9 de outubro de 2015

Capítulo 3 - Zoey

Eu já sabia antes mesmo de ver os caminhões dos bombeiros e a fumaça. Eu já sabia que o inferno ia se instalar na House of Night no momento em que Thanatos testemunhou a verdade sobre os crimes de Neferet. Nesta noite, havia sido provado sem sombra de dúvidas que Neferet estava do lado das Trevas. Thanatos não havia perdido tempo para enxotá-la. No caminho de volta da fazenda de lavandas de vovó até a escola, a Alta Sacerdotisa da Morte havia feito uma chamada de emergência para a Itália e informado oficialmente o Conselho Supremo dos Vampiros de que Neferet não era mais uma Sacerdotisa de Nyx – que ela tinha escolhido as Trevas como seu Consorte.
Neferet tinha sido vista como realmente era, algo que eu queria muito desde que eu havia percebido a sua verdade nojenta. Só que, agora que eu tinha realizado meu desejo, tive uma sensação terrível de que expulsar Neferet serviria mais para libertá-la do que para forçá-la a pagar pelas consequências das suas mentiras e traições.
Tudo parecia tão confuso e horroroso, como se a noite toda tivesse sido a metade final de um filme de terror medonho e sanguinolento: o ritual, assistir às imagens do assassinato da minha mãe, tudo o que tinha acontecido com Dragon, Rephaim, Kalona e Aurox... Aurox? Heath? Não, eu não posso pensar nisso! Não agora!
Agora os estábulos estavam em chamas. Sério. Os cavalos da escola estavam relinchando e se aglomerando nervosamente perto do muro leste. Lenobia parecia chamuscada e coberta de fuligem. Erik, Shaylin e um monte de outros novatos estavam parados lá, chocados e ensopados porque, é claro, havia começado a cair uma chuva torrencial. E Nicole, a garota que era uma novata vermelha super do mal e a namorada vadia e detestável do Dallas, estava caída em um banco com dois paramédicos humanos em volta dela como se fosse o menino Jesus com asas douradas.
Eu queria apertar um botão, desligar aquele filme assustador e pegar no sono, deitada de conchinha com Stark, em segurança. Que inferno, eu queria fechar os olhos e voltar no tempo, quando o pior estresse que eu tinha era ter três namorados, e isso tinha sido muito, muito ruim.
Eu me chacoalhei mentalmente, fiz o melhor que podia para afastar o caos que me rodeava por dentro e por fora e me concentrei em Lenobia.
— Sim, o estábulo pegou fogo — ela estava explicando para a gente. — Nós não sabemos quem ou o que provocou isso. Algum de vocês viu Neferet?
— Nós não a vimos em pessoa, mas vimos a imagem dela em espírito que ficou gravada nas terras da avó de Zoey. — Thanatos levantou o queixo e, com uma voz forte e segura que se sobrepôs à chuva, declarou: — Neferet se aliou ao touro branco. Ela sacrificou a mãe de Zoey para ele. Ela vai ser uma inimiga poderosa, mas é inimiga de todos que seguem a Luz e a Deusa.
Percebi que esse anúncio chocou Lenobia, apesar de eu saber que a Mestra dos Cavalos já estava ciente de que Neferet era nossa inimiga havia meses. Mesmo assim, existia uma grande diferença entre imaginar algo e saber que o pior que você havia imaginado era verdade. Especialmente quando isso era tão horrível que quase fugia à compreensão. Então Lenobia limpou a garganta e perguntou:
— O Conselho Supremo a baniu?
— Eu relatei o que testemunhei esta noite — Thanatos disse, portando-se como a Alta Sacerdotisa da nossa House of Night. — Foi determinado que Neferet se apresente perante o Conselho Supremo, que vai fazer justiça pela traição dela à nossa Deusa e aos nossos caminhos.
— Ela deve ter imaginado o que vocês iriam descobrir se o ritual desse certo — Lenobia afirmou.
— Sim, e é por isso que ela mandou aquela coisa dela atrás de nós... Para matar Rephaim e estragar o nosso círculo, acabando com o ritual de revelação — Stevie Rae falou, entrelaçando sua mão à de Rephaim, que estava parado, alto e forte, ao seu lado.
— Parece que não deu certo — Erik observou.
Ele estava perto de Shaylin. Agora que eu pensei nisso, parece que Erik estava passando muito tempo perto de Shaylin. Hummm...
— Bem, o plano dela teria funcionado — Stevie Rae explicou — mas Dragon apareceu lá e segurou Aurox por um tempo — ela fez uma pausa e olhou para trás em direção a Kalona. Na verdade, ela deu seu típico sorriso doce e afetuoso para ele, antes de continuar. — Foi Kalona quem realmente salvou Rephaim. Kalona salvou o seu filho.
— Dragon! Então é com vocês que ele está — Erik exclamou, movendo-se para olhar atrás de nós, obviamente esperando ver Dragon.
Senti um aperto no estômago e pisquei com força para não cair em prantos. Como ninguém disse nada, respirei fundo e dei aquela notícia realmente triste e péssima.
— Dragon estava com a gente. Ele lutou para nos proteger. Bem, para proteger a nós e Rephaim. Mas... — perdi a fala, achando difícil dizer as próximas palavras.
— Mas Aurox furou Dragon com seus chifres até a morte, quebrando o feitiço que havia nos aprisionado e libertando-nos para que nós conseguíssemos chegar até Rephaim para protegê-lo — Stark não teve problemas em terminar para mim.
— Mas já era tarde demais — Stevie Rae acrescentou. — Rephaim também teria morrido se Kalona não tivesse aparecido a tempo de salvá-lo.
— Dragon Lankford está morto? — o rosto de Lenobia havia ficado imóvel e pálido.
— Está. Ele morreu como um guerreiro, fiel a si mesmo e ao seu Juramento. Ele se reencontrou com sua companheira no Outromundo — Thanatos concluiu. — Todos nós testemunhamos isso.
Lenobia fechou os olhos e abaixou a cabeça. Percebi que os lábios dela estavam se movendo, como que murmurando uma prece em voz baixa. Quando ela levantou a cabeça, seu rosto estava marcado por vincos de raiva e os seus olhos cinza pareciam nuvens de tempestade.
— Incendiar o meu estábulo foi uma distração que permitiu que Neferet escapasse.
— Parece provável — Thanatos concordou. Então a Alta Sacerdotisa fez uma pausa, como se estivesse escutando atentamente algo além do barulho da chuva, dos bombeiros e dos cavalos. Ela franziu os olhos e disse: — A Morte esteve aqui... Recentemente.
Lenobia balançou a cabeça.
— Não, os bombeiros já estão liberando o estábulo. Eu acredito que ninguém morreu lá.
— Não estou sentindo o espírito de um novato ou de um vampiro — Thanatos respondeu.
— Todos os cavalos saíram! — a voz de Nicole se levantou subitamente.
Fiquei surpresa com o seu tom. Quero dizer, até aquele momento eu só tinha ouvido Nicole rindo sarcasticamente ou dizendo coisas maldosas. Agora Nicole soou como uma garota normal, preocupada com coisas como cavalos pegando fogo e o mal solto no mundo.
Mas Stevie Rae, assim como eu, conhecia uma Nicole muito diferente.
— Que diabo você está fazendo aqui, Nicole? — Stevie Rae perguntou.
— Ela estava ajudando Lenobia e Travis a tirar os cavalos do estábulo — Shaylin explicou.
— Sei, tenho certeza de que ela estava ajudando... logo depois de colocar fogo lá! — Stevie Rae afirmou.
— Sua vaca, você não pode falar assim comigo! — Nicole respondeu de um jeito sarcástico, sua voz ficando bem mais familiar.
— Se liga, Nicole — eu falei, colocando-me ao lado de Stevie Rae.
— Basta! — Thanatos levantou as mãos e o seu poder emanou, crepitando mais alto que a chuva e fazendo todos darem um salto. — Nicole, você é uma novata vermelha. Já passou da hora de você submeter a sua lealdade à única Alta Sacerdotisa da sua espécie. Você não vai xingá-la. Está entendido?
Nicole cruzou os braços e concordou com a cabeça uma vez. Ela não pareceu arrependida de jeito nenhum para mim, e a atitude dela, coroando todo o resto que tinha acontecido naquela noite, realmente me irritou. Eu a encarei e disse exatamente o que estava na minha cabeça:
— Você tem que entender que ninguém vai aturar mais a sua maldade. De agora em diante, as coisas vão ser diferentes.
— E você vai ter que passar por cima de mim para machucar Zoey — Stark disse.
— Você me usou para tentar matar Stevie Rae uma vez. Isso nunca mais vai acontecer — Rephaim subiu o tom.
— Zoey, Stevie Rae — Thanatos interveio enfaticamente. — Para serem respeitadas como Grandes Sacerdotisas, vocês precisam agir de modo adequado, assim como os seus guerreiros.
— Ela tentou nos matar. A nós duas! — Stevie Rae argumentou.
— Não recentemente! — Nicole gritou para Stevie Rae.
— Como nós podemos combater as grandes Trevas ancestrais que agora foram soltas no mundo se não passamos de crianças birrentas? — Thanatos falou em voz baixa.
Ela não soou poderosa, nem sábia, nem forte. Ela soou cansada e sem esperança, e isso foi muito mais assustador do que o barulho crepitante que ela tinha feito antes.
— Thanatos está certa — concordei.
— Do que você está falando, Z.? Você sabe como Nicole é de verdade — Stevie Rae apontou para ela. — Assim como você sabia como Neferet era de verdade, mesmo quando ninguém acreditava em você.
— Estou falando que Thanatos está certa sobre a birra. Nós não podemos nem começar a combater Neferet se o nosso time não for forte e unido — olhei para Nicole. — O que significa: entre no nosso time ou vai pro inferno.
— Se ela está amaldiçoando, está falando sério — Aphrodite reforçou.
— Eu estou de acordo com ela — Damien afirmou.
— Assim como eu — Darius acrescentou.
— Eu também — Shaunee falou. Logo depois dela, Erin disse:
— É.
— Eu já escolhi o meu lado — Kalona declarou solenemente. — Acho que é hora de os outros também escolherem.
— Eu sou nova por aqui, mas sei qual lado é o certo, e eu escolho o lado deles — Shaylin se aproximou mais de nós.
Erik a seguiu. Ele não disse nada, mas encontrou meu olhar e assentiu com a cabeça. Sorri para ele e me virei para encarar Thanatos, apoiada pela solidariedade do meu grupo.
— Nós não somos crianças birrentas. Nós só estamos cansados de receber ordens de pessoas que dizem que sabem o que é melhor, mas que parecem que continuam fazendo besteiras, até mais do que a gente.
— Ou seja, muitas — Aphrodite comentou ironicamente.
— Você não está ajudando — respondi automaticamente. Para Nicole, eu disse: — Então escolha o seu time.
— Ok. Eu escolho o Time Nicole — ela falou.
— Que na verdade significa Time Egoísta — Stevie Rae rebateu.
— Ou Time Detestável — Erin sugeriu.
— Ou Time Nada Atraente — Aphrodite acrescentou.
— Thanatos está indo embora — Lenobia disse rapidamente, indicando as costas da Alta Sacerdotisa.
— Como eu já previa — a voz de Kalona pareceu secar a chuva com a sua raiva. — Ela volta para o seu civilizado Conselho Supremo e nos deixa aqui para combater o mal.
Thanatos parou, virou-se e fuzilou o imortal alado com o seu olhar sombrio.
— Guerreiro juramentado, fique quieto! As minhas palavras não são menos desconfortáveis do que as suas. Estou indo é atrás da Morte. Infelizmente, isso não me leva para longe desta escola, nem vai me levar num futuro próximo.
Sem dizer mais nada, Thanatos continuou se afastando de nós, indo em direção à entrada fumegante do ginásio.
— Aff, ela é tão dramática — Aphrodite revirou os olhos. — Ela já disse que não é nenhum novato, vampiro ou cavalo. Então, e daí? Se a porra de um mosquito morre, nós temos que nos descabelar?
— Qual é o seu problema? — Nicole balançou a cabeça para Aphrodite. — Deusa! Você é mesmo uma bruxa histérica. Por que você não pensa antes de falar tanta besteira? Thanatos não está falando de insetos e merdas assim. Ela só pode estar falando de algum gato. É o único outro espírito de animal aqui com o qual ela se importa.
Aquilo calou Aphrodite, criando o que pareceu um vácuo gigante de silêncio, enquanto todos nós percebíamos que Nicole devia estar certa.
Eu perdi o fôlego.
— Ah, Deusa, não! Nala!
Franzindo os olhos para Nicole, Aphrodite disse:
— Relaxe, os nossos gatos estão na estação. Até aquele cachorro fedido. Não é nenhum dos nossos.
— A Duquesa não é fedida — Damien respondeu. — Mas, ah, eu estou tão feliz que ela e Cammy estão a salvo.
— Eu morreria se algo acontecesse a Belzebu — Shaunee afirmou.
— Eu também! — Erin complementou, soando mais protetora do que preocupada.
— Eu amo Nala — Stevie Rae encontrou meus olhos e nós duas piscamos para segurar as lágrimas.
— Os nossos familiares estão em segurança — a voz profunda de Darius pareceu me ancorar, pelo menos até Erik falar.
— Só porque o gato que morreu não era de nenhum de vocês, isso não torna a morte dele nem um pouco menos horrível — Erik pareceu bem mais maduro do que o normal. — Quem será que está no Time Egoísta agora?
Eu suspirei e já ia concordar com Erik, quando Nicole fez um som exasperado e saiu andando, seguindo o caminho que Thanatos tinha acabado de fazer.
— Aonde você pensa que vai? — Stevie Rae gritou para ela.
Nicole não parou. Ela também não se virou, mas sua voz chegou até nós.
— O Time Egoísta está indo ajudar Thanatos com o gato morto, seja o gato de quem for, porque o Time Egoísta gosta de animais. Eles são mais legais do que as pessoas. Ponto final.
— Eu não sei do que ela está falando — Aphrodite disse.
Revirei os olhos para ela.
— Isso tudo é teatrinho dela. Não dá pra confiar naquela garota — Stevie Rae olhou com raiva na direção de Nicole.
— Bom, eu posso dizer que Nicole quase morreu inalando fumaça ao me ajudar a libertar os cavalos — Lenobia afirmou.
— A cor dela está mudando — Shaylin sussurrou.
— Shhh — Erik falou para ela, tocando seu ombro.
— Ela tentou me matar! — Stevie Rae soou como se ela fosse explodir.
— Ah, que merda, quem não tentou te matar? Ou a Zoey. Ou a mim. Supere isso. — Aphrodite foi rápida e, antes que Stevie Rae pudesse rebater, ela levantou a mão, com a palma voltada para fora, e continuou: — Guarde isso para você. A menos que você, Stark e os outros novatos vermelhos que ficam torrados na luz do sol estejam planejando passar o dia aqui descobertos, é melhor a gente começar a embarcar no ônibus e voltar para a estação. Ah, e o menino-pássaro também vai virar cem por cento pássaro e zero por cento menino logo mais, o que eu tenho certeza de que é algo bem estranho em público.
— Eu detesto quando ela está certa — Stevie Rae disse para mim.
— Nem me fala — respondi. — Ok, por que vocês não reúnem todo mundo que deve voltar para a estação? Eu vou descobrir o que está rolando com Thanatos, a Morte e seja lá o que for, e depois encontro vocês no ônibus. Logo.
— Você quer dizer que você e eu vamos descobrir o que está rolando com Thanatos, a Morte e seja lá o que for, e depois os encontramos no ônibus. Logo. — Stark me corrigiu.
Eu apertei a mão dele.
— Foi exatamente o que eu quis dizer.
— Eu também vou — Kalona afirmou. — Vou seguir Thanatos com vocês, mas não vou voltar para a estação — ele sorriu levemente quando desviou o olhar de mim e se voltou para o seu filho. — Mas logo vou ver vocês novamente.
Stevie Rae soltou a mão de Rephaim para se atirar nos braços de Kalona, apertando-o num abraço gigante, o que pareceu surpreendê-lo tanto quanto a nós, apesar de Rephaim assistir à cena com um sorriso enorme.
— Sim, com certeza a gente vai se ver logo. Obrigada de novo por aparecer para salvar o seu filho.
Kalona deu um tapinha nas costas dela desajeitadamente.
— De nada.
Então ela segurou a mão de Rephaim de novo e começou a caminhar na direção do estacionamento, dizendo:
— Ok, vamos esperar por vocês, mas lembrem-se, é batata que o sol vai nascer rapidinho.
Aphrodite sacudiu a cabeça e começou a andar de braços dados com Darius.
— Afinal, o que significa “é batata”? Será que ela pelo menos concluiu o ensino fundamental?
— Apenas a ajude a levar os garotos para o ônibus — respondi.
Felizmente, junto com a chuva havia começado a soprar um vento, e ambos encobriram a resposta de Aphrodite, enquanto ela, Darius e o resto do meu círculo, além de Shaylin e Erik, se afastavam – teoricamente para fazer o que eu havia pedido. O que me deixou sozinha com Stark, Lenobia e Kalona.
— Pronta? — Stark me perguntou.
— Sim, é claro — eu menti.
— Então lá vamos nós para o ginásio — Lenobia disse.
Enquanto seguia Thanatos e Nicole, tentei me preparar para algo terrível, mas a minha cota de coisas terríveis já estava completa por aquela noite, e tudo o que eu conseguia fazer era enxugar a chuva do meu rosto e colocar um pé na frente do outro. Na verdade, eu não estava pronta para nada além de uma boa cama.
Estava quente e seco dentro do ginásio e havia um cheiro de fumaça. A areia sob os nossos pés estava úmida e suja. Dragon detestaria ver este lugar bagunçado assim, era o que eu estava pensando quando Kalona apontou para o centro da arena mal iluminada, onde eu só conseguia discernir os vultos de Thanatos e Nicole.
— Lá... Logo ali — ele falou.
— A gente devia ter acendido as tochas — Lenobia murmurou enquanto nós caminhávamos pela areia encharcada. — Os humanos apagaram quase todos os lampiões junto com o fogo do estábulo.
Eu não quis dizer nada, mas a verdade é que fiquei feliz que estava difícil de enxergar, pois eu sabia que, seja lá o que fosse aquilo em volta do qual Thanatos e Nicole estavam, não ia ser nada bonito de ver. Mas guardei esse pensamento para mim mesma e segurei na mão de Stark, tirando força do seu aperto firme.
— Olhem por onde andam — Thanatos disse quando nos aproximamos de onde ela e Nicole estavam, sem levantar os olhos, ajoelhada no chão do ginásio. — Há evidências de feitiço aqui. Quero tudo preservado e examinado para que eu possa descobrir quem é responsável por esta atrocidade.
Dei uma espiada por sobre o ombro dela, sem entender muito bem o que eu estava vendo. Um círculo tinha sido traçado na areia, que parecia estranha e escura do lado de dentro do círculo. Havia duas bolas de pelo no centro. Ao lado, palavras escritas na areia. Franzi os olhos, tentando decifrá-las.
— Que diabo é isso? — perguntei.
Os vampiros vermelhos enxergam muito melhor no escuro, então, quando Stark colocou seu braço em volta de mim, eu sabia que era algo ruim. Muito ruim. Antes que eu repetisse a minha pergunta, Nicole enfiou a mão no seu bolso e pegou seu telefone.
— Vou tirar uma foto com flash. Vai incomodar os seus olhos, mas pelo menos a foto vai sair.
Ela estava certa. No instante seguinte, eu estava piscando, lacrimejando e vendo pontinhos. Kalona, cuja visão imortal era menos suscetível aos efeitos da luz do que qualquer vampiro, disse solenemente:
— Isso é obra eu sei de quem. Vocês não conseguem sentir a presença dela ainda pairando por aqui?
A minha visão se clareou e eu me aproximei mais, apesar de Stark tentar me puxar para trás. Tarde demais, entendi para o que eu estava olhando.
— Shadowfax! Ele está morto!
— Sacrificado em um ritual macabro — Thanatos afirmou.
— E Guinevere também — Nicole acrescentou.
Achei que eu fosse vomitar.
— O gato de Dragon e a gata de Anastasia? Os dois foram mortos? — perguntei.
Thanatos estendeu o braço e gentilmente passou a mão na lateral do corpo de Shadowfax e depois na gata bem menor que estava encolhida ao lado dele.
— Esta gata pequena não foi sacrificada. Ela não tomou parte no ritual. A tristeza parou o seu coração e a sua respiração. — A Alta Sacerdotisa se levantou e voltou-se para Kalona. — Você disse que sabe de quem isso é obra.
— Eu sei, assim como você sabe. Neferet sacrificou a gata do guerreiro. Isso foi feito como pagamento. As Trevas a obedecem, mas o preço por essa obediência é sangue, morte e dor. Esse preço precisa ser pago sempre, sem parar. As Trevas nunca se dão por satisfeitas — ele apontou para as palavras escritas no chão. — Aquilo prova o que eu digo.
Naquela luz fraca, eu conseguia ver os corpos dos gatos, mas para mim era difícil entender as palavras ao lado deles. Não precisei perguntar o que significavam. Segurando-me bem perto dele, Stark leu em voz alta:
— Através do pagamento de sangue, dor e batalha, eu forço o Receptáculo a ser minha arma!
— Receptáculo é como Neferet se refere a Aurox — Kalona explicou.
— Ah, grande Deusa, isso prova mais do que o fato de isto aqui ser obra de Neferet — o olhar sombrio de Thanatos encontrou o meu. — A morte de sua mãe não foi simplesmente um sacrifício aleatório para as Trevas. Foi o pagamento exigido para a criação do Receptáculo, Aurox, a criatura de Neferet.
Senti minhas pernas fraquejarem e me aproximei ainda mais de Stark. Senti como se o braço dele fosse a única coisa que estivesse me mantendo em pé.
— Eu sabia que aquele maldito menino-touro não era boa coisa — Stark disse. — Nem ferrando que ele é algum tipo de presente de Nyx.
— O Receptáculo é o oposto disso. Ele é uma criatura feita de dor e de morte pelas Trevas e controlada por Neferet — Thanatos afirmou.
Eu não podia contar a eles o que eu tinha visto através da pedra da vidência. Como eu poderia, com os braços de Stark em volta de mim, Dragon recém-morto e a atrocidade cometida contra os gatos? Mas eu estava em carne viva – muito cansada, ferida e confusa para vigiar minhas palavras e não falar o nome de Heath sem querer. Então, em vez disso, como uma retardada, eu soltei:
— Tem que haver algo mais em Aurox além disso! Lembra quando ele foi fazer uma pergunta para você depois da aula? Ele queria saber quem ele era; o que ele era. Você disse que ele podia decidir isso por ele mesmo e que ele não devia deixar que o seu passado controlasse o seu futuro. Por que uma criatura feita totalmente de Trevas, alguém que não é nada além do Receptáculo de Neferet, iria se preocupar em perguntar qualquer coisa sobre si mesmo?
— Você tem razão. Eu lembro que Aurox veio falar comigo — Thanatos assentiu. Seu olhar se voltou para os corpos dos gatos. — Talvez Aurox não seja um receptáculo completamente vazio. Talvez a interação dele conosco e com você em particular, Zoey, tenha tocado algum pedaço de consciência dentro dele.
Senti uma onda de emoção que fez Stark me olhar de modo alarmado e questionador.
— Ele estava dizendo a verdade! — eu expliquei. — Hoje à noite, logo antes de fugir, Aurox disse: “Eu escolhi um futuro diferente. Eu escolhi um futuro novo”. Ele quis dizer que não queria machucar Rephaim nem Dragon, mas que não conseguia evitar, já que Neferet o controlava.
— Isso faz sentido — Thanatos concordou, falando devagar, como se estivesse abrindo caminho verbalmente por um labirinto. — O sacrifício do familiar de Dragon Lankford foi preciso porque Neferet estava perdendo o controle sobre o seu Receptáculo. Todos nós vimos Aurox se transformar de touro em garoto e depois começar a se transformar de novo em touro quando ele fugiu.
— Você também deve ter visto como ele ficou atordoado quando virou Aurox de novo e viu o que ele tinha feito com Dragon — eu disse.
— Isso não muda o fato de que Aurox matou Dragon — Stark afirmou.
Eu senti a tensão que emanava dele e odiei perceber que o seu rosto tinha uma expressão severa.
— Mas e se ele só matou Dragon porque Neferet fez esse sacrifício horrível com Shadowfax? — perguntei, tentando fazer Stark enxergar que poderia haver mais de uma resposta certa.
— Zoey, isso não faz com que Dragon esteja menos morto — Stark respondeu, tirando o braço que estava ao meu redor e se afastando um pouco de mim.
— Nem faz com que Aurox seja menos perigoso — Kalona acrescentou.
— Mas talvez faça com que ele seja uma ameaça menor do que nós imaginávamos a princípio — Thanatos falou racionalmente. — Se Neferet precisa conduzir um ritual de sacrifício desta extensão a cada vez que quer controlá-lo, ela vai ter que escolher cuidadosamente e ser bem seletiva sobre quando e como usá-lo.
— Ele disse várias vezes que tinha escolhido um futuro diferente — eu insisti.
— Z., isso não faz de Aurox um cara do bem — Stark afirmou, balançando a cabeça para mim.
— Sabe, as pessoas podem mudar — Nicole de repente deu sua opinião.
Todos nós olhamos surpresos para ela. Obviamente, eu não era a única que tinha esquecido que ela estava ali. Eu odiava concordar com Nicole, então só mordi meu lábio, em silêncio e inquieta.
— Aurox não é uma pessoa, não é um cara nem do bem nem do mal — a voz profunda de Kalona ressoou como uma bomba no ginásio escuro, atordoando meus nervos já combalidos. — Aurox é um Receptáculo. Uma criatura feita para ser a arma de Neferet. Teria ele uma consciência e a capacidade de mudar? — ele deu de ombros.
— Nós só podemos imaginar isso. E sinceramente, isso importa? Não faz diferença se uma lança tem consciência. O que importa é quem está manejando a arma. Neferet, claramente, está manejando Aurox.
— Há quanto tempo você sabe disso? — contra-ataquei Kalona.
Stark estava me encarando como se eu estivesse sendo irracional, mas eu não me contive. Mesmo que eu não soubesse como contar a eles, eu acreditava que tinha visto de relance a alma de Heath dentro de Aurox através da pedra da vidência.
— Se você sabia o que Aurox era, por que nunca disse nada até agora?
— Ninguém me perguntou — Kalona respondeu.
— Isso não justifica — eu falei, descarregando toda a minha raiva, frustração e confusão com o enigma Aurox/Heath em cima de Kalona. — O que mais você escondeu de nós?
— O que mais você quer saber? — ele respondeu sem hesitar. — Apenas pense bem, jovem Sacerdotisa, se você realmente quer ouvir as respostas para as perguntas que fizer.
— Você deveria estar do nosso lado, lembra? — Stark disse, colocando-se entre mim e Kalona.
— Eu me lembro de mais do que você imagina, vampiro vermelho — Kalona falou.
— O que você quer dizer com isso? — Stark rebateu.
— Isso significa que você não foi sempre todo bonzinho! — Nicole gritou.
— Não se atreva a falar dele! — atirei minhas palavras contra ela.
— De novo, vocês brigam uns com os outros! — Thanatos gritou, e a ira na sua voz agitou o ar à nossa volta. — A nossa inimiga cometeu atrocidades na nossa própria casa. Ela não matou apenas uma ou duas vezes, mas várias. Ela se aliou ao maior mal que este mundo já conheceu. E, ainda assim, vocês se atacam entre si. Se nós não somos capazes de nos unir, então ela já nos derrotou.
Thanatos balançou a cabeça com tristeza. Ela deu as costas para nós e se voltou para os dois gatos. A Alta Sacerdotisa se ajoelhou ao lado dos seus corpos e, mais uma vez, passou a mão suavemente sobre cada um deles. Desta vez, o ar acima dos gatos começou a emitir uma luz trêmula, e os contornos brilhantes de Shadowfax e Guinevere se materializaram – só que eles não eram os gatos adultos que jaziam imóveis e frios no chão da arena. Eles eram filhotes. Gatinhos gorduchos e adoráveis.
— Vão ao encontro da Deusa, pequeninos — Thanatos falou com eles afetuosamente. — Nyx e aqueles a quem vocês mais amam esperam por vocês.
O pequeno Shadowfax estendeu uma patinha felpuda para brincar com a manga de Thanatos que estava balançando no ar, até que os dois gatos desapareceram em um sopro de luz.
Eu podia jurar ter ouvido o som distante da risada musical de Anastasia, e imaginei que ela e Dragon deviam estar em êxtase recepcionando os seus gatinhos no Outromundo.
O Outromundo...
Minha mãe estava lá, junto com Dragon, Anastasia, Jack e, se eu estivesse errada sobre o que vi dentro de Aurox, Heath estava lá também... Eu havia estado lá. Eu sabia que o Outromundo existia com tanta certeza quanto sabia que eu existia. Eu também sabia que era um lugar mágico e incrível e, mesmo que aquela não fosse a minha hora de morrer e ficar lá, a beleza daquele lugar ainda permanecia na minha mente e na minha alma, formando uma espécie de bolha de maravilhas e segurança, que era completamente o oposto do que o mundo real em volta de mim tinha se tornado.
— Seria tão mal assim se nós perdêssemos?
Não percebi que eu havia falado em voz alta até Stark sacudir meu ombro.
— Do que você está falando, Z.? Nós não podemos perder porque Neferet não pode ganhar. As Trevas não podem vencer.
Eu podia ver a sua preocupação e sentir o seu medo. Eu sabia que eu o estava assustando, mas não consegui me conter. Eu estava tão incrivelmente cansada de tudo ser uma batalha entre as Trevas e a Luz, entre a morte e o amor. Por que tudo não podia simplesmente terminar? Eu daria qualquer coisa para que tudo isso simplesmente acabasse!
— Qual é a pior coisa que pode acontecer? — eu me escutei dizendo e depois continuei sem pensar, respondendo à minha própria pergunta. — Neferet vai nos matar. Bem, estar morto não parece tão terrível — indiquei com a mão a direção onde os gatos haviam se manifestado recentemente.
— Aff, desistir totalmente? — Nicole murmurou em voz baixa, em desgosto.
— Zoey Redbird, a morte está longe de ser a pior coisa que pode acontecer a qualquer um de nós — Thanatos afirmou. — Sim, as Trevas parecem extremamente poderosas agora, principalmente depois de tudo que nós descobrimos nesta noite, mas também existe amor e Luz aqui. Pense em quanta tristeza as suas palavras iriam trazer para Sylvia Redbird.
Senti uma onda de culpa. Thanatos estava certa. Havia coisas piores do que morrer, e essas coisas piores acontecem com as pessoas que se deixa para trás. Abaixei a cabeça e me aproximei de Stark, pegando sua mão.
— Sinto muito. Vocês estão certos. Eu nunca devia ter dito isso.
Thanatos sorriu gentilmente para mim.
— Volte para a sua estação. Reze. Durma. Encontre conforto e orientação nas palavras que Nyx falou para nós: “Guardem a lembrança da cura que aconteceu aqui nesta noite. Vocês vão precisar dessa força e dessa paz para a luta que está a caminho”. — Ela hesitou, deu um forte suspiro e acrescentou: — Você é tão jovem.
Eu queria gritar: Eu sei! Sou jovem demais para salvar o mundo! Em vez disso, fiquei parada ali em silêncio, sentindo-me tola e inútil, enquanto Thanatos se abaixava e recolhia os corpos de Shadowfax e Guinevere, envolvendo-os em uma de suas volumosassaias, segurando-os com delicadeza e ternura, como se eles fossem bebês adormecidos. Então ela fez um gesto para Kalona, dizendo:
— Venha comigo. Preciso dar a triste notícia da morte do Mestre da Espada para os Filhos de Erebus. Enquanto eu faço isso, comece a construir uma pira para Dragon e estes pequenos. No momento em que eu acender a pira, irei oficialmente proclamar você como o guerreiro da Morte.
Sem se dirigir a mim outra vez, Thanatos saiu do ginásio. Kalona a seguiu sem nem olhar de relance para mim e Stark.
— Enfim, o time de vocês é um saco — Nicole se afastou de nós também, balançando a cabeça.
Eu podia sentir o olhar de Stark em mim. A mão dele, entrelaçada à minha, parecia rígida. Levantei os olhos para ele, certa de que ele ia me chacoalhar, gritar comigo ou pelo menos perguntar que diabo estava havendo comigo. De novo.
Em vez disso, ele abriu os braços e disse:
— Venha cá, Z. — e ele simplesmente me deu amor.

2 comentários:

  1. amei porque agora tudo se esclarece .
    uhuuuuuuuuuuu !!!!! primeira a comentar !!!!!!!! :)

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  2. Steve Rae foi tão fofa com Kalona!!!!!

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