5 de outubro de 2015

Capítulo 33 - Stevie Rae

— Eu ainda discordo de você — disse Lenobia.
— Mas sou eu quem decido, certo? — disse Stevie Rae.
— Sim. Mas eu quero que você reconsidere. Deixe-me ir com você. Ou mesmo Dragon – ele poderia acompanhá-la.
— Dragon ainda está muito abatido pela morte de Anastasia, e você está no comando aqui. Do jeito que as coisas estão, não acho que você devia deixar a escola agora — disse Stevie Rae. — Olha, eu vou ficar bem. Eu os conheço. Eles não vão me machucar, e mesmo que tenham perdido cada pedaço do que restou de suas mentes e tentem fazer algo comigo, não podem. Eu vou invocar a terra e derrubar eles ou coisa assim. Não se preocupe. Eu lidei com eles antes. Dessa vez, tenho a esperança de convencê-los a voltar comigo. Acho que voltar a escola ajudaria eles.
Lenobia acenou com a cabeça em aprovação. — Isso faz sentido. Traga-os de volta para onde se sentiram normais pela última vez e talvez eles consigam recuperar essa sensação.
— Isso é mais ou menos o que eu pensei. — Stevie Rae parou, e então retomou com uma voz mansa e triste, — Eu ainda discuto comigo mesmo às vezes. Há momentos em que sinto que a escuridão está tão próxima de mim que eu poderia tocá-la. E eu vejo isso no meu grupo – aqueles que também encontraram suas humanidades. Nem sempre é fácil para eles.
— Talvez você sempre tenha uma escolha. Talvez a linha que separa bem do mal seja sempre mais tênue para você e seus calouros vermelhos.
— Mas isso nos faz maus? Ou inúteis?
— Não, é claro que não.
— Então você sabe por que eu tenho que voltar ao depósito e falar com essas crianças de novo. Eu não posso dar as costas para eles. Zoey não deu as costas à Stark, mesmo que ele tenha me dado um tiro – o que foi um saco e nada legal da parte dele, a propósito – mas ficou tudo bem no final.
— Você será uma boa Alta Sacerdotisa, Stevie Rae.
As bochechas de Stevie Rae ficaram quentes. — Eu não sou uma Alta Sacerdotisa. Sou apenas tudo aquilo que eles têm.
— Não, você é uma Alta Sacerdotisa. Acredite nisso. Acredite em si mesma. — Ela sorriu para Stevie Rae. — Então, quando vai voltar ao depósito?
— Acho que vou ter certeza de que os calouros vermelhos daqui estão em seus lugares. Sabe como é, arranjar os quartos e conseguir roupas para eles vestirem, e todas essas coisas. Além disso, eles precisam voltar a todas as suas aulas, o que é um saco porque as turmas mudam a cada semestre. Mas quero voltar ainda esta noite.
— Esta noite? Tem certeza de que não prefere esperar até amanhã? Se estabelecer aqui primeiro?
— Bem, a verdade é que eu não sei se podemos nos estabelecer aqui.
— Claro que sim. A House of Night é seu lar.
— Era nosso lar. Agora, nós preferimos descansar sob a terra durante o dia. — Stevie Rae deu seu sorriso nervoso. — Faz parecer que eu devia estar em um daqueles filmes de terror idiotas, né?
— Não, na verdade, faz sentido. Você morreu. Quando isso acontece com qualquer um de nós, tudo de nossos corpos volta a terra. Quando você ressuscitou, você manteve uma conexão com a terra que nós não possuímos — ela disse. — É usado como porão e não é particularmente habitável, mas com algum esforço...
— Quem sabe — disse Stevie Rae. — Vamos ver o que acontece com as crianças do depósito. Nós realmente gostávamos daquilo ali, e estávamos arrumando tudo muito bem, também.
— Eu acho que não há razão pela qual não possamos transportar seus calouros vermelhos de um lado para outro de ônibus. Crianças humanas fazem isso todos os dias.
Stevie Rae sorriu. — A grande limosine amarela!
Lenobia riu. — De qualquer jeito, vamos fazer dar certo com seu grupo. Vocês são parte de nós e esse é o seu lar.
— Lar... isso soa bem — Stevie Rae disse. — Ok, é melhor eu me preparar para sair e quero chegar ao depósito antes que feche para o amanhecer.
— Dê a si mesma bastante tempo. Eu não a quero presa ali, e a previsão para Oklahoma é de tempo ensolarado. Travis Meyers até disse que pode ficar com uma temperatura maior que congelante por tempo o bastante para acabar com todo esse gelo.
— Trav é meu homem do tempo favorito, e não se preocupe. Eu volto antes do amanhecer.
— Perfeito, então você terá tempo para me contar como foi.
— Virei direto para cá. — Stevie Rae começou a se levantar e então mudou de ideia. Ela tinha que perguntar – Lenobia acharia uma pergunta totalmente esquisita – e ela tinha que perguntar. — Hm, então, os Corvos Escarnecedores foram bem ruins, hein?
A expressão serena de Lenobia mudou para desgosto. — Eu rezei para Nyx que tivessem sido banidos desse mundo quando seu pai foi forçado a fugir de Tulsa.
— Você ouviu falar neles antes? Quer dizer, antes de terem saído do chão?
Lenobia balançou a cabeça negativamente. — Não. Não sabia nada sobre eles. Nunca nem tinha ouvido da lenda Cherokee. Mas eu reconheci algo sobre eles muito facilmente.
— Mesmo? O quê?
— Maldade. Eu combati o mal antes, e eles eram apenas mais um de seus rostos sinistros.
— Você acha que eles são totalmente malignos? Quer dizer, eles são parcialmente humanos.
— Não humanos – parcialmente imortais.
— Sim, isso que eu quis dizer.
— E os imortais dos quais eles fazem parte são completamente malignos.
— Mas e se Kalona nem sempre foi como ele é agora? Ele veio de algum lugar. Talvez ele fosse bom lá, e se isso for verdade, pode haver algo de bom nos Corvos Escarnecedores.
Lenobia estudou Stevie Rae silenciosamente antes de responder. Então, ela falou baixo, mas com convicção. — Sacerdotisa, não deixe a compaixão que sente pelos calouros vermelhos afetar sua percepção sobre o mal. Ele existe em nosso mundo. Também existe no Outromundo. É tangível lá, assim como é aqui. Há uma diferença entre uma criança problemática e uma criança criada pelo mal e nascida do estupro.
— Isso é basicamente o que a Irmã Mary Angela disse, também.
— A freira é uma mulher sábia. — Lenobia pausou antes de continuar, — Stevie Rae, você sentiu algo que eu deveria saber?
— Não! — ela disse apressadamente. — Eu estava só pensando, nada demais. Sabe, sobre o bem e o mal e as escolhas que fazemos. Então pensei que talvez alguns dos Corvos Escarnecedores sejam capazes de escolher também.
— Se eles tinham tal habilidade, eles escolheram o mal há muito tempo — Lenobia disse.
— Sim, tenho certeza de que você está certa. Bem, é melhor eu ir. Vou voltar aqui e ver você antes do amanhecer.
— Eu estarei esperando por você. Que Nyx esteja convosco, Sacerdotisa. E abençoada seja.
— Abençoada seja. — Stevie Rae correu para fora dos estábulos, como se a distância das palavras que ela disse pudesse afastá-la de sua culpa. O que ela estava pensando quando falou aquelas coisas sobre Rephaim para Lenobia? Ela precisava calar a boca e esquecê-lo. Mas como podia esquecê-lo quando havia a possibilidade de vê-lo de novo quando voltasse ao depósito? Ela não devia tê-lo mandado para lá. Ela devia ter pensado em outra coisa. Ou então, ela deveria ter entregado ele! Não. Não, era tarde demais para pensar nisso. Agora, tudo que Stevie Rae podia fazer era controle de danos. Primeiro, contatar os calouros vermelhos. Depois, lidar com a questão de Rephaim. De novo. Claro que ele podia nem ser um problema. Os calouros vermelhos podiam não tê-lo achado. Ele não cheirava a comida, nem estava em um estado que lhe permitisse atacá-los. Ele devia estar escondido no túnel mais escuro e apertado, cuidando de seus ferimentos. Ou podia ter morrido. Quem sabe o que pode acontecer a um Corvo Escarnecedor quando uma infecção ruim aparece? Stevie Rae suspirou e puxou o telefone do bolso de seu canguru. Rezando para que o sinal tivesse voltado a funcionar nos túneis, ela mandou uma mensagem para Nicole. Preciso ver você esta noite. Ela não precisou esperar muito pela resposta.
Ocupada. Não volto até o amanhecer. Ela fez careta para o telefone e respondeu. Volte antes. Ela estava começando a regular o passo quando Nicole conseguiu responder. Esteja lá às seis. Stevie Rae quis apertar os dentes. Seis horas era só uma hora e meia antes do amanhecer. Porcaria! Nicole a irritava tanto. Ela era o maior problema lá embaixo. O resto das crianças eram só seguidores. Não era legal, mas não era como ela era. Stevie Rae lembrou de como Nicole tinha sido antes de morrer. Ela tinha sido uma garota ruim na época, e aquilo não tinha mudado. Na verdade, tinha piorado. Então, o que Stevie Rae precisava era chegar até Nicole. Se ela desse as costas para a escuridão, era provável que o resto das crianças a seguisse. Ok. Stevie Rae mandou a mensagem, e então adicionou, Algo estranho acontecendo? Ela segurou a respiração, esperando o celular tocar. Nicole contaria caso ela tivesse encontrado um Corvo Escarnecedor. Provavelmente, ela acharia que Rephaim não traria problemas, ou então ela o mataria logo de cara, sem pensar em nada. De qualquer jeito, ela deixaria escapar isso para Stevie Rae – isso a faria se sentir poderosa e no controle. Procurando comida. Comida viva. Quer se juntar a nós?
Stevie Rae sabia que não adiantava lembrar Nicole que eles não deviam comer gente. Não, nem os sem teto ou motoristas ruins (os quais eles gostavam se seguir e agarrar enquanto estivessem saindo de seus carros). Ela só respondeu: Não. Te vejo às seis. Hahahahahaha Stevie Rae colocou o telefone de volta no bolso. Ia ser uma noite longa, especialmente aquela hora e meia entre as seis e o amanhecer.


Rephaim

— Então, esse é o plano, menino-pássaro. Está pronto para isso? — Sem aviso nem convite, a líder dos calouros vermelhos, Nicole, entrara no quarto de Stevie Rae, o qual Rephaim tomara para si, chutara a cama para acordá-lo, e então começou a falar de seu plano para prender Stevie Rae no telhado de um prédio.
— Mesmo se conseguir atrair a vermelha para um telhado perto do nascer do sol, como pretende mantê-la lá em cima?
— A primeira parte é fácil porque não é qualquer prédio. É esse prédio. Tem duas torres lá em cima, bonitas e com decoração e outras merdas de quando esse lugar era alguma coisa. Elas são abertas para o céu porque ele é o telhado. Achamos uma grande grade de metal que podemos acorrentar no topo de uma delas. Não tem como ela sair. Ela é forte, mas de jeito nenhum ela conseguiria quebrar metal. Além do mais, lá em cima não tem terra que ela possa alcançar. Ela estará presa, e quando o sol vier, ela vai fritar como um hambúrguer.
— Por que ela estaria no telhado, mesmo que seja o desse prédio?
— Isso é ainda mais simples. Ela estará lá porque você a colocará lá.
Rephaim não falou nada até ser capaz de controlar seu choque, e então escolheu as palavras com cuidado. — Você acha que eu posso fazer a Vermelha ir ao telhado de um prédio perto do amanhecer? Por que eu seria capaz disso? Não sou forte o bastante para derrotá-la e carregá-la — ele disse, soando mais chateado que curioso. — Você não precisa. Ela te salvou. E ela precisou fazer isso sem contar a ninguém. Para mim, isso quer dizer que você significa alguma coisa para ela. Talvez muita coisa. — Nicole zombou da ideia. — Stevie Rae é patética. Sempre achando que pode salvar o mundo e toda essa merda. É por isso que ela é estúpida o bastante para voltar aqui perto do amanhecer. Ela pensa que pode nos salvar. Bem, nós não queremos ser salvos!
— Nicole começou a rir e, quando a risada tomou conta dela, Rephaim viu a sombra negra de Neferet escorrer de seus olhos e manchar seu rosto como se ela estivesse ficando histérica.
— Por que ela iria querer salvar vocês? — A pergunta de Rephaim fez Nicole parar de rir como se ele a tivesse estapeado.
Quê? Você acha que não merecemos salvamento? — Rápida como um pensamento invejoso, ela foi até a cama e agarrou seu braço bom pelo pulso. — Que tal se eu ver o que você pensa? — Ela o encarou enquanto seu braço queimava com o calor da invasão psíquica, e enquanto esse calor se espalhava pelo seu corpo e alma, Rephaim se concentrou em uma só coisa: sua raiva. Nicole largou seu pulso e deu um passo para longe dele. — Uau — ela riu sem jeito, desconfortável. — Você está puto. Por que isso?
— É porque fui ferido e deixado para trás para lidar com crianças e seus joguinhossss!
Nicole voltou a invadir seu espaço pessoal e rosnou, — Isso não é um joguinho! Vamos nos livrar de Stevie Rae para que possamos fazer as merdas que precisamos fazer, do jeito que dissemos a Neferet que faríamos. Então, você vai ser legal e nos ajudar a prendê-la, ou deixamos você fora disso e vamos para o Plano B?
Rephaim não hesitou. — O que você quer que eu faça?
O sorriso de Nicole lhe lembrou o de um lagarto. — Vamos lhe mostrar as escadas que levam até a torre – aquela do lado do telhado oposto àquela árvore estúpida. Não vou arriscar que ela consiga atraí-la para perto dela e usá-la como escudo. Então, você vai subir naquela torre e esperar. Fique todo detonado, como se tivéssemos arrastado você até lá depois de lhe dar uma surra e sugado quase todo o seu sangue. O que é exatamente o que direi a Stevie Rae que fizemos, mas terei certeza que ela saiba que você está vivo. Por um fio.
— Ela vai subir para me salvar — disse Rephaim em uma voz perfeitamente sem emoção.
— De novo. Sim. Estamos contando com isso. Assim que ela subir a torre, mantenha-se encolhido. Vamos largar a grade lá em cima e acorrentá-la. O sol virá. Stevie Rae vai queimar. Então, nós lhe deixaremos sair. Vê, simples.
— Vai funcionar — afirmou Rephaim.
— É, e veja só isso. Se você decidir no último segundo que não está conosco, Kurtis ou Starr vão atirar em você e nós vamos largá-lo na torre de qualquer jeito. Funciona desse jeito, também. Porque, veja bem, você é o plano A e B. Você só estará mais morto em um que no outro.
— Como você disse antes, meu pai ordenou que eu levasse a Vermelha até ele.
— É, mas não vejo seu pai em nenhum lugar aqui perto.
— Não sei por que faz esse jogo comigo. Você já admitiu saber que meu pai não me abandonou. Ele vai voltar por seu filho preferido. Quando ele fizer, eu terei a Vermelha para ele.
— E não tem problema ela estar assada?
— O estado de seu corpo não me interessa desde que eu esteja de posse dele.
— Bem, você pode ficar com ele. Eu não quero comer ela, então não quero seu corpo. — Ela inclinou a cabeça para um lado e o avaliou com o olhar. — Eu vi no seu cérebro de passarinho e sei que está puto, mas também vi que está sentindo muita culpa. Por que isso?
— Eu devia estar ao lado do meu pai. Qualquer outra coisa é inaceitável.
A gargalhada dela não tinha humor. — Você é o filho de seu pai, não é mesmo? — Ela começou a passar por baixo do lençol que servia de porta para o quarto. Enquanto saía, ela falou, — Durma um pouco. Você tem algumas horas antes que ela chegue. E, se precisar de qualquer coisa, Kurtis estará lá fora com sua arma. Ele pegará o que for para você. Apenas fique aqui dentro até eu chamar. Entendido?
— Sssssim.
A caloura Vermelha saiu e Rephaim voltou a se acomodar no ninho que fizera na cama de Stevie Rae. Antes de voltar a mais um sono curativo, seu único pensamento era o desejo de que a Vermelha tivesse deixado ele morrer debaixo daquela árvore.

3 comentários:

  1. Nojo dessa Nicole. Tomara que a Stevie consiga sair dessa.

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    1. Claro que ela vai , Stevie é uma dos personagens principais ela não pode morrer

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  2. Tomara que a Stevie mate a Nicole

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