parecia doce o bastante. Então ela continuou:
— Mas eu entendo o que você está tentando dizer. Você acredita que eu vejo as cores das pessoas. Você só não acredita no julgamento que eu faço delas.
Eu comecei a negar e a dizer algo que iria fazer com que ela se sentisse melhor, mas um aperto dentro de mim me fez mudar de ideia. Shaylin precisava escutar a verdade.
— Sim, basicamente é isso.
— Bem — ela disse, endireitando os ombros e levantando o queixo — eu acho que o meu julgamento é bom. Acho que ele está ficando cada vez melhor, e quero usar meu dom para ajudar. Eu sei que uma batalha está a caminho. Ouvi falar sobre o que Neferet fez com a sua mãe e sobre como ela escolheu as Trevas em vez da Luz. Você vai precisar de alguém como eu. Consigo ver o interior das pessoas.
Ela estava certa. Eu realmente precisava do dom dela, mas também precisava saber que podia confiar no seu julgamento.
— Ok, então vamos começar. Que tal você manter os olhos bem abertos? Conte-me se você vir a cor de alguém mudando.
— O primeiro caso que eu quero reportar é o de Nicole. Erik me contou sobre ela. Sei que ela foi realmente do mal no passado. Mas a verdade está nas cores dela, e elas dizem que ela está mudando.
— Está certo. Vou me lembrar disso — levantei as sobrancelhas para ela. — E por falar em se lembrar das coisas... Não quero ser maldosa nem nada parecido, mas você precisa ficar de olho em Erik. Ele não é sempre...
— Ele é arrogante e egoísta — ela me interrompeu, encontrando o meu olhar sem se alterar. — Ele se acha muito, por saber como é gostoso e talentoso. A vida tem sido fácil para ele, mesmo depois de você ter terminado com ele.
— Ele contou para você que eu terminei com ele? — não sabia dizer se ela estava sendo maliciosa ou não.
Não parecia que ela estava sendo, mas, de novo, eu não a conhecia muito bem. Mas realmente eu tinha a impressão de que, toda vez que eu a via, eu via Erik. Não que me importasse. Sério. Não era ciúme. Era mais que eu me sentia responsável por adverti-la sobre ele.
— Ele não precisou me contar. Tipo, um bilhão de outros garotos fez isso antes dele — ela respondeu.
— Eu não tenho nenhum ressentimento em relação a Erik. Quero dizer, ele pode ficar com quem ele quiser. Se você gosta dele, por mim não tem problema nenhum — percebi que estava tendo um surto de diarreia verbal, mas eu não conseguia parar de falar. — E ele também não quer mais nada comigo. Acabou mesmo. Só que Erik é...
— É um cuzão — a voz de Aphrodite me salvou. Ela passou por nós bocejando e enfiou a cabeça em uma das geladeiras. — E agora você ouviu isso de duas ex-namoradas dele. Sendo que “ex” é a parte mais importante da frase — ela veio até a mesa e colocou na frente da cadeira vazia ao meu lado uma jarra de suco de laranja e uma garrafa, que eu imaginei ser um champanhe supercaro. — É claro que Z. não o chamou de cuzão. Ela estava sendo gentil.
Enquanto falava, Aphrodite voltou para a geladeira e abriu o freezer. Ouvi um barulho de vidro tinindo. Quando ela voltou para a mesa, estava segurando uma taça de cristal gelada, daquelas compridas e finas em que as pessoas bebem nas festas de Ano Novo na TV.
— Já eu não sou tão gentil. Cu-zão. Esse é o nosso Erik — ela estourou a rolha da garrafa, derramou um pouquinho de suco de laranja na taça e então a encheu quase até transbordar com champanhe borbulhante. Ela abriu um sorriso para a taça e falou: — Mimosa ou, como diria minha mãe, o café da manhã dos campeões.
— Eu sei o que Erik é — Shaylin afirmou.
Ela não pareceu irritada. Ela também não pareceu agradecida. Ela soou segura de si.
— Eu também sei o que você é.
Aphrodite levantou uma sobrancelha loira para ela e deu um bom gole na sua Mimosa.
— Conta aí.
Oh-oh, pensei. Eu supunha que devia fazer algo para impedir o que estava para acontecer, mas era como estar parada em um trilho de trem tentando empurrar um carro para fora do caminho. Era mais provável que eu acabasse sendo atropelada pelo trem do que conseguisse salvar o carro. Então, em vez disso, fiquei olhando com cara de tonta e bebendo meu refrigerante.
— Você é prateada. Isso me lembra a luz da lua, o que me diz que você foi tocada por Nyx. Mas você também é amarela cor de manteiga, como a luz de uma pequena vela.
— E isso diz o que para você? — Aphrodite examinou as suas próprias unhas bem cuidadas, claramente sem se importar com a resposta de Shaylin.
— Isso me diz que, como uma pequena vela, você pode ser apagada facilmente.
Os olhos de Aphrodite se estreitaram e ela espalmou a mão contra a mesa.
— Já chega, garotinha nova. Eu já tenho passado por muita coisa, com toda essa merda de batalha contra as Trevas, para ter que aturar a sua boca mole ou a sua atitude de sabe-tudo — parecia que ela estava se preparando para avançar no pescoço de Shaylin.
Eu estava pensando em correr para tentar encontrar Darius quando Stevie Rae surgiu na cozinha.
— E aí, pessoal! Bom dia! — ela disse e deu um grande bocejo. — Cara, estou cansada. Será que tem alguma lata de Mountain Dew na geladeira?
— Ah, que merda, agora não é de manhã. O sol já vai se pôr. E por que diabo está todo mundo acordado? — Aphrodite atirou as mãos para cima.
Stevie Rae franziu a testa para ela.
— É educado dizer “bom-dia” para as pessoas, mesmo que isso não seja tecnicamente correto. E eu gosto de acordar cedo. Não há nada de errado nisso.
— Ele é um pássaro! — Aphrodite falou, servindo-se de mais champanhe.
— Você já está bebendo?
— Sim. Quem é você? Uma versão caipira da minha mãe?
— Não, se eu fosse uma versão de sua mãe, eu não ia ligar para o fato de você beber no café da manhã, já que a sua mãe realmente tem problemas — Stevie Rae colocou a lata de Mountain Dew de volta na geladeira. — E agora que eu pensei nisso, tomar refrigerante no café da manhã provavelmente também não é uma boa ideia. Aposto que tem uma caixa de Lucky Charms por aqui em algum lugar.
— Esse cereal é magicamente delicioso — Shaylin comentou. — Se você encontrar, vou querer um pouco também.
— Count Chocula — como parecia que Aphrodite não ia matar ninguém (no momento), minha voz voltou a funcionar. — Se você vir uma caixa, eu quero.
— Que diabo há de errado com Mimosas? — Aphrodite estava dizendo. — Suco de laranja combina com café da manhã.
— E a parte do champanhe? É álcool — Stevie Rae argumentou.
— É Veuve Clicquot rosé. Isso significa champanhe bom, o que cancela a parte do álcool — Aphrodite afirmou.
— Você acredita mesmo nisso? — Shaylin perguntou.
Olhando para mim e claramente ignorando Shaylin, Aphrodite falou:
— O que é que está falando comigo?
— Estou com dor de cabeça e a gente ainda nem foi para a escola — eu disse para Aphrodite.
— O estábulo quase foi destruído pelo fogo e a nossa Alta Sacerdotisa foi expulsa por ser uma semideusa assassina. Acho que todos nós podemos faltar na aula hoje — Aphrodite sugeriu.
— Nananinão — Stevie Rae rebateu. — Nós temos que ir para a escola por causa disso tudo. Thanatos vai precisar de nós. Além disso, vai haver a cerimônia da pira funerária para Dragon. Isso vai ser difícil, mas a gente precisa estar lá nessa hora.
Aquilo calou Aphrodite. Ela continuou a beber, enquanto Stevie Rae serviu um pouco de Lucky Charms (um cereal inferior a Count Chocula, apesar de ter marshmallows) para si mesma e para Shaylin, e todas nós ficamos um pouco melancólicas.
— Vou sentir falta de Dragon — falei. — Mas é muito legal que ele está com Anastasia de novo. E o Outromundo é incrível. Mesmo.
— Vocês realmente viram os dois se reencontrando, não viram? — Shaylin quis saber, com olhos arregalados.
— Todos nós vimos — eu respondi, sorrindo.
— Foi lindo — Stevie Rae comentou, fungando e enxugando os olhos.
— É — Aphrodite disse baixinho.
Shaylin limpou a garganta.
— Olha só, Aphrodite, eu não queria ter sido tão maldosa antes. O que eu falei foi errado. Eu não devia usar o meu dom dessa forma. Você realmente tem uma luz amarela trêmula por dentro da sua luz da lua, mas isso não quer dizer que você vai se apagar. É parte do seu jeito único... do seu lado afetivo. Aqui vai a verdade: essa luz é pequena e escondida porque você mantém o seu verdadeiro lado bom e afetuoso escondido na maior parte do tempo. Mas isso não muda o fato de que essa luz ainda está aí. Portanto, desculpe.
Aphrodite voltou seus olhos azuis e frios para Shaylin e disse:
— Ponha a loção no cesto.
— Ah, cara — eu falei. — Aphrodite, apenas tome o seu café da manhã. Shaylin, esse é um bom exemplo daquilo que a gente estava conversando antes. Eu não questiono o seu dom. Não duvido dele. Mas eu realmente tenho um pé atrás com o seu bom senso em decifrá-lo.
— Eu decifro o meu dom perfeitamente — Shaylin respondeu, soando incomodada e na defensiva. — Mas Aphrodite me tirou do sério. Então eu cometi um erro. Já pedi desculpas.
— Desculpas não aceitas — Aphrodite falou e deu as costas para Shaylin.
Foi nessa hora que Damien entrou apressado na cozinha, segurando o seu iPad – e parecendo mais descabelado do que normalmente ficava, depois do que ele gostava de chamar de seu “período de rejuvenescimento de beleza”. Ele veio direto até mim, ergueu o iPad e disse:
— Vocês têm que assistir a isso.
No começo, eu estava só ligeiramente curiosa quando vi a âncora do telejornal da noite do canal Fox23, a totalmente deslumbrante Chera Kimiko, falando. Nós adorávamos a Chera. Ela não só era bonita no nível de um vampiro como era também uma pessoa real, ao contrário dos âncoras tipo cabeças falantes de plástico que normalmente aparecem.
Aphrodite espiou por sobre o meu ombro para o iPad de Damien.
— Kimiko é clássica. Nunca vou me esquecer daquela vez em que ela cuspiu o chiclete bem no meio da notícia. Pensei que meu pai ia ficar...
— Chera é ótima, mas isto é péssimo — Damien a cortou. — E grave. Neferet acabou de dar uma coletiva de imprensa.
Ah, que inferno...

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