5 de outubro de 2015

Capítulo 25 - Rephaim

Andar era uma dificuldade. Mesmo no espaço insignificante que é o limite entre a mente consciente e a inconsciente, mesmo antes de ele sentir completamente a dor que passava por seu corpo abusado, Rephaim estava ciente do cheiro dela. A princípio ele pensou que estava de volta na cabana e o pesadelo tinha recém começado – logo antes do acidente quando ela chegou, não para matar ele, mas para trazer água e fazer curativos. Então ele percebeu que era quente demais para ele ainda estar na cabana. Ele se mexeu levemente e a dor que passou por seu corpo lhe trouxe a total consciência, e com a consciência veio a memória. Ele estava caído no chão, no túnel que ela o tinha enviado, e ele odiava. Não era um ódio que chegava a paranóia, como o do seu pai. Rephaim simplesmente desprezava o sentimento de estar confinado dentro da terra. Não havia um céu acima dele – nenhum mundo verde e florescendo embaixo dele. Ele não podia levantar voo no subterrâneo. Ele não podia – O pensamento do Corvo Escarnecedor parou abruptamente. Não. Ele não pensaria na sua asa permanentemente ferida e que o que isso significava pelo resto de sua vida. Ele não podia pensar nisso. Ainda não. Não enquanto seu corpo ainda estava fraco. Ao invés disso, Rephaim pensou nela. Era fácil fazer isso, cercado pelo cheiro dela como ele estava. Ele se mexeu de novo, dessa vez tendo mais cuidado com sua asa ferida. Com seu braço bom ele puxou o cobertor por si mesmo se enterrou, como um ninho, no calor da cama. Cama dela.
Mesmo no subterrâneo havia um estranho e ilógico senso de segurança que veio até ele, de estar em algum lugar que ela chamava dela. Ele não entendia porque ela tinha essa singular afeição por ele. Rephaim seguiu as direções de Stevie Rae, tropeçando pela agonia e exaustão até que ele percebeu que o que ele estava seguindo era o cheiro da Vermelha. Ele tinha levado-o para uma ala, aparentemente vazia dos túneis. Ele parou na cozinha e se forçou a comer e beber. Geladeiras! Esse era um dos muitos milagres que a era moderna esteve absorvendo nos longos anos em que ele foi um espírito. Ele passou o que pareceu ser uma eternidade observando e esperando... sonhando com o dia que ele ia poder tocar e sentir o gosto e realmente viver de novo. Rephaim tinha decidido que gostava de geladeiras. Mas não tinha certeza se ele gostava do mundo moderno. No pouco tempo em que seu corpo foi devolvido a ele, ele percebeu que a maioria dos humanos modernos não tinha real respeito pelo poder dos antigos. Os Corvos Escarnecedores não contavam os vampiros entre o rank dos antigos. Eles não eram nada mais do que atrativas coisas para se brincar. Diversões e distrações. Não importa o que o pai dele diz, eles não são dignos de reinar ao lado dele. Era por que a Vermelha lhe permitiu viver? Porque ela era muito fraca e ineficiente – muito moderna para dar os passos que ela devia ter dado e matado ele. Então ele pensou na força que ela havia exibido, e não apenas a sua força física, que era impressionante. Ela comandava o elemento da terra tão perfeitamente que esta se partia ao meio para obedecê-las. Isso não era uma fraqueza. Até mesmo seu pai falara dos poderes da Vermelha. Neferet também avisou que a líder dos Vermelhos não devia ser subestimada.
E ali estava ele, levado a cama dela por seu cheiro, onde ele praticamente se aninhava. Com um grito de desgosto, ele cambaleou para fora do calor confortável das cobertas, almofadas e do colchão grosso e vacilou enquanto levantava. Ficou de pé, apoiado à mesa que estava perto da cama, lutando para manter-se firme e não permitindo que a escuridão implacável daquele lugar lhe dominasse. Ele planejaria seu caminho até a cozinha. Iria comer e beber de novo. Acenderia toda a luz que pudesse achar. Rephaim aceitaria se recuperar, e então deixaria esse lugar sepulcral e retornar para acima da terra para achar seu pai – para achar seu lugar no mundo. Rephaim empurrou o lençol que servia de porta para o quarto de Stevie Rae e mancou até o túnel. Eu já estou melhor... mais forte... eu não preciso usar uma bengala para caminhar, ele disse a si mesmo. A escuridão era quase completa. Haviam lampiões intermitentes, mas muitos estavam derretendo. Rephaim aprumou seu passo. Ele iria arrumar os lampiões depois de se alimentar. Ele até beberia os sacos de sangue que achara em um dos refrigeradores, embora isso não o atraísse. Seu corpo precisava de combustível para se consertar, assim como os lampiões precisavam de combustível para queimar. Lutando contra a agonia causada por cada movimento, Rephaim seguiu a curva no túnel e finalmente entrou na cozinha. Ele abriu o primeiro refrigerador e estava retirando um pacote de presunto fatiado dela quando sentiu a lâmina fria de uma faca nas suas costas.
— Um movimento que eu não goste, menino-pássaro, e eu corto sua medula espinhal ao meio. Isso vai matá-lo de vez, não vai?
Rephaim manteve-se absolutamente parado. — Sim, isso me mataria.
— Ele parece meio morto para mim, de qualquer jeito — disse outra voz feminina.
— É, essa asa está toda fodida. Não parece que ele possa fazer qualquer coisa com a gente — disse um homem. A faca não saiu de sua espinha.
— Outros nos subestimando foi o que nos trouxe aqui. Então, nunca subestime ninguém. Entendeu? — disse a voz que pertencia à faca.
— Sim, desculpe, Nicole.
— Entendi.
— Então, menino-pássaro, é assim que nós vamos fazer: eu vou dar um passo para trás e você vai se virar – bem devagar. Não tenha nenhuma ideia. Minha faca não vai estar em você, mas Kurtis e Starr tem armas. Faça um movimento errado e vai estar tão morto como se eu tivesse cortado sua espinha. — A ponta da faca apertou-se contra Rephaim forte o bastante para tirar sangue.
— Ele cheira mal! — disse a voz masculina que pertencia a Kurtis.
— Ele nem está comendo direito.
Nicole o ignorou. — Entendeu, menino-pássaro?
— Entendi. — A faca deixou sua espinha e Rephaim ouviu o som de pés se movendo.
— Vire-se. — Rephaim fez como ela mandou e se viu encarando três calouros. As luas crescentes vermelhas em suas testas os identificavam como parte do rebanho Vermelho. Mas ele percebeu instantaneamente que apesar de eles também serem vermelhos, eles eram diferentes de Stevie Rae como a lua era do sol. Ele olhou para Kurtis, um calouro grande, e para Starr, uma menina comum de cabelo claro, rapidamente, embora eles apontassem pistolas para ele. Era em Nicole que ele focava sua atenção. Era óbvio que ela era a líder. Ela também era quem sugara seu sangue, algo que Rephaim nunca esqueceria.
Ela era uma pequena caloura com longo cabelo escuro e olhos tão castanhos que pareciam ser pretos. Rephaim olhou naqueles olhos e sentiu um momento de completo choque – Neferet estava lá! Nos olhos infantis da caloura espreitava a distinta escuridão e inteligência que Rephaim tinha visto muitas vezes no olhar da Tsi Sgili. Aquele reconhecimento chocou o Corvo Escarnecedor tão profundamente que por um momento ele só conseguiu encarar, seu único pensamento foi “será que Pai sabe que ela tem a habilidade de se projetar?”
— Droga! Ele parece ter visto um fantasma — Kurtis disse, a arma indo para cima e para baixo conforme ele ria.
— Eu pensei que você disse que não conhecia nenhum Corvo Escarnecedor — disse Starr, seu tom claramente suspeitoso. Nicole piscou, e a familiar sombra de Neferet se fora, deixando Rephaim se perguntando se ele tinha imaginado a presença dela. Não. Rephaim não imaginava coisas. Neferet esteve presente, mesmo que apenas um instante, dentro da caloura.
— Eu nunca vi uma dessas coisas antes na minha vida. — Nicole virou para Starr, embora tenha continuado a manter seu olhar em Rephaim. — Está dizendo que acho que sou uma mentirosa? — Nicole não tinha erguido a voz, mas Rephaim, que estava acostumado em estar na presença de poder e perigo, reconheceu essa sensação em particular como agressão que mal era controlada. Starr obviamente reconheceu também, e ela instantaneamente se afastou.
— Não, não, não. Eu não quis dizer nada disso. É só que é estranho ele ter surtado quando te viu.
— Isso foi estranho — Nicole disse suavemente. — E talvez devêssemos perguntar a ele porque. Então, garoto-ave, o que você está fazendo aqui em nosso território?
Rephaim notou que Nicole não tinha feito a pergunta que insinuou que ia perguntar.
— Rephaim — ele disse, trazendo força a sua voz. — Meu nome é Rephaim.
Os olhos dos três calouros se arregalaram, como se estivessem surpresos por ele ter dado seu nome.
— Ele soa quase normal — Starr disse.
— Ele é qualquer coisa menos normal, e é melhor lembrar disso — Nicole surtou.
— Responda a pergunta, Rephaim.
— Eu escapei nos túneis depois de ser ferido por um guerreiro da House of Night — ele disse verdadeiramente. Os instintos de Rephaim, que tinham servido a ele por séculos, disseram a ele para não falar nada sobre Stevie Rae, mesmo que esses provavelmente fossem os calouros que ela esteve protegendo, eles não eram realmente parte do grupo dela, e nem a seguiam.
— O túnel entre aqui e a abadia desmoronou — disse Nicole.
— Estava aberto quando eu entrei. — Nicole deu um passo em direção a ele e cheirou o ar.
— Você cheira a Stevie Rae.
Rephaim fez um gesto de desprezo com sua mão boa. — Eu estou fedendo ao cheiro da cama que dormi. — Ele levantou sua cabeça para o lado, como se tivesse confuso pelo que ela disse. — Você disse que eu carrego o cheiro de Stevie Rae. Ela não é a Vermelha, sua Alta Sacerdotisa?
— Stevie Rae é uma vampira vermelha, mas não é nossa Alta Sacerdotisa! — Nicole rosnou, e os olhos dela assumiram um brilho vermelho.
— Não é sua Alta Sacerdotisa? — Rephaim forçou. — Mas havia uma sacerdotisa vampira vermelha chamada Stevie Rae que enfrentou com um grupo de calouros meu pai e sua rainha. Ela tinha suas Marcas. Ela não é sua Alta Sacerdotisa?
— Essa foi a batalha em que você se feriu? — Nicole ignorou a pergunta dele para fazer sua própria.
— Foi.
— O que aconteceu? Onde está Neferet?
— Se foi. — Rephaim não escondeu a amargura em sua voz. — Ela fugiu com meu pai e meus Irmãos que ainda estão vivos.
— Onde eles foram? — Kurtis perguntou.
— Se eu soubesse disso, não estaria escondido na terra como um covarde. Estaria ao lado do meu pai, onde eu pertenço.
— Rephaim. — Nicole deu a ele um longo olhar considerando. — Eu ouvi esse nome antes. — O Corvo Escarnecedor permaneceu em silêncio, sabendo que era melhor para ela entender quem ele era sem que ele se gabasse sobre sua posição como um idiota. Quando os olhos dela se arregalaram, ele sabia que ela lembrou onde ela tinha ouvido seu nome. — Ela disse que você é o favorito de Kalona – o seu filho mais poderoso.
— Sim, é quem eu sou. Quem é ela que falou sobre mim?
De novo, Nicole ignorou a pergunta dele. — O que cobria a porta do quarto em que você dormia?
— Um cobertor.
— O quarto de Stevie Rae — disse Starr. — É por isso que você tem o cheiro dela.
Nicole agiu como se Starr não tivesse falado. — Kalona fugiu sem você, mesmo que você seja seu favorito.
— Simmmm. — Rephaim soltou um silvo de raiva que veio com reconhecimento. Nicole falou com Kurtis e Starr.
— Sabe isso tem que significar que eles vão voltar. O garoto pássaro é o favorito de Kalona. De jeito nenhum ele vai deixar ele aqui pra sempre. Como somos os favoritos dela. Ele vai voltar por ele; ela vai voltar por nós.
— Você fala da Vermelha, Stevie Rae?
Em um movimento tão rápido que seu corpo virou um borrão, Nicole se moveu para o lado de Rephaim, pôs suas mãos ao redor dos seus ombros feridos, e num movimento ergueu o grande Corvo Escarnecedor do chão, e bateu ele contra a lateral do túnel. Os olhos brilhando em vermelho, ela respirou uma respiração rançosa no rosto dele e disse, — Entenda isso, garoto pássaro. Stevie Rae, ou Vermelha como você fica chamando ela, não é nossa Alta Sacerdotisa. Ela não é nossa chefe. Ela não é uma de nós. Ela é intima de Zoey e o resto, e isso não é legal. Vê, não temos uma Alta Sacerdotisa, temos uma rainha, o nome dela é Neferet. Agora, qual é dessa obsessão com Stevie Rae?
Agonia passou por Rephaim. Sua asa quebrada estava em chamas, iluminando seu corpo com uma agonia quente e branca. Com tudo dentro dele ele desejou que ele estivesse inteiro de novo para que pudesse destruir essa arrogante caloura vermelha com uma batida de seu bico. Mas ele não estava inteiro. Ele estava fraco e ferido e abandonado.
— Meu pai quer capturar ela. Ele disse que ela é perigosa. Neferet não confia nela. Não estou obcecado. Sou o único seguindo a vontade de meu pai — ele falou através da dor.
— Que tal a gente ver se você realmente está dizendo a verdade? — Nicole disse. Então ela apertou seu já apertado aperto no braço dele, fechou seus olhos, e baixou sua cabeça.
Inacreditavelmente, Rephaim sentiu as palmas dela começarem a se esquentar. Aquele calor irradiou através dele, passando por sua corrente sanguínea, pulsando com o ritmo frenético de seu coração, e batendo contra seu corpo. Um tremor passou por Nicole, então ela abriu os olhos e ergueu sua cabeça. O sorriso dela era tolo. Ela continuou a segurar ele contra a parede por um longo minuto antes de soltar ele. Olhando para ele estava caído no chão, ela disse, — Ela salvou você.
— Mas que porra? — Kurtis gritou.
— Stevie Rae salvou ele? — Starr disse. Nicole e Rephaim agiram como se nenhum dos dois tivesse falado.
— Ela salvou — Rephaim arfou, lutando para controlar sua respiração para que não desmaiasse. Ele não disse mais nada, tentando entender o que havia acabado de acontecer enquanto respirava apesar da dor excruciante em sua asa. A caloura vermelha fez algo com ele quando lhe tocou – algo que deu a ela uma visão de sua mente, talvez até de sua alma. Mas ele sabia que era diferente de qualquer ser que ela já havia tocado; seus pensamentos seriam difíceis, se não impossíveis de ler, não importasse seus talentos.
— Por que Stevie Rae faria isso?
Nicole lhe perguntou. — Você viu a minha mente. Você sabe que eu não tenho ideia de por que ela fez o que fez.
— Isso é verdade — ela disse lentamente. — Também é verdade que eu não encontrei sentimentos negativos que você tenha com relação a ela.
— Não sei se entendi. Sentimentos negativos? Isso não faz sentido para mim.
Ela zombou. — Sem sentido – como se você fizesse sentido? Sua mente é a coisa mais estranha que eu já vi. Então é assim, menino-pássaro, você diz que ainda está fazendo o que seu pai lhe disse para fazer. No mínimo, isso devia significar que você quer capturar ela – talvez matá-la.
— Meu pai não queria matá-la. Ele queria que a levassem até ele intacta para que ele pudesse estudá-la, e talvez usar seus poderes — Rephaim disse.
— Tanto faz. Mas, veja, o problema é, quando eu olhei para seu cérebro de pássaro, eu não achei nada dizendo que você estava atrás dela.
— Por que eu estaria atrás dela nesse instante? Ela não está aqui.
Nicole balançou sua cabeça. — Não, isso é esquisito. Se você quer pegar Stevie Rae, você quer pegá-la, estando ela aqui ou não.
— Isso não é lógico.
Nicole encarou ele. — Olha, o que eu preciso saber é: você está conosco ou não?
— Com vocês?
— Sim, conosco. Nós vamos matar Stevie Rae. — Ela falava com certeza enquanto se deslocava com sua velocidade sobrenatural ao lado dele e segurava seu braço com seu aperto de ferro. O bíceps de Rephaim se aqueceu instantaneamente enquanto ela invadia seus pensamentos. Então, qual a sua escolha? Está conosco ou não?
Repahim sabia que ele precisava responder. Nicole podia não ser capaz de ler todos os seus pensamentos, mas ela certamente tinha poder o bastante para descobrir coisas que ele preferiria manter escondidas. Fazendo a decisão rapidamente, ele encontrou o olhar escarlate da caloura vermelha com o seu e disse sinceramente, — Eu sou o filho de meu pai.
Ela olhou para ele, sua mão queimando a pele de seu braço e seus olhos brilhando vermelhos. Então ela abriu seu sorriso astuto novamente. — Boa resposta, menino-pássaro, porque essa é a principal coisa que achei dentro de sua cabeça de pássaro. Você certamente é o filho de seu pai. — Ela o soltou. — Bem-vindo ao meu time. E não se preocupe. Já que seu pai não está aqui nesse momento, eu não acho que ele vá se importar se Stevie Rae estará viva ou morta quando você pegá-la.
— E morta é mais fácil — Kurtis disse.
— Definitivamente — Starr disse. Nicole riu, soando tanto como Neferet que as penas na nuca de Rephaim se arrepiaram. “Pai! Cuidado! Sua mente guinchou, a Tsi Sgili é mais do que ela parece!”

Um comentário:

  1. CARAMBAAAA! PQ A STEVIE NÃO MATOU ESSES BOSTINHAS QUANDO TEVE A CHANCE? ELES SÃO SEGUIDORES DA NEFERET! QUE PORR*!

    Eu acho que dá pra confiar no Rephaim, quando aquele cocôzinho da Nicole viu a mente dele deu pra perceber que ele não queria fazer mal à Stevie, ele só deu aquela resposta pra evitar ser morto.

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