11 de outubro de 2015

Capítulo 5 - Lynette

— Socorro! Polícia! Ela está nos mantendo presos aqui!
Uma menina que Lynette reconhecia como a dama de honra do casamento espetacular e caro da noite anterior gritou e, contornando um funcionário do hotel possuído por uma cobra, começou a bater no vidro grosso das portas dianteiras.
-— Por que eu devo sempre fazer tudo sozinha? Funcionários, todos vocês, exceto Judson, levem esses humanos para o porão!
A voz de Neferet foi preenchida com veneno e a equipe do hotel reagiu como se tivessem disparado uma corrente elétrica neles. Como um, eles começaram a se aproximar, empurrando o grupo de pessoas apavoradas em direção a uma saída de emergência nos fundos.
A vampira flutuou para baixo na escada e percorreu o salão de baile, passando tão perto de Lynette que a cauda de seu manto púrpura esvoaçou sobre seus pés.
Lynette recuou, tentando se misturar discretamente com as sombras e evitar ser levada com o resto da multidão, mas Neferet virou-se para ela:
— Você venha comigo. Não quero que perca o evento que estou planejando.
— Como quiser, Deusa — Lynette endireitou as costas, manteve um controle apertado sobre seu medo, e seguiu Neferet.
Não importa o que acontecesse, ela não acabaria como aqueles pobres funcionários idiotas que tinham serpentes repugnantes da vampira espreitando para fora de suas bocas. Nem faria algo estúpido e teria sua cabeça cortada. Ela sobreviveu a uma mãe alcoólatra e abusiva, e um lixo de infância para construir um império com seu próprio esforço. Tinha dinheiro e status social. Ela dirigia uma S-Class Mercedes-Benz e possuía uma casa de seis mil metros quadrados em Oito Acres, no mais exclusivo e caro condomínio fechado do centro de Tulsa. Ela passava as férias na França e só voava de primeira classe. Conseguiria muito bem sobreviver a uma vampira obcecada pelo poder que tinha delírios de imortalidade, e descobriria uma maneira de lucrar com a situação.
Neferet tinha chegado à menina gritando.
— Você não é uma adoradora boa!
Com uma força sobrenatural, ela segurou o punho inteiro da garota, puxou os cabelos loiros dela para trás até que Lynette estava certa de que seu pescoço rasgaria. Então ela apontou para a boca da menina gritando.
— A possua!
Lynette queria desviar o olhar, mas não podia. A serpente negra enterrou-se na boca da menina. Seus olhos reviraram em sua cabeça de modo que apenas os glóbulos brancos ficassem à mostra e seu corpo, completamente mole. Só o aperto de Neferet em seu cabelo a mantinha na posição vertical.
— Eu a chamarei de Mabel. Quando eu mandar, você virá de bom grado até mim — Neferet rosnou, levantando o rosto da menina inconsciente, de modo que ficasse a apenas alguns centímetros dela.
Os olhos cegos piscaram. Como se a vampira tivesse ligado um interruptor, o terror no rosto da menina fora embora, deixando apenas uma imobilidade, mas os olhos sem expressão atentos.
— Sim, Deusa — ela entoou com emoção.
Essas serpentes horríveis ficam no controle completo de quem quer que possuam, Lynette pensou. Não a mim. Prometeu a si mesma. Não seria eu mesma. Prefiro morrer a acabar assim.
Neferet soltou seu domínio sobre a menina. Ela cambaleou, se desequilibrando, mas permaneceu de pé. A vampira alisou o cabelo perfeito e espanou um pontinho invisível de algo em seu ombro. Então ela olhou para Lynette.
— Você sabe o que vai acontecer se me decepcionar e se tornar uma adoradora inadequada.
Lynette não desviou o olhar dos olhos de esmeralda de Neferet. Ela fez a profunda reverência que a vampira tinha apreciado antes.
— Eu não vou decepcioná-la, Deusa.
Ela sentiu a lâmina doentia de Neferet tocar sua mente e seus pensamentos focaram-se na verdade de que de nenhuma maneira maldita ela pretendia fazer qualquer coisa que faria com que a vampira se voltasse contra ela.
— Em breve, Lynette, você acreditará que sou uma Deusa, e que seu destino é me servir.
Antes que Lynette pudesse comentar, Neferet deu as costas para ela e ordenou:
— Judson, libere as portas da frente. Lynette, você vai se juntar a mim. Crianças, não se permitam ser vistos, mas fiquem próximos!
Com um swoosh que há muito lembrava Lynette de dinheiro antigo e opulência, o bronze rangeu e portas duplas de vidro se abriram. Neferet saiu com Lynette em seus calcanhares, tão perto que ela podia sentir o terrível frio que irradiava das cobras invisíveis.
Havia dois carros do departamento de polícia de Tulsa e um carro da cidade sem marcação na pequena rotatória em frente ao hotel. Quatro policiais uniformizados conversavam com um homem alto, à paisana, que estava obviamente no comando, o que significava que ele era algum tipo de detetive. À aparição de Neferet, o grupo deslocou imediatamente sua atenção para a bela vampira. O detetive acenou para os outros. Eles deram um passo para trás, quando, com o rosto severo, ele começou a se aproximar de Neferet.
— Não, eu quero que vocês permaneçam em seus carros — disse Neferet.
Ela ficou perto das portas, de pé sob o toldo de ferro forjado que era a marca da entrada do Mayo. Ela deu um pequeno passo para o lado e colocou o braço em volta dos ombros de Lynette e empurrou-a.
Lynette não precisava ser vidente para saber o que a vampira queria que fizesse. Sem hesitar, ela deu um passo para frente, de modo que ela estava de pé entre Neferet e a polícia.
A mão de Neferet descansou em seu ombro, e Lynette podia sentir as duras unhas afiadas da vampira pressionando a pele de seu pescoço próxima da artéria, que bateu forte e rápido.
Lynette estava perfeitamente imóvel.
O homem alto hesitou apenas um momento, embora aquele momento parecesse uma eternidade para Lynette. Então ele e os policiais deram vários passos para trás.
— Sim, aí é muito melhor — Lynette podia ouvir o sorriso na voz de Neferet. — Agora nós podemos conversar mais educadamente. detetive Marx, é tão agradável vir me visitar. Esta acabou por ser uma tarde linda, não é? É como se o tumulto do tempo de ontem tivesse lavado a cidade, deixando-a limpa.
Neferet falou afavelmente, uma mão ainda descansando no ombro de Lynette.
— Neferet, preciso lhe fazer algumas perguntas. Prefere ir para a delegacia, ou quer que perguntemos aqui?
O suspiro de Neferet foi de desapontamento exagerado.
— Então não haverá sutilezas sociais entre nós?
— Em circunstâncias normais, eu não teria nenhum problema com sutilezas sociais, como bem sabe. Você e eu já trabalhamos juntos antes, amigavelmente. Mas o que aconteceu em Tulsa ontem estava longe de ser normal, e não tenho tempo para muita polidez — ele parou e fez um gesto para Lynette. — E acho que é bastante irônico que você esteja reclamando de sutilezas sociais quando está com uma refém a sua frente.
A pressão da unha de Neferet foi imediatamente suavizada, e a vampira retirou a mão de Lynette com uma carícia íntima em sua bochecha.
— detetive, está muito enganado. Lynette, você é minha refém?
— Não, Deusa — ela respondeu, balançando a cabeça e fazendo o seu melhor para agir como se fosse uma ocorrência diária ser um escudo humano para uma vampira psicótica. — Eu sou a sua adoradora.
— Viu? Está tudo bem. Lynette simplesmente está aqui porque me venera. Mas por que você está aqui, detetive Marx? Quais são as perguntas pela qual está tão curioso? A respeito de Woodward Park ou sobre a Igreja da Avenida Boston?
Lynette viu os olhos do detetive se estreitarem.
— O que você sabe sobre a Igreja da Avenida Boston?
Neferet riu.
— Tudo! Faça-me uma pergunta, qualquer uma. Gostaria de saber quanto tempo o pastor gritou antes de eu matá-lo? Ou por que a esposa do vereador estava sem o seu belo vestido branco Armani, que era, por coincidência, do meu tamanho, quando você encontrou o seu corpo drenado e sem vida do lado de fora do chamado santuário? Veja, é muito difícil o sangue sair do linho fino.
Enquanto Neferet falava, Lynette observava a mudança nos policiais. Em primeiro lugar, os seus rostos registravam choque, e em seguida, uma vez que pegaram suas armas, estampou-se repulsa e raiva.
A arma do detetive apontou por cima do ombro direito de Lynette.
— Lynette —- ele a chamou. — Caminhe diretamente para nós. Mantenha as mãos no alto, onde podemos vê-las.
Lynette sabia que não importava que Neferet não a estivesse tocando. Ela não tinha absolutamente nenhuma escolha.
— Não, obrigada — disse ela, conseguindo de alguma forma manter a voz firme. — Estou feliz de ficar aqui com a Deusa.
— O que diabos você está falando? — um dos policiais desabafou. — Ela é uma porra de um vampiro que assassinou uma igreja cheia de pessoas inocentes! Ela não é uma Deusa.
— Lynette, eu não aprecio linguagem obscena. E você?  — perguntou Neferet.
Prendendo a respiração, Lynette respondeu da única maneira que podia. Balançando a cabeça, ela disse:
— Não, eu não aprecio.
Neferet inclinou a cabeça para o lado e estudou o oficial que tinha falado. Lynette viu a contração do seu corpo.
— Oficial Jamison, que linguagem de baixo nível enche a sua mente quando você começa a fantasiar com sua enteada de dez anos de idade? Enquanto você a observa dormir e admite para si mesmo que está a poucos dias de tornar seus desejos por ela de fantasias à realidade?
A cor sumiu do rosto do oficial.
— Isso é a porra de uma mentira! — ele gaguejou.
— Mais palavrões. Parece-me que o homem protesta demais — Neferet disse, e então falou em tom conspiratório para Lynette. — Erroneamente, no entanto, parece se encaixar bem na situação, não acha?
— Sim, eu acho — Lynette concordou, acompanhando de perto o oficial.
O homem estava com o rosto vermelho e parecia prestes a explodir a qualquer momento, e Lynette percebeu que Neferet não tinha jogado aquela cobra negra nele ou feito algo do tipo. Ela deslizou em sua mente e revelou o seu segredinho sujo.
— Sua puta do caralho! — o oficial Jamison gritou.
— Basta! — o detetive Marx ordenou ao homem uniformizado, então voltou o foco para Lynette e Neferet, falando com uma voz clara e calma que fez Lynette desejar poder correr da insanidade da vampira direto para sua proteção. — Lynette, se optar por permanecer com Neferet, então também pode se juntar a ela em uma cela de prisão. Neferet, você está presa pelo assassinato de toda a congregação da Igreja da Avenida Boston.
A risada de Neferet era sem graça, cruel.
— Você não pode sequer começar as acusações contra mim de forma correta, detetive.
— Você confessou os assassinatos! — disse Marx.
Ele perdeu a objetividade profissional que sua voz mantivera até então. Com um terrível aperto em seu estômago, Lynette percebeu a inacreditável verdade: Neferet abatera uma igreja inteira cheia de pessoas inocentes. Ela teve que cruzar as mãos na frente dela para impedi-las de tremer.
— Você é tão decepcionante, detetive Marx. O que eu fiz na igreja não foi um assassinato, foi um sacrifício, e glorioso! Eu gostaria tanto que você pudesse ter estado lá para testemunhá-lo, mas se você tivesse estado lá, não estaria aqui para testemunhar o início do meu reinado. Ah, mas eu discordo. As acusações são incorretas porque estão incompletas. Você se esqueceu de adicionar o pequeno lanche que fiz de seu prefeito algumas noites antes.
O rosto do detetive Marx era uma máscara de ódio.
— Meus instintos diziam que os vampiros da House of Night falavam a verdade quando disseram que você era a responsável pela morte do prefeito.
— Pela primeira vez, eles estavam corretos. Mas deixe-me continuar a minha confissão. É uma pena que não havia ninguém ontem no Woodward Park para testemunhar a minha saída triunfal do meu lindo abrigo e assistido quando descobri dois homens deliciosamente atordoados que praticamente me imploram para drenar o sangue deles — os olhos do detetive se arregalaram e Neferet zombou. — Eu não sei o que é mais inacreditável, que a tímida Zoey Redbird de alguma forma iludiu-se em pensar que ela matou aqueles homens e, em seguida, correu para pateticamente se entregar, ou que você realmente tenha acreditado que a insípida criança teve desejo de matar. De qualquer maneira, a situação não trouxe nada de bom para suas habilidades de detecção.
Lynette percebeu que os policiais uniformizados, mesmo Jamison, tinham todos empalidecido com as admissões irreverentes de Neferet de sua culpa, mas o rosto do detetive Marx continuava endurecido em linhas teimosas. Sua voz saía com uma autoridade calma.
— Neferet, eu permitirei que você faça um telefonema para o seu Conselho Supremo, mas você deve se entregar a mim e preparar-se para pagar as consequências de suas ações.
— O Conselho Supremo tem ainda menos jurisdição sobre mim do que você — disse Neferet. — Eu não sou uma vampira, sou a Deusa das Trevas, a Rainha Tsi Sgili, e nunca mais vou ceder a qualquer autoridade. Você, Tulsa, e até mesmo o mundo vai me venerar como é meu direito divino. Assista e aprenda. Mabel, venha até mim!
A menina obedeceu imediatamente. Ela caminhou pelas portas da frente que Judson deixara abertas para ela e foi para o lado de Neferet.
— Mais reféns não vão ajudá-la a sair dessa, Neferet! — disse o detetive Marx.
— Eu disse para assistir e aprender, seres humanos! Eu não tenho reféns, apenas adoradores dispostos. Agora olhem para o seu futuro! — Neferet abriu os braços para a menina que ela chamou de Mabel. Lynette teve de se afastar quando Mabel correu voluntariamente em seu abraço. — Se eu sou sua Deusa, sacrifique-se para mim.
Com curiosidade mórbida, Lynette observava, perguntando-se o que a menina ia ser obrigada a fazer. Ela teve apenas segundos para se perguntar.
— Você é minha Deusa — disse a menina mecanicamente, e depois Mabel começou a arranhar seu próprio pescoço, arrancando-lhe carne e fazendo com que sangue escorresse das feridas.
— Agora, esse que é o comportamento de uma adoradora adequada — Neferet se inclinou para beber de sua oferta.
A menina engasgava e tremia, mas em vez de tentar escapar, ela gritou:
— Obrigada, deusa! — em uma voz que estava cheia de êxtase.
— Como você é doce — disse Neferet, seus lábios a centímetros do pescoço sangrando de Mabel. Antes que ela começasse a se alimentar dela, ela ordenou: — Proteja-nos!
Um instante depois houve uma explosão ensurdecedora de tiros. Lynette se jogou no pavimento, esquivando-se em uma bala e colocando os braços para o alto em uma vã tentativa de se proteger.
Houve um grito de dor, e em seguida, os policiais começaram a gritar. Tremendo violentamente, Lynette espiou através de seus braços. Neferet estava alimentando-se da menina, ignorando o caos acontecendo diante deles. Aparentemente, as balas direcionadas para Neferet – e provavelmente para Lynette também – ricochetearam do que quer que fosse o escudo que a vampira havia invocado e foi desviado diretamente para o corpo do policial pedófilo desbocado.
— Oh meu Deus — Lynette sussurrou de alivio.
— Você não quer dizer oh minha Deusa? — Neferet, com os lábios escarlates do sangue da garota, sorriu para Lynette.
— S-sim, eu quis — disse Lynette, sentindo tontura.
Neferet soltou a garota, e Mabel caiu pesadamente no chão. Em seguida, ela estendeu a mão para Lynette, que o pegou e permaneceu trêmula.
— Não tenha medo. Eu não vou permitir que eles a machuquem. Eu não vou permitir que eles façam mal a ninguém que seja leal a mim — Neferet disse para ela.
Ela voltou sua atenção para os oficiais. Eles arrastaram o corpo devastado pelas balas de Jamison para trás dos carros, que era onde o resto dos homens estava agachado. Lynette podia ouvir seus rádios crepitantes enquanto eles chamavam uma ambulância e reforços.
— Você entende agora, detetive Marx? Aprendeu sua lição?
— Nós aprendemos que você é uma assassina! — ele gritou. — Nós não terminamos aqui, isso não acabou!
— Pela primeira vez, você está certo. Eu não vou parar aqui, isto é apenas o começo. Assista e aprenda, assista e aprenda — Neferet repetua. — Oh, e olhe para cima! Crianças venham comigo!
Ela ordenou. Ligando o braço de Lynette com a dela, Neferet virou as costas para os oficiais e entrou novamente no Mayo.
— Judson, acorrente as portas novamente.
— Sim, Deusa. Isso não vai segurá-los por muito tempo, apesar de tudo.
— Eu sei! Apenas faça o que ordenei. Como sempre, cuidarei dos outros detalhes eu mesma.
— Sim, Deusa.
— Lynette, eu gostaria que você se juntasse a mim na varanda da minha cobertura. Um evento espetacular está sendo preparado para acontecer lá.
— Sim, Deusa — disse Lynette, entrando no elevador com ela.
O sorriso de Neferet era conhecedor.
— Você quase acreditou que eu sou divina.
Lynette não respondeu. O que ela poderia dizer que Neferet não podia sondar sua mente e encontrar a verdade? Então, novamente, ela falou a única coisa que podia:
— Estou aqui para servi-la, Neferet.
— E você servirá.
As portas para a cobertura estavam abertas.
— Kylee, Lynette está pálida. Sirva uma taça do meu melhor vinho tinto e traga para ela na varanda.
Neferet passou por Kylee com Lynette a seguindo, abrindo as portas de vidro e reunindo-se com as sessenta pessoas que estavam em grupos assustados na varanda. Muitos deles estavam perto da balaustrada de pedra que emoldurava a vasta extensão ao ar livre, e era óbvio por suas expressões que ouviram os tiros vindos de lá de baixo e assistiram o drama se desenrolar de lá de cima.
— Espere aqui, Lynette, e beba o seu vinho. Ele vai ajudar a cor retornar para as suas bochechas. Eu não posso ter a minha veneradora favorita com um olhar pálido e doente — Neferet disse a ela. Então caminhou até o parapeito de pedra, fazendo com que as pessoas mais próximas a ela tremessem de nervosismo. — Por a educação moderna ser abismal, sinto que é meu dever como sua Deusa lhes dizer que isto — ela fez uma pausa e apontou para as pedras esculpidas — é chamado de uma balaustrada. Os suportes, uniformemente espaçados e grossos, aqui, aqui e aqui — ela apontou novamente — são chamados de balaústres. É uma feliz coincidência que há exatamente sessenta balaústres espaçados em toda esta varanda do último piso do meu Templo. Quero que cada um de vocês escolha um balaústre e fique exatamente na frente dele.
— Você... você não vai nos fazer pular, vai? — perguntou uma mulher de idade apavorada.
— Não, vovó — Neferet disse calorosamente. — Isso não faz sentido. Não viu como protegi Lynette das balas mortais que a polícia disparou contra ela?
Houve um longo silêncio e, em seguida, alguém chamou:
— Sim, mas você matou aquela garota.
— Mabel era desobediente. Gostaria de compartilhar o destino dela?
Suas palavras trabalharam como esporas nas pessoas. Elas se espalharam, cada uma tomando posição na frente de um balaústre.
— Excelente! Kylee, traga taças de champanhe para os meus adoradores enquanto dou uma palavrinha em particular com meus filhos das trevas.
Lynette apreciava vinho tinto caro, e ela geralmente o saboreava lentamente, sorvendo calmamente como merecia. Não hoje. Ela tomou quase tudo, segurando a garrafa da robótica Kylee quando a menina começou a voltar para dentro, indo buscar mais champanhe. Lynette ficou grata pelo sentimento surreal que o álcool proporcionava enquanto observava a vampira.
Ela moveu-se para um canto escuro da varanda, bem longe do parapeito de pedra, e ficou agachada, conversando com o que parecia ser nada.
Lynette entendia melhor as coisas. E, com certeza, apenas mais um ou dois segundos se passaram antes que o ar ao redor dos pés da vampira ondulasse, como correntes de calor erguendo-se de uma estrada de asfalto no verão, e as serpentes de Neferet se tornaram visíveis.
Lynette estava feliz que a vampira estava distraída com seus “filhos”, porque ela não podia reprimir o estremecer de nojo. Lynette se lembrou de um velho filme de faroeste que ela viu quando menina. Nele, caubóis guiavam cabeças de gado, e enquanto atravessavam um rio, um jovem caiu do cavalo no meio de um enorme ninho de cobras que copulavam e foi morto por elas, embora não rápido o suficiente. Parecia que Neferet estava de pé no centro desse ninho, mas suas cobras eram maiores, mais negras e ainda mais perigosas do que as víboras do velho-oeste.
O que diabos eram? Por sorte, Lynette não sabia muito sobre vampiros. Embora ela os tivesse acolhido em seu negócio – eles eram notoriamente ricos – ela nunca foi contratada por um. Estava longe de ser uma expert em vampiros, mas tinha certeza de ter ouvido alguma coisa sobre essas serpentes que pareciam criaturas mortais. Seus familiares deveriam ser gatos, pelo amor de Deus, não répteis!
Lynette serviu o restante do vinho em sua taça e tomou outro gole, sentindo-se aliviada que seu rosto estivesse quente. Bom, o calor traria de volta o rubor de suas bochechas. Lynette não tinha dúvidas de que a vampira era capaz de matá-la por capricho. Para evitar qualquer coisa, ela beliscou as bochechas para ter certeza de que elas estavam coradas.
Como ela sairia dessa bagunça? Ela nem sequer dava a mínima sobre lucrar com a situação. Só queria fugir sem ser perseguida por uma das crias da vampira maluca.
— Excelente! — Neferet se endireitou, voltando a atenção para as sessenta pessoas, cada uma de pé na frente de um balaústre da cobertura. — Agora que meus filhos compreenderam os meus desejos, estou pronta para compartilhá-los com vocês, meus fiéis suplicantes.
Ela tomou posição no centro da varanda de modo que pudesse ser vista e ouvida por todos.
— Kylee, já temos champanhe o suficiente por hora. Vá com Lynette.
Kylee, é claro, fez o que lhe foi ordenado.
Lynette sorrateiramente olhou de lado para a menina. Sua boca estava fechada, e ela não podia ver qualquer sinal de infestação da cobra, mas a garota estava claramente sendo controlada. Seus olhos estavam abertos, mas sem expressão. O rosto era inexpressivo. Desta vez, Lynette suprimiu o estremecimento de nojo. Quem garantia que a coisa ao seu lado não informaria a vampira?
— Agora, tenho uma pergunta para vocês, que qualquer um poderá responder. Qual é a sua principal preocupação neste momento? — Neferet questionou às pessoas.
Lynette pensou como era estranho que ela pudesse soar tão normal, mesmo naquela situação. Era tudo atuação, mas uma boa.
Ninguém respondeu, e Neferet sorriu calorosamente, encorajando:
— Oh, vamos lá! Eu sou sua Deusa. É meu dever e prazer ouvir as suas preocupações e, como meus adoradores, é o seu dever expressá-los a mim. Por favor, não me façam forçá-los a cumprir seu dever.
Um homem falou.
— Minha maior preocupação é que não quero ser morto, ou coisa pior — disse ele, lançando um olhar nervoso ao ninho de escuridão que se cercava a vampira.
— Bom! Muito bem dito. Mais alguém têm a mesma preocupação?
Neferet soou como se cuidasse verdadeiramente deles, e até mesmo Lynette sentiu a cabeça assentindo, concordando com os outros.
— Perfeito! — disse Neferet. — Eu sabia que a segurança seria a sua principal preocupação. Agora, não estou aconselhando vocês, nem estou com raiva, mas a sua principal preocupação deve ser cuidar de mim e me venerar — várias pessoas começaram a protestar, obviamente por medo do que a vampira faria a seguir, mas Neferet ergueu a mão e, com um gesto régio, silenciou a todos. — Não, não, eu entendo. Realmente entendo. E é por isso que terei a certeza de que ninguém possa ferir meus adoradores, para que possam então ser livres para realmente me venerar.
Lynette pensou que era irônico que enquanto Neferet fazia este pronunciamento, várias sirenes soavam, cada vez mais altas, da rua lá embaixo.
— A fim de assegurar aos meus suplicantes a sua segurança, preciso de sua ajuda. Façam exatamente o que eu digo, e lhes prometo que meu templo sairá imune a qualquer perigo externo.
Lynette suspirou baixinho. Pena que alguém não disse o que todos estavam pensando: Não é com o mundo exterior que estamos preocupados, é com você! Mas é claro que ninguém falou porque Neferet deixou todos petrificados.
— O que precisam fazer é muito simples. Em primeiro lugar, cada um de vocês deve virar para o lado de fora — lenta e relutantemente, as sessenta pessoas fizeram o que ela ordenara, até que todos ficaram de costas para Neferet. — Agora, levantem os braços, fechem os olhos e limpem sua mente, tomando três respirações profundas para dentro e para fora, em seguida, para dentro... E, em seguida, para fora — Lynette ouviu as pessoas respirando com ela. — Quero que vocês se concentrem em minha voz e não pensem em mais nada.
Neferet fez uma pausa, olhando ao redor como se para ter certeza de que todos estavam em seus lugares. Quando seus olhos encontraram Lynette, seus lábios carnudos moveram-se em um sorriso selvagem. O estômago de Lynette se retorceu em um pressentimento e ela temeu vomitar o vinho que antes a ajudou.
O olhar de Neferet desviou do dela e seguiu para as cobras que se contorciam ao redor de seus pés.
— Crianças, é a hora!
Suas próximas palavras foram ditas num tom musical que foi surpreendentemente suave, quase hipnotizante.

“Em um ataque rápido vocês devem matar,
Os que estão abaixo, minha fúria irão enfrentar.
Poder concentrado, beba até ser satisfeito
Agora crie um escudo perfeito!”

Lynette sentia a energia acumulando a cada frase que a vampira falava, e juntamente com as sessenta pessoas que estavam congeladas em seus lugares com os braços levantados, não podia fazer nada além de esperar o que vinha pela frente.

“Para que eu possa criar uma nova sorte
Meu Templo deve ser divino, forte.
A mim você deverá ser sempre verdadeira
Mostre a Tulsa a canção de uma Deusa justiceira!”

Enquanto vivesse, Lynette não seria capaz de apagar de sua memória a visão do que aconteceu em seguida. Com as palavras “Deusa justiceira,” Neferet levantou os braços, e, como se este fosse o sinal que estavam esperando, sessenta das cobras moveram-se para longe dela e dispararam para as costas das pessoas inconscientes. Lynette prendeu a respiração, esperando que as serpentes deslizassem por suas pernas e as possuíssem, mas sua expectativa foi completamente equivocada. Em vez de possuí-las, as cobras atacaram os sessenta no meio das costas, acertando-os com tanta força que o sangue jorrou como chuva escarlate fluindo com as cobras sobre a balaustrada de pedra. Incrédula, Lynette observou enquanto as criaturas deslizavam para baixo nas laterais do Mayo, lavando-o com escuridão e sangue, como que desfraldando uma escuridão, deslizando como uma cortina.
Um som trouxe sua atenção de volta para Neferet. Entorpecida, ela viu que a vampira ainda tinha os braços erguidos. Sua cabeça pendia para trás, e seu corpo se sacudia em espasmos enquanto ela gemia em um prazer terrível. Lynette estava certa de que viu um brilho cintilante escuro se expandindo ao redor dela. De repente, ela entendeu.
São as pessoas morrendo, de alguma forma ela está se alimentando de suas almas, assim como suas criaturas estão se alimentando dos corpos.
E eles estavam se alimentando dos novos mortos, todas as cobras que haviam permanecido na varanda se alimentavam. Lynette sentiu a cabeça balançando.
Havia tantos deles, e ainda mais.
Lynette ainda estava balançando a cabeça e olhando para as criaturas que ondulavam sobre e ao redor dos mortos, provando-os como sanguessugas gigantes, drenando o que restava de seus corpos flácidos, quando os braços de Neferet caíram. Ela ajeitou o roupão e, sem lançar um único olhar para qualquer um dos corpos, ela se virou, sorrindo, e se aproximou de Lynette.
— Kylee! Jogue os corpos ao longo da balaustrada, quando as crianças terminarem de se alimentar. Ah, e chame Judson e o resto do pessoal. Não há mais necessidade de eles vigiarem as portas. Está tudo seguro agora. Nada pode penetrar o véu das Trevas. Ninguém pode entrar ou sair do meu Templo sem que eu permita. Então a equipe deve informar aos meus adoradores restantes que eles não têm que ficar naquele porão sombrio. Eles podem voltar para seus quartos sem medo. Cuidei para que eles fiquem protegidos pelo tempo que me venerarem. Agora é o momento para eles comecem a me venerar.
— Sim, Deusa — respondeu Kylee, desaparecendo pela porta da varanda.
O olhar esmeralda de Neferet encontrou o de Lynette.
— O que achou do meu espetáculo?
Lynette engoliu o bolo em sua garganta que ameaçava sufocá-la e respondeu com absoluta honestidade.
— Nunca vi nada parecido.
— Nunca vi nada, o quê? — perguntou Neferet na expectativa.
— Nunca vi nada como isso, Deusa — disse Lynette, dobrando-se em uma profunda e tremida reverência.
— E agora você realmente fala a verdade. Como é delicioso. Levante-se, Lynette, querida, e sirva-nos uma taça de vinho enquanto discutimos que tipo de eventos de adoração você pretende planejar para mim.
Lynette se levantou e fez exatamente o que sua Deusa havia ordenado.

6 comentários:

  1. o q foi isso minha nossa O.o!!!!

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  2. Enquanto isso zoey presa ....


    Aphodite

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  3. Essa vamp é totalmente loca sinceramente não é só pq ela teve uma infancia ruim que tem que fazer tudo isso embora tbm seja culpa do Kalona. Mas isso não vem ao caso a vida e infancia de muitas pessoas não é la uma maravilha como a minha que tem certos defeitos mas tem gente que ja pssou poe coisa bem pior do que ela no livro e nem por isso ficou desse jeito. A vida de ninguem é perfeita nem mesmo nos livros

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