11 de outubro de 2015

Capítulo 3 - Neferet

Era o meio da manhã em um domingo sonolento quando Neferet ordenou seus filamentos das Trevas que abrissem seu abraço e permitissem que ela emergisse de sua espessa nuvem de sangue e morte para a calçada na frente do Mayo. Ela ajeitou o branco vestido Armani e penteou para trás seu longo cabelo ruivo. Neferet estava pronta para seu retorno glorioso à cobertura que a aguardava em mármore, pedra e veludo no telhado. Ela abriu a porta de bronze e vidro vintage e então parou logo na entrada, suspirando feliz no grande salão que se abriu à sua frente, resplandecente em mármore branco, colunas esculturais, grandes luminárias dos anos 1920 e uma escadaria dupla que se curvava para o passeio com a graça do sorriso satisfeito de uma deusa.
Com suas sobrancelhas escuras levantadas e seu olhar esmeralda afiado, Neferet estudou seu entorno com interesse renovado.
— É, de fato, um edifício requintado o suficiente para ser o Templo de uma Deusa — Neferet sorriu. — Meu Templo. A minha casa.
— Senhorita Neferet! É você mesma? Temos estado tão preocupados que algo terrível tivesse acontecido a senhorita quando a sua cobertura foi vandalizada.
Neferet olhou do grande salão de baile para a jovem que sorriu para ela por trás da recepção.
— Meu Templo. Minha casa. Meus adoradores.
Ela sabia o que devia fazer. Por que tinha levado tanto tempo para pensar nisso? Possivelmente porque ela nunca tinha absorvido tantas mortes de uma só vez, como fez apenas momentos antes de chegar ao Mayo.
Como seus tentáculos fiéis, Neferet estava pulsando com poder, e o poder concentrou e esclareceu seus pensamentos.
— Sim, é exatamente assim que deve ser. Cada ser humano neste edifício deve me venerar.
— Sinto muito, senhorita. Não entendo o que quer dizer.
— Oh, você irá. Muito em breve entenderá.
O sorriso radiante da recepcionista tinha começado a desvanecer-se. Com o movimento sobrenatural, Neferet deslizou na direção dela. Ela olhou a plaquinha dourada com o nome da moça.
— Sim, Kylee, minha querida. Muito em breve você vai me entender completamente. Mas, primeiro, me dirá se muitas pessoas estão hospedadas no hotel atualmente.
— Me desculpe, senhorita — disse Kylee, parecendo completamente desconfortável. — Eu não posso dar essa informação. Talvez se me dissesse do que precisa eu...
Neferet se inclinou para frente, passando a mão ao longo da rica pedra de mármore do balcão de recepção, arranhando-a e capturando o olhar da moça.
— Você não vai me questionar. Nunca deve me questionar. Fará o que eu mando.
— E-eu sinto muito, senhorita. Não tive a intenção de ofendê-la, mas as informações sobre os hóspedes do hotel são confidenciais. No-nossa política de p-privacidade é uma das nossas maiores m-marcas — gaguejou, com as mãos tremendo nervosamente enquanto ela agarrava-se à corrente de ouro em seu pescoço onde pendia um crucifixo.
Mesmo que Neferet não fosse psíquica, teria reconhecido o grau do medo de Kylee, ela cheirava a isso.
— Excelente! Agora que você seguirá apenas às minhas ordens, espero que seja ainda mais vigilante sobre a privacidade, a minha privacidade.
— Sinto muito, senhorita. Quer dizer que comprou o Mayo Hotel? — A confusão de Kylee se intensificou junto com o seu medo.
— Oh, muito melhor do que isso, e muito mais permanente. Decidi fazer deste belo edifício o meu primeiro templo. Mas eu não havia lhe ordenado a nunca me questionar? — Neferet suspirou e fez um som exasperado. — Kylee, você terá que fazer muito melhor no futuro. Mas não preocupe a sua cabecinha loura. Eu sou uma deusa benevolente. Pretendo me certificar de que você obterá a ajuda de que precisa para ser minha adoradora perfeita.
Enquanto Kylee ofegava como um peixe fora d’água, Neferet virou as costas para ela e enfrentou o mar de gavinhas que, sem serem vistas pela estúpida Kylee, deslizavam sobre o piso de mármore e passavam carinhosamente contra as suas pernas.
— Ah, crianças, vocês têm se alimentado muito bem. Agora é hora de me pagarem pela generosidade que forneci — elas se contorciam animadamente, um ninho de víboras de acasalamento, e Neferet sorriu com carinho para elas. — Sim, eu vos tenho dado o meu juramento. Isso foi apenas o começo do nosso festim. Mas vocês têm que trabalhar por seu alimento. Eu me recuso a ter filhos preguiçosos — ela riu alegremente. — Agora, preciso que um de vocês possua esta humana. Não! Vocês não podem matá-la — Neferet esclareceu quando uma dúzia de gavinhas começou a deslizar com o propósito animado e óbvio para Kylee. — Liguem minha mente à dela. Abram caminho para seus mais íntimos pensamentos, desejos e vontades e então se enrolem lá, em torno de sua vontade e a esprema. Não o suficiente para matá-la, ou roubas toda a sua razão. Eu não quero um templo cheio de idiotas vacilantes. Quero um templo cheio de servos obedientes. Possuam-na, para que eu possa ter certeza de sua obediência!
Neferet se virou para encarar a garota, cujo rosto empalideceu de forma tão dramática que seus olhos castanhos pareciam hematomas escuros dentro dele.
— Senhorita Neferet, por favor, não me machuque! — ela disse, começando a chorar.
— Kylee, minha querida, minha primeira adoradora humana, isso é realmente o melhor. O livre arbítrio é um fardo terrível. Eu o tinha, quando era menina, não muito mais jovem do que você, e ainda estava presa em uma vida que não era da minha escolha e era abusada. Muitas vezes é o que acontece com os seres humanos. Olhe para si mesma, este trabalho servil, essa roupa inferior. Você não quer mais da sua vida?
— S-sim — respondeu Kylee.
— Bem, então, está resolvido. Se eu tirar o seu livre arbítrio, também tirarei os terrores inesperados que a vida pode trazer. A partir deste momento, Kylee, vou protegê-la de terrores inesperados.
Neferet capturou os olhos arregalados da menina e olhou entediada a sua mente. Ela estava muito focada em Kylee para olhar para baixo, mas sabia que uma forte gavinha fiel a obedecera e foi deslizando até o corpo da menina. Embora não pudesse ver o que subia em sua perna, Kylee definitivamente podia sentir. Ela abriu a boca e começou a gritar.
— Acabem com o seu terror e penetre-a! — Neferet ordenou, e a gavinha disparou na boca aberta da garota.
Kylee se calou convulsivamente, e apenas o aperto de Neferet em sua mente a impedia de desmaiar.
— Tão humana. Tão fraca — a deusa murmurou enquanto sondava a mente da garota, sentindo a presença familiar das Trevas a seguindo. Quando encontrou o centro da vontade de Kylee, sua alma, sua consciência Neferet ordenou: — A envolva!
Com seu outro sentido, usando o dom dado para ela por outra deusa mais de um século atrás, Neferet testemunhou as Trevas aprisionando a vontade de Kylee.
A menina caiu, seu corpo se contraindo espasmodicamente.
— Lembre-se bem o caminho que acabei de mostrar, crianças. Kylee é apenas a primeira de muitos — Neferet bateu as mãos rapidamente. — Venha, Kylee. Recomponha-se, minha querida. Sua vida acaba de se tornar muito mais, e tenho outros comandos que deve obedecer.
Kylee empurrou-se na vertical, como se fosse um fantoche em uma corda.
— Sim, assim está muito melhor. Agora, me diga quantas pessoas estão no hotel, e lembre-se, sem gritos irritantes.
— Sim, senhorita — Kylee respondeu imediata e mecanicamente.
O sorriso de Neferet voltou. Ela estava transbordando de poder! Os seres humanos devem venerá-la, com suas vontades débeis e suas mentes facilmente manipuladas, eles realmente não tinham escolha.
— E pare de me chamar de senhorita. Pode me chamar de Deusa.
— Sim, Deusa — Kylee repetiu automaticamente, com a voz totalmente desprovida de emoção.
Então ela começou a digitar em seu teclado enquanto encarava, impassível, a tela do computador.
— Atualmente, temos setenta e dois convidados, Deusa.
— Muito bem, Kylee. E quantos deles estão vivendo aqui?
— Cinquenta.
Neferet levantou um dedo longo e virou o queixo de Kylee, de modo que ela teve que encontrar seu olhar novamente.
— Cinquenta, o quê?
Kylee estremeceu como um cavalo faria para desalojar insetos alojados nele, mas seu olhar permaneceu opaco, vazio, e ela se corrigiu imediatamente, dizendo:
— Cinquenta, Deusa.
— Muito bem Kylee. Vou me retirar para a minha cobertura. Lembre-se, este edifício é agora o meu templo, e insisto em ter minha privacidade, assim como meu corpo divino, protegidos. Você entende?
— Sim, Deusa.
— Entende que isso significa que, se alguém vier me procurar, você irá dizer-lhes que está absolutamente certa de que eu não estou aqui, e, em seguida, irá mandá-los até mim?
— Entendo, Deusa.
— Kylee, você tem sido extremamente útil. Vou permitir que viva tempo suficiente para me adorar corretamente.
— Obrigada, Deusa.
— Não há de quê, querida.
Neferet começou a deslizar em direção ao elevador reluzente. Ela levantou a mão, acenando.
— Venham, minhas crianças. Tenho a sensação de que teremos a necessidade de redecorar.
Inchados e pulsando com o sangue de que tinham se alimentado tão recentemente, as gavinhas das Trevas deslizaram avidamente até a sua amante.


— Assim como eu pensei. Foi deixado em ruínas! Isso é absolutamente inaceitável.
Neferet caminhou ao redor das cadeiras viradas e tapetes manchados da sala de estar ao que antes tinha sido uma vez um apartamento de cobertura de luxo cuidadosamente mantido.
— Sangue envelhecido! O quarto cheira a isso. Limpe-o — ela ordenou. Os filamentos obedeceram, embora mais lentamente do que quando a refeição que ela fornecia era fresca. — Oh, não sejam tão exigentes. Um pouco do sangue aqui é de Kalona. Mesmo velho, sangue imortal traz poder.
Isso pareceu animar os filamentos, que deslizaram com mais entusiasmo.
Enquanto trabalhavam, Neferet foi para seu bar, apenas para encontrá-lo vazio. Nenhuma garrafa cara de vinho Cabernet escuro, que era seu preferido, permaneceu.
— Isto é o que acontece quando não estou aqui para supervisionar os seres humanos, esses preguiçosos negligenciam suas funções. Eu não tenho nenhum vinho e minha cobertura foi deixada em ruínas! — o olhar irritado de Neferet encontrou a pilha de poeira dispersa turquesa que tinha sido peneirada da gaiola das Trevas em que seus filamentos haviam encarcerado a tediosamente teimosa Sylvia Redbird. — E isso! Livrem-se dessa poeira azul horrível. Ele estraga a beleza do piso de mármore ônix ainda mais do que os tapetes persas manchados.
Vários filamentos tentaram obedecer ao seu comando, mas eles esquivaram-se do pó azul, como se ele ainda tivesse o poder de repeli-los. O mais ousado dos filamentos escorregadios pegou no pó de pedra, só para tremer e se encolher para longe, seu corpo liso e emborrachado de fumaça escorrendo um líquido fétido escuro.
Neferet franziu a testa, acenando para a gavinha. Com uma unha afiada, ela perfurou a carne de sua palma.
— Venha, alimente-se de mim e se cure — ela murmurou, acolhendo o frio toque doloroso da boca do filamento, acariciando-o suavemente, pois se alimentava dela, tremendo sob seu toque. — Isso nunca vai acontecer outra vez. Limpar a confusão de um ser humano é um trabalho demasiado servil para os meus filhos fiéis. Humanos suplicantes devem limpar a bagunça de outros humanos, é disso que preciso ao meu redor. Gente que faça o que eu mandar, facilitando o meu trabalho. E, felizmente, nós temos mais de uma centena deles sob este mesmo teto. Todos eles, exceto a sempre tão útil Kylee, ainda são inconscientes de quão ocupado estarão muito em breve. Hmm... Qual a melhor maneira de iniciar meus novos planos?
Neferet sacudiu a gavinha que se alimentava dela.
— Não seja tão ganancioso. Você está curado.
O filamento escapuliu. Neferet acariciou seu pescoço longo e fino, pensando. Ela devia pesar na melhor maneira de seguir em frente, e fazê-lo rapidamente. Não havia deixado ninguém vivo na avenida da Igreja Boston, e o que ela tinha deixado para trás eram várias centenas de mutilados, cadáveres sem sangue.
— As autoridades irão para a House of Night em primeiro lugar, é claro. Thanatos vai insistir que seu rebanho intocado jamais seria capaz de fazer uma coisa dessas. A velha vai me culpar. Se acreditarem nela ou não é irrelevante, até mesmo a inepta polícia local acabará por vir me procurar.
Neferet ergueu seu longo dedo e apontou as unhas para a bancada de mármore preto de seu bar lamentavelmente vazio. Ela não tinha o luxo do tempo, a menos que escolhesse esconder.
— Não. Eu nunca vou esconder novamente. Eu sou uma Deusa, uma imortal, dotada com a capacidade de comandar as Trevas. Nyx nunca me entendeu. Kalona nunca me entendeu. Ninguém nunca me entendeu. Agora eu vou fazê-los compreender, eu farei todos compreenderem! Os moradores de Tulsa devem se esconder de mim, e não o contrário.
Ela devia se mover rapidamente e de forma decisiva, antes que a polícia chegasse para tentar, sem sucesso, prendê-la, ou antes que seu festim na igreja virasse notícia e começasse a assustar os convidados do Mayo, seus futuros adoradores.
Neferet encontrou o controle remoto e clicou, apontando-o para a grande televisão de tela plana que era presa na parede e tinha, felizmente, saído ilesa da batalha. Ligando-a em uma estação local, ela emudeceu o balbuciar e começou a andar, pensando em voz alta enquanto mantinha os olhos na tela.
— É uma pena que eu não possa aprisionar os seres humanos como fiz com aquela velha e libertá-los quando eu precise de sua veneração ou dos seus serviços. Seria muito mais fácil para eles e, mais importante, para mim. Eu seria capaz de apostar muito no fato de que nenhum deles ofereceria a resistência que Sylvia Redbird ofereceu. Seres humanos normais jamais poderiam entrar ou sair da gaiola das Trevas criado por vocês, meus queridos. E, pelo o que vi até agora, meus humanos são extremamente normais — Neferet parou abruptamente, considerando. — Meus adoradores são seres humanos normais. Tulsa é cheia de seres humanos normais. E eu tornei-me muito mais do que um ser humano ou vampiro normal.
Distraidamente, Neferet acariciou uma gavinha que tinha se envolvido em torno de seu braço.
— Eu não estaria aprisionando os seres humanos aqui. Eu estaria protegendo-os, permitindo-lhes trocar o tédio de suas vidas para o cumprimento do dever me venerar, assim como fiz por Kylee — ela acariciou a gavinha lisa enquanto se contorcia de prazer. — Eu não preciso aprisioná-los. Preciso estimá-los!
Jogando os braços para cima, ela sorriu para seus filamentos escuros que eram tanto requintadamente belos quanto aterrorizantes.
— Eu tenho uma resposta para nosso dilema, crianças! A gaiola que criamos para manter Redbird era uma fraca tentativa patética de prisão. Tenho aprendido muito desde aquela noite. Eu ganhei tanto poder, nós ganhamos tanto poder. Não vamos prender pessoas, como se eu fosse uma carcereira em vez de uma Deusa. Meus filhos, vamos cobrir as próprias paredes do meu templo com seus mágicos fios intransponíveis para que meus novos adoradores sejam capazes de me adorar sem impedimentos. E isso será apenas o começo. Enquanto eu absorver mais e mais poder, por que não envolver toda a cidade? Agora eu sei, agora conheço meu destino. Começarei o meu reinado como Deusa da Escuridão, fazendo de Tulsa o meu Olimpo! Só que este não será um mito fraco transmitido como histórias banais pelas escolas. Esta será a realidade, uma Era das Trevas veio à Terra! E no meu Mundo das Trevas, não haverá inocentes sendo abusados por predadores. Tudo estará sob minha proteção. Eu segurarei seus destinos nas mãos, eles só têm que cuidar do meu bem-estar para ficarem seguros. Ah, como eles vão me adorar!
Em torno dela, os filamentos se contorciam em resposta a sua excitação. Ela sorriu e acariciou os mais próximos a ela.
— Sim, sim, eu sei. Será glorioso, mas o que eu preciso em primeiro lugar, meus filhos, é o serviço de quarto. Vamos convocar meus novos seguidores. Alguns deles vão limpar e arrumar meus aposentos direito. Outros reporão o meu vinho. Todos eles vão me obedecer sem questionar. Se preparem. O tempo de Neferet, Deusa das Trevas, chegou!


Foi mais tranquilo do que Neferet havia imaginado. Os seres humanos não foram apenas ridiculamente fáceis de controlar, também foram totalmente indefesos tal qual a pequena Kylee diante da infestação de um único filamento de Trevas. Ela estava absolutamente correta. Eles precisavam dela para ordenar suas vidas como um bebê precisa de sua mãe.
O único problema em seu plano era que Neferet não tinha acesso a um número infinito de gavinhas. Só os mais leais, seus verdadeiros filhos, tinha permanecido ao seu lado depois que ela tinha sido despedaçada.
Ela considerou brevemente pedir mais segmentos da escuridão, mas rapidamente rejeitou a ideia. Ela não recompensaria a traição – e os filamentos que a tinham abandonado em seu momento de necessidade haviam-na traído em seu nível mais profundo.
Neferet tomou um gole de seu Cabernet favorito em uma taça de cristal enquanto caminhava ao redor de sua cobertura, contando os seres humanos que haviam laboriosamente limpado e arrumado para corrigir a bagunça que Zoey e seus amigos tinham deixado. Seis. Havia quatro mulheres da limpeza e dois homens do serviço de quarto. Neferet inclinou os seus lábios para cima. Na verdade, eles eram pouco mais do que os rapazes, ambos loiros e prontos para responder sua solicitação de serviço de quarto. Saindo de seu elevador, suas expressões tinham tornado os seus pensamentos tão claros que ela não se incomodou em sondar suas mentes. Eles a desejavam. Desejavam muito. Eles, obviamente, tinham esperança de que ela quisesse um pouco de sangue em seu vinho, e sexo. Tolos! Agora eles se moviam mecanicamente, atendendo aos comandos que ela emitia sem queixas, preocupações e sem olhares de paquera irritantes. Era como ela preferia seus homens humanos – silenciosos, obedientes e jovens.
— Cavalheiros, a vida é gloriosa. Vocês não concordam?
As duas cabeças loiras levantaram e se viraram em sua direção.
— Sim, Deusa — eles falaram juntos, como se tivessem treinado.
Neferet sorriu.
— Como costumo dizer, o livre arbítrio é um fardo terrível. Vocês têm sorte em se livrar dele — então ela ordenou: — Voltem ao trabalho.
— Obrigado, Deusa. Sim, Deusa — eles repetiram, e obedeceram.
Então, ela já havia usado seis filamentos. Não, sete, contando com a pequena Kylee na recepção do hotel. Neferet olhou contemplativamente para o ninho de filamentos que fervilhavam em torno das portas quebradas que levavam à varanda do último piso, absorvendo o último do sangue seco de Kalona. Quantos eram? Ela tentou contar, mas era impossível. Eles mudavam muito rapidamente e muitas vezes tendiam a se fundir para, em seguida, separar-se a vontade. Não parecia que muitos deles haviam permanecido, no entanto.
E todos tinham crescido e ficado maiores, mais grossos e marcadamente mais fortes, por causa do festim.
Preciso ter certeza de que eles se mantenham bem alimentados. Eles não podem definhar, assim o meu controle absoluto sobre os seres humanos não definhará.
Decisivamente, Neferet pegou o telefone e discou zero para a recepcionista.
— Recepção. Como posso ajudá-la, Neferet? — A voz alegre de Kylee atendeu no primeiro toque.
— Kylee, quando eu chamá-la, a maneira correta de atender ao telefone é dizer, “Como posso servi-la, minha deusa?”.
A voz de Kylee era sem emoção enquanto ela dizia:
— Como posso servi-la, minha deusa?
— Muito bem, Kylee. Você aprende bastante rápido. Eu preciso saber quantos funcionários estão trabalhando aqui no meu templo hoje.
— Seis governantas, dois mordomos, quatro do pessoal de serviço de quarto e eu. Rachel deveria estar trabalhando na recepção comigo, mas ela ficou doente.
— Pobre e infeliz Rachel. Mas isso deixa os treze sortudos como a minha equipe. É claro que não conta o restaurante, no entanto. Está aberto hoje?
— Sim, estamos abertos para o café da manhã e o almoço até duas horas todos os domingos.
— E quantas pessoas estão lá hoje?
Kylee fez uma pausa e, em seguida, conta:
— O chefe, seu subchefe, outro cozinheiro que trabalha na cozinha, o barman, que também é o gerente, e três garçonetes.
— Um total de vinte. Aqui está o que você vai fazer, Kylee. Feche o restaurante imediatamente, mas não permita que nenhum dos funcionários saia. Diga-lhes que houve uma mudança na gerência do hotel e o novo proprietário convocou uma reunião com todos os funcionários.
— Farei como diz, Deusa, mas o restaurante não é de propriedade dos Snyders.
— Quem são os Snyders?
— A família que comprou e reformou o Mayo, em 2001. Eles são donos do prédio.
— Correção, Kylee, minha querida, que possuíam o prédio que era conhecido como o Hotel Mayo. Eu controlo o Templo que este se tornou. Não importa. Tudo vai se esclarecer muito em breve. Tudo o que preciso que você faça para mim agora é reunir cada um dos membros da equipe, restaurante e hotel, e encaminhá-los para se apresentar na minha cobertura em 30 minutos. Depois disso, eu vou acabar com o título de encontro de pessoal e chamá-lo do que ele realmente vai se tornar: uma oportunidade de venerar a sua Deusa. Não soa muito mais agradável do que uma reunião de equipe?
— Sim, Deusa — Kylee concordou.
— Excelente, Kylee. Verei você e o resto dos meus novos adoradores em 30 minutos.
— Deusa, não posso deixar a recepção sozinha. O que vai acontecer se alguém tentar fazer o check-in ou o check-out?
— A resposta é simples, Kylee. Tranque todas as portas através do qual se pode entrar ou sair de meu templo, acorrente-as e, em seguida, junte-se a mim com as chaves.
— Sim, Deusa.


Neferet teria que encontrar um lugar diferente para receber as súplicas de seus súditos. Sua cobertura era íntima demais para tantos seres humanos. No entanto, teria que se contentar temporariamente com ela. Ela se posicionou entre as portas de vidro colorido que haviam sido quebradas, agora substituídas por um dos dois rapazes loiros. Apagara todas as fortes luzes elétricas e mandara a governanta trazer velas para seu quarto. Pilares, cuias e velas cerimoniais cobriam o balcão de granito, a lareira, a mesinha de centro de mármore de art déco, e a grande mesa de madeira da sala de jantar. Ela também ordenou que as lâmpadas berrantes que ficavam ao lado das portas fossem substituídas pela bruxuleante luz quente de duas velas brancas. Fez uma nota mental para enviar um de seus seguidores em busca de mais velas, muito, muito mais velas.
O olhar de Neferet varreu sua cobertura, e ela ficou contente. Tudo parecia muito melhor, e ela desfrutava bastante de sua segunda garrafa de cabernet, pensando o quanto iria apreciá-lo mais tarde, em particular, quando um de seus seguidores ofereceria seu sangue para misturar na bebida.
Neferet se vestira com cuidado, contente por suas roupas não terem sido estragadas enquanto estivera fora. Escolheu um robe de seda dourada que se agarrava ao seu corpo como se estivesse acariciando-a. Como de costume, Neferet deixou seu espesso cabelo ruivo cair livremente em brilhantes ondas ao redor de sua cintura. Ela não se adornou com o símbolo de qualquer outra Deusa. Nenhuma insígnia de mãos erguidas bordadas em prata jamais seria permitida em sua presença novamente, ela tinha arrancado o último desses símbolos de suas roupas.
Neferet tinha uma nova insígnia. Ela a havia considerado com cuidado, e mal podia esperar até que um de seus suplicantes levasse o design da peça à joalheria Moody e a “surpreendesse” com um rubi de seis quilates em forma de uma lágrima perfeita. Ela seria efusiva em seus agradecimentos e o usaria sempre em uma corrente de ouro maciço no pescoço.
De fato, seria bom ser a Deusa das Trevas, Deusa de Tulsa, Deusa do Caos.
Sons soaram do elevador.
— Crianças venham a mim! — os filamentos das Trevas correram para ela, rodeando-a, batendo contra seus pés nus com a sua frieza reconfortante. — Oh, e adoradores, vocês podem voltar para a minha presença — ela chamou por cima do ombro, de onde ordenara que seus servos esperassem até que ela desejasse comandá-los novamente.
Eles arrastaram-se para ela ao mesmo tempo em que as portas do elevador se abriam e Kylee trazia o resto da equipe para a cobertura.
— Bem-vindos! — Neferet levantou o copo e os braços. — Vocês são abençoados por estarem em minha presença.
A maioria do grupo parecia confusa. Duas mulheres, vestidas como garçonetes, murmuraram perguntas uma à outra. Os olhos afiados de Neferet tomaram conhecimento deles.
Um dos homens, aquele que vesti o chapéu branco e bobo do chefe de cozinha, falou:
— Pode nos dizer o que está acontecendo aqui? Tivemos que fechar o restaurante e pedir aos clientes que saíssem, mesmo que não tivessem terminado o almoço. Posso dizer-lhe, há alguns ex-clientes aborrecidos lá fora agora.
— Qual é o seu nome? — Neferet perguntou, mantendo a voz agradável.
— Tony Witherby, mas a maioria me chama de chefe.
— Veja bem, Tony, eu não sou “a maioria”. Mas a maioria das pessoas me chama de Deusa.
Ele soltou uma risada condescendente.
— A senhorita está brincando, certo? Quer dizer, posso ver suas tatuagens e sei que é uma vampira e tudo mais, porém vampiros não são deuses.
Neferet ficou satisfeita ao ver que Kylee tinha se afastado do chefe como se não quisesse ser contaminada por sua desobediência. Kylee realmente estava se tornando uma excelente adoradora.
Neferet não desperdiçou sequer um olhar no chefe. Em vez disso, sorriu para os seus filhos que se contorciam.
— Tão ansiosos — ela meio repreendeu e meio incentivou. — Tão inteligentes. Ela se inclinou para acariciar um filamento particularmente agitado que envolvera sua perna e se arrastara quase até a coxa. — Você servirá bastante bem.
— Ok, a senhorita vai nos explicar o que está acontecendo ou terei que chamar o proprietário do restaurante? — disse o chefe. Quando ela continuou a ignorá-lo, ele começou a vociferar. — Isso é realmente ridíc...
— Pegue-o! — Neferet ordenou. — E torne-se visível.
O filamento se tornou visível enquanto voava para o chefe. Era tão grande que facilmente se enrolou ao redor da cintura grossa dele, movendo-se rapidamente para cima.
— Que porcaria é essa? Tira isso de mim! — gritou o chefe de cozinha, cambaleando para trás e batendo impotente no filamento com suas mãos grossas.
Neferet pensou que ele soava como uma jovem assustada por uma aranha.
Um homem negro, alto e bonito, vestido com um uniforme de carregador moveu-se para ir ao auxílio do chefe.
— Fique onde está ou o seu destino será o mesmo que o dele! — Neferet estalou.
O homem congelou no lugar.
— Nããão! — os gritos do chefe ecoaram com histeria, e Neferet ficou aliviada que, naquele momento, o filamento deslizou por seu pescoço e subiu para a boca dele, fazendo-a abrir tanto que os cantos de seus lábios rasgaram e começaram a sangrar antes que todo o comprimento desaparecesse para o interior do corpo do ser humano. O chefe caiu no chão.
— Acho que é lamentável quando um homem crescido soa como uma garotinha assustada, não é?
Os humanos que não foram possuídos por seus filhos olharam para ela com expressões mistas entre horror e incredulidade. As garçonetes que antes sussurravam começaram a soluçar. Outra mulher, uma das governantas que não tinha respondido às intimações anteriores de Neferet, rezava em espanhol e apertava o crucifixo que pendia em seu pescoço de um colar de prata barato. Todo o grupo, com exceção de extraviado Tony, estava voltando, aglomerados como animais, em direção às portas do elevador.
— Não! — Neferet disse suavemente. — Vocês não podem sair até que eu os libere.
— Vai nos matar também? — uma das mulheres perguntou, segurando a mão de sua amiga e tremendo convulsivamente.
— Matar vocês? Claro que não. Tony não está morto — Neferet apontou o chefe, que ainda estava caído no chão. — Tony, meu caro, pode se levantar e dizer aos outros que você está perfeitamente bem?
Rigidamente, Tony levantou. Ele girou no lugar até ficar de frente para Neferet. Então, sem nenhuma expressão em seu rosto manchado de sangue, disse:
— Estou perfeitamente bem.
— Você se esqueceu alguma coisa — Neferet apontou.
O corpo de Tony se contraiu em espasmos, como se ele tivesse sido eletrificado por dentro, e ele rapidamente repetiu:
— Estou perfeitamente bem, Deusa.
— Ali, viram? É como eu disse. Qual é o seu nome, minha querida? — ela perguntou à mulher que tremia.
— Elinor.
— Este é belo nome antigo. Não se ouve mais nomes como esse, e isso é uma vergonha. Onde todas as Elinores e Elizabethes, Gertrudes, Gladys e Phyllis estão? Não, não há necessidade de me responder. Elas têm seus lugares tomados pelas Haileys e Kaylees, Madisons e Jordans. Detesto nomes modernos. Você sabe Elinor, devo agradecê-la. O seu nome de bom gosto me ajudou a tomar a uma decisão sobre vocês, meus novos adoradores. Mudarei o nome de qualquer um de vocês que tenha nomes excessivamente alegres — Neferet olhou para Kylee e sorriu. — Exceto por você, Kylee. Eu gosto do seu nome rotulado em ouro demais para mudá-lo.
— Deusa? — Elinor sussurrou o termo como uma pergunta.
— Sim, querida?
— Está... estamos trabalhando para você agora?
— Oh, muito mais do que isso. Vocês estão me venerando agora. Vocês vinte são as primeiras testemunhas do meu reinado como Deusa das Trevas. Cada um de vocês terá um papel muito especial e importante para cumprir, como me venerar e atender a todas as minhas necessidades. Oferecerão presentes e sacrifícios para mim, e em troca tirarei de vocês o livre arbítrio desgastante que tem, obviamente, reprimido e deprimido vocês por suas vidas. Por que mais vocês trabalhariam em tais empregos braçais e sem sentido?
— Eu não entendo o que está acontecendo — Elinor chorou.
— Muito em breve a sua confusão terá ido. Não se preocupe, doce Elinor, só dói por um momento — Neferet levantou o braço. — Crianças — ela começou.
— Espere! — o carregador que queria ajudar Tony avançou e firmemente encontrou o olhar de Neferet. — A senhorita disse que se nós tentássemos ajudar o chefe, nosso destino seria o mesmo que o dele. Eu não ajudei. Nenhum de nós ajudou. Assim, de acordo com sua própria palavra, você não enviará essas coisas serpentes sobre nós.
— E qual é o seu nome?
— Judson — ele fez uma pausa e depois acrescentou: — Deusa.
— Judson é um nome originário do Antigo Sul, sabia disso?
— Não, e-eu, não, não sabia — outra pausa — Deusa.
— Bem, é. Eu não mudarei seu nome, tampouco. E sobre o que eu disse antes? Eu menti. Pegue-os! — Neferet ordenou.
Felizmente, seus filhos anteciparam seus desejos e moveram-se rapidamente, de modo que os gritos irritantes terminaram muito, muito rápido.

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