1 de outubro de 2015

Capítulo 24

Quando eu sai do banheiro, Shaunee e Erin estavam sentadas na cama de Stevie Rae. Havia uma bandeja entre elas com uma tigela de sopa, algumas bolachas, e uma lata de coca, normal. Elas estavam falando em voz baixa, mas assim que entrei no quarto elas se calaram.
Eu suspirei e sentei na minha cama. — Se vocês começarem a agir anormalmente ao meu redor eu não vou ser capaz de suportar.
— Desculpe — elas murmuraram juntas, olhando com timidez uma para a outra. Então Shaunee me entregou a bandeja. Eu olhei para comida como se não conseguisse lembrar o que fazer com ela.
— Você precisa comer para poder tomar o negócio que a Neferet nos deu para dar a você — Erin disse.
— Além do mais, pode fazer você se sentir melhor — Shaunee disse.
— Eu não acho que algum dia vou me sentir melhor.
Os olhos de Erin se encheram de lágrimas que rolaram pelas bochechas dela. — Não diga isso, Zoey. Se você nunca mais se sentir melhor isso vai significar que nenhum de nós vai se sentir também.
— Você tem que tentar, Zoey. Stevie Rae ficaria irritada se você não tentasse — Shaunee disse, através das lágrimas.
— Você está certa. Ela ficaria. — Eu peguei a colher e comecei a remexer a sopa. Era de galinha, e fez um caminho familiar e quente pela minha garganta, expandindo no meu corpo e espantando alguns dos terríveis calafrios que eu estava sentindo.
— E quando ela ficava irritada aquele terrível sotaque saía de controle — Shaunee disse.
Isso fez Erin e eu sorrirmos.
— Bem seja boaaazinhaa — Erin falou fanhosa, repetindo as palavras que Steve Rae disse as Gêmeas um zilhão de vezes.
Nós sorrimos com isso, e a sopa começou a parecer mais fácil de engolir. Na metade da tigela, eu tive um pensamento repentino. — Eles não vão fazer um funeral nem nada disso para ela, vão?
As Gêmeas balançaram a cabeça. — Não — Shaunee disse. — Eles nunca fazem — Erin disse.
— Bem, Gêmea, eu acho que alguns dos pais fazem, mas isso é na cidade natal deles.
— Verdade, Gêmea — Erin disse. — Mas eu não acho que ninguém daqui vai viajar para... — ela parou, pensando. — Qual o nome daquela cidadezinha rústica de onde Stevie Rae veio?
— Henrietta — eu disse. — Lar das Galinhas Lutadoras.
— Galinhas Lutadoras? — as Gêmeas falaram juntas.
Eu acenei. — Deixava Stevie Rae maluca. Mesmo com sua rusticidade ela não achava legal ser uma Galinha Lutadora.
— Galinhas lutam? — Shaunee perguntou.
Erin deu nos ombros. — Como eu vou saber, Gêmea?
— Eu achava que só galos brigam — eu disse. Nós todas nos olhamos e falamos, — Galos! (a palavra em inglês para galo é cocks, o que também significa pênis) — e então começamos a rir, que rapidamente foi misturado com lágrimas. — Stevie Rae teria achado isso hilário — eu disse quando recuperei o fôlego.
— Vai realmente ficar tudo bem, Zoey? — Shaunee perguntou.
— Vai? — Erin ecoou.
— Eu acho que sim — eu disse.
— Como? — Shaunee perguntou.
— Eu realmente não sei. Acho que vamos ter que levar um dia por vez.
Surpreendentemente eu terminei minha sopa. Eu me sentia melhor – mais quente, mais normal. Eu também estava incrivelmente cansada. As Gêmeas devem ter notado meus olhos ficando pesados, porque Erin pegou minha bandeja. Shaunee me entregou um pequeno frasco com um liquido leitoso.
— Neferet disse que você deveria beber isso, que vai te ajudar a dormir sem ter pesadelos — ela disse.
— Obrigado. — Eu peguei dela, mas não bebi. Ela e Erin só ficaram ali olhando para mim. — Eu vou tomar num minuto. Depois que eu for para o banheiro. Só deixe minha coca aí caso tenha um gosto ruim.
Isso pareceu satisfazer elas. Antes de saírem Shaunee disse, — Zoey, podemos fazer mais alguma coisa por você?
— Não, obrigado.
— Nos ligue se precisar de qualquer coisa, certo? — Erin disse. — Prometemos a Stevie Rae... — a voz dela morreu e Shaunee terminou por ela, — Nós prometemos que cuidaríamos de você, e nós cumprimos nossas promessas.
— Eu ligo — eu disse.
— Ok — elas falaram. — Noite...
— Noite — eu falei para a porta fechada.
Assim que elas saíram, eu derramei o líquido cremoso na pia e joguei o frasco fora.
Então eu estava sozinha. Eu olhei para o meu relógio, 6 horas. Era incrível como as coisas podiam mudar em apenas algumas horas. Eu tentei não pensar, mas os flashes da morte de Stevie Rae continuaram a brincar na minha mente, como se fosse um filme de terror grudado dentro dos meus olhos. Eu pulei quando meu celular tocou, e chequei o identificador de chamadas. Era o número da minha avó! Alivio passou por mim. Eu abri o telefone e lutei para não começar a chorar.
— Estou tão feliz por você ter ligado, vovó!
— Pequena Ave, eu tive um sonho com você. Está tudo bem? — O tom de preocupação dela me disse que ela já sabia que não estava, o que não me surpreendeu. A minha vida toda minha avó e eu tivemos uma ligação.
— Não. Nada está certo — eu sussurrei e comecei a chorar de novo. — Vovó, Stevie Rae morreu hoje à noite.
— Oh, Zoey! Eu sinto tanto!
— Ela morreu nos meus braços, vovó, minutos depois de Nyx dar a ela a afinidade com a terra.
— Deve ter sido um grande conforto para ela que você tenha estado lá no final. — Eu pude ouvir que vovó também estava chorando agora.
— Todos estavamos com ela, todos os meus amigos.
— E Nyx devia estar com ela também.
— Sim — minha voz ficou presa num soluço. — Eu acho que a deusa estava, mas eu não entendo, vovó. Não faz sentido Nyx dar um dom a Stevie Rae, e então deixar ela morrer.
— Morte nunca faz sentido quando acontece com os jovens. Mas eu acredito que sua deusa estava perto de Stevie Rae, mesmo com a sua morte acontecendo tão cedo, e agora ela está descansando pacificamente com Nyx.
— Eu espero que sim.
— Eu queria poder visitar você, mas com toda essa neve as estradas estão impossíveis. Que tal eu jejuar e rezar por Stevie Rae hoje?
— Obrigada, vovó. Eu sei que ela iria gostar.
— E, querida, você tem que superar isso.
— Como, vovó?
— Honrando a memória dela vivendo a vida que ela ficaria orgulhosa por você viver. Viva por ela também.
— É difícil, vovó, especialmente quando os vampiros querem que a gente esqueça de quem morreu. Eles tratam isso como paralelepípedos, algo para parar um pouquinho, e então continuar.
— Eu não quero contradizer sua Alta Sacerdotisa, ou nenhum dos vampiros adultos, mas isso parece uma visão míope. A morte é mais difícil se, se torna desconhecida.
— É o que eu acho. Na verdade, é o que Stevie Rae também achava. — Então eu tive uma ideia, junto com o pressentimento de que era a coisa certa a fazer. — Eu posso mudar isso. Com ou sem permissão, eu vou me certificar de que a morte de Stevie Rae seja honrada. Ela vai ser mais do que só um paralelepípedo.
— Não se meta em problemas, querida.
— Vovó, eu sou a caloura mais poderosa da história dos vampiros. Eu acho que eu posso me meter em problemas por algo que eu sinto que está errado.
Vovó pausou, e então disse, — Eu acho que você pode estar certa sobre isso, Zoey Passarinha.
— Eu amo você, vovó.
— Eu também te amo, u-we-tsi a-ge-hu-tsa. — A palavra Cherokee para filha me fez sentir amada e segura. — E agora eu quero que você tente dormir. Saiba que estarei orando por você, e pedindo ao espírito de nossos ancestrais para cuidar e confortar você.
— Obrigada, vovó. Tchau.
— Tchau, Zoey Passarinha.
Eu fechei o telefone suavemente. Eu me sentia melhor agora que tinha falado com vovó. Antes parecia haver um grande e invisível peso pressionando o meu peito. Agora que parte disso estava fora era mais fácil respirar. Eu comecei a deitar, e Nala entrou pela porta de gato, pulou na minha cama, e instantemente começou a me-uf-ow-ing para mim. Eu a acariciei e disse o quão feliz eu estava por ver ela ali, e então ela olhou para a cama vazia de Stevie Rae. Ela sempre ria da rabugice de Nala, e dizia que ela soava como uma mulher velha, mas ela tinha amado a gata tanto quanto eu. Lágrimas saíram dos meus olhos e eu me perguntei se havia um limite de quanto algum poderia chorar. Então meu telefone tremeu me dizendo que eu tinha uma nova mensagem. Eu esfreguei os olhos e abri o telefone.

Vc está bem? Algo estah errado.

Era Heath. Bem, pelo menos agora não havia dúvidas de que eu e ele estávamos ligados por um Imprint. E o que diabos eu ia fazer sobre isso eu não tinha ideia.

Dia ruim. Minha melhor amiga morreu.

Eu respondi para ele.
Demorou tanto tempo que eu não achei que ele fosse responder. Então meu telefone finalmente vibrou de novo.

Meus amigos morreram também.

Eu fechei os olhos. Como posso ter esquecido que dois amigos de Heath tinham recentemente sido mortos?

Eu sinto muito, eu respondi.

Eu tb. Vc quer que eu vah te ver?

O instantâneo e poderoso sim! que passou pelo meu corpo me surpreendeu, mas eu suponho que não deveria. Seria maravilhoso ficar nos braços de Heath... na sedução escarlate do sangue de Heath...

Não, eu digitei rapidamente, minhas mãos tremendo. Você tem aula.

Nuh uh DIA DE NEVE!

Eu sorri, e passei um doce segundo ou dois desejando poder voltar para o tempo quando um dia de neve significava um mini-feriado vagabundeando pela neve com meus amigos, e então indo assistir filmes alugados e comer pizza. Meu celular vibrou de novo, quebrando minha fantasia.

Vou te fazer sentir melhor sexta

Eu suspirei. Eu esqueci completamente que tinha prometido a Heath encontrar ele depois do jogo na sexta. Eu não deveria encontrar ele. Na verdade, eu deveria ir até Neferet e confessar tudo sobre Heath e fazer ela me ajudar a consertar as coisas.
Neferet mente. A voz de Aphrodite passou pela minha mente. Não. Eu não podia ir até Neferet, e por mais razões do que apenas o aviso de Aphrodite. Algo parecia errado em relação à Neferet. Eu não podia confiar nela. Meu telefone vibrou.

Zo?

Eu suspirei. Eu estava tão cansada que estava ficando difícil se concentrar. Eu comecei a responder e dizer a Heath que eu não podia encontrar ele, não importava o quanto eu gostaria. Eu até apertei o N o à e o O. Então eu parei, apaguei tudo, e digitei: OK.
Que diabos. Eu sentia que minha vida estava tão descosturada quanto a borda de uma saia antiga. Eu não queria dizer não a Heath, e me preocupar com nosso Imprint era só uma das muitas coisas para me preocupar agora.

OK!

Veio sua rápida resposta.
Eu suspirei de novo, desliguei o telefone, e sentei pesadamente na cama, acariciando Nala, olhando para o nada, e desejando desesperadamente poder voltar o relógio em um dia... ou talvez até um ano... Eventualmente eu notei que, por qualquer que fosse a razão, os vampiros que pegaram as coisas de Stevie Rae tinham esquecido o antigo, acolchoado feito a mão que ela mantinha na sua cama. Eu pus Nala no meu travesseiro e levantei, tirando o acolchoado da cama de Stevie Rae. Então Nala e eu nos aconchegamos por cima dele.
Eu senti como se cada molécula do meu corpo estivesse cansada, mas eu não podia dormir. Eu acho que eu sentia falta dos suaves roncos de Stevie Rae e da sensação de não estar sozinha. Uma tristeza se apoderou de mim e era tão profunda que eu pensei que iria me afogar nela.
Duas batidas suaves na minha porta. E então ela se abriu devagar. Eu meio que sentei para ver Shaunee e Erin, as duas de pijama e pantufas, agarradas a seus travesseiros e cobertores.
— Podemos dormir com você? — Erin perguntou.
— Não queríamos ficar sozinhas — Shaunee disse.
— Yeah, e achamos que você também não iria querer ficar sozinha — Erin terminou.
— Vocês têm razão. Eu não quero. — Eu engoli mais lágrimas. — Entrem.
Elas entraram, com apenas uma pequena hesitação, subiram na cama de Stevie Rae. O enorme gato cinza delas, Bellzebub, subiu com elas. Nala levantou sua cabeça do travesseiro para olhar para ele, e então, como se ele estivesse muito abaixo do nível de rainha dela para ela notar, ela se aconchegou e foi dormir.
Eu estava me preparando para dormir quando outra suave batida veio à porta. Dessa vez ela não abriu, então eu disse, — Quem é?
— Eu.
Shaunee, Erin, e eu piscamos uma para a outra. Então eu corri até a porta e a abri para encontrar Damien parado no corredor usando pijamas de flanela com ursos rosa como estampa. Ele parecia meio úmido, e flocos de neve não derretidos estavam em seu cabelo. Ele estava carregando um saco de dormir e um travesseiro. Eu agarrei o braço dele e o coloquei rapidamente para dentro do quarto. O gato gordinho dele, Cameron, entrou com ele.
— O que você está fazendo aqui, Damien? Você sabe que vai ter muitos problemas se for pego aqui.
— Yeah, já passou muito tempo do toque de recolher — Erin disse.
— Você pode estar aqui para nos desvirginar — Shaunee disse. Então ela e Erin olharam uma para a outra e começaram a rir, o que me fez sorrir. Era estranho ter um sentimento feliz no meio de tamanha tristeza, que foi provavelmente o motivo para a risada das Gêmeas e meu sorriso desaparecem rapidamente.
— Stevie Rae não iria querer que deixássemos de ser felizes — Damien disse no silêncio desconfortável. Então ele andou para o meio do quarto espalhou seu saco de dormir no chão entre as camas. — E estou aqui porque precisamos ficar juntos. Não porque eu quero pegar nenhuma de vocês, mesmo que todas ainda sejam virgens, embora eu tenha apreciado o seu vocabulário.
Erin e Shaunee bufaram, mas pareciam mais divertidas do que ofendidas, e eu fiz uma nota para fazer a eles perguntas sobre sexo mais tarde.
— Bem, fico feliz que você tenha vindo, mas vamos ter vários problemas tirando você daqui quando todos estiverem comendo o café e se apressando antes da aula — eu disse, tentando bolar planos de fuga na mente.
— Oh, não se preocupe com isso. Os vampiros falaram que a aula está cancelada hoje por causa da neve. Ninguém vai se apressar para ir a lugar nenhum. Eu só vou sair com vocês.
— Cancelada? Quer dizer que não teríamos que acordar, se vestir, e descer antes de descobrir que não haveria aula? Isso é uma droga — eu disse.
Eu podia ver o sorriso na voz de Damien. — Eles anunciaram na estação de rádio local como as escolas normais fazem. Mas você e Stevie Rae escutam as notícias enquanto você pega... — Damien parou, e eu percebi que ele começou a fazer a pergunta como se Stevie Rae ainda estivesse viva.
— Não — eu disse rapidamente, tentando encobrir o engano dele. — Nós costumávamos ouvir musica country. E sempre me fazia me apressar e me vestir rapidamente para fugir. — Meus amigos riram suavemente. Eu esperei até todos se calarem de novo, e então disse, — Eu não vou esquecer ela, e não vou fingir que a morte dela não significa nada para mim.
— Nem eu — Damien disse.
— Eu também não — Shaunee disse.
— Idem, Gêmea — Erin disse.
Depois de um tempo eu disse, — Eu não achei que isso podia acontecer com um calouro que ganhou uma afinidade de Nyx. Eu – eu achei que isso não aconteceria.
— Não é garantido que alguém sobreviva a Mudança, nem mesmo aqueles que receberam dons da deusa — Damien disse quietamente.
— Isso só significa que temos que ficar juntos — Erin disse.
— É o único jeito de passarmos por isso — Shaunee disse.
— É o que faremos então – ficarmos juntos — eu disse finalmente.
— E prometer que se o pior acontecer, e mais alguém de nós não consiga, os outros não permitirão que ele seja esquecido.
— Prometemos — meus três amigos disseram solenemente.
Todos olhamos para baixo. O quarto não parecia mais tão solitário, e antes de dormir eu sussurrei, — Obrigado por não me deixarem ficar sozinha... — e não tinha certeza se estava agradecendo a meus amigos, minha deusa, ou a Stevie Rae.

9 comentários:

  1. as vezes as amizade pode ser um sentimento mais forte que o amor, descanse em paz Stevie Rae .

    ResponderExcluir
  2. Chorando direto há três capítulos

    ResponderExcluir
  3. To de luto! Pronto!
    Pleno dia do escritor e eu sofrendo...
    Oxe! Tenho q dizer... Depois dessa não vou nem matar minha protagonista! Oh sofrimento! 😭😭😭

    ResponderExcluir
  4. É falar o nome da Stevie Rae que eu choro

    ResponderExcluir
  5. Eu n saberia o que fazer sem os meus amigos numa situação dessas!!

    ResponderExcluir

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Os comentários estão demorando alguns dias para serem aprovados... a situação será normalizada assim que possível. Boa leitura!