10 de outubro de 2015

Capítulo 5 - Zoey

— Ela ainda está dormindo — Darius falou em voz baixa, enquanto saía do quarto de Aphrodite e fechada a porta atrás dele com delicadeza.
— Já é bem tarde. Ela está bem? — eu perguntei, sentindo-me estranha parada ali, sussurrando no corredor.
— Ela ficar — Darius respondeu. — A noite passada foi difícil para ela.
— Ela ficou muito bêbada? — Stark foi sarcástico.
— O pai dela foi assassinado no campus da nossa escola. Ela bebeu — Darius foi evasivo.
— E agora ela está de ressaca — Stark concluiu.
— E agora ela precisa descansar — Darius corrigiu, endireitando-se e pareceu mais alto.
Ah, droga. Só faltava isto: Stark e Darius de picuinha.
— Descansar é uma boa ideia — eu me coloquei entre eles. — Lembro de como eu me senti péssima depois que minha mãe foi assassinada. Você também se lembra, não é, Stark? — perguntei incisivamente.
— Não me lembro de você ter ficado bêbada — ele falou.
— E eu não me lembrava de você julgando os outros! — finalmente cheguei ao meu limite. — Afe, dê um tempo para a garota. O pai dela foi assassinado e a mãe dela a renegou, tudo na mesma noite. De qualquer ângulo que se olhe para a situação, ela é péssima.
— Ficar chapada não é o jeito certo de lidar com isso — Stark disse.
— Quem disse? Até parece que você tem um milhão de anos de experiência. É melhor deixar quieto — eu falei.
— Foi você quem disse que queria vê-la. E agora você está aqui e ela está na maior ressaca, sem condições de falar com você — Stark rebateu.
— Não, eu disse que queria dar uma olhada nela — eu me virei para Darius. — Ela vai ficar bem?
— Sim, acredito que sim — ele respondeu.
— Pronto — eu me virei de novo para Stark. — Já dei uma olhada em como ela está.
— Não quero ser desrespeitoso, Sacerdotisa, mas será que vocês dois poderiam encontrar outro lugar para brigar? A minha Profetisa realmente precisa descansar — Darius afirmou.
Os ombros de Stark desabaram e ele esfregou a mão pelo rosto.
— Z. e eu não estávamos brigando — ele olhou para mim e deu um sorriso de desculpas. — Pelo menos, eu não queria começar uma briga. Sinto muito.
— Tudo bem — eu falei. — Eu também não quero brigar.
— Ótimo — ele ampliou o sorriso e pareceu voltar a ter aquela personalidade doce e charmosa de sempre. — Ei, Darius, eu não vim até aqui com Z. só porque eu queria agir feito um babaca.
Darius sorriu.
— Fico feliz em ouvir isso.
— Na verdade, eu vim até aqui perguntar se você sabe algo sobre uma espécie de porão aqui na House of Night. Damien comentou que ele achava que Dragon armazenava espadas e escudos antigos em algum lugar subterrâneo.
— Eu realmente sei de um lugar assim. Ele fica abaixo da parte principal do prédio da escola. A entrada para ele fica no corredor entre o ginásio e os estábulos.
— Você sabe se tem mais de uma entrada para lá? — perguntei.
— Não sei ao certo. Estive lá apenas algumas vezes e rapidamente. Só fui guardar escudos sem uso. Lembro que era um aposento escuro e comprido. O teto é baixo, mas o chão é de pedra e a construção é robusta. Como toda a House of Night.
— Parece perfeito — Stark disse. — Você pode nos mostrar como chegar lá?
— É claro — ele hesitou e olhou por sobre o ombro para a porta fechada do quarto que ele dividia com Aphrodite.
— Você não precisa ficar muito tempo fora — eu assegurei a ele. — Só nos mostre o porão, e então você pode voltar e ver se Aphrodite está pronta para comer algo.
— Um hambúrguer bem grande e gorduroso com batatas fritas é ótimo para ressaca — Stark sugeriu.
Darius sorriu.
— Aphrodite diz que garotas que comem vacas começam a ficar parecidas com elas.
— É a cara dela dizer isso — eu falei. — Você pode tentar levar para ela algo menos bovino e mais tipo galinha sensual.
— Ei, eu pagaria para ver o que Aphrodite faria se Darius trouxesse para ela uma tigela de chantilly e uma lata de atum — Stark disse.
Nós três rimos enquanto saíamos do dormitório feminino em direção ao ginásio. A noite estava surpreendentemente quente para fevereiro. Pensei que eu até podia sentir o cheiro da primavera na brisa suave que soprava pelo campus. Eu definitivamente escutei sons que significavam primavera: calouros conversando à luz dos lampiões e gatos miando para os seus vampiros escolhidos.
Gatos!
— Ah, que inferno! Nala e todos os outros gatos ainda estão na estação. Provavelmente eles estão totalmente surtados porque a gente não voltou para lá — eu lembrei.
— Eles vão ficar bem por alguns dias — Stark falou. — Todos eles têm aqueles alimentadores automáticos grandes e eles gostam de beber água daquele chuveiro da estação que não fecha direito, lembra?
— As caixas de areia deles vão ficar supernojentas — fiz uma careta, pensando em como a já mal-humorada Nala iria ficar ultramal-humorada por causa disso.
— É, isso vai ser meio repulsivo — Stark disse. Darius resmungou algo, concordando. — Tenho pena da pobre Duquesa, presa lá com todos aqueles gatos.
— Ei, ela está gostando dos gatos — eu o lembrei. — Ela está até dormindo com Cammy, o gato de Damien.
— Todo mundo gosta do gato de Damien — Stark sorriu.
— Se a gente tiver que ficar aqui por mais de uma noite, eu vou dizer a Thanatos que nós temos que buscar nossos gatos e Duquesa, não importa o que os policiais digam — eu afirmei.
— Nós não somos criminosos. Não fizemos nada de errado e deveríamos ter permissão para sair, para retomar as nossas vidas normais — Darius soou frustrado.
— E mesmo assim estamos basicamente trancados aqui — eu falei.
Nenhum dos dois tinha nada a dizer sobre isso. O que poderia ser dito? A verdade era que uma imortal louca, que podia ser ainda mais um espectro do que um corpo sólido, provavelmente havia acabado com o prefeito. Como poderíamos provar isso? E mesmo que a gente conseguisse provas, será que a polícia humana iria acreditar nas nossas evidências ou tudo aquilo era louco demais? A resposta verdadeira, porém deprimente, era: eles não iam acreditar porque tudo aquilo era muito, muito louco.


Darius havia lembrado corretamente: o porão era comprido e escuro e tinha um chão frio de pedra. Não havia nenhuma luz elétrica lá embaixo, apenas lampiões a gás pendurados em ganchos de ferro bem velhos, entre as espadas e os escudos fixados nas paredes de pedra. Quando Darius e Stark acenderam as lamparinas, a luz dançou nas superfícies metálicas como se fossem seres vivos.
— Isto aqui podia ser um cenário de Game of Thromes — eu afirmei.
— O que é incrível — Stark disse.
— Só se “incrível” quiser dizer tipo um calabouço assustador — eu falei.
— Mas é seco e subterrâneo — Stark argumentou. — Ei, na verdade há algumas tomadas aqui embaixo. Colocamos divisórias para os quartos, trazemos sacos de dormir, pufes e algumas TVs com DVDs e isto aqui vai ser melhor que acampar.
— Isso não quer dizer muito. Quase qualquer coisa é melhor do que acampar — eu contra-argumentei.
— Ficar torrado pelo sol não é melhor do que acampar — Darius opinou.
— Tenho que concordar com você — Stark disse.
— Ei, será que essas pedras são de verdade? — perguntei, hipnotizada pelo cabo de uma das espadas, que era incrustado com joias (ou contas de vidro) brilhantes.
— Pode ter certeza que sim, Sacerdotisa — Darius respondeu. — Todas as pedras são de verdade.
— Caramba! — exclamei. — Elas são lindas e devem valer uma fortuna. Por que Dragon guardava essa riqueza aqui embaixo? Tudo isso não deveria estar exposto em algum lugar, ou trancado em um cofre, ou algo assim?
— Eu já ouvi Dragon comentar que não achava que deveríamos exibir todas as nossas riquezas para todos verem — Darius lembrou.
— Mas isso não combina com Neferet. Ostentar riqueza é a cara de Neferet, e ela era a Alta Sacerdotisa dele — Stark ponderou.
— Não sei ao certo se Neferet sabia sobre este esconderijo de armas. Isto aqui era algo que Dragon controlava. Não me lembro de já ter visto Neferet vindo aqui ou tê-la ouvido falar sobre alguma dessas espadas ou escudos antigos — Darius falou devagar, como se estivesse raciocinando em voz alta. — Ela tinha pouco interesse em armas, apenas no seu próprio poder.
— Você quer dizer que acha que ela não sabe da existência deste lugar? — eu perguntei.
— Pode ser que ela não saiba — Darius respondeu.
— Isso seria ótimo para nós — Stark disse. — Isso não apenas significa que ela não conhece o porão, mas também que há uma fortuna em joias e ouro pendurada nessas paredes, como Zoey disse.
— Mas cada House of Night é rica de modo independente. Por que nós iríamos precisar de uma fortuna escondida em joias e ouro? — Darius quis saber.
— Cada House of Night é rica — eu respondi. — Mas nós já começamos a romper com a escola quando deixamos de morar no campus. E se os problemas entre humanos e os vampiros piorarem por causa da morte do prefeito? Vocês sabem se os policiais poderiam congelar as nossas contas?
Darius balançou a cabeça.
— Eu não sei.
— Também não tenho ideia. Eu ainda tenho o mesmo cartão de débito que eu usava quando estava na House of Night de Chicago — Stark contou. — Nunca nem pensei nisso.
— Nós temos que pensar nisso — eu afirmei. — Todos nós costumamos achar que o jeito com que a House of Night toma conta de nós nunca vai mudar.
— Não posso acreditar que o Conselho Supremo dos Vampiros iria ficar em silêncio e nos deixar à deriva em meio ao sistema de leis dos humanos — Darius opinou.
— Mas, se isso acontecer, nós vamos precisar de segurança e dinheiro. Definitivamente, há dinheiro pendurado nessas paredes, e também pode haver segurança aqui embaixo, se Neferet não souber da existência deste lugar — pensei por um segundo e então acrescentei: — Aposto que Kalona pode responder com certeza se ela conhece este porão ou não.
— Bem, então vamos perguntar para o imortal alado — Stark sugeriu.
— Não gosto de pensar em romper totalmente com a House of Night — Darius falou com ar sério. — Mas eu concordo com o seu raciocínio. Vamos falar com Kalona.
Nós três saímos apressados do porão e resolvemos que seria mais inteligente se a gente discretamente voltasse até o prédio principal da escola e então fosse de lá até a área do ginásio, onde ficava o antigo escritório de Dragon Lankford, que agora pertencia a Kalona.
— Não precisamos que ninguém fique reparando em nós entrando e saindo daquele corredor — Darius afirmou.
— Pois é, assim a gente iria acabar atraindo atenção para o corredor — eu concordei com ele. Com mais entusiasmo do que o necessário, forcei um sorriso e acenei para Kramisha e Shaylin quando elas saíram do refeitório. — Espionagem... — resmunguei e suspirei.
— O que é que tem? — Stark quis saber.
— Sou péssima nisso — respondi.
Ele pegou a minha mão e Darius estava rindo baixo quando nós viramos à direita para pegar o corredor até a frente da escola. Nessa hora nós três paramos, ofuscados pela claridade que nos fez enxergar pontinhos de luz, e ficamos olhando embasbacados para o pequeno grupo no lobby de entrada.
— O que está rolando? Aquilo é uma câmera? — Stark perguntou.
— Que ótimo! Ali está um dos novos vampiros vermelhos. Sigam-me! — uma mulher segurando o microfone gesticulou para o cameraman e para os dois caras que estavam segurando as luzes e veio na nossa direção.
Aquelas luzes brilhantes e desconfortáveis se aproximaram de nós, junto com a mulher, a equipe de gravação e Diana, a vampira que trabalhava como uma espécie de secretária da escola e que normalmente era calma e impassível em relação a tudo, mas que estava muito agitada.
Aiminhadeusa! Eu vi a van da Fox23 lá fora, mas não imaginei que você estaria aqui! — Damien gritou quando ele irrompeu no saguão, vindo do corredor que dava no refeitório. — Chera Kimiko! Eu mal posso acreditar! Eu sou tão fã seu!
Eu franzi os olhos por causa das luzes das câmeras. Que droga! Era a âncora da Fox News. O meu primeiro pensamento foi: Uau, ela é ainda mais bonita pessoalmente. Já o meu segundo pensamento não foi tão positivo: Uau, se o canal Fox23 enviou a Chera até aqui, deve haver muita merda no ventilador.
— Muito obrigada! Eu realmente sou muito grata a todos os meus fãs — Chera estava conversando com Damien, que estava sorrindo feito bobo para ela, totalmente extasiado por estar perto de uma celebridade.
— Damien, por que você não vai contar a Thanatos que há uma repórter aqui? — eu sorri e dei um empurrãozinho nele na direção da escadaria que levava ao escritório de Thanatos.
— Ah, claro! Eu já volto! — quando Damien estava passando por Chera, ele sorriu e acrescentou: — Eu realmente te amo!
Chera deu um lindo sorriso para ele e abriu os braços.
— Damien, você é um querido. Que tal um abraço?
Aiminhadeusa, sim! — o sorriso de Damien iluminou o seu rosto enquanto ele abraçava Chera.
Eu a ouvi sussurrar para ele:
— Adam me pediu para te mandar um oi.
— Ooooh! Fale pra ele que eu mandei um oi também! — Damien terminou de abraçá-la e então saiu apressado em direção ao escritório de Thanatos.
Juro que, se ele fosse um cachorrinho, iria ficar abanando o rabinho até morrer.
— Você é o primeiro vampiro vermelho que eu vejo pessoalmente! Suas tatuagens são muito bonitas — Chera e a câmera agora estavam focadas em Stark.
— É, ahn, eu sou um vampiro vermelho — Stark falou, alternando nervosamente o olhar entre a câmera e Chera.
— O seu nome é Stark, certo? — Chera perguntou para ele.
— Certo.
Bem consciente da câmera, que estava piscando a luz vermelha de GRAVANDO, eu abri a boca para tentar pensar em algo para dizer quer não terminasse comigo gritando histericamente, puxando Stark e saindo correndo, mas Chera estava observando Stark com atenção, sorrindo e parecendo fascinada por ele enquanto examinava a sua Marca. Ela se aproximou mais dele. Soando amigável e totalmente inofensiva, ela disse:
— O padrão da sua tatuagem é intrigante. Parecem flechas. Você não é de Broken Arrow, é?
— Ahn, não. Eu sou de Chicago.
— As flechas simbolizam algo?
— Bem, acho que sim. Eu sou um ótimo arqueiro — ele respondeu.
Chera virou seus grandes olhos castanhos para mim e sorriu como se nós fôssemos melhores amigas.
— As suas tatuagens também são incríveis. E elas estão por todo o seu corpo! Acho que estou vendo pássaros e flores e, uau, até chamas e ondas dentro desses desenhos cheios de filigranas. Você deve ser uma jovem vampira muito especial.
Eu abri a boca para responder, mas não tinha ideia do que dizer. Se Chera tivesse sido direta e insistente como alguns repórteres, teria sido fácil dizer “nada a declarar” e sair andando, mas ela parecia realmente agradável e apenas com uma curiosidade respeitosa. Soando tão nervosa quando Stark, eu falei:
— Bem, eu não me sinto muito à vontade com o rótulo de especial, apesar de a nossa Deusa ter me Marcado com tatuagens extras.
— Ah, entendi — Chera fez um gesto para o cameraman. — Jerry, corte essa parte — então ela voltou a sua atenção para mim. — Desculpe. Eu não estou aqui para deixar ninguém desconfortável.
— Por que você está aqui? — eu perguntei.
— Para captar a reação de vocês ao assassinato do prefeito de Tulsa.
— Nós não matamos o prefeito — eu afirmei.
— Eu não quis acusar vocês! De jeito nenhum! — Chera nos garantiu, parecendo realmente sincera.
— Alguém está fazendo acusações? — Thanatos chegou apressada, seguida de perto por Damien.
Chera olhou para o cameraman.
— Jerry, pare de gravar, por favor — ela estendeu a mão para Thanatos. — Alta Sacerdotisa, eu sou Chera Kimiko, do canal Fox23 News.
Thanatos apertou a mão dela.
— Eu sou Thanatos, Alta Sacerdotisa desta House of Night. E eu a conheço da TV, Srta. Kimiko.
— Por favor, pode me chamar de Chera. Eu não estou aqui para acusar ninguém de nada. Só estou tentando mostrar a história inteira, a verdadeira história por trás da morte de Charles LaFont — ela estendeu a mão na direção de um dos caras da iluminação. — Andy, pegue o meu iPad.
O rapaz entregou o iPad para Chera, que tocou na tela e o levantou para que nós pudéssemos ver a mãe de Aphrodite sendo entrevistada por um homem de aparência preocupada, que usava um terno que não lhe caía muito bem.
— Sra. LaFont, por favor, aceite as nossas condolências pela morte do seu marido, o nosso querido prefeito — o repórter disse.
— Eu agradeço, mas não vou ficar em paz até que o vampiro assassino do meu marido seja levado à Justiça.
Diana e eu ofegamos. Thanatos pareceu virar pedra. Darius e Stark pareciam que iam explodir. Mas a mãe de Aphrodite, a Sra. LaFont, estava bonita, devastada e enfática de um modo hipnotizante, com seu elegante vestido preto e pérolas. Ela esfregou levemente os cantos dos seus olhos azuis cheios de lágrimas com um lenço rendado antes de continuar.
— Então a senhora tem certeza de que seu marido foi morto por um vampiro? — o repórter a encorajou.
— Certeza absoluta. Eu estava lá. Eu encontrei o seu corpo sem sangue. Depois que ele sofreu toda a sorte de brutalidade — a Sra. LaFont desviou os olhos do repórter e se virou diretamente para a câmera. — Alguma coisa tem que ser feita em relação à House of Night.
A entrevista foi interrompida pelo comercial e Chera tocou no canto da tela para desligá-la.
— O único lado que está sendo ouvido é o da Sra. LaFonte, apesar de eu compreender a perda dela, sou uma jornalista e acredito que a história inteira tem que ser contada.
— Srta. Kimiko, não há nenhum drama, nem intrigas, nem a história de um assassinato sendo escondida aqui. Só há estudantes, professores e um dia sem aulas por causa dos eventos trágicos da noite passada.
— Por favor, Thanatos, não me veja como uma inimiga. Permita que eu conte o resto da história e faça imagens dos seus estudantes apenas fazendo atividades normais. Permita que eu mostre a Tulsa quem vocês são de verdade. Eu sempre acreditei que o medo e o ódio são alimentados pela ignorância — Chera falou seriamente, sustentando o olhar de Thanatos sem vacilar. — Se a nossa cidade não tem motivos para ter medo da sua House of Night, permita eu a minha câmera mostre isso. Vamos educar Tulsa.
— Chera, realmente parece que as suas intenções são boas, mas como eu já disse, os nossos estudantes não estão fazendo suas atividades normais hoje.
— Com licença, Thanatos — Damien levantou a mão.
— Sim, Damien. O que foi?
— A maioria dos calouros ainda está tomando café da manhã no refeitório. Isso é uma atividade normal da escola.
— Eu adoraria fazer imagens dos seus estudantes lá! — Chera exclamou.
— Muito bem. Damien, você pode acompanhar a Srta. Kimiko até o refeitório. Eu vou encontrar vocês, mas não vou aparecer para que ela possa gravar uma cena autêntica no refeitório.
— Aaaah! Isso vai ser fantástico! — Damien disse efusivamente.
— É exatamente o que eu penso — Chera sorriu para ele.
— Srta. Kimiko, nós vamos gravar só no refeitório. Isso é o máximo de interferência de fora que a minha escola pode tolerar hoje — Thanatos afirmou.
— Eu compreendo e agradeço pela oportunidade — Chera falou.
— Então Damien pode mostrar o caminho até o nosso refeitório — Thanatos disse. — Zoey, Stark, Darius, dispensados.
Aliviada por não sermos mais o centro das atenções, assenti para Thanatos e nós três saímos apressados na direção da porta, apesar de eu sentir o olhar curioso de Chera nos seguindo.
— Vocês concordam com aquela frase de que “qualquer publicidade é boa”? — Darius perguntou.
— Não! — Stark e eu respondemos juntos.


Kalona

O imortal detestou o fato de o humano ter sido assassinado. Não que ele se importasse por aquele homem ter perdido a vida. Pelas informações que Kalona colheu com os outros, o prefeito tinha sido um ser humano fraco, tolo e inútil. Kalona só se preocupava que aquilo tivesse ocorrido enquanto ele era o guerreiro da Alta Sacerdotisa da Morte e que o humano tivesse morrido durante a sua vigilância.
Kalona também odiava o fato de Neferet obviamente ser assassina. Com um grunhido de irritação, Kalona se recostou na confortável cadeira de couro e arremessou um punhal de Dragon Lankford. O punhal atingiu bem o centro do alvo cor de sangue.
— Eu devia ter sido mais cuidadoso. Eu devia saber que a Tsi Sgili encontraria um meio de recuperar a sua forma corpórea e voltar para começar a sua vingança — enquanto falava, ele atirou outro punhal que ficou bem ao lado do primeiro. — Mas, em vez de proteger, eu estava me escondendo — ele pronunciou a palavra como se ela tivesse um gosto ruim — para que os humanos locais não ficasse chocados ao me ver — ele deu uma risada sem humor. — Não, em vez de eles ficarem chocados comigo, eles foram regalados com duas mortes.
Kalona estendeu a mão para pegar outro punhal e esbarrou no delicado girassol de vidro que estava dentro de um vaso de cristal, no qual havia uma imagem de Nyx com os braços levantados envolvendo a lua crescente. Aquele movimento fez o vaso balançar, perder o equilíbrio e tombar em direção ao chão de pedra.
Uma bola de luz, brilhante como o sol, explodiu dentro do escritório. O tempo ficou suspenso. O vaso e a flor fizeram uma pausa em sua queda, pairando logo acima do imperdoável chão de pedra.
Uma mão bronzeada da cor do outo polido saiu da bola de luz e colheu do ar primeiro a flor e depois o vaso com a imagem da Deusa, colocando-os de volta sobre a mesa.
— Irmão, você precisa de um emprego — Kalona disse sarcasticamente.
— Eu já tenho um — Erebus respondeu, saindo da bola de luz. Ele se sentou de modo irreverente na beira da grande mesa de madeira de Dragon Lankford. — Eu protejo aquela que é bela e extraordinária — ele fez um gesto indicando o vaso.
Kalona bufou.
— Você está comparando Nyx a um vaso? Não sei se a Deusa iria gostar disso.
— É uma comparação válida — Erebus rebateu — O vaso é belo e extraordinário, e você o tratou sem cuidado. Se eu não tivesse intercedido, ele teria se despedaçado.
— Quem se despedaçou fui eu, não Nyx.
— Tem razão. É absurdo comparar a Deusa a um vaso. Nyx não poderia nunca se despedaçar tão facilmente, principalmente porque ela vai me ter eternamente como o seu protetor — Erebus afirmou.
— Você? O protetor da Deusa? — a risada triste de Kalona encheu o aposento com a frieza da luz da lua de inverno, apagando um pouco do brilho de verão de Erebus. — Irmão, você sempre vai ser apenas uma coisa só, e não é um guerreiro. Eu era o único de nós que podia desempenhar mais do que um dever para a Deusa.
— O amor não é um dever — Erebus rebateu.
— Não é? Não pensei que eu sabia mais sobre o amor do que você, mas eu realmente sei que manter o amor vivo e não deixar que sua luz se apague às vezes é um dever.
— Não me espanta que você não tenha conseguido ficar com ela — Erebus disse. — Amar uma Deusa nunca deve ser um dever, não importa com quanta retórica você tente envolver essa palavra.
— Foi você que não conseguiu ficar com ela. Se você satisfizesse Nyx tão completamente, por que ela se voltaria para mim? — Kalona sorriu para o seu irmão.
A luz de Erebus se escureceu mais.
— E agora o mais próximo de Nyx que você consegue chegar é da imagem dela em um vaso.
— Mas você não vai me deixar em paz. O que foi, irmão? Você está com medo de que ela se volte para mim de novo?
Erebus bateu com força na mesa, imprimindo com o seu calor a marca da sua palma na madeira. Kalona não se retraiu nem desviou os olhos do seu irmão, apesar de a visão de Erebus ardendo com a luz de seu pai ter ofuscado os olhos iluminados pela lua de Kalona.
— Eu só estou aqui porque você cometeu um erro terrível de novo.
Kalona se recostou na cadeira e cruzou os braços sobre o peito.
— Não nego que eu já cometi uma longa lista de erros. Ao contrário de você, eu nunca disse que era perfeito. Qual erro, dessa longa lista, você quer discutir?
— Os seus erros, de fato, são vastos. A sua lista de malfeitos contra a humanidade, os vampiros e a Deusa é longa. Mas eu não tenho tempo nem vontade para relatar todos detalhadamente. É sobre o seu último erro que eu preciso falar. Você permitiu que uma Alta Sacerdotisa de Nyx perturbada se voltasse para as Trevas e se transformasse em um instrumento do mal. Essa Sacerdotisa problemática virou imortal e indestrutivelmente poderosa.
— Neferet já estava interessada nas Trevas bem antes de saber de minha existência.
— Neferet era uma menina ferida que ser tornou uma novata ferida. Os seus sussurros foram responsáveis por atraí-la para esta terra e por alimentar a necessidade dela por controle e poder, e finalmente você foi responsável por estimular o caminho dela até a imortalidade e o seu declínio para a loucura.
— Você está errado. Você não sabe de nada sobre Neferet. A Sacerdotisa já era problemática e louca antes de começar a ouvir os meus sussurros.
— Eu sei que Neferet causou muita dor à Deusa, e isso significa que ela deve ser contida — Erebus afirmou.
Kalona riu de novo.
— E agora você prova sem sombra de dúvidas que não sabe nada sobre Neferet. Ela escolheu o caminho do caos. Nem a morte pode dissuadi-la.
— Mas você vai dissuadi-la.
— Você é um tolo... Há uma semana, o Receptáculo Aurox, totalmente transformado na forma mágica de um besta, espetou Neferet com seus chifres e a atirou da cobertura de um edifício tão alto quanto uma montanha. Na noite passada, Neferet recuperou o suficiente da sua forma física para se manifestar neste campus, fazendo com que uma novata rejeitasse a Transformação, e matou um humano adulto. Então ela desapareceu de novo. Ela é imortal. Não pode ser morta — Kalona contou.
— Ainda assim, algo precisa ser feito com ela. Você abriu a porta do poder imortal para ela, agora trate de fechá-la.
Kalona balançou a cabeça, acumulando a luz fria da lua próxima a ele.
— Quem é você para me dar ordens? Você é meu irmão, não minha Deusa.
— Eu falo pela sua Deusa! — a luz de Erebus resplandeceu, brilhando tão intensamente que nem Kalona pode deixar de reconhecer o poder divino emprestado de Nyx que ele ostentava. — Quando você caiu do Outromundo, descarregou o seu ódio destruindo os humanos que tentaram ajudá-lo até que Nyx escutou os gritos deles e atendeu as preces das Sábias Cherokees, permitindo que elas usassem o Divino Feminino dentro delas. Assim foi criada A-ya, aquela que o aprisionou por gerações.
— Eu lembro bem do que aconteceu — Kalona rosnou. — Não preciso de você nem de Nyx para me lembrarem dessa época sombria.
— Silêncio, seu tolo! Eu trago um édito de Nyx! — Erebus brilhou intensamente. — Eu não quero lembrá-lo da razão por trás disso. Você rejeitou a sua Deusa, e em sua tentativa de substituí-la, usou muitas mulheres e as deixou de lado, até que A-ya foi criada. Então você reconheceu a centelha de Nyx dentro dela. Foi por isso que você ficou vulnerável a ela. Foi por isso que você a amou.
Kalona desviou os olhos de Erebus. Houve um tempo, em um passado não tão distante, em que ele teria negado as palavras do seu irmão com arrogância e usado o seu próprio poder imortal para expulsá-lo do plano mortal e mandá-lo de volta para o Outromundo.
Mas Kalona havia mudado. E a verdade no que o seu irmão estava dizendo o chamuscaram mais do que a luz ardente que Erebus havia herdado de seu pai, o sol.
Então o imortal alado permaneceu em silêncio, imóvel feito uma estátua, enquanto as palavras pronunciadas por Erebus e tocadas pela Deusa continuavam a abatê-lo.
— Mas você não iria continuar preso por muito tempo. Mesmo sepultado pela terra, envolto nos braços daquela que recebera o sopro de vida de Nyx, você ainda ansiava por aquela que havia perdido por causa de sua arrogância. Então você começou a enviar seus sussurros nauseantes, buscando outra que houvesse sido tocada por Nyx, alguém que pudesse preencher o vazio dentro de você. Desde o momento em que foi Marcada, Neferet era especial para Nyx por causa dos horrores a que ela havia sobrevivido, e não apesar deles. Mas ela era, de fato, uma jovem caloura vulnerável. Foi por isso que Neferet foi suscetível ao seu chamado. Foi por isso que, depois que ela completou a Transformação, você a convenceu a libertá-lo.
Kalona queria fugir das palavras dolorosas do seu irmão, mas algo dentro dele o obrigava a ficar e ouvir o édito de Nyx que Erebus havia sido enviado para proclamar.
— E como Neferet também era apenas tocada pela Deusa e não a encarnação de Nyx, ela falhou em preencher o seu vazio interior. Essa falha se transformou em veneno. Você nega ter pensado que a amava, assim como pensou ter amado a virgem A-ya?
— Eu não nego nada, assim como também não admito nada. Proclame o seu édito e desapareça. Já estou farto das suas palavras.
— Olhe dentro de si mesmo. Não é das minhas palavras que você está farto. No dia em que você admitir a verdade sobre o seu passado e aceitar toda a responsabilidade por todo o mal que você provocou a este mundo, o seu fardo vai se tornar mais leve — a raiva na voz de Erebus se suavizou, apesar de o poder no seu semblante realçado pela Deusa continuar a resplandecer. — Então você encontrou a novata Zoey Redbird e ficou instantaneamente atraído e irritado pela conexão dela com Nyx. Você queria seduzi-la e destruí-la.
— Mas eu não fiz nada disso!
— Só porque a conexão de Zoey com Nyx é de fato muito forte e, ao contrário de A-ya, ela é uma mulher totalmente formada e com vontade própria e, ao contrário de Neferet, ela não tinha problemas. O coração de Zoey Redbird é leal e verdadeiro. Mas os seus atos quase a destruíram. Não esqueça que você despedaçou a alma da garota. Não esqueça que você invadiu o Outromundo, despertando a fúria de Nyx. Por causa disso, a própria Deusa intercedeu a favor de sua filha.
Kalona desviou o olhar novamente, lembrando aquele momento breve e agridoce quando ele esteve na presença de Nyx mais uma vez.
Ela não o havia perdoado e Kalona havia chorado lágrimas de amargura e arrependimento.
— Neferet aprisionou a minha alma e usou o poder das Trevas para me obrigar a obedecer as suas ordens. Eu não invadi o Outromundo porque quis.
— Neferet de novo. Foi a sua influência que fez aquela criatura. Você tem a responsabilidade de detê-la. Este é o édito da Deusa! — Erebus abriu os braços em um gesto largo. A luz amarela do sol tremulou e começou a escrever palavras fulgurantes no ar:

Ele, que já foi amado por mim,
deve derrotar aquela que já me amou.
Com esta ordem eu intervenho.
O guerreiro da Morte deve proteger aqueles que precisam.
Se o seu coração se abrir e se desnudar de novo,
o perdão pode superar o ódio, e o amor pode vencer... vencer...

Erebus apoiou as mãos na mesa de madeira e se inclinou para a frente, de modo que o seu rosto e o de Kalona ficaram separados apenas por alguns centímetros. Kalona podia sentir o calor que emanava do corpo iluminado pelo sol de Erebus e o cheiro de um dia de verão no hálito dele.
— Eu diria que espero que você falhe, mas eu não preciso desperdiçar a minha esperança. Uma imortal não pode ser derrotada sem um sacrifício igual ou maior do que a imortalidade. Você é capaz de grande ódio, de grande violência, de grandes batalhas. Mas você nunca foi capaz de um grande sacrifício. Você vai falhar. Nyx vai continuar a sentir a dor que os seus erros causaram, e eu vou continuar a consolá-la.
Finalmente a raiva de Kalona foi grande demais para que ele conseguisse contê-la. Com um rugido, ele se levantou, derrubando a sua cadeira. Ele juntou as mãos com força, em uma palmada poderosa que liberou uma explosão congelada de luz da lua. A luz fria e prateada extinguiu a bola de luz do sol de Erebus. Com um chiado parecido com o barulho de uma espada encontrando as águas da forja de um ferreiro, Erebus desapareceu.
Alguém bateu na porta, e a voz de Darius foi ouvida facilmente naquele silêncio súbito.
— Kalona? Podemos falar com você?

10 comentários:

  1. Como alguém tão foda como Nix consegue escolher um babacão feito Erebus?

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    1. Eu acho que a babaquice vem com o tempo tipo o que aconteceu com Erik e o que ta acontecendo com Stark

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  2. Erebus não é babaca... apesar de parecer ser para Kalona...

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  3. concordo com vc Livia Erebus podia ater não ser antes um babacão mais ta se tornando por ciumes por q Kalona ta tentando se redimir e ele ta com medo de Nix o perdoar e ele voltar pro outromundo Erebus e Stark só eu notei a semelhança??

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  4. Nossa vlazacky agora que você falou, notei. Será que o sacrifício que ele falou é da imortalidade de Kalona???

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  5. Só eu to achando que Kalona vai ter que se sacrificar com a tal da espada pra Neferet morrer de uma vez?

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  6. Acho q de ser a imortalodade de calona msm "Uma imortal não pode ser derrotada sem um sacrifício igual ou maior do que a imortalidade" oq seria maior q a imortalidade ?

    Aphodite

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  7. tripudiar assim é mt sacanagem kk tanto do Stark quanto do Erebus.. o que é a insegurança masculina e essa necessidade de marcar territorio --'

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  8. Kalana vai conseguir se redimir e voltar a ficar do lado de Nix?? Zoey vai conseguir ficar longe das trevas? Stark vai continuar como um ciumento e pé no saco? Fica aí as dúvidas.

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