5 de outubro de 2015

Capítulo 24 - Zoey

— Não, eu não preciso de uma cama na enfermaria — eu repeti pela terceira vez para Stark, que ficava andando de um lado para o outro e parecendo muito preocupado. — E não tem camas extras mesmo.
— Hey, estou me sentindo bem melhor — Denio disse. — Você pode vir para minha cama, Z.
— Obrigado, mas não obrigado — eu disse a ela. E então ergui minha mão para Stark. — Só me ajude a levantar, pode ser? — Ele franziu pra mim, mas me ajudou a levantar. Eu fiquei muito parada para que ninguém percebesse que o mundo estava girando como um maluco mini tornado ao meu redor.
— Eu acho que ela parece pior do que eu me sinto — disse Drew de onde estava no chão.
— Ela pode ouvir você — eu disse. — E estou bem.
Eu deixei minha levemente borrada visão vagar de garoto ferido para garoto ferido. Todos estavam parecendo melhor, o que me deu uma enorme sensação de alivio. Eu tirei o “se certifique que esses garotos não estão sentindo dor e morrendo de forma horrível” da minha lista mental de coisas a fazer. Agora para o próximo item da lista. Eu segurei um suspiro porque eu não queria desperdiçar oxigênio.
— Ok, as coisas estão melhores aqui. Então, Stevie Rae, precisamos ver onde os calouros vermelhos vão ficar quando o sol nascer antes dele nascer.
— Boa ideia, Z — disse Stevie Rae, que estava sentada no chão perto de Drew. Eu lembrei que ela meio que tinha uma queda por ele antes de morrer e voltar a vida, e eu reconheci para mim mesma que ver ela flertar com ele, quando eu pensava que ela provavelmente tinha alguma coisa com aquele calouro vermelho chamado Dallas, me deu um momento de alegria egoísta. Podia ser maldade minha, mas com certeza seria legal se minha melhor amiga e eu pudéssemos conversar sobre o como enfrentar problemas com vários caras.
— Z? Você acha que essa é uma boa ideia?
— Oh, desculpe, o que? — eu percebi que Stevie Rae estava falando comigo enquanto eu esperava que ela acumulasse um zilhão (ou pelo menos dois) namorados.
— Eu disse que os calouros vermelhos podiam ficar em quartos vazios. Deve ter o bastante, mesmo que eles tenham que dormir três em cada quarto. Podemos nos certificar que as janelas estejam cobertas. Não é tão boa quanto no subterrâneo, mas vai servir, pelo menos até que essa estúpida tempestade de gelo pare e a gente possa pensar em outra coisa.
— Ok, então vamos fazer isso. Enquanto a situação dos quartos está sendo concertada, nós — eu anunciei a palavra cuidadosamente, colocando meu círculo mais Aphrodite, Darius, e Stark — precisamos conversar com Lenobia.
Minha gangue acenou, todo mundo aparentemente ligado no fato de que precisamos rapidamente ser informados sobre o que tinha acontecido na House of Night enquanto não estávamos.
— Vocês todos vão ficar bem — eu disse aos garotos machucados enquanto minha gangue dizia tchau e começávamos a nos movimentar em direção a saída.
— Hey, obrigado, Zoey — Drew chamou.
— Você é realmente uma boa Alta Sacerdotisa – mesmo que você não seja realmente uma ainda — Ian gritou do seu quarto. Eu não tinha certeza se o elogio dele necessitava de um agradecimento ou não, eu estava parada na entrada da enfermaria, olhando para os garotos e pensando que, fora o fato que eles tinham acabado de lutar contra Corvos Escarnecedores e testemunhado o assassinato de uma professora, eles todos pareciam tão normais.
Então eu percebi. Eles pareciam normais. Um dia antes, quase todo mundo na escola, com exceção do meu grupo, Lenobia, Dragon, e Anastasia, tinham caído no feitiço carismático de Kalona e Neferet, e não tinham agido normalmente. Eu voltei para a enfermaria.
— Eu tenho uma pergunta para todos vocês. Pode soar estranho, mas eu preciso de respostas honestas, mesmo que seja constrangedor. — Drew sorriu por cima do meu ombro, onde eu tinha certeza que minha melhor amiga estava parada.
— Pergunte o que quiser, Z. Qualquer amigo de Stevie Rae é legal para mim.
— Uh, obrigado, Drew. — Eu dei um jeito de não virar os olhos pra ele. — Mas essa pergunta é para todos vocês. O negócio é o seguinte: Vocês achavam que havia algo errado com os Corvos Escarnecedores, ou mesmo Kalona e Neferet, antes da professora Anastasia ser atacada?
Não surpreendentemente, Drew respondeu primeiro. — Eu não confiava no cara alado, mas não sabia porque. — Ele deu nos ombros. — Eu não sei, talvez porque ele tem asas. É só tão estranho.
— Eu achava ele quente, mas aqueles filhos homem-pássaro dele eram muito nojentos — disse Hanna Honeyyeager.
— Yeah, os Corvos Escarnecedores eram nojentos, mas Kalona era velho, e eu não conseguia entender como muitas calouras tinham uma queda por ele — disse Red. — Eu quero dizer, George Clooney é quente e tudo mais, mas ele também é velho, e eu não ia querer, tipo, fazer com ele. Então eu não entendi porque praticamente todo mundo queria Kalona.
— E quanto ao resto de vocês? — eu perguntei para o resto deles.
— Como você disse antes, Kalona explodiu do chão. Isso é bizarro. — Deino pausou, olhou para Aphrodite, e então continuou. — Além do mais, alguns de nós sabem a um tempo que Neferet não é exatamente o que ela parecia ser.
— Yeah, você sabia, mas não fez nada sobre isso. — A voz de Aphrodite não era odiosa ou fula. Ela só estava comentando, e fazendo um comentário bem ruim.
Deino ergueu seu queixo. — Eu fiz algo sobre isso. — Ela gesticulou para a bandagem em seu braço. — Só que foi tarde demais.
— Nada parecia certo desde que a professora Nolan foi morta — Ian disse do seu quarto. — O negócio com Kalona e os Corvos Escarnecedores eram mais da mesma sensação.
— Eu vi o que ele estava fazendo com meus amigos — T.J disse do último quarto no corredor. — Eles eram como zumbis e acreditavam em qualquer coisa que ele dizia. Quando tentei falar com eles sobre qualquer coisa, tipo, como eles tinham tanta certeza que ele realmente era Erebus que tinha vindo a terra, eles ficavam irritados e riam de mim. Eu não gostei dele desde o início. E aqueles malditos pássaros eram do mal. Eu não sei porque ninguém conseguia ver.
— Nem eu, mas isso é algo que vamos descobrir — eu disse. — Agora nenhum de vocês deve se preocupar com isso. Kalona se foi, e Neferet e os Corvos Escarnecedores também. Só melhorem. Ok?
— Ok! — Eles gritaram em resposta, soando muito mais saudáveis do que pareciam quando os vi. Por outro lado, canalizar os cinco elementos me fez sentir um cocô, e eu estava feliz por Stark ter agarrado meu cotovelo e me emprestado sua força enquanto saímos do prédio. Incrivelmente, o gelo e a chuva tinham parado. As nuvens que cobriam o céu a dias tinha rachaduras nelas nas quais eu pude olhar a noite estrelada. Meu olhar se moveu para o centro da escola. O fogo que tinha consumido completamente a pira de Anastasia tinha começado a se apagar, embora Dragon ainda estivesse de joelhos na frente dele; Lenobia estava ao lado dele, uma mão em seu ombro. O círculo feito de calouros vermelhos mais Erik, Heath, e Jack, se esticava ao redor da pira esfumaçada. Eles estavam quietos, testemunhando seu respeito por Dragon e sua amada. Eu chamei meu grupo para me seguir até as sombras.
— Precisamos conversar, mas não precisamos fazer isso como uma audiência. Stevie Rae você pode delegar a tarefa de conseguir quartos para seus garotos a alguém?
— Claro, Kramisha é tão organizada que ela tem quase transtorno obsessivo-compulsivo. Além do mais, ela era uma sextanista quando morreu e voltou à vida. Ela sabe todo tipo de coisa sobre esse lugar.
— Bom. Coloque ela nisso. — Eu virei para Darius. — Os corpos dos Corvos Escarnecedores tem que desaparecer – agora. Se tivermos sorte, essa tempestade vai finalmente clarear, o que significa que humanos vão começar a andar por aí assim que amanhecer. Eles não podem encontrar aquelas criaturas.
— Vou cuidar disso — Darius disse. — Vou pegar as calouros vermelhos homens para me ajudar.
— O que você vai fazer com os corpos? — Stevie Rae perguntou.
— Queimar eles — Shaunee respondeu, então olhou para mim. — Se não tiver problema por você.
— É perfeito — eu disse. — Só não os queime perto da pira de Anastacia. Seria demais para Dragon lidar.
— Queime eles na parede leste. Onde seu pai nojento explodiu da terra. — O olhar de Aphrodite foi para Shaunee. — O velho carvalho que se quebrou quando Kalona escapou, você pode fazer ele queimar?
— Eu posso fazer qualquer coisa queimar — Shaunee disse. — Então vá com Darius e os caras, e se certifique que cada pena dessas criaturas seja queimada além de qualquer reconhecimento. Então vocês dois nos encontram no meu quarto. Combinado?
— Combinado. — Darius e Shaunee falaram juntos. Eu pensei que era estranho que Erin não tivesse dito nada a sua Gêmea, mas Shaunee começou a seguir Darius até o círculo de calouros vermelhos, e então ela chamou, — Eu te conto tudo que você perder, Gêmea.
— É claro que vai, Gêmea. — Shaunee disse sorrindo sobre seu ombro para Erin.
— Ok, precisamos de Lenobia conosco. — Eu olhei para onde a mestra dos cavalos estava ao lado de Dragon. — Mas não sei como afastar ela disso.
— Só diga a ele — Damien disse. Eu dei um olhar de confusão. — Dragon entende o quão perigoso Kalona e Neferet são. Ele vai entender que precisamos de Lenobia. — O olhar de Damien foi até o vampiro, que ainda estava de joelhos. — Ele vai ficar aí até sofrer e ele sentir que está tudo bem em sair. Não podemos mudar isso ou apressar ele. Então só diga que precisamos de Lenobia.
— Você é um garoto inteligente, sabia? — eu disse.
— Afirmativo — ele disse com um sorriso.
— Muito bem. — Eu respirei fundo. — Stevie Rae – explique a Kramisha o que ela precisa fazer. O resto de vocês pode me encontrar no meu quarto. Vou assim que pegar Lenobia.
— Z, vou dizer a Jack para ajudar Kramisha — Damien disse. — Seu quarto não é tão grande. Além do mais, eu posso contar ele sobre as coisas mais tarde. Agora nós precisamos resolver as coisas. — Eu acenei e comecei a me dirigir até Lenobia e Dragon. Ao meu redor eu podia ver Darius e Stevie Rae tirando o pessoal de lado e falando baixo com eles. Damien acariciou a cabeça de Duquesa enquanto falava com seu namorado.
Através de tudo isso Stark ficou ao meu lado. Eu não tive que procurar por ele. Eu podia sentir ele. Eu sabia que se eu tropeçasse, ele ia se certificar que eu não caísse. Eu também sabia que ele entendia melhor do que qualquer um exatamente o quanto canalizar os elementos na enfermaria tinha exigido de mim. Como se tivesse lido minha mente, ele sussurrou, — É melhor você sentar logo. E eu vou encontrar algo pra você comer e beber.
— Obrigado — eu sussurrei em resposta. Ele pegou minha mão e juntos fomos até Lenobia e Dragon. Os gatos estavam quietos, embora os dois estivessem pressionados contra o corpo de Dragon. Seu rosto ferido estava molhado de lágrimas, mas ele tinha parado de chorar. — Dragon, eu preciso que Lenobia venha comigo por um tempo. Eu não quero deixar você aqui sozinho, mas eu realmente preciso falar com ela. — Ele olhou para mim. Eu pensei que nunca tinha visto ninguém parecer tão triste.
— Eu não estarei sozinho. Shadowfax e Guinevere ficarão comigo, e nossa deusa estará comigo — ele disse. Seu olhar voltou para a pira. — Não estou pronto para deixar Anastasia ainda.
Lenobia apertou o ombro dele. — Eu vou retornar logo, meu amigo — ela disse.
— Eu estarei aqui — Dragon disse.
— Eu vou esperar com Dragon. Kramisha não precisa mesmo de mim. Ela já tem calouros o bastante para dar ordens — Jack disse para mim. Ele e Damien tinham se juntado a nós. Duquesa parou a vários centímetros de distância e estava deitada na grama com seu nariz em suas patas. Os gatos não prestaram atenção nela. — Eu gostaria de ficar com você, se você não se importar — ele terminou, falando nervosamente com Dragon.
— Obrigado, Jack — Dragon disse, sua voz presa num soluço. Jack acenou, limpou suas lágrimas, e sem dizer mais nada, sentou ao lado de Dragon e começou a gentilmente acariciar Shadowfax.
— Muito bem — eu disse suavemente para Jack.
— Estou orgulhoso de você — Damien sussurrou para Jack e beijou ele suavemente na bochecha, o que fez Jack sorrir através das lágrimas.
— Ok — eu disse. — Vamos nos reunir no meu quarto.
— Lenobia, Zoey tem que fazer um desvio na cozinha — Stark disse abruptamente. — Ela e eu encontramos você no dormitório assim que possível. — Lenobia acenou distraidamente, já andando em direção aos dormitórios com Damien, Erin, e Aphrodite.
— Porque você — Eu comecei, mas Stark me cortou.
— Só confie em mim. Isso é o que você precisa. — Ele pegou meu cotovelo e me guiou em direção ao centro dos prédios da escola onde uma entrada ao hall levava ao refeitório. Estavámos quase na porta quando ele disse, — Vá para o refeitório. Eu tenho que pegar algo e já volto.
Muito cansada para questionar ele, eu entrei. Era estranho ver o quão deserto estava. O lobby estava iluminado por lâmpadas que normalmente brilhavam a essa hora da noite. Eu olhei para o relógio. Já passava da meia noite. As aulas deveriam estar ocorrendo. Deveriam ter calouros e vampiros por toda parte. Eu desejei que o lugar estivesse lotado. Eu desejei que eu pudesse voltar no tempo e fazer os dois meses passados desaparecerem para que eu pudesse voltar a me preocupar sobre Aphrodite ser uma garota malvada e Erik ser um gostoso intocável. Eu queria voltar no tempo para quando eu não sabia nada sobre Kalona ou A-ya ou morte e destruição. Eu queria normalidade. Eu queria tanto que eu me sentia doente.
Eu andei devagar para o refeitório, que também estava vazio, e escuro como o corredor em que eu estive. Não havia cheiro de comida gostosa, nenhum amontoado de garotos conversando sobre outros garotos, nenhum professor fazendo cara feia para os alunos que traziam escondido Doritos. Eu tropecei em um banco de piquenique – como o que eu geralmente compartilhava com meus amigos e deixei meus joelhos cederem, sentando pesadamente na madeira bem polida. Porque Stark tinha me dito para vir aqui? Ele ia tentar cozinhar algo para mim? Por um segundo a visão dele com um avental preso ao redor da sua cintura foi quase engraçada. Então eu percebi porque ele tinha me trazido para cá. Uma das geladeiras da enorme cozinha da escola era cheio de unidades de sangue humano. Naquele momento ele provavelmente estava pegando várias unidades de sangue e trazendo para mim para que eu bebesse como suco de caixinha. Ok, eu sei que é nojento, mas a ideia fez minha boca salivar. Stark tinha razão. Eu tinha que recarregar, e uma unidade de sangue (ou duas) seria uma boa maneira de fazer isso.
— Zo! Aí está você! Stark disse que você estaria aqui. — Eu pisquei surpresa e virei para ver Heath andando para dentro do refeitório – sozinho. E de repente eu entendi que estava apenas parcialmente certa. Stark tinha ido buscar sangue para mim, mas ao invés de sair de um refrigerador de aço inoxidável da cozinha, meu sangue estava vindo do jogador de futebol americano gostoso, Heath. Ah, diabos.

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