5 de outubro de 2015

Capítulo 3 - Zoey

— Ele vai ficar bem? — eu tentei sussurrar para não acordar Stark e aparentemente, falhei, porque os olhos fechados dele se agitaram e os lábios dele se ergueram levemente em um doloroso fantasma de um meio sorriso arrogante.
— Não estou morto ainda — ele disse.
Não estou falando com você — eu disse em uma voz mais irritada do que eu pretendia. — Olha o temperamento, u-we-tsi-a-ge-ya — vovó Redbird me chamou a atenção levemente enquanto a Irmã Mary Angela, uma das freiras Beneditinas, ajudava ela na pequena enfermaria.
— Vovó! Aí está você! — Eu corri até ela e ajudei a Irmã Mary Angela a colocar ela numa cadeira.
— Ela só está preocupada comigo. — Os olhos de Stark estavam fechados de novo mas seus lábios ainda tinham o vestígio de um sorriso.
— Eu sei disso, tsi-ta-ga-a-s-ha-ya. Mas Zoey é uma Alta Sacerdotisa em treinamento e ela deve aprender a controlar suas emoções. — Tsi-ta-ga-a-s-ha-ya! Isso teria me feito rir alto se vovó não estivesse parecendo tão pálida e frágil, e se eu não estivesse tão, bem, preocupada no geral.
— Desculpe, vovó. Eu vou cuidar do meu temperamento, mas é meio difícil quando as pessoas que eu amo ficam quase morrendo! — Eu terminei com pressa e respirei fundo para me firmar. — E você não deveria estar na cama?
— O que tri-ta-ga-a-s-tanto-faz, significa? — A voz de Stark era grossa com dor enquanto Darius espalhava um liquido cremoso em suas queimaduras, mas apesar dos ferimentos ele soava divertido e curioso.
— Tsi-ta-ga-a-s-ha-ya — vovó corrigiu a pronuncia dele, — significa galo.
Os olhos dele brilharam de humor. — Todo mundo diz que você é uma mulher sábia.
— O que é menos interessante do que todos dizem sobre você, tsi-ta-ga-a-s-ha-ya— vovó disse. Stark deu uma rápida risada e então sugou o ar dolorosamente.
— Fique parado! — Darius exigiu.
— Irmã, eu pensei que você tinha dito que vocês tem um médico aqui. — Eu tentei não soar tão apavorada quanto eu me sentia.
— Um médico humano não pode ajudar ele — Darius disse antes da Irmã Mary Angela poder responder. — Ele precisa de descanso e silêncio e –
— Descanso e silêncio está bom — Stark interrompeu ele. — Como eu disse antes: não estou morto ainda. — Ele encontrou os olhos de Darius e eu vi o Filho de Erebus dar de ombros e acenar com a cabeça brevemente, como se tivesse concedido algum ponto ao vampiro mais novo. Eu deveria ter ignorado a pequena movimentação entre eles, mas minha paciência tinha evaporado horas antes.
— Ok, o que você não está me dizendo? — A freira que estava ajudando Darius me deu um olhar longo e frio e disse:
— Talvez o garoto ferido precise saber que seu sacrifício não foi feito em vão. As palavras duras da freira me deram um choque de culpa que se fechou na minha garganta e não me deixou responder a mulher de olhos duros. O sacrifício que Stark estava disposto a fazer era a vida dele pela minha. Eu engoli a secura na minha garganta. O que valia minha vida? Eu era apenas uma garota – mal tinha 17 anos. Eu fiz besteira de novo e de novo. Eu era a reencarnação de uma garota criada para prender um anjo caído, e isso significa que no fundo da minha alma eu não conseguia me impedir de amar ele, mesmo quando eu sabia que eu não deveria... não podia...
Não. Eu não valia o sacrifício da vida de Stark. — Eu já sei. — A voz de Stark não oscilou; de repente ele parecia forte e seguro. Eu pisquei para liberar minha visão das lágrimas e encontrei os olhos dele. — O que eu fiz foi apenas parte do meu trabalho — ele disse. — Sou um Guerreiro. Eu jurei minha vida para os serviços de Zoey Redbird, Alta Sacerdotisa e Amada de Nyx. Isso significa que estou trabalhando para nossa deusa e ser derrubado e queimado um pouco não significa nada se eu ajudei Zoey a vencer os malvadões.
— Muito bem dito, tsi-ta-ga-a-s-ha-ya — vovó disse a ele.
— Irmã Emily, eu te libero dos serviços na enfermaria pelo resto da noite. Por favor envie a Irmã Bianca aqui para ajudar. Eu acredito que você deveria, talvez, passar um tempo numa silenciosa contemplação de Lucas 6:37 — disse a Irmã Mary Angela.
— Como quiser, Irmã — a freira disse e saiu do quarto.
— Lucas 6:37? O que é isso? — eu perguntei.
— Não julgarás, e não serás julgado: não condenarás, e não serás condenado: perdoe, e serás perdoado — minha avó disse. Ela estava dividindo um sorriso com Irmã Mary Angela quando Damien bateu suavemente na porta e a entre abriu.
— Podemos entrar? Tem alguém que realmente precisa ver Stark. — Damien olhou por cima do ombro e fez um movimento de “fique aqui” atrás dele. O suave woof! que saiu em resposta me disse que o alguém era na verdade um cachorro.
— Não deixe ela entrar. — Stark fez uma careta de dor enquanto abruptamente virava a sua cabeça para longe para que não conseguisse ver Damien na porta. — Diga aquele garoto Jack que ela é dele agora.
— Não. — Eu impedi Damien quando ele começou a se afastar. — Faça Jack trazer Duquesa.
— Zoey, não, eu — Stark começou, mas eu ergui a mão para silenciar ele.
— Só traga ela — eu disse. Então eu encontrei os olhos de Stark. — Você confia em mim? — Ele olhou para mim pelo que pareceu um longo tempo. Eu vi a vulnerabilidade e dor dele claramente, mas ele finalmente acenou uma vez e disse:
— Eu confio em você.
— Vá em frente, Damien — eu disse. Damien virou e murmurou algo sobre seu ombro e então ele se moveu para o lado. Jack, o namorado de Damien, entrou no quarto primeiro. As bochechas dele estavam rosas e seus olhos estavam suspeitosamente brilhantes. Ele parou depois de alguns centímetros e virou para a porta. — Entre. Está tudo bem. Ele está aqui — Jack disse. O labrador loiro entrou no quarto e eu fiquei surpresa por ver o quão silenciosamente ela se movia para um cachorro tão grande. Ela parou brevemente ao lado de Jack e olhou para ele, balançando o rabo. — Está tudo bem — Jack repetiu. Ele sorriu para Duquesa e então limpou as lágrimas que tinham escapado dos olhos dele e estavam deslizando por suas bochechas. — Ele está melhor agora. — Jack fez um movimento em direção a cama. A cabeça de Duquesa virou na direção que ele apontou, e ela olhou diretamente para Stark. O garoto ferido e o cachorro só se encaram enquanto eu juro, todos seguramos o fôlego.
— Oi, garota linda — Stark falou hesitante, a voz dele sufocada por lágrimas. As orelhas de Duquesa se ergueram e a cabeça dela se ergueu. Stark estendeu a mão e fez um movimento chamando ela. — Venha aqui, Duque.
Como se o comando dele tivesse quebrado uma represa dentro do cachorro, Duquesa foi para frente, chorando e se balançando e latindo – basicamente soando e agindo muito mais como um filhote do que os 50 quilos dela diziam que ela era. — Não! — Darius comandou. — Não em cima da cama! — Duquesa obedeceu o guerreiro e se contentou em colocar a cabeça contra o lado de Stark e deslizar seu focinho debaixo da sua axila enquanto mexia seu corpo todo, e Stark, com o rosto brilhando de felicidade, acariciando ela e dizendo a ela de novo e de novo o quanto ele sentiu falta dela e que boa garota ela era.
Eu não tinha percebido que estive chorando também, até que Damien me entregou um lenço. — Obrigado — eu murmurei, e limpei o rosto. Ele sorriu brevemente para mim, e então se moveu para o lado de Jack, colocando seu braço ao redor de seu namorado e dando tapinhas em seu ombro (e entregando a ele um lenço também).
Eu ouvi Damien dizer a ele, — Anda, vamos encontrar o quarto que as Irmãs tem pronto para nós. Você precisa descansar. — Jack fez um som fungando, acenou, e deixou Damien levar ele para fora do quarto.
— Espere, Jack — Stark o chamou. Jack olhou para a cama onde Duquesa ainda tinha a cabeça pressionada contra Stark, que tinha os braços envolvidos ao redor do pescoço do labrador. — Você fez bem em cuidar da Duque quando eu não pude.
— Não foi problema. Já tive um cachorro antes, então sabia o quão bom eles são. — A voz de Jack se quebrou só um pouco. Ele clareou a garganta e continuou. — Eu – estou feliz que você não seja, uh, do mal e horrível e coisas assim, para que ela possa ficar com você de novo.
— Yeah, quanto a isso. — Stark pausou, fazendo uma careta enquanto a dor de seus movimentos o atingia. — Não estou exatamente 100% ainda, e mesmo quando estiver, não tenho certeza de como vai ser meu horário. Então estou pensando que seria um grande favor para mim se você e eu talvez possamos dividir Duquesa.
— Mesmo? — O rosto de Jack se iluminou. Stark acenou.
— Mesmo. Você Damien podiam levar Duque de volta para o seu quarto, e talvez trazer ela para me ver mais tarde?
— Absolutamente! — Jack disse, e então ele limpou a garganta e continuou. — Yeah, como eu disse antes. Ela não deu problema algum.
Bom — Stark disse. Ele ergueu o focinho de Duquesa com sua mão e olhou nos olhos do labrador. — Estou bem agora, garota linda. Vá com Jack para que eu possa melhorar totalmente. — Eu sabia que devia ter causado agonia a ele, mas Stark sentou e então se curvou para beijar Duquesa e deixou o cachorro lamber seu rosto. — Boa garota... essa é minha garota linda... — ele sussurrou, e beijou ela de novo e disse, — Vá com Jack agora! Vá em frente! — e ele gesticulou em direção a Jack. Depois de uma última lambida no rosto de Stark, e um único e relutante choro, ela virou de costas pra cama e foi para o lado de Jack, balançando o rabo para ele e cheirando ele enquanto ele limpava os olhos com uma mão e acariciava ela com a outra.
— Eu vou cuidar muito bem dela e trazer ela de volta para te ver assim que o sol se por hoje. Ok?
Stark conseguiu sorrir. — Ok, obrigado, Jack. — Então ele caiu no travesseiro.
— Ele precisa de descanso e silêncio — Darius disse a todos nós, enquanto continuava a trabalhar em Stark.
— Zoey, talvez você possa me ajudar a levar sua avó para o quarto dela? Ela também precisa de descanso e silêncio. Foi uma noite longa pra todos nós — disse Irmã Mary Angela. Mudando minha preocupação de Stark para vovó, eu olhei para frente e para trás entre as duas pessoas que eu me importava tanto. Stark pegou meu olhar.
— Hey, cuide da sua avó. Eu posso sentir que o sol vai nascer logo. Eu vou apagar como uma lâmpada quando isso acontecer.
— Bem... ok. — Eu fui para o lado da cama dele e fiquei parada ali constrangida. O que eu deveria fazer? Beijar ele? Apertar a mão dele? Dar um polegar erguido e um sorriso nerd? Eu quero dizer, ele não era meu namorado oficial, mas ele e eu tínhamos um laço que ia além de amizade. Me sentindo confusa e preocupada e basicamente fora da minha zona de conforto, eu coloquei minha mão no ombro dele e sussurrei, — Obrigado por salvar minha vida.
Os olhos dele encontraram os meus e o resto do quarto sumiu. — Eu sempre vou manter seu coração seguro, mesmo que o meu tenha que parar de bater para que isso aconteça — ele me disse suavemente.
Eu me abaixei e beijei a testa dele, murmurando, — Vamos tentar não deixar isso acontecer, ok?
— Ok — ele sussurrou. — Eu te vejo quando o sol se por de novo — eu disse a Stark antes de finalmente correr até vovó.
A Irmã Mery Ângela e eu a levantamos, quase a carregando para fora do quarto de Stark e pelo curto corredor para outro quarto parecido com o de um hospital. Vovó parecia pequena e frágil sobre meu braço de suporte e meu estômago se retorceu com preocupação por ela.
— Pare de se preocupar, u-we-tsi-a-ge-ya — ela disse enquanto Mary Angela colocava travesseiros ao redor dela e ajudava a deixar ela confortável.
— Eu vou pegar para você remédios para dor — Irmã Mary Angela disse a vovó. — Também vou me certificar que as cortinas no quarto de Stark estão fechadas e que elas estão tapando bem a luz, então vocês tem um minuto para conversar, mas quando eu voltar eu insisto que você tome seu remédio para dor e vá dormir.
— Você é uma hospedeira durona, Mary Angela — vovó disse.
— É preciso uma para conhecer uma, Sylvia — disse a freira. Então ela saiu do quarto com pressa. Vovó sorriu para mim e bateu na cama perto dela.
— Venha sentar perto de mim, u-we-tsi-a-ge-ya. — Eu sentei ao lado de vovó, enfiando minhas pernas debaixo de mim, tentando tomar cuidado para não mexer muito a cama. O rosto dela estava ferido e queimado do airbag que tinha salvo a vida dela. Parte do lábio dela e sua bochecha tinham pontos. Ela tinha uma bandagem em sua cabeça e o braço direito dela estava preso em um gesso que parecia assustador.
— Irônico, não é, que meus ferimentos pareçam tão terríveis, mas são muito menos dolosos do que as feridas invisíveis dentro de você — ela disse. Eu comecei a dizer à vovó que estava bem, mas as próximas palavras dela cortaram o que sobrava da minha negação. — Há quanto tempo você sabe que é a reencarnação da virgem A-ya?

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